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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Análise Crítica da Nota do IPEA sobre Produtividade do Governo x Setor Privado

Graças a uma indicação do Pablo Vilarnovo (ver caixa de comentários do "post" abaixo), fiquei sabendo deste trabalho divulgado ontem (o "link" para o trabalho original encontra-se no fim do "post"). Muitos pediram que eu comentasse o texto do Ipea, mas acho que este trabalho vai direto ao ponto. É algo longo para o padrão do blog, mas vale a pena.
Nota Técnica – 26/08/2009
Gabinete do Senador Tasso Jereissati - Assessoria Econômica
Análise Crítica da Nota do IPEA sobre Produtividade do Governo x Setor Privado

O IPEA divulgou o Comunicado da Presidência no. 27, sob o título Produtividade na Administração Pública Brasileira: Trajetória Recente, em 19/08/2009. O trabalho, em resumo, calcula a produtividade da administração pública pelo conceito valor agregado (extraído das contas nacionais elaboradas pelo IBGE) dividido pelo número de pessoas ocupadas no mesmo setor (pela PNAD).

De acordo com esses cálculos, o texto conclui que:

I. ao longo do período de estabilidade monetária considerado, a produtividade na administração pública manteve-se superior à do setor privado, em média, acima de 35%;
II. a produtividade da administração pública entre 1995 e 2004 foi puxada pelo crescimento de 39,8% no Nordeste e de 49,3% no Centro-Oeste (nas outras regiões, o crescimento foi negativo); e
III. os estados da federação que terminaram focando nas medidas de ajuste da administração pública (como os chamados choque de gestão ou administrativo) não foram aqueles, por exemplo, que terminaram registrando a aceleração nos ganhos de produtividade.

Apesar da boa vontade do instituto em contribuir para o debate, todas as conclusões acima estão viciadas (para não dizer, erradas grosseiramente) porque o conceito de valor agregado das administrações públicas pela contabilidade das contas nacionais não permite que se calcule a produtividade das administrações públicas.

Este problema não deveria ser novidade. O manual das contas nacionais do IBGE, que segue a metodologia do system of national account de 1993 da ONU, deixa claro o problema aqui abordado. (Para mais detalhes sobre tal cálculo no Brasil, ver a Nota Metodológica n.11, “Administração Pública”, editada pelo IBGE sobre o Sistema de Contas Nacionais – Referência 2000).
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/pdf/11_APU.pdf

O calculo do valor adicionado na metodologia das contas nacionais resulta do cálculo do valor da produção menos o valor gasto com a compra de insumos. Outra forma de dizer o mesmo é que o valor adicionado corresponde à remuneração líquida dos fatores de produção (pagamento de salários, juros, aluguel, lucro, etc.). Acontece que a forma de cálculo do valor adicionado do setor privado e das administrações públicas é diferente.

* * *

No caso do setor privado, pode-se mensurar de fato o valor das transações com bens e serviços finais e, em seguida, retirar os valores gastos com as compra de insumos (consumo intermediário) para se chegar ao valor adicionado. Por exemplo, o IBGE sabe quanto as empresas compram de insumos, o valor final da produção a preços de mercado. Assim, o valor adicionado pode ser efetivamente calculado (apenas para tornar a análise mais simples, vamos desconsiderar impostos e subsídios):

Valor Adicionado (VA) = valor da produção final dos bens e serviços – consumo intermediário – consumo do capital fixo = salários + superávit operacional liquido (dividendos, aluguel, etc.).

Dito isso o que acontece se vários empresários decidirem contratar 10 mil trabalhadores para que esses trabalhadores fiquem em casa sem trabalhar? Nesse caso, como os trabalhadores não iriam trabalhar, a produção não aumentaria e logo a produtividade dos trabalhadores do setor privado, medida pelo valor adicionado dividido pelo numero de trabalhadores, iria diminuir. No caso do setor público, como explicaremos em seguida, esse mesmo exemplo leva a um resultado diferente.

