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terça-feira, 29 de maio de 2012

Anais da idiocracia: Economia & Sociedade + Professor Oreiro = Humor involuntário

[esse texto foi expandido desde a primeira vez que o postei] 

A revista Economia & Sociedade, do departamento de economia da Unicamp, é notória por ser um pasquim exibir uma grande variabilidade na qualidade dos artigos publicados.

O professor Oreiro é notório por escrever baciadas de artigos, muitos dos quais de qualidade duvidosa e com co-autores de terceira. Este blogueiro se diverte catando os erros que saem da manufatura de artigos do professor Oreiro

O que pode acontecer então quando um artigo do professor passa pelo crivo do "processo editorial" da Economia & Sociedade?

Essa berzegona aqui:



Vejam só: os autores entitularam o gráfico acima “Relação entre a conta corrente/PIB e taxas de crescimento para países selecionados – 1990”.

Pois bem, exceto que o gráfico mostra presumivelmente a conta corrente/PIB e outra variável, não a taxa de crescimento – aposto que esta é a renda per capita em logs.

Foi apenas um erro no título do gráfico? Quem me dera!

Os dois trapalhões escreveram também: “a Figura 1 apresenta para alguns países de renda média um scatter-plot com a conta corrente como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) no eixo vertical e as taxas de crescimento do PIB no eixo horizontal.” – o que me faz ainda mais confuso, porque a variável no eixo horizontal aparentemente é a conta corrente/PIB.

Note bem: este não é um texto para discussão ou rascunho, mas um artigo publicado em uma revista acadêmica.

Se lhe parece que estamos vivendo em uma idiocracia, você está correto.

E não esqueçamos:

(1) esse trabalho nas coxas foi financiado pelo CNPq;

(2) o nome do editor da Economia & Sociedade é André Martins Biancareli. Na melhor das hipóteses, ele delegou para um co-editor que aprovou o artigo sem ler. E' possivel que o Biancareli tenha se tornado editor da revista depois que este artigo foi aceito (gostaria muito de saber quem foi o palhaço que estava encarregado de vetar e editar esse artigo). Mas mesmo assim, é sua responsabilidade como editor zelar pelo nome e reputação da revista e do departamento de economia da Unicamp,  é sua culpa que a revista Economia & Sociedade e o departamento de economia da Unicamp são motivo de piada na blogosfera.

(3) Professor Oreiro: leia aquilo que escreveu antes de publicar!

A sucessão no IPEA


O Correio Brasiliense tem uma matéria sobre a sucessão no IPEA. O atual presidente, o palhaço Poquimão, vai ser o candidato do PT à prefeitura de Campinas (sério, isso não é uma piada).

Segundo a matéria, existem quatro candidatos. A candidata do palhaço Poquimão é uma Vanessa Petrelli Corrêa, uma desconhecida autora da escola nihilista de economia (aquela que não produz nada)... Como não podia deixar de ser, tendo sido apontada pelo palhaço Poquimão, seu currículo é patético, uma verdadeira nulidade, mas para o bem do IPEA e do Brasil, a matéria diz que essa candidata teria sido descartada pela presidenta.

O candidato do ministro Moreira Franco é o secretário de Ações Estratégicas da SAE, Ricardo Paes de Barros (o PB), com longa carreira no IPEA, extensa lista de publicações e o respeito da profissão. Ele certamente teria meu voto e sua escolha para a presidência do IPEA mandaria um sinal que o governo brasileiro rejeita a idiocracia.

Mas a parte mais engraçada e doidivanas da reportagem é que a jornalista do Correio Brasiliense acha que o Professor José Luis Oreiro seria um candidato viável para o IPEA. Bem, este é o país de Nelson Barbosa e Márcio Holland... 

domingo, 4 de setembro de 2011

Crédito a quem merece: Professor Oreiro sobre a recente redução da SELIC

Gostei do artigo do professor Oreiro sobre a redução em 50 b.p. da SELIC.

