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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Nassif, de novo

Voltando a um tema de alguns meses atrás:

A firma Dinheiro Vivo, do patriota Luis Nassif, é dispensada de licitação e vende seus serviços à Petrobrás de julho de 2010 até fevereiro de 2011 por módicos... 880 mil reais! (contrato # 4600312034).

Não podemos deixar este assunto morrer.

Agora para terminar o ano bem, com um senso de dever cumprido, vale lembrar este clássico de Diogo Mainardi:

Nassif, o banana

“Luis Nassif foi demitido da Folha pela suspeita de ter usado seus artigos no jornal para achacar o governo de Geraldo Alckmin. Falei sobre o episódio com o diretor da Folha. Ele confirmou. Com a carreira arruinada, Luis Nassif refugiou-se na internet, como Mengele em Bertioga”

Eu sou lobista de Daniel Dantas. É o que diz o blogueiro Luis Nassif. Como foi que eu ajudei Daniel Dantas? Acusando-o de ter financiado Lula. E também acusando Naji Nahas de ter financiado Lula. O fato de eu ter publicado uma série de documentos judiciais sobre Naji Nahas e a Telecom Italia me incrimina, segundo Luis Nassif. Entende-se: em meu lugar, ele teria picotado e obedientemente engolido esses documentos, que denunciam as ilegalidades cometidas pela empresa e pelo governo. Quem patrocina o site de Luis Nassif? A Telecom Italia. Quem impediu que ele falisse e perdesse até as cuecas? O BNDES.

Eu já ridicularizei Luis Nassif três anos atrás, demonstrando que ele reproduziu integralmente em sua coluna a nota de um lobista ligado a Luiz Gushiken. Ele foi demitido da Folha de S.Paulo pouco tempo depois, por causa de um fato ainda mais nauseabundo: a suspeita de ter usado seus artigos no jornal para achacar o governo de Geraldo Alckmin. Em 2004, Luis Nassif convidou o secretário Saulo de Castro para um fórum de debates organizado por sua empresa, Dinheiro Vivo. O detalhe sórdido era o seguinte: para o secretário poder participar do evento, o governo paulista teria de desembolsar 50.000 reais. Saulo de Castro negou o pedido.

Em 2005, Luis Nassif voltou à carga, cobrando uma tarifa ligeiramente mais modesta, de 35.000 reais. A assessora de Saulo de Castro mandou um e-mail para o chefe com este comentário: “Não é à toa que a empresa se chama Dinheiro Vivo”. Saulo de Castro negou o pedido mais uma vez. Luis Nassif decidiu retaliar. Em sua coluna, passou a atacar sistematicamente o governo Alckmin, em particular o secretário Saulo de Castro. Quando o diretor da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, foi informado das suspeitas em torno de Luis Nassif, demitiu-o imediatamente. Nesta semana, falei sobre o episódio com Otavio Frias Filho. Ele confirmou.

Com a carreira no jornalismo arruinada, Luis Nassif refugiou-se na internet, onde seu passado era desconhecido, como o de Mengele em Bertioga. O bando de Luiz Gushiken arranjou-lhe uma sinecura no iG. Enquanto fazia um blog para meia dúzia de leitores, ele era obrigado a escapar de seus credores no BNDES, que queriam penhorar seus carros e apartamentos para tentar recuperar uma parte do rombo de 4 milhões de reais da Dinheiro Vivo. No fim de 2007, depois de um misterioso encontro com a diretoria do BNDES, ele conseguiu fechar um acordo judicial altamente lesivo para o banco, que lhe garantiu os seguintes mimos: o abatimento de 1 milhão de reais de sua dívida, o prazo de dez anos para saldá-la, a retirada de todas as garantias para o pagamento do empréstimo e a dispensa de uma multa de 300.000 reais. Algumas semanas depois, ele retribuiu a generosidade estatal usando o único método que conhece: uma campanha de mentiras descaradas contra mim e contra VEJA, tidos como inimigos do governo.

Luis Nassif é um banana. Ninguém dá bola para ele. Por isso mesmo, minha idéia era persegui-lo apenas judicialmente. De fato, estou processando o iG. Tenho uma tonelada de mensagens, documentos e testemunhas que desmoralizam toda a imundície publicada em seu blog. Mas suas calúnias ganharam outro peso depois que Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos. Claramente, o pessoal que o emprega está preocupado com o rumo que esse inquérito pode tomar. Há um empenho para impedir que os dois sejam associados a Lula, como eu sempre fiz. Quando Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos, eu comemorei. Luis Nassif deve ter pensado em todos os documentos que terá de picotar e engolir. E em todos os patrocinadores que poderá ganhar.