Ao contrário do setor privado, como não é possível que seja medido o valor de mercado dos produtos da administração pública, como, por exemplo, os serviços de defesa ofertados pelo estado à nação, a produção de serviços não-mercantis das administrações públicas é calculada pelo somatório do consumo intermediário, remuneração dos empregados, outros impostos (líquidos de subsídios) sobre a produção e o consumo de capital fixo. Em outras palavras, a produção do setor público é determinada pelos custos de produção:

consumo intermediário + consumo do capital fixo + pagamento de salários (ativos e inativos) = valor da produção da administração púbica

ou de outra forma:

pagamento de salários (ativos e inativos) = [valor da produção da administração púbica - consumo intermediário - consumo do capital fixo] equivalente à:pagamento de salários (ativos e inativos) = valor adicionado

Sempre que a folha de salário aumenta no governo (e exatamente ao contrário do que ocorre nas empresas), o seu valor adicionado cresce independente de os trabalhadores estejam de fato trabalhando ou meramente dormindo, pois a produção do setor público e o valor adicionado são determinados pelos custos. Para deixar mais claro esse ponto, imagine que o governo resolva aumentar os salários de todos os funcionários públicos e, no extremo, mande vários desses trabalhadores para casa para “dormir”.

Por mais absurdo que pareça, pela metodologia de cálculo do valor adicionado das administrações públicas, a produtividade do setor público iria aumentar, pois o que importa é o valor da folha salarial e não se os trabalhadores estão trabalhando ou dormindo. Logo, é impossível e sem sentido medir a produtividade do setor público com base nos dados das contas nacionais como fez o Comunicado da Presidência no 27 do IPEA.

* * *

Outros aspectos metodológicos acentuam ainda mais a crítica. O caso mais pitoresco envolve os inativos da administração pública. Pela metodologia das contas nacionais, o mesmo tratamento dispensado a folha salarial dos servidores ativos é dado ao gasto com inativos não cobertos por contribuição (denominado de “contribuições sociais imputadas” naquela contabilidade). Ou seja, quanto maior o déficit do regime próprio de previdência dos servidores, maior é o valor adicionado pelas administrações públicas e, assim, maior seria sua produtividade.
Fernando Montero comentou ainda a desatenção às mudanças no sistema de contas nacionais realizadas pelo IBGE há poucos anos:

“A nova metodologia das contas públicas no PIB implicou trocar uma hipótese de um consumo constante per capita do bem público por uma hipótese de produtividade constante por trabalho na oferta do bem público. É uma deficiência –produtividade constante- que se aceita nas contas nacionais para o tratamento de bens públicos que carecem de um deflator (i.e. carecem de um preço) e que não possuem um indicador quantitativo próprio como educação (matrículas) e saúde públicas (internações). No texto em questão, o IPEA compara o valor agregado do setor público no PIB com o emprego público extraído do PNAD. As variações mediriam mudanças de produtividade. Ora, se o VAPB medido pelo IBGE baseia-se no emprego público, qualquer alteração de valor agregado/PNAD refletirá uma discrepância na medição de emprego público (entre o IBGE e o IPEA) mais que variações de produtividade.”

* * *

Existem outros estudos que investigam a eficiência do setor público. É forçoso reconhecer que utilizam metodologia muito diversa, mas nenhum utiliza a mesma lógica do citado comunicado do IPEA e o Brasil também não aparece bem na foto. Vamos citar apenas três fontes.

Uma análise internacional recente é a de Antonio Afonso, Ludger Schuknecht e Vito Tanzi, sob título Public Sector Efficiency – Evidence for New EU Member Status and Emerging Markets, publicado pelo European Central Bank, como Working Paper Series n.581, de janeiro de 2006. Mesmo sem contar os países ricos, o Brasil aparece entre os mais mal avaliados. Por exemplo, no caso do indicador de eficiência do setor público, entre 2001/2003 (ver Tabela 3, na página 31), o Brasil alcançou 0,69, ficou em penúltimo lugar num ranking de 24 países (superou apenas os 0,63 da Turquia) e muito distante da média de 1,09.