Em suas palavras:

(...) A justificativa vinculada na grande mídia é que o BCB estaria se adiantando ao agravamento da crise econômica internacional para não repetir os erros de 2008. Trata-se de um evidente non sequitur. Em primeiro lugar não está claro que a atual desaceleração do crescimento na Europa e nos EUA irá resultar, inexoravelmente, numa crise financeira de grandes proporções como se observou em setembro de 2008. Até agora, repito, o cenário é de soft-landing. Em segundo lugar, caso um novo “momento Lehmam” (sic) ocorra no futuro próximo, nada impede a realização de uma reunião de emergência do Copom onde se decida por uma redução forte e imediata da Selic...

... se um novo “momento Lehmam” (sic) não ocorrer podemos antecipar uma forte expansão da demanda agregada (e dos custos de produção das empresas) em 2012 em função (i) da redução da taxa real de juros; (ii) da forte elevação do salário mínimo em termos reais; (ii) da manutenção da taxa de desemprego em níveis históricamente baixos. Nesse cenário uma elevação da taxa de inflação para 8% a.a não é improvável. (grifo meu)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Anais da idiocracia: a última de Natália e Benito

Os professores Oreiro e de Paula produziram uma obra-prima, talvez algo inédito na literatura econômica: um texto de idiotice fractal.

Para se entreter, sugiro visitar o blog do professor Oreiro.

Mas se você estiver com preguiça, curta essa frase inesquecível (negrito meu):

Além disso, parece ser pouco plausível que o problema do juro elevado no Brasil se deva à escassez de poupança doméstica. Com efeito, se essa explicação fosse correta, então a taxa real de juros de longo prazo deveria ser muito alta para os padrões internacionais, o que não acontece. Com efeito, o contrato de DI futuro/swaps com vencimento em julho de 2014 estava pagando um juro real ex-ante de 7,4% ao ano no dia 14/06/2011.


E viva la Oreiro!



E quem esqueceu do Benito?

domingo, 6 de março de 2011

Anais da idiocracia: o ranking do Oreiro

O Professor Costa Oreiro não cansa de me surpreender!

Vejam o que ele escreveu desta vez:

“Apesar do contínuo aumento da base de economistas brasileiros que compoe o ranking tenho conseguido me manter entre os top 9% do Brasil e top 13% da América do Sul.”

Aiaiaiai que escorregada gostosa!

O professor se distraiu e não notou que o ‘contínuo aumento da base de economistas brasileiras’ tende a aumentar, não diminuir, seu ranking em percentis. Afinal, quando a base de economistas membros do REPEC aumenta, isso geralmente ocorre pela incorporação de membros marginais da profissão. Por exemplo, se todos os alunos de graduação se tornassem membros do REPEC, a posição percentil do Professor Costa Oreiro certamente subiria para top 1%...

Bom carnaval para todos!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Anais da idiocracia, versão ANPEC 2010

Quando eu folheio o programa da ANPEC desse ano, tenho a sensação de estar acordando no Groundhog Day em Punxsutawney, Pennsylvania. Ano após ano, as mesmas figuras tristes apresentam os mesmos papers, pa-ta-ti pa-ta-tá...

Nenhuma surpresa. Os professores Paulo Gala, Eliana Araujo e Luiz Carlos Bresser-Pereira rodaram uma regressão da taxa de poupança privada no PIB e ao encontrarem uma função de resposta ao impulso consistente com a poupança privada aumentando em resposta a choques positivos no PIB e concluiram (obviamente...) que isso seria evidência que um Real mais fraco causaria um aumento na poupança do setor privado (**)

Já os professores André Nassif (que família!), Carmem Feijó e Marco Antônio Silveira de Almeida fizeram uma ampla resenha da literatura sobre desalinhamento cambial... que aparentemente não entenderam... e produziram uma mega-pérola para os anais da análise econométrica abestada. O trio rodou uma regressão da taxa de câmbio real em um monte de variável endógena (saldo de conta corrente entre elas!) e achou por bem tratar o resíduo da regressão como uma medida de desalinhamento cambial. Por exemplo, examinando a Figura 2 do artigo, o câmbio real estaria uns 15% mais forte que seu ponto de equilíbrio em 2006 enquanto que na média de 2009, estaria bem perto do equilíbrio. Não obstante, o dream team concluiu que há uma tendência à sobre-valorização do Real porque os resíduos da regressão seriam negativos 55% do tempo... Uau! Os professores não fizeram econometria na graduação?

