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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Senta que o BC é manso

Na apresentação dos novos (e velhos) responsáveis pela gestão econômica do país o presidente do BC, fiel a seu passado, afirmou estar “trabalhando para trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5% ao ano, no horizonte relevante, os próximos dois anos, 2015 e 2016”. A fala foi bem recebida, aliás até demais, considerando-se que a mesma promessa – na linha do “fiado só amanhã” – tem sido feita em todos os finais de ano desde 2011, com o sucesso que é de conhecimento público.


O mercado captou a mensagem do insigne mestre e passou a esperar, acertadamente a propósito, a aceleração do ritmo de aumento da taxa básica de juros, a Selic, de 0,25% para 0,50% ao ano. Não houve, portanto, surpresa quando foi anunciada a nova meta para a taxa de juros na semana passada: 11,75% ao ano, versus 11,25% ao ano até então prevalecente.

Já no que diz respeito ao breve comunicado que acompanhou a decisão do Copom não se pode dizer o mesmo. Além de destacar que a decisão de intensificar o ritmo de alta de juros valia “naquele momento”, o Comitê afirmou em seguida que “o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia”.

Em português, o BC, mais do que sinalizar que pretende reduzir o ritmo de ajuste da Selic nos meses à frente, na prática se comprometeu com esta trajetória. A inspiração veio, aparentemente, da experiência de outros bancos centrais, que, sob circunstâncias bastante distintas das nossas (inflação muito abaixo da meta, quando não risco de deflação), têm tentado amarrar as próprias mãos para convencer o público que não elevarão a taxa de juros ao primeiro sinal de normalização da economia.

No caso brasileiro, porém, trata-se de promessa injustificável, mas que revela bem as razões pelas quais a inflação se mantém há anos acima da meta.

Em primeiro lugar porque o próprio comportamento da inflação até as próximas reuniões do Comitê (21 de janeiro e 4 de março) ainda não é conhecido. Eventuais surpresas nas leituras de dezembro a fevereiro podem forçar o BC a mudar esta conclusão.

Mais importante, ainda que o novo ministro da Fazenda tenha acenado com uma meta mais realista para o superávit primário no ano que vem (1,2% do PIB), a verdade é que não se sabe como ela será atingida. Trata-se de ajuste de praticamente R$ 100 bilhões, do qual rigorosamente nada está definido.

Depois de anos de uma postura absolutamente crédula quanto às promessas do governo na área fiscal, seria de se esperar um ceticismo saudável do BC quanto ao tema, mas parecem permanecer tão crédulos como sempre.

O que na verdade se observa, e não é de hoje, é que o BC parece mais comprometido com a trajetória da taxa de juros do que a com o comportamento da inflação.

Caso o compromisso do BC fosse mesmo com a inflação, ainda que a convergência fosse se dar dois anos à frente, ele não poderia anunciar um “orçamento” para a taxa de juros como fez no seu último comunicado. Se há limites para a taxa de juros (e o comunicado aponta exatamente para isto), não há como afiançar a convergência da inflação à meta.

Neste aspecto, apesar das nova rodada de promessas, vê-se que a postura do BC não se alterou na comparação com o que temos observado de 2011 em diante. À luz disto, torna-se ainda mais difícil acreditar na historinha de convergência em dois anos. É nada mais que a mesma palestra flácida para acalentar bovinos.


O BC quis falar grosso antes da reunião. Ao fim dela, porém, miou uma mensagem bastante distinta: “senta que o BC é manso”. E, com isto, ganhará no Natal mais uma rodada de revisão para cima das expectativas de inflação no “horizonte relevante”, sem ter que agradecer nada ao bom velhinho; apenas a si próprio.

Miau...


(Publicado 10/Dez/2014)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Triconomics 16/Dez/2014

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Triconomics 11/Dez/2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Triconomics 9/Dez/2014

Pibelho

Já podemos comemorar! Com o crescimento de 0,1% (!) registrado no terceiro trimestre deste ano, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, interrompeu-se a sequência de quedas consecutivas do PIB brasileiro: não estamos mais em “recessão técnica”!