Dentre as avaliações nacionais, chama-se a atenção que o próprio IPEA já editou, dentre outros, um documento recente, dedicado a avaliar a eficiência do setor público e que atendia seu reconhecido padrão de qualidade técnica –caso do Boletim de Desenvolvimento Fiscal, n. 03, de dezembro de 2006, com cinco artigos sobre o tema, inclusive com abordagens e focos diferenciados.

Já sobre a comparação no desempenho dos governos estaduais, uma boa alternativa é o estudo apresentado no XII Prêmio do Tesouro Nacional de 2007, por Júlio Brunet, Ana Bertê e Clayton Borges, sob título “Estudo Comparativo das Despesas Públicas dos Estados Brasileiros: um índice de Qualidade do Gasto Público”. Aliás, qualidade do gasto é uma das áreas temáticas dessa iniciativa da STN e também podem ser encontrados outros trabalhos com o devido rigor técnico.

* * *

Em resumo, é impossível e sem sentido calcular produtividade das administrações públicas pelo dado do valor agregado das contas nacionais, pois esse valor é determinado pelos custos da administração pública, inclusive salários. O mesmo vale para questionar o ajuste fiscal de governos regionais, ainda mais quando chegam ao ponto de reduzir o valor real da folha ou até mesmo demitir funcionários – caso em que foram automaticamente tachados de menos produtivos e ineficientes porque diminuíram o valor que adicionam.

Nem é preciso estudar ou lecionar economia para concluir que esse raciocínio não faz o menor sentido. Não se trata de uma divergência de opinião, nem de leituras diferentes de uma evidência estatística, o que seria natural numa democracia e diante das diferentes visões da economia. Aqui, se trata de ignorar o mínimo significado de uma variável e tentar inferir dela algo que ela não informa. O que as contas nacionais brasileiras demonstram é o encarecimento relativo do bem público uma vez que, a preços correntes, o valor agregado da administração pública cresceu mais que o PIB.

Resta a questão de saber o que move dirigentes de instituição tão séria e respeitada, inclusive internacionalmente, a cometer equívocos tão grosseiros.

Será que a intenção seria tentar justificar que se pode gastar cada vez, sem se preocupar com a receita, com as conseqüências para o futuro, desde que seja possível eleger sucessores e se perenizar no poder?

O Comunicado da Presidência no 27 do IPEA não observa o mínimo critério econômico, nem o bom senso mais elementar e trabalhos como esse podem prejudicar a reputação dessa instituição construída ao longo de mais de quatro décadas de atuação em pesquisas e análises econômicas.


http://www.tassojereissati.com.br/attachments/151_IPEAProdutividadePublicaII.pdf

* * *

E a humilhação continua.


O objetivo do senador Tasso Jereissati é sempre contribuir para o bom debate técnico. Causou-nos surpresa a nota enviada elo IPEA ao seu blog, pois não há a mínima justificativa técnica para a nota da presidência de número 27 que é objeto da controversa. Apenas para dar um exemplo, a réplica do IPEA enviada ao blog da jornalista Miriam Leitão afirma que:


"A consulta à literatura especializada ou à própria Assessoria de Comunicação do Instituto permitiria constatar que o método de aferição da produtividade na administração pública e privada no Brasil – utilizada no estudo – encontra-se em plena conformidade com aquele adotado por outras instituições de pesquisa aplicada, como, por exemplo, Centre for the Measurement of Government Activity (Inglaterra), Partnership and Productivity in the Public Sector (Nova Zelândia) e National Center for Public Productivity (Estados Unidos), entre outras. Todas de referência internacional. Como o Ipea."