Bem, vou parar por aqui. Nem vou mencionar o artigo do Professor Costa Oreiro e comensais elogiando o modelo de boom de crédito dos últimos 5 anos. Isso mesmo, o mesmo Professor Costa Oreiro que se preocupa com o câmbio apreciado diz oba-oba para o boom de crédito... Como diz Nhô Zaqui, o judeu de Piracicaba: “oy véio”.

(**) Sério. É isso mesmo que eles fizeram, se você leu o artigo deles e não consegue ver isso, é porque existe um risco que você seja um deles.

Freak, moi? Eu sei até cointegrar!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A última do Professor Costa Oreiro

Assim falou o acadêmico da UNB:

“Nenhum defensor da tese de desindustrialização afirma que o progresso técnico só pode ocorrer na indústria, mas sim que a indústria é a principal fonte do progresso técnico !!!! Acredito que a validade dessa afirmação é tão óbvia que não exige sequer esforço adicional de comprovação empírica. Se os autores do artigo em consideração pensam o contrário, cabe a eles o ônus da prova.”

Aparentemente o ilustre professor não sabe que desde o final da Segunda Guerra Mundial, a produtividade na agricultura nos países desenvolvidos tem crescido consideravelmente mais rápido do que no setor manufatureiro. Segundo o livro do historiador Paul Bairoch, entre 1950 e 1990, a produtividade nos países desenvolvidos ocidentais cresceu 5.4-5.6% na agricultura e 3.4-3.6% na indústria (Bairoch “Economics and World History” 1993, pp.151). Portanto, o argumento que a indústria é a principal fonte do progresso técnico é duvidoso e deve ser qualificado com bastante cuidado.

O mesmo acontece nos países não-avançados que exportam alimentos (exemplo: Brasil, Chile) há algumas décadas... Se o professor tiver alguma dúvida, consulte os dados... Ou então o World Development Report de 2008.

“No final do artigo os professores Ferreira e Frageli afirmam que o Brasil precisa se preocupar não com a indústria, mas com a baixa produtividade do setor de serviços. Os professores da FGV deveriam se perguntar se a baixa produtividade do setor de serviços em comparação com a observada nos países desenvolvidos não seria a prova contundente de que no Brasil a indústria ainda não cumpriu o seu papel histórico de modernização da estrutura produtiva, de tal forma que a redução da sua importância na economia brasileira não só é precoce, como principalmente negativa.”

Prova contundente? O quê? Pelo que entendi, o professor está argumentando que a baixa produtividade do setor de serviços se deve à indústria não ter “cumprido o seu papel histórico de modernização da estrutura produtiva”?!? De que raios de país o ‘professor’ está falando?

Primeiro, o Brasil que eu conheço é um dos países com estrutura produtiva mais diversificada do mundo - como seria de se esperar sendo um país grande. Era mais diversificada ainda nos anos oitenta, devido a políticas implementadas pela ditadura militar explicitamente desenhadas para aprofundar esta diversificação, com consequências funestas para o nosso desenvolvimento, como todos nós sabemos.

Segundo, mesmo que não fosse o Brasil um país de estrutura produtiva altamente diversificada, não vejo conexão alguma entre a produvidade no setor de serviços e a tal diversidade da estrutura produtiva.


Como o texto na foto deixa claro, este é o Keith do Magical Enterprises, não o Professor Costa Oreiro da Magical Heterodoxies.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Professor Costa Oreiro no Monitor Mercantil: Medo de Securitizações!!

Manifestações de boçalidade às vezes guardam um certo paralelismo com a arquitetura de uma cebola: vêm em camadas. Este é o caso da nova contribuição combinada do Professor Costa Oreiro e o Monitor Mercantil.

É certamente questionável o julgamento de qualquer economista que se disponha a dar uma entrevista ao Monitor Mercantil, uma publicação cuja existência fascina paleontólogos amadores como um sinal de que o elo perdido pode ainda andar entre nós.

Ainda mais se tal economista já passou pelo contratempo de ter sido citado –segundo ele, erroneamente – por aquele jornal como dizendo que Chávez é “o cara” e que "a Revolução Bolivariana encontrou o caminho para obter câmbio depreciado e competitivo no longo prazo".