Silogismo

MANTEGA:QUEM DUVIDA SOBRE CUMPRIMENTO DE SUPERÁVIT NÃO ENTENDE NADA

São Paulo, 10 - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, rebateu há pouco declarações de fontes ligadas ao governo federal de que o Brasil corre o risco de não cumprir a meta de superávit primário para este ano. De acordo com ele, quem fez a análise "se equivocou redondamente". "Porque o responsável por isso sou eu. E eu estou te falando que nós vamos cumprir a meta rigorosamente este ano. E nós próximos anos, enquanto eu estiver à frente do Ministério da Fazenda", disse o ministro, acrescentando que sempre cumpriu as metas fiscais.

"Só em 2009 pedimos autorização ao Congresso e diminuímos a meta por causa da crise, porque nós tínhamos que atuar e o mundo inteiro fez isso. E, neste ano, nós vamos cumprir a meta e cheia, ou seja, sem abater o PAC que poderíamos abater, que a lei nos permite, mas nós não vamos abater", disse o ministro. "Então, quem falou isso, não sabe, não entende de contas públicas, você pode me cobrar quando terminar o ano, se fizemos ou não fizemos. Eu aposto com você e com quem quiser uma garrafa de vinho, ou uma caixa, mas tem de ser um vinho bom. Eu vou usar no Réveillon", acrescentou.

(Francisco Carlos de Assis)

Brasília, 28 - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, recuou, admitindo pela primeira vez a possibilidade de não cumprimento da meta cheia de superávit primário das contas do setor público em 2010, de 3,1% do PIB. "Estamos trabalhando para o governo (Central) cumprir a meta cheia, mas há algumas dificuldades para Estados e municípios. A União vai cumprir os 2,25%, mas não sei se serão atingidos os 3,1%", afirmou há pouco na portaria do Ministério da Fazenda.

* * *

E meus agradecimentos especiais ao Alessandro Drago, que selecionou os trechos acima.

Silo... o quê?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vladimir Safatle: produto de um sistema educacional falido

Eu costumo ter uma paciência de Jó quando leio as obras de nossos “cientistas humanos,” pelo mesmo motivo que não fico impaciente quando meu cachorro se recusa a ler a bíblia. Mas paciência é finita, enquanto a capacidade de zurrar asneiras de algumas bestas que se passam por intelectuais pode ser infinita. Então vou dedicar algumas linhas para aquele que talvez seja o maior charlatão posador em atividade no Brasil.

Veja o que o metrequefe intelectual do Vladimir Safatle escreveu na Folha de hoje:

Virou lugar comum usar a Coréia do Sul como modelo de desenvolvimento educacional. (...) para alguns, seria ótimo imitar o modelo de um país que, no fundo, nem sequer conhece o que é pesquisa em ciências humanas e não tem sequer um pólo real de influência em várias áreas do saber. Pois tais pessoas não acreditam que “educação” seja o nome que damos para um processo de formação do pensamento crítico, de desenvolvimento da criatividade e da força de mudança, de consolidação da capacidade de se indignar moralmente, de refletir sobre a vida social e de compreender reflexivamente as múltiplas tradições que nos geraram. (...) Para elas, “educação” é só o nome que damos ao processo de formação de mão de obra para empregos precários e mal pagos. Mesmo do ponto de vista do desenvolvimento social, tal escolha é catastrófica.

Mein gott, Camarada Safatle.

Primeiro, a hipérbole final sobre a catástrofe é patética. O resultado de qualquer política educacional coreana – a qual você claramente desconhece – não foi catastrófico, como o próprio sucesso econômico e de desenvolvimento social da Coréia do Sul atesta. Na pior das hipóteses, o modelo educacional coreano não evitou que aquele país agrário, cheio de homens raquíticos e destruído pela guerra se tornasse rico, saudável e industrializado

Segundo, o papo furado de desenvolvimento da criatividade e força de mudança é isso, papo furado. A Coréia do Sul se reinventou de país agrário para país de economia avançada em duas gerações. Se criatividade e força de mudança fossem algo que eles não tinham (uma idéia despudoradamente ridícula), tudo que o sucesso coreano provaria é a desnecessidade daquilo que Safatle define como criatividade. Ainda mais se lembrarmos que somos do Brasil, um dos países de produção cultural mais pífia do mundo, onde até o texto de dar vergonha do Chico Buarque merece prêmios literários.

Terceiro, o mesmo vale para a pesquisa em ciências humanas. Se os coreanos não sabem de ciências humanas e ainda assim conseguiram se tornar mais ricos, mais educados, mais lidos, mais saudáveis, mais altos, mais longevos que os brasileiros, isto é uma condenação de nossa atenção a meu ver excessiva às ciências humanas, não do modelo coreano.