Infelizmente, a assessoria do presidente do IPEA se enganou mais uma vez. Por exemplo, o Centre for the Measurement of Government Activity (Inglaterra) faz exatamente o oposto do que o IPEA fez. O Professor Atkinson coordenou um grupo de trabalho e escreveu um relatório final em 2005 justamente alertando sobre os problemas do calculo da produção do setor público como estava sendo feito pelo governo Britânico.

(...)


" For many years, the contribution of the public sector to national income was measured by simply assuming that output = input. It was taken for granted that you get out what you put in. This assumption is clearly unsatisfactory, since it tells us nothing about how the productivity of the public sector is changing over time. "

http://www.tassojereissati.com.br/attachments/151_CartaMiriamleitao.pdf

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A volta do feijãozinho

"Tirando o feijão, o feijãozinho que todo mundo come, nós teríamos uma inflação de 4,4%" (Guido Mantega, 29/Abr/2008) http://oglobo.globo.com/economia/mat/2008/04/29/tirando_feijaozinho_que_todo_mundo_come_inflacao_seria_de_4_4_diz_mantega-427117291.asp Alguém ouviu o ministro afirmar agora "Tirando o feijão, o feijãozinho que todo mundo come, nós teríamos uma inflação de 4,7%"?

Aliás, alguém ouviu o pessoal que explicava a inflação em elevação no ano passado pelos preços de alimentos reclamar agora que a inflação sem alimentos está em 5%, acima da inflação cheia?




Ninguém? Ainda bem. Achei que tinha ficado surdo.
P.S. Antes de aparecer um comentário cretino sobre taxa de juros noto que nossa previsão é de estabilidade da Selic até o final do ano que vem (a curva de juros, ao contrário, projeta aumentos desde o começo de 2010). Mas só porque nossa análise é simétrica, é claro.

P.S.2 A pedido do "campeão ae" segue o índice de difusão (do IPCA, claro) total e sem alimentos.



P.S. 3 Segue abaixo, para acalmar a mocinha histérica, o CRB em reais, assim como os preços dos bens importados e exportados pelo Brasil (bens de consumo e o total dos bens importados e exportados). A base é agosto de 2008. Até o final daquele ano todos estavam em patamares superiores aos registrados em agosto, exatamente antes da desvalorizaçao da moeda. O conjunto das coisas que o Brasil importou e exportou ficaram só 23% mais caras em moeda local... (Mas como não fez a conta vai ter que comer o feno sem o torrão de açúcar).

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma tese com substâncias

Começo este artigo algo constrangido. Voltar a temas que já visitei me parece falta de imaginação, mas, acreditem, não é minha culpa. Se há – independente da avassaladora evidência empírica acumulada no período – quem ainda insista em teses rejeitadas pelos dados, só me resta continuar apontando as incongruências entre estas e a crua realidade.

Refiro-me, é claro, aos faniquitos sobre a taxa de câmbio. A acreditar no que certa corrente de economistas afirma, a apreciação do câmbio real nos levará a crescimento medíocre, desindustrialização e espinhela caída. Por outro lado, câmbio fraco curaria tudo, de unha encravada a coração partido.

Não é a primeira vez que ouvimos esta conversinha. Quem se interessar pode encontrar no meu blog um levantamento que fiz no começo do ano passado sobre afirmações de ilustres “keynesianos de quermesse” alertando sobre a iminente destruição do nosso parque industrial (maovisivel.blogspot.com/2008/02/cmbio-internacionalizao-e.html#comments) feitas em 2006 e 2007. O curioso é ouvi-la de novo, logo após a previsão ter se mostrado completamente errada pelo desenvolvimento do país nos últimos anos até a eclosão da crise.