Mas este é só o exterior da cebola. Quando a descascamos, a barbaridade é de assustar. Leia, segurando-se na cadeira, o trecho abaixo (em azul as passagens mais boçais):

EM VEZ DE CAPITALIZAR CAIXA VIA TESOURO, GOVERNO OPTA POR PAPÉIS TÓXICOS

"Há risco de formação de uma bolha. Não se pode esquecer que a crise começou com a securitização." O alerta é do economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), ao comentar a possibilidade de, nas próximas semanas, a Caixa Econômica Federal captar R$ 500 milhões via securitização (títulos que repassam a dívida dos mutuários via papéis a serem comercializados livremente no mercado financeiro) de sua carteira de empréstimos, conforme disse a presidente do banco, Maria Fernanda Ramos Coelho, reafirmando anúncio feito esta semana pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Para Oreiro, o melhor é capitalizar a Caixa (e também o Banco do Brasil) pelo próprio governo, via aportes do Tesouro, a exemplo do que já ocorre no BNDES.

"Cheguei a propor isso ano passado. Afinal, os financiamentos da Caixa geram muitos empregos. Mas sou contra produtos financeiros exóticos", criticou, advertindo que, a longo prazo, a Caixa se tornaria um banco de investimento, "o que é ruim".

De acordo com o economista da UnB, o risco da securitização é a perda de controle sobre as emissões seguintes. "Uma obrigação lastreada em ativos, quando vendida no mercado secundário, para um banco de investimento, pode criar outro instrumento exótico que será empacotado e repassado. Aí, pode perder o controle, já que reduz a transparência."

Quanto à elevação do risco, Oreiro ponderou que se, por exemplo, algum fundo de pensão resolver vender ativos secundários, é provável haver queda acentuada no preço dos papéis, causando apreensão no mercado financeiro.

A presidente da Caixa disse que deverão ser lançadas também letras financeiras, espécie de debêntures criadas pelo governo no fim de 2009, para os bancos captarem recursos de longo prazo. A Caixa já lançou R$ 1 bilhão em letras financeiras e pode lançar mais R$ 2 bilhões.

Juro que vou tentar entender.

O professor acha que securitizações geram bolhas, portanto a Caixa deve se capitalizar via endividamento do Tesouro. Mas como securitizações geram bolhas segundo o mestre? Elas geram porque securitizações porque "há uma perda de controle sobre as emissões seguintes (...) Uma obrigação lastreada em ativos, quando vendida no mercado secundário, para um banco de investimento, pode criar outro instrumento exótico que será empacotado e repassado. Aí, pode perder o controle, já que reduz a transparência." Interessantemente, o mesmo pode ser dito de qualquer ativo financeiro. Dívida pública pode ser empacotada no mercado secundário, assim como recebíveis das Casas Bahia ou do crédito consignado. Mas aparentemente o doutor Costa Oreiro não parece saber disso...

Além disso, o professor Costa Oreiro também se preocupou com a possibilidade que a venda por algum fundo de pensão de posse de papéis secundários lastreados por crédito imobiliário da Caixa possa causar apreensão no mercado financeiro. Alguém pode explicar para o professor que fundos de pensão compram e vendem todo tipo de ativo financeiro todos os dias?

“a longo prazo, a Caixa se tornaria um banco de investimento” Er... Alguém pode explicar para o professor o que é um banco de investimento?

Este engolidor de espadas não é o Professor Costa Oreiro.


Pois é... Tio “O” escreveu mais um texto enfadonho. Quem poderia imaginar que o professor de macroeconomia da UNB e diretor da AKB não tem idéia alguma sobre mercados financeiros? Qual vai ser a próxima? Anunciar ao mundo que o Internacional de Porto Alegre joga com uma camisa vermelha?

Pelo menos sinto um conforto em saber que este é o calibre intelectual dos nossos Luditas do século 21.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Traduzindo Platão para as massas

O Professor Oreiro cometeu uma nova obra-prima do surrealismo quermesseiro. Como o texto do professor é longo e prolixo, eu achei que valeria a pena resumir suas idéias em poucas palavras e alguns comentários.