Na verdade, porém, esta definição de “recessão técnica” é um tanto forçada. No passado, quando economistas faziam estudos estatísticos sobre o fenômeno recessivo para um número grande de países, era necessário um critério simples para caracterizar uma recessão; daí a história de dois trimestres consecutivos de queda. É tão arbitrária quanto a definição de hiperinflação como aquela que supera 50% ao mês.

Hoje em dia há critérios mais sofisticados para definir uma recessão (por exemplo, o trabalho do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos – CODACE) e não há evidência que o Brasil esteja lá. É claro, porém, que a economia brasileira está estagnada: o nível de produção do terceiro trimestre de 2014 (ajustado à inflação e à sazonalidade) é virtualmente indistinguível do observado no segundo trimestre do ano passado e esta afirmação é verdadeira para todos os trimestres no período. O gráfico do PIB brasileiro parece o eletrocardiograma de um defunto.

Já quando olhamos os componentes do PIB, ao invés do todo, percebemos que o finado dá sinais de vida, nem todos eles os mais saudáveis. O consumo das famílias também está parado há cinco trimestres, mas o investimento e o consumo do governo ainda se movem; apenas não na melhor direção possível.

Assim, o investimento é hoje 10% inferior ao observado no segundo trimestre de 2013. Em compensação, o consumo do governo aumentou quase 2,5% no mesmo período. Graças a este arranjo de resultados a demanda interna também se encontra estagnada. Já nossa capacidade de crescimento futura só faz cair na esteira do investimento em queda.

Por outro lado, a poupança buta brasileira atingiu pouco menos do que 13% do PIB. Nunca antes na história deste país poupamos tão pouco, reflexo do consumo do governo que toma para si nada menos do que 22% do produto, a maior fração observada nos últimos 20 anos.

À luz destes números não fica nada difícil entender o motivo da combinação intrigante de crescimento baixo, investimento minguante, consumo de lado e, ainda assim, déficits externos elevados e uma taxa de inflação bastante acima da meta. Nosso governo consome muito; por conta disto, não conseguimos investir e, apesar do baixo investimento, ainda precisamos de recursos externos para atender o setor público, cujo apetite simplesmente não cabe no PIB.

Não é por outra razão que um ajuste de fiscal de longo prazo, que ajude a recuperar a poupança doméstica, faz parte das condições necessárias à elevação da nossa taxa de crescimento sustentável.

Isto dito, no curto prazo, o esforço fiscal prometido pelo novo ministro da Fazenda deverá se concentrar muito mais no aumento de impostos do que no corte dos gastos públicos. Mesmo as modestas reduções de gastos como proporção do PIB observadas, por exemplo, em 1999 e 2003, parecem possibilidades remotas quando se considera o grau de rigidez da despesa pública no Brasil.

E não serão mudanças na pensão por morte, seguro desemprego e abono salarial que irão entregar o necessário enxugamento no ano que vem. Mais uma vez, será sacrificado o pouco que resta do investimento público.

Uma vez que colocamos isto na conta é surpreendente que o atual consenso de mercado ainda aponte para expansão no próximo ano acima da que deve ser registrada neste ano.

Os resultados até agora apontam para crescimento praticamente nulo em 2014. Já para descrever o comportamento da economia em 2015 estamos esgotando, como lembrou meu filho, todos os diminutivos da língua portuguesa. Depois do pibículo de 2014, o desempenho no ano que vem só poderá ser descrito como “pibelho”.


Aguardo sugestões para 2016.

E o que vem depois?