De fato, o crescimento, não só da produção industrial, mas do PIB, acelerou-se consideravelmente até setembro de 2008. No que se refere à primeira, a taxa média de expansão em quatro anos atingiu algo como 4,5% ao ano, quase três vezes superior à registrada em períodos anteriores. Além disto, como já destacado aqui, o crescimento foi liderado pelos setores de maior intensidade exportadora, fenômeno difícil de conciliar com a afirmação acerca da influência negativa do câmbio sobre a atividade industrial.

É verdade que o melhor desempenho destes setores poderia resultar da maior demanda global por commodities, mas há dois fatos que sugerem não ser este o motivo. Primeiro porque o peso de commodities nos setores mais e menos expostos à exportação é muito semelhante. Além disso, um exame mais detalhado do desempenho industrial nos últimos anos mostra predomínio de segmentos não produtores de commodities entre os que mais cresceram.

Observa-se também uma aceleração apreciável da produção de bens de capital para uso industrial, indicando aumento do investimento no setor. Vale dizer, enquanto certas lideranças do setor vaticinavam a decadência inevitável da indústria brasileira, os industriais propriamente ditos tratavam de modernizar e ampliar suas instalações, um desenvolvimento também incompatível com a noção de desindustrialização.

Por fim, se é verdade que houve queda da participação de manufaturados na pauta exportadora, tal queda não resultou da redução (ou desempenho medíocre) das exportações de manufaturados, que cresceram além do comércio internacional nos últimos anos (até a crise), mas sim da expansão excepcional dos produtos primário, impulsionados pelo aumento extraordinário dos preços internacionais de commodities.

Tiro disto duas conclusões. A primeira, mais simples, é que a tese da desindustrialização simplesmente não sobrevive ao confronto com os dados.

A segunda, mais importante, é que certas correntes de pensamento econômico local insistem em formular teses cuja correspondência com os fatos varia do tênue ao inexistente. Não à toa, têm se provado consistentemente equivocadas, e continuarão a sê-lo até abandonar o apriorismo e mostrar um mínimo de respeito à realidade. Pelo que vejo, apenas o abuso de substâncias liberadas na Holanda poderia explicar o apreço incompreensível à tese da “doença holandesa”.

(Publicado 19/Ago/2009)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Blog novo na parada

O Carlos Eduardo (Dudu) Soares Gonçalves e o Mauro Rodrigues acabaram de lançar seu blog (Sob a Lupa do Economista, o link já está na minha lista de blogs), já dizendo a que vieram, revelando mais um dos muitos disparates cometidos pelo Torquemada de Campinas.

Pelo que conheço do trabalho de ambos, não será apenas bom. Vai ser muito divertido.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A conta da gastança

Quando falamos em taxas de juros no Brasil tipicamente pensamos na taxa Selic, cuja meta é determinada nas reuniões do Copom, mas, a bem da verdade, a Selic é apenas a taxa que remunera as aplicações de curtíssimo prazo. Há várias outras taxas, remunerando aplicações de prazos que vão de poucos meses a alguns anos, cuja expressão gráfica é conhecida como “curva de juros. A chamada “inclinação da curva” é a diferença entre as taxas de juros longas e as curtas.

Um dado interessante da curva de juros é que sua inclinação, depois de longo período próxima a zero (ou negativa), se tornou fortemente positiva. Os futuros de juros com vencimento no começo de 2011 mostram taxas superiores às que vencem no começo de 2010, e o mesmo ocorre no que se refere aos futuros de 2012 relativamente aos de 2011. Além disto, esta inclinação tem se mostrado crescente, mesmo para os segmentos mais distantes da curva. O que explica isto?

Para responder esta pergunta necessitamos entender como se determina a taxa longa de juros, em oposição à taxa curta, tipicamente fixada pelo BC. Simplificando o raciocínio, imagine que haja apenas duas alternativas de investimento na economia: por um período (renovável para o período seguinte), ou por dois períodos diretamente, de modo que, neste mundo imaginário, haja também duas taxas de juros, uma “curta” e outra “longa”.