Abaixo, minha interpretação (e caso o ilustre professor discorde, estou pronto a ceder-lhe direito de resposta neste mesmo blog):

Para o mui-publicado professor, uma suposta desindustrialização (segundo o imparcial IEDI...) afeta nossas perspectivas de crescimento no longo prazo. Portanto, o Tesouro deveria emitir uns 10% do PIB de dívida pública adicional para fundear um fundo especulativo para intervir no mercado cambial. Tal política no melhor dos cenários em que a dívida adicional não afeta os prêmios de risco, custaria uns meros 0.5% do PIB por ano ao Fisco (uma ninharia...). O objetivo desse maior endividamento é deprimir o salário real de modo que o capital industrial tenha lucros maiores, mas podemos ficar sossegados que não há evidência alguma que usar o câmbio para deprimir os salários reais tenha algum efeito negativo sobre a distribuição pessoal de renda (e somente um tolo ortodoxo veria problemas para implementar tal estratégia em uma democracia). Nós também não temos que nos preocupar com a consistência macroeconômica porque controles de capitais a-bran-gen-tes e di-nâ-mi-cos podem resolver qualquer inconsistência, afinal, são a-bran-gen-tes e di-nâ-mi-cos. Mais que isso, não existe nenhum custo em adotar-se controles de capitais, pois em um artigo na renomada REP, Oreiro, Paula e da Silva demonstraram que se a variável dívida pública/PIB for omitida de um modelo VAR, uma medida crua de controles de capitais não é correlacionada com o prêmio de risco (resultado que não é robusto à inclusão da variável dívida pública/PIB, mas como todos sabemos, é careta achar que dívida pública/PIB tem qualquer relação com o prêmio de risco...).

Acreditem em mim, não estou parodiando o Professor Oreiro, ele escreveu mesmo algo nessas linhas. Se vocês duvidarem, podem seguir o link para a verborragia original da figura. Mais bizarro ainda é constatar que o gênio da raça que cozinha um esquema para mobilizar mais que uma centena de bilhões de reais com o objetivo de deprimir os salários reais na indústria é ligado ao ex-Partido Comunista Brasileiro... Não comento mais para evitar ser acusado de auto-ódio no futuro...


"You represent the idiocy of today. (...) You are part of a league of morons."
Osborne Cox em Burn After Reading (2008)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os espantalhos do Professor Oreiro, o economista pós-keynesiano

Poucas coisas me irritam mais do que argumentos desonestos, como o uso de espantalhos.

Alguns dias atrás, o deputado Raul Jungmann, que me pareceu admirável em outras ocasiões, formou um time com o Professor Oreiro, o economista pós-keynesiano, e um outro professor e juntos produziram uma das argumentações mais vergonhosas que li nos últimos tempos (*).

Escrevem Jungmann, Oreiro e o outro:

O discurso neo-liberal [...], ainda defendido por economistas ligados ao setor financeiro, se baseia nas seguintes proposições: (a) o maior problema do Brasil é a falta de reformas microeconômicas que permitam o livre-funcionamento do mercado,

Começam bem, admito... Caracterização correta! A falta de reformas microeconômicas é certamente um importante empecilho para o desenvolvimento econômico do Brasil. Segundo, o Doing Business do Banco Mundial, o Brasil é o 129° país em termos de facilidades para se fazer negócios, atrás até da China Comunista (89°). Segundo o índice de liberdade econômica do Heritage Foundation, existem 112 paises (entre eles, o Cambodia e a Nicaragua!) na frente do Brasil. As reformas microeconômicas para um melhor livre-funcionamento do mercado, não tenho dúvidas, são fundamentais se e quando o Brasil quiser se juntar ao grupo das economias desenvolvidas.

(b) o controle da inflação é o principal objetivo da política econômica,

Espantalho! Não conheço um único economista que concorde com essa sentença. Na realidade, é provável que nem o professor Oreiro acredite em seu espantalho, afinal ele mesmo caracterizou a visão neo-liberal como acreditando que “o maior problema do Brasil é a falta de reformas microeconômicas”.

(c) para controlar a inflação, os juros serão inevitavelmente altos devido ao “risco-país” e aos problemas fiscais,

Espantalho! Não conheço um único economista que concorde com essa sentença. Primeiro, o risco-país é um problema do passado, já que nosso spread já se reduziu consideravelmente.