(Publicado 2/Dez/2014)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Triconomics 4/Dez/2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Joaquim II (ou A Capitulação)

Já houve um ministro da Fazenda com o mesmo nome no período republicano (Joaquim Murtinho, o responsável pela estabilização da economia depois do Encilhamento), mas a numeração aqui não se refere a isto e sim a Joaquim Levy ter sido a segunda opção da presidente após a constrangedora recusa de Luiz Carlos Trabuco na semana passada.

Obviamente não me escapa (nem a ninguém) a deliciosa ironia de a presidente que demonizou banqueiros durante sua campanha – ladrões de comida de criancinhas, lembram-se? – não apenas chamar um deles para gerir a economia, mas também, depois de rejeitada, insistir no tema (e na instituição financeira!) para atrair para seu governo um economista identificado com precisamente o oposto do que praticou (e pregou) nos últimos quatro anos.

Trata-se, sujeito ainda a algumas considerações, de reconhecimento explícito do fracasso épico da “nova matriz macroeconômica”. A combinação de frouxidão fiscal, descaso com a inflação e voluntarismo, seja nas tentativas de intervenção na taxa de câmbio, seja na repetida intromissão do governo no domínio econômico, teve como resultado crescimento medíocre, inflação alta, desequilíbrios externos consideráveis e redução do ritmo de expansão da produtividade, uma rara combinação de incompetência.

Muito embora o futuro ex-ministro da Fazenda e sua arrebatadora equipe tenham responsabilidade direta pelo insucesso, deve ser claro que esta se limita à execução da malfadada política econômica, ou seja, à de fantoches que jamais almejaram virar meninos de verdade. Não há dúvida que a formulação do fiasco emanou diretamente da presidente, cujas opiniões equivocadas sobre a economia são de conhecimento geral e amplamente comentadas neste espaço.

Por conta disto a presidente enfrenta um problema difícil: como convencer o distinto público acerca de sua firmeza de propósito no que se refere à mudança de rumo do país?

Bom, para começar, precisa de um ministro da Fazenda que não se sujeite ao papel de marionete, mensagem que lhe parece ter sido passada de forma insistente pelo ex-presidente. Neste sentido podemos entender a escolha de executivos do setor financeiro indicados por Lula: a provável reação negativa do mercado, assim como possivelmente do próprio ex-presidente, tornaria muito custosa uma eventual demissão, ou seja, a “autonomia operacional” (perdão pela gargalhada íntima) do novo ministro seria, de alguma forma, assegurada pela ameaça de “destruição mútua”.

Posto de outra forma, falamos do equivalente a amarrar as mãos da presidente para que ela não possa mais gerir a economia da mesma forma desastrada que fez de 2011 para cá.

Resta, porém, saber se a presidente realmente entendeu a extensão do problema e, se for o caso, tem mesmo a disposição para limitar de forma radical seu próprio poder.

A rejeição de Luiz Carlos Trabuco, quando boa parte da imprensa dava por certa sua indicação, oferece pistas importantes. Não há como se convencer que derive das questões corporativas alegadas naquele momento. Este problema já existia antes da conversa com a presidente e é difícil acreditar que seja a causa para a desistência já aos 44 minutos do segundo tempo.

Parece-me que o cerne da discussão – como não poderia deixar de ser – refere-se à real extensão do poder ministerial. Trabuco, no meu entender, teria recusado o cargo por não ter garantias suficientes quanto à sua autonomia.

Caso esteja certo a este respeito seriam também remotas as chances que a presidente tenha oferecido condições mais vantajosas a Levy do que as apresentadas a Trabuco. A autonomia do ministro, no caso, terá mesmo que se equilibrar no delicado balanço da “destruição mútua”, base muito frágil para assentar o futuro do país, considerados os estragos dos últimos anos.


Há muito a fazer para corrigir o rumo, mas tudo indica que a presidente ainda não se deu conta do tamanho da encrenca.

A solução

(Publicado 26/Nov/2014)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Triconomics 2/Dez/2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Triconomics 27/Nov/2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A nova matriz aritmética

Um governo verdadeiramente comprometido com as causas populares não pode se sujeitar às restrições impostas pelas forças conservadoras, neoliberais, feias, bobas e cara de tacho.