Suponha ademais que a investidora saiba, com certeza, a taxa curta que vigorará no primeiro período (10%), bem como no segundo (5%). Assim, caso ela aplique por um período e renove no seguinte obterá um rendimento total de 15,5%. Isto dito, ela não aplicará por dois períodos, a menos que obtenha o mesmo rendimento ao final, equivalente a uma taxa anual de 7,5% ao ano por dois períodos. Vale dizer, num mundo de certeza, a taxa longa (7,5%) nada mais é que a média das taxas curtas (10% e 5%).

É claro que no mundo real há vários períodos e não sabemos as taxas curtas para cada um deles, mas o raciocínio ainda segue válido: a taxa longa será a média da taxa curta hoje e das expectativas acerca das taxas curtas que prevalecerão nos períodos à frente (devidamente acrescidas de algum prêmio de risco).

Assim, interpretamos a inclinação positiva da curva de juros como sinal de expectativas de aumentos da taxa Selic. Já a maior inclinação observada de meados do segundo trimestre para cá sugere que o mercado tem reavaliado para cima o tamanho do aperto monetário futuro. Ambos os desenvolvimentos parecem resultar de sinais de recuperação da economia, mais nítidos à medida que o tempo passa. No entanto, parece haver algo mais.

Com efeito, fosse apenas a recuperação mais vigorosa da economia, o aumento da inclinação da curva tenderia a se limitar a seus segmentos mais próximos, antecipando a reação do BC. Todavia, o aumento da inclinação dos segmentos mais longos da curva (particularmente num bom momento do mercado internacional) parece sugerir que o BC terá que reagir ainda mais do que se imaginava, e por um período mais longo.

Muito provavelmente o que observamos agora no mercado de juros é a reação à deterioração da qualidade da política fiscal. Fica claro que, a despeito da retórica da ação anticíclica, a política fiscal terá efeitos persistentes, por estar associada à expansão do gasto corrente. O maior impulso fiscal terá que ser compensado do lado monetário, e quem acha que esta preocupação é só “ladainha” de um “discurso surrado” ainda não percebeu que a conta da gastança já começou a ser paga pelo Tesouro Nacional.

(Publicado 5/Ago/2009)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Samba de uma nota só

Para ilustrar algo que já explorei por aqui. O gráfico mostra a evolução dos principais agregados do resultado fiscal do governo federal na primeira metade deste ano em comparação à primeira metade do ano passado. Dificilmente poderia ser mais eloquente: o aumento da despesa corrente corresponde a quase 15 vezes o aumento dos investimentos (R$ 23,4 bilhões vs. R$ 1,6 bilhão, já ajustados pela inflação).

Do aumento da despesa corrente a maior parcela (R$ 9,1 bilhões, expansão de 14% acima da inflação) resulta da folha de pagamento do funcionalismo federal, seguida das aposentadorias e pensões do INSS (R$ 6,3 bilhões). E há quem chame isto de política fiscal anticíclica.


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Só resta tocar um tango argentino

Na minha última coluna fiz uma breve menção à queda das exportações brasileiras para a Argentina como um dos fatores que piorou o desempenho da indústria nacional a partir do final do ano passado. Parece inusitado, pois, mesmo sendo a Argentina um dos principais parceiros comerciais do país, este mercado representou pouco menos que 9% do total exportado pelo Brasil no ano passado. No entanto, um exame mais detalhado mostra resultados interessantes.

Com efeito, se podemos descrever o Brasil, quando olhamos o conjunto de nossas vendas externas, essencialmente como um exportador de commodities, no caso do comércio com a Argentina em particular (e América Latina em geral), esta descrição certamente não se aplica. Enquanto manufaturas representam, em média, algo como 45% das exportações brasileiras, no caso das exportações para a Argentina manufaturados são mais de 90% do total, correspondendo a quase 20% das exportações destes produtos.