Mas o mais bizarro é que apesar de também lançar sua rabugice desinformada e estereotipada contra o status quo brasileiro, o Professor Safatle não explica quais são as bases do modelo coreano nem menciona o que seria seu modelo ideal. Meu cinismo me sugere que seu artigo não foi escrito para defender um modelo educacional para o Brasil, mas sim o status quo do quinhão do FFLCH na divisão de verbas da universidade.

Por exemplo: é possível saber que importância o professor quer dar para considerações de equidade na educação brasileira? E qual sua opinião sobre a regulação das escolas privadas? Bem, em um universo alternativo em que o professor Safatle é um intelectual honesto que tenta aprender sobre o que escreve antes de escrever, ele se sentiria obrigado a mencionar que o conceito de equidade é central ao sistema educacional coreano (em total oposição ao nosso sistema), e que o sistema educacional coreano por décadas praticamente aboliu por meio de regulação a possibilidade que a elite econômica pudesse se perpetuar por meio de acesso a escolas privadas diferenciadas.


O Professor Safatle (acima) gostaria de privilegiar uma educação que consolida a capacidade de se indignar moralmente – talvez para compensar o déficit de indignação moral daqueles que o batizaram?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Faça a coisa certa

Na semana passada foi divulgada a taxa de desemprego relativa a novembro, 5,7%, a menor da série iniciada em 2002. Mesmo ajustando o dado à sazonalidade favorável do período, o desemprego teria caído para pouco mais de 6%, ainda o mínimo histórico. A despeito do crescimento mais lento da produção no terceiro trimestre deste ano, o mercado de trabalho continua a registrar ganhos, o que, dado o alto custo associado à demissão e contratação de trabalhadores no país, sinaliza um setor empresarial bastante otimista acerca da produção futura, disposto a incorrer em tais custos.

Não são apenas as empresas que parecem otimistas. Um dado notável é o aumento da proporção da população em idade ativa engajada no mercado de trabalho, que tem ficado sistematicamente acima da média histórica, impedindo, inclusive, queda ainda mais rápida do desemprego (que, sem este efeito, teria registrado 4,9% no mês passado, ou 5,6% sazonalmente ajustado).

No entanto, não é só o otimismo que leva estas pessoas ao mercado; também o crescimento dos salários conduz à elevação da quantidade ofertada de trabalho. Apesar da aceleração da inflação, o rendimento médio real estimado pelo IBGE aumentou quase 8,5% no ano até novembro, fato que deve ter desempenhado papel importante na ampliação da oferta.

Não há, contudo, indicação que o aumento da produtividade do trabalho no Brasil tenha sido próximo a este valor (considerando que o PIB deverá crescer pouco menos de 8% este ano, um aumento de produtividade de 8,5% requereria queda do emprego no país, fenômeno bem diferente do que acabamos de descrever). Vale dizer, este aumento deve obrigatoriamente ter se transformado em aumento do custo unitário do trabalho.

Obviamente, nos setores sujeitos à competição internacional, a capacidade de repasse desses custos fica limitada pelo desempenho da taxa de câmbio. Não por outro motivo, apesar da demanda forte, a inflação de bens duráveis atingiu meros 0,8% no ano (segundo o IPCA-15).

Por outro lado, onde a competição externa não alcança, o desempenho é muito distinto: a inflação de serviços, não por acaso, registra 7,6% nos últimos 12 meses, mostrando aceleração quase ininterrupta desde o começo do ano.

Não falta, é claro, quem veja neste fenômeno algo da “inflação estrutural” analisada pelo meu colega de coluna Mário Mesquita na quarta passada, contra a qual nada se poderia fazer, o que, segue o argumento, justificaria uma postura relaxada do Banco Central a respeito. Mas isto só seria verdade se: (a) o aumento de salário não estivesse refletindo o aperto do mercado de trabalho; e (b) o aumento do preços dos serviços não estivesse refletindo, por sua vez, a elevação dos preços do seu principal insumo (mão-de-obra). Nenhuma destas condições, porém, encontra amparo na evidência disponível.

A rigor, ademais, uma postura relaxada do Banco Central só tende a ampliar o problema. Em algum grau, as demandas salariais hoje refletem a inflação esperada, pois, durante o período em que os salários estão fixos, é a inflação futura que determinará seu poder de compra. Assim, caso o BC seja percebido como leniente com respeito à inflação, as demandas salariais (e a inflação de serviços) se aceleram imediatamente. A este respeito note-se que as expectativas de inflação têm se descolado bastante da meta, em contraste com o observado no período de 2005 para cá (exceção feita ao ano da crise e da forte desvalorização cambial).