A despeito das objeções da direita golpista, amparadas em obras marcadamente reacionárias, como “A Aritmética da Emília” e “Aprendendo a Contar” (Yoyo Books: obviamente uma insidiosa doutrinação imperialista), as forças progressistas enviaram ao soberano Congresso Nacional (de quem se espera a não sujeição às pressões autoritárias da oposição) projeto de lei que revoluciona a matemática e cria um instrumento de revolta contra as classes opressoras.

Muito embora a Lei de Diretrizes Orçamentárias (a famigerada LDO) requeira do governo popular da presidenta Dilma a geração este ano de um superávit primário de R$ 116 bilhões para atender as demandas dos rentistas, a combinação de sua administração previdente e a matemática dialética já permitia atender esta injusta exigência com um superávit de apenas R$ 49 bilhões. 

A diferença (R$ 67 bilhões) seria utilizada para fins mais nobres, como o Programa de Aceleração de Crescimento (o PAC, já em sua n-ésima edição, sem que a primeira tenha sequer acabado!) e as desonerações tributárias, peças essenciais da estratégia de desenvolvimento com inclusão (oposta, é bom dizer, à defendida pelos ortodoxos), que permitem crescimento acelerado com melhora na distribuição de renda, mesmo que os números do IBGE, possivelmente devido a uma conspiração retrógrada, ainda se recusem a admitir estas conquistas.

Não contávamos, contudo, com a má vontade dos países desenvolvidos, que – certamente com o objetivo de impedir os avanços populares no Brasil – se recusam a crescer. No entanto, sob a inspirada gerência da nossa presidenta, a Guia Genial dos Povos, e do Querido Líder, o ministro-chefe da Casa Civil, demos um passo extraordinário à frente. Com a nova proposta poderemos abater dos recursos destinados aos rentistas um valor maior do que os R$ 116 bilhões originalmente reservados. O resultado final será negativo, mas também superavitário!

Em outras palavras, criamos o superávit negativo, a contradição dialética que fará avançar não apenas a Economia Política, mas a própria matemática, muito além dos limites estreitos da imaginação burguesa. Demos início à Nova Matriz Aritmética (NMA).

Segundo esta nova práxis, as forças progressistas deixarão de se sujeitar aos ditames do mercado e dos professores de matemática. De agora em diante o superávit negativo será a norma. Nunca mais na história deste país um governo terá que cumprir metas fiscais anacrônicas: a meta será sempre aquilo que alcançarmos, nem mais, nem menos (ou os dois ao mesmo tempo).

As implicações são infinitas. Por exemplo, no mundo da NMA a inflação pode ser superior à meta ao mesmo tempo em que é igual a ela e também inferior. Com isto o BC se livrará do jugo do mercado financeiro e poderá se dedicar ao objetivo de estimular ainda mais o desenvolvimento do país.

A assim chamada “inflação”, outra invenção conservantista, será incorporada ao crescimento do PIB, impulsionando de forma decisiva a renda da classe trabalhadora.

De quebra a NMA possibilitará ainda que a Petrobras nunca mais passe pelo vexame de não conseguir fechar seu balanço na data limite. Aliás, não haverá balanço que não feche; principalmente aqueles de empresas que financiam as lutas políticas em prol da igualdade.


O primeiro governo Dilma lançou as bases da prosperidade nacional; seu segundo governo, agora amparado pela NMA, irá ainda mais longe, além de onde Judas perdeu as botas. Lamentamos apenas que o ministro da Fazenda, um dos criadores da NMA, não possa nos liderar nesta jornada rumo ao futuro. Esperamos, todavia, que continue a ensinar esta disciplina na escola da vida; só, de preferência, jamais no Pronatec.

Apenas mais uma das aplicações...

(Publicado 19/Nov/2014)