E não falamos aqui de qualquer produto manufaturado. Pela nossa classificação de comércio exterior, este rótulo se aplica a produtos que vão de suco de laranja a aviões. Em se tratando das exportações para o mercado argentino, porém, o predomínio é de produtos como automóveis, celulares, autopeças e máquinas, sofisticados e com cadeias de produção longas e complexas, em contraste acentuado com as exportações brasileiras em geral. Apenas no que se refere a automóveis, mais de metade do valor exportado em 2008 foi destinado a nossos vizinhos.

Isto dito, entre o pico registrado em setembro do ano passado e junho deste ano as exportações para a Argentina caíram 45%, fenômeno que, à luz dos dados acima, sugere um efeito fortemente negativo sobre a atividade. Usando mais uma vez o exemplo dos automóveis, observamos uma queda de 44% no valor exportado para aquele país entre janeiro e maio deste ano relativamente ao mesmo período do ano passado, o que explica quase dois terços da redução das exportações de automóveis neste intervalo.

Há quem atribua este desempenho fortemente negativo ao protecionismo argentino, ou mesmo a uma suposta invasão de produtos chineses naquele mercado, mas acredito que a mera inspeção do gráfico sugere uma explicação mais simples e, espero, mais convincente. Como é mostrado, o comportamento das exportações brasileiras para a Argentina segue muito de perto o desempenho das importações totais argentinas, ou seja, a queda de nossas exportações reflete essencialmente o colapso das importações platinas, que, entre o pico de julho do ano passado e maio deste ano caíram nada menos que 55%.

Por outro lado, assim como no Brasil, as importações argentinas variam quase que integralmente em função do comportamento da demanda doméstica. O colapso das importações (e de nossas exportações), portanto, nada mais é que o espelho de uma queda colossal da demanda argentina, sugerindo que a recuperação da indústria brasileira passa também pela reanimação da economia vizinha. Neste meio tempo, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Publicado

22/Jul/2009)

domingo, 12 de julho de 2009

Pausa

Pessoal:

Estarei em férias até 26/julho. Muito provavelmente não conseguirei postar nada, nem mesmo moderar os comentários. Fiquem à vontade para mandá-los, porém, caso queiram. Se for possível eu tento ao menos liberá-los, mas chances de resposta são baixas. De qualquer forma, quando voltar da viagem cuido da moderação.

Abraços e até a volta,

Alex

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Uma combinação inacreditável

Há quem receba mais atenção do que merece; há quem receba menos, como é o caso do IBGE. De fato, além de acelerar a divulgação da produção industrial, o IBGE tem trazido novas aberturas que auxiliam em muito o trabalho de análise econômica. Destas, uma em particular mostra o comportamento de setores industriais de acordo com sua intensidade exportadora, isto é, aqueles que tipicamente superam de forma significativa o coeficiente médio de participação das exportações no produto (20,8%) e os que costumam exportar uma fração menor de sua produção.

Ao contrário do que se imagina, os segmentos produtores de commodities são importantes tanto para o setor de alta intensidade exportadora como o de baixa intensidade, respondendo por cerca de 65-70% do peso no caso de seus principais produtos. Já os produtos mais sofisticados, como automóveis e aviões representam parcela importante da produção do setor exposto ao mercado externo, enquanto outros, como celulares e computadores, apresentam peso considerável no setor com menor exposição. A divisão entre commodities e produtos diferenciados não é, pois, a mesma que existe entre alta e baixa intensidade exportadora.

Dado este pano de fundo, convido os 17 leitores a analisar o comportamento dos dois setores a partir do início da série conforme mostrado no gráfico.

O primeiro fato que salta aos olhos é o crescimento francamente superior do setor intensivo em exportações. Entre 2002 e o terceiro trimestre de 2008 sua produção se expandiu à taxa média de 6,4% ao ano, contra 3,3% a.a. no caso dos segmentos de baixa intensidade exportadora, diferença que se mantém mesmo se escolhermos outros períodos amostrais.