Segundo, não são apenas problemas fiscais (que existem!) que impediram uma queda maior da SELIC ano passado, mas sim a ausência de liderança política em Brasília capaz de desmontar tanto o sistema de crédito dirigido que alimenta os bolsos de nossa plutocracia quanto as garantias de retorno mínimo para a caderneta de poupança.

(d) o “desenvolvimento econômico” é uma competição entre os países para obter “poupança externa”;

Espantalho sem-vergonha! Somente alguém completamente incapaz de sentir vergonha para escrever uma estultice dessas. Não conheço um único economista que acredite em uma asneira dessas. Qualquer economista que não come feno no café da manhã sabe que o processo de desenvolvimento econômico é primeira e ultimamente governado pela evolução do nível de produtividade na economia.

“logo, os déficits em conta-corrente e a apreciação da taxa real de câmbio não são problemáticos, mas são necessários para o “desenvolvimento” do Brasil devido a nossa dependência externa.”

?!? Uh-huh... Mein gott...

(*) Efeito de más companhias?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Resposta ao Carlos

Caro "O", o senhor até agora não tocou no aspecto mais importante tratado pelo Oreiro: Crescimento causando maior taxa de poupança. Ele usa o trabalho de Modigliani como "prova" do sentido causal do crescimento para a poupança e não o contrário.

O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?

Saudações,
Carlos

Respondendo ao Carlos:

Interessante pergunta. A citação do Modigliani não configura ‘prova’, ela apenas descreve os resultados que podem ser gerados com o modelo de consumo no ciclo de vida daquele economista em sua versão mais simples e estilizada.

O modelo de ciclo de vida representou um grande avanço no entendimento de economistas sobre a determinação da poupança, mas nesta versão estilizada deixa a desejar em alguns aspectos. Por exemplo, existe evidência empírica de uma correlação positiva entre taxas de poupança e níveis de renda per capita – uma característica dos dados que não é explicada pelo modelo. Assim como existe evidência de correlação positiva entre taxas de crescimento e taxas de poupança – uma característica dos dados que pode ser racionalizada dentro do modelo de Modigliani (para a evidência empírica, veja [1]).

Quanto à questão da causalidade, tenho algumas observações:

(1) Há muito nós sabemos que existe um viés na estimação da relação entre crescimento da renda e poupança: ganhos temporários de renda (por exemplo, devido a um choque nos termos de troca) são poupados em maior medida, portanto criando a ilusão de uma conexão mais forte entre taxas de crescimento de longo prazo e taxa de poupança.

(2) Existem mecanismos que explicariam uma causalidade no outro sentido, das taxas de poupança para o crescimento. Por exemplo, em um modelo neoclássico de Solow em que o crescimento é exógeno, os níveis de renda per capita no estado estacionário são função crescente da taxa de poupança. Então economias que por algum motivo passassem a poupar permanentemente mais teriam crescimento mais rápido durante o período de transição para o estado estacionário com maior nível de renda per capita.

(3) Uma maior taxa de poupança também pode aumentar o crescimento de longo prazo via redução de vulnerabilidade a crises. Um dos resultados mais influentes da literatura recente sobre crises é um paper de Valerie Cerra e Sweta Saxena [2] que mostra que perdas de produto devido a crises financeiras são permanentes. Na medida que países com taxas de poupança mais alta são menos propensos a crises financeiras, existe uma conexão causal das taxas de poupança para o crescimento econômico.

(4) O sempre-prolífico professor Oreiro escreve “O trabalho pelo qual Franco Modigliani ganhou o Prêmio Nobel de Economia mostra que o crescimento econômico gera a sua própria poupança. Esse é um resultado eminentemente Keynesiano !!!!”. Com todo respeito, esta é uma bobagem tão grande quanto um sujeito que, após constatar que o céu é azul e o ar quente e úmido, exclama “Estamos no Rio de Janeiro!”. É perfeitamente possível que o mundo não seja keynesiano e exista uma correlação positiva entre crescimento econômico e poupança. Assim como é possível o céu azul e o ar quente e úmido em Kinshasa ou Savannah. Mas se você avistar o Pão de Açúcar, pode ter certeza que está no Rio de Janeiro... Este é um exemplo ilustrativo do problema de identificação em economia. Voltando à questão do Carlos (O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?), é muito difícil identificar a direção de causalidade entre poupança e crescimento, pois diferentes teorias plausíveis sugerem uma causalidade positiva em ambas direções.