Não cabe, portanto, ao BC cruzar os braços na crença que nada pode fazer para conter a inflação, nem passar ao setor privado a mensagem que a convergência só ocorrerá em prazos muito mais longos, o que justificaria maiores reajustes agora. O próprio BC sugere que ainda há tempo para fazer a inflação voltar à meta em 2011, mas isto não ocorrerá sem que se faça o que deve ser feito.

(Publicado 22/Dez/2010)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Two minutes in heaven are better than one minute in heaven



It is business time!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vergonha

Minha primeira reação à defesa de tese do Mercadante foi, confesso, de escárnio. Pensei: “se restava ainda alguma dúvida que um doutorado em Economia [corrigi depois que fui alertado] pela Unicamp e nada fossem a mesma coisa, o senador a dirimiu e, com isso, finalmente fez alguma coisa servindo ao interesse público”.

Entretanto, a conclusão lógica é bem pior do que minha afirmação (não que ela deixe de ser verdadeira, longe disso). A rigor, se ele conseguiu o título de doutor em Economia “defendendo” uma tese que consiste numa inédita homenagem à sabujice, para que vale o título mesmo?

A mensagem (apropriada para que demonstra tamanha subserviência a um presidente que, sempre que pode, louva sua própria falta de educação) é simples e direta: todos vocês que ralaram para completar seus doutorados, passando noites em claro, conciliando (como vi de perto) a necessidade de trabalhar com a ambição de terminar uma tese, são uns otários.

Basta colocar no papel uns tantos elogios ao governante de plantão, juntar meia dúzia de compadres dispostos a participar da farsa, achar um departamento que se sujeite a este tipo de coisa e, parabéns, você é o mais novo doutor em Economia do Brasil, sem ter feito qualquer, minúscula, mísera migalha de contribuição para o desenvolvimento da ciência. De quebra, desmoralizou um título que muita gente boa teve que trabalhar duro para conquistar.

Talvez dê para descer um pouco mais, mas, sinceramente, vão ter que se esforçar.

O grande momento da defesa (e sem se pendurar no saco!)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Holland de Brito, a obra (parte 1)

A tarefa do dia é decifrar o que se passa na cabeça do Professor Márcio Holland de Brito, o novo secretário de política econômica de Mantega.

Como eu sei menos do que gostaria, fui ao IDEAS procurar por suas publicações e artigos. A publicação mais recente é esta:

Luiz Carlos Bresser-Pereira & Marcio Holland, 2009. "Common currency and economic integration in Mercosul," Journal of Post Keynesian Economics, M.E. Sharpe, Inc., vol. 32(2), pages 213-234, December.

... cujo abstrato diz o seguinte: “Latin America has a long history of attempts to achieve regional integration, yet success has been modest. This paper contends that this is essentially due not so much to protectionist practices in the various countries, but to the lack of a common currency or, at least, of a tightly managed exchange rate band. We reviewed the optimum currency area criteria that indicate it is prudent to increase economic integration before attempting to establish exchange rates coordination. It seems fair to say that diminishing exchange rate instability could encourage trade and investment flows across Latin American economies. We also performed a very simplified exercise to understand how feasible efforts would be between policymakers in two large economies (Brazil and Argentina) to achieve exchange rate parity stability and step toward adopting a common currency.”

Perguntem-se a si mesmos: se o Professor Bresser Pereira, o gênio renascentista da Nove de Julho, lhes convidassem a escrever um artigo sobre uma proposta de moeda comum para o Mercosul, vocês (a) aceitariam; (b) teriam um ataque de riso; (c) ou ouviriam pacientemente para depois esquecer do assunto?

Devido à sua afiliação profissional, o Professor Holland de Brito tem boas razões para não escolher a alternativa (b). Mas que ele tenha escolhido a alternativa (a) sobre a (c) diz quase tudo que nós precisamos saber para esboçar o perfil psicológico do sujeito e inferir sua capacidade de influenciar política econômica proativamente e independentemente.

O Mantega de fato escolheu-o a dedo.

Preciso colorir?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nunca antes na história deste país...

Como todos sabemos, por 500 anos o Brasil foi tratado como um país sem futuro pelos países ricos, nunca tendo sido governado por um homem do povo ou um civil nordestino.

Na revista Time de 6 de dezembro de 1954:

Na chamada da capa: The New President of the World's Biggest Republic

The Brazilian dream is made of more than dream stuff. Brazil is indeed a giant.

... In area (3,287,842 sq. mi.) it is the world's biggest republic, big as the U.S. with a second Texas thrown in.

... a new breed of Brazilian businessmen is changing the face of the land with a zeal unmatched in all of Latin America.

... in Brazil there was one big difference: the first stirring of new hope in a new leader, a man who symbolizes a break with a troubled past and a promise of a brighter today—President Joao Café Filho.