Em outras palavras, apesar da conversinha sobre como a apreciação cambial – associada à forte valorização das commodities no período – estaria levando à desindustrialização do país, a realidade insiste em mostrar precisamente o oposto. Foi o setor de alta intensidade exportadora que liderou a vigorosa expansão industrial dos últimos anos e, dentro dele, o melhor desempenho veio de segmentos produtores de bens diferenciados, como automóveis, caminhões e aviões.

Obviamente, dado o cenário de forte contração do comércio internacional, que registrou queda de 40% entre o terceiro trimestre do ano passado e o começo de 2009, foi também esse setor quem mais sofreu com a crise, agravada ainda pelo colapso das importações argentinas (55% entre julho de 2008 e maio de 2009), destino de quase 20% das exportações industriais brasileiras. Tal resultado, diga-se, é congruente com o que já havíamos mostrado nesta coluna, isto é, que a queda das exportações explicava a maior parte da redução da produção industrial.

À luz destes dados, seria surpreendente a insistência certos economistas em ignorar o contexto externo e atribuir a forte queda da produção à política monetária. Só não surpreende porque há muito se sabe que tal “análise” deriva, em partes iguais, de incrível despreparo técnico e inigualável desonestidade intelectual.

Fonte: IBGE (dessazonalizado pelo autor)

(Publicado 8/Jul/2009)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Atualizando um post antigo

Quem acompanha o blog há algum tempo já deve ter visto versões anteriores do gráfico abaixo, cuja formulação, adianto, é cópia descarada de uma apresentação do Rogério Werneck. No eixo vertical está a carga tributária, divulgada hoje pela RFB (antiga SRF), que atingiu a bagatela de 35,8% do PIB no ano passado (sem CPMF, diga-se), pouco mais de um ponto percentual acima da registrada em 2007 (34,7% do PIB).

Deduzindo da carga tributária o superávit primário dos entes que coletam impostos (União, estados e municípios) temos uma estimativa do gasto primário consolidado da administração direta (as empresas estatais não entram nesta conta), medida no eixo horizontal. Assim, a estimativa de gasto público em 2008 subiu para 32,3% do PIB, contra 31,3% do PIB em 2007 (era em torno de 20% no começo dos anos 90, tendo alcançado algo como 28,5% do PIB no início da década atual).


Notem que tal estimativa ("abaixo da linha", por analogia à metodologia da NFSP), por omitir receitas não-tributárias dos governos federal, estadual e municipal, necessariamente subestima o real tamanho do gasto. É possível, porém, achar dados para a despesa consolidado "acima da linha", isto é, somando gasto a gasto de cada nível de governo. Tais dados, no entanto, só estão disponíveis para o período entre 1998 e 2007. Isto dito, no gráfico abaixo mostramos que guardam uma relação estreita com nossa estimativa "abaixo da linha".

Ou seja, quando os dados "acima da linha" para 2008 forem divulgados, os 35% do PIB registrados em 2007 parecerão modestos face a um valor na casa de 36% do PIB (e aguardem para ver o estrago de 2009!). Isto em dois anos nos quais o PIB cresceu às taxas mais elevadas dos últimos tempos, sem, portanto, a desculpa de se tratar de política anti-cíclica.
Isto dito, se vocês acham sinal de expansão desmedida de gastos e impostos, anotem o seguinte: em 2008 o PIB aumentou o equivalente a R$ 139,6 bilhões de reais (a preços de 2008). Neste mesmo período o governo (em suas três esferas) aumentou a tributação em valor equivalente a R$ 79,7 bilhões e seus gastos em R$ 72.5 bilhões. Vale dizer, de cada 100 novas unidades de PIB , o governo tributou 57, gastando 52 (em 2007 estes números foram 56 e 45), na prática se apropriando de mais da metade do PIB marginal.

E tem gente que fala em "estado nanico"...