(5) Resumindo: tanto evidência empírica quanto teoria implicam que taxas de crescimento afetam positivamente as taxas de poupança e vice-versa.

(6) Nosso país tem uma taxa de poupança bem baixa, em parte porque nossa taxa de crescimento é medíocre, mas também porque nossas políticas públicas são inconsistentes com taxas de poupança mais altas. Déficits públicos reduzem a taxa de poupança nacional; aposentadorias precoces e ricas para a elite dos servidores públicos também reduzem a taxa de poupança. Não por acaso, somos um país devedor líquido do resto do mundo e sofremos com os riscos inerentes a esta condição devedora.

Referências

[1] Norman Loayza & Klaus Schmidt-Hebbel & Luis Servén, 2000. "What Drives Private Saving Across the World?," The Review of Economics and Statistics, MIT Press, vol. 82(2), pages 165-181, May.

[2] Valerie Cerra & Sweta Chaman Saxena, 2008. "Growth Dynamics: The Myth of Economic Recovery," American Economic Review, American Economic Association, vol. 98(1), pages 439-57, March

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Oreiro o que é de Oreiro!

Acabei de visitar o blog do professor Oreiro e ele tem uma explicação convincente para o parágrafo pró-Chavez que ele escreveu: foi uma tentativa (em minha opinião, fracassada) de ironia que foi tomada fora de contexto pelo jornalista do Monitor Mercantil. Tendo sofrido no passado com citações fora de contexto por jornalistas, ofereço minha simpatia ao professor evidentemente não-chavista.

Em um outro texto (link) o ilustre professor deixa bem claro sua opinião rejeitando o modelo econômico bolivariano.

Tendo dito isto, não posso deixar de comentar as bataquadas do texto do professor hoje (link). Transcrevo e comento abaixo:

Está ficando sem graça debater (?) com os (pseudo-)ortodoxos brasileiros.

Não entendo a necessidade de rotular e o ridículo ‘pseudo’.

Os caras estão tão desesperados com a perda de espaço no debate econômico nacional e com o fato óbvio de que, ganhe Dilma ou Serra, eles estarão fora da equipe econômica do próximo governo, que resolveram subverter a longa tradição de seu próprio referencial teórico, qual seja a ênfase na análise dos resultados de longo-prazo dos processos econômicos, e se refugiam no curto-prazo (além de ataques ad hominem, os quais demonstram a existência de um certo Complexo de Édipo por parte dos expoentes menores dessa tradição de pensamento).

Essa foi boa... Primeiro o bom professor abre com uma referência pimpona às eleições e a possibilidade que competência técnica vai se tornar um estigma na seleção de economistas para a equipe do próximo governo(o que ele parece aprovar!), depois ele fecha com psicanálise de botequim citando até um suposto complexo de Édipo (creio que dirigida a mim?). Tudo isso no mesmo parágrafo em que ele acusa aqueles que em um laivo de arrogância ele enxerga como rivais de praticar ataques ad hominem!

Repitam comigo: Oy vey.

Tudo bem, vamos relevar a dissonância cognitiva, afinal é carnaval! Mas ainda no espírito festivo, vamos analisar o que o professor tem a dizer sobre economia:

Nesse contexto, os pseudo-ortodoxos brasileiros criticam os heterodoxos com base na tese de que as políticas defendidas pelos últimos são contra-producentes … no curto-prazo.

Sim, são políticas contra-producentes no curto prazo.

Com efeito, os pseudo-ortodoxos brasileiros afirmam que a política correta para obter uma desvalorização da taxa de câmbio é aumentar a taxa de poupança, quando o seu próprio referencial teórico mostra que, no equilíbrio de longo-prazo, uma taxa de poupança mais elevada estará associada, na falta de uma política deliberada de administração da taxa de câmbio como faz a China, com um câmbio mais apreciado …

Exatamente. Um aumento de poupança hoje tem o efeito inequívoco de depreciar a taxa de câmbio real e aumentar a competitividade de nossas exportações. Você discorda disso, professor Oreiro?

(...) a depreciação é apenas um efeito temporário, não sistemático, de um aumento persistente da taxa de poupança.

Non-sense, professor! Ninguém está dizendo que o efeito de um aumento permanente da taxa de poupança causa um efeito ‘não sistemático’ na taxa real de câmbio. Eu não disse isso, o Renato e o Pedro não disseram isso, nenhum economista que mereça respeito tem dito isso. Este espantalho não existe. Não existe no debate econômico brasileiro, não existe nos manuais de economia, não existe na literatura publicada em journals acadêmicos.

Desafio-o a encontrar um artigo teórico que negue o argumento que um aumento persistente na taxa de poupança -como por um exemplo uma reforma na previdência ou uma redução na taxa de crescimento dos gastos públicos – tenha o efeito de depreciar o câmbio real persistentemente.

Além disso, os pseudo-ortodoxos criticam os heterodoxos afirmando que uma política de desvalorização da taxa de câmbio teria o efeito de aumentar a participação dos lucros na renda nacional, ou seja, a concentração de renda nas mãos dos capitalistas …

Não é bem assim. Posso afirmar sem sombra de dúvida que os heterodoxos [como o Professor Oreiro] são abertamente a favor de uma política de desvalorização da taxa de câmbio porque eles entendem que isso levaria a mais concentração de renda nas mãos dos capitalistas e esse deveria ser o objetivo da política cambial (segundo os heterodoxos).

O problema é que esse resultado é apenas um efeito temporário, não persistente, da política de administração da taxa de câmbio. No longo-período ( o qual é uma sucessão de curtos-períodos, para não confundir com o longo-prazo neoclássico), o câmbio desvalorizado atua no sentido de acelerar a exportação de manufaturados, o que aumenta a produtividade do trabalho devido a lei de Kaldor-Verdoorn, o que leva, ao fim e ao cabo, a um aumento sustentado dos salários reais.

Bela ideologia, professor!

Para mim que li meu Gramsci quando ainda adolescente, não é nenhuma surpresa que exista terreno fértil no Brasil para justificativas ideológicas para o uso da política macroeconômica para concentrar a renda. Afinal, o Brasil não se tornou um dos países com renda mais concentrada do mundo por falta de intelectuais capazes de concatenar um argumento justificando mais concentração de renda (enquanto mantem uma auto-imagem de progressista).

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Carnaval do Professor Oreiro

O Rogério Ferreira me indicou mais uma pérola do Professor Oreiro, no transcrito de uma entrevista que o ilustre mestre concedeu ao Monitor Mercantil e publicou em seu blog.

‘uma taxa de câmbio mais depreciada gera (...), pelo mecanismo da distribuição funcional da renda, um aumento da taxa de poupança doméstica, produzindo, assim, o fenômeno da “substituição de poupança externa” por poupança doméstica, enfatizado por Bresser-Pereira em seus escritos.’


Vertendo do economês para o português leigo: O professor gostaria que a taxa de câmbio fosse mais depreciada para assim transferir renda da classe trabalhador (que supostamente poupa menos) para a classe capitalista (que supostamente poupa mais).

E mais (aqui tenho minhas dúvidas se ele está sendo irônico ou falando sério, afinal boçalidade geralmente tem limites):

‘Esqueçam, então, esse papo furado de aumentar a frugalidade das famílias, via reformas como a da Previdência, ou completar o ajuste fiscal. A política certa para o longo prazo é estimular as pessoas a consumir mais e os governos a gastar mais. Nesse contexto, parafraseando o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, “Hugo Chávez é o cara”. A Revolução Bolivariana é o caminho para se obter uma taxa de câmbio depreciada e competitiva no longo prazo.’

Oy vey.

Correção (15 de fevereiro de 2010, depois de pular carnaval e 'jantar' uns 2 litros de caldo verde): Este autor verificou que a citação em que o professor Oreiro parece estar elogiando a política econômica chavista é fruto do erro de um jornalista que citou um trecho irônico do professor como se representasse seu pensamento. Uma leitura atenta do blog do professor demonstra que este não nutre simpatias pelo chavismo ou as políticas macroeconômicas associadas com o caudillo venezuelano. Retiro também o marcador ‘boçalidade’ que não se aplica a este post. Mantenho entretanto a menção a ‘políticas públicas visando a concentração de renda no Brasil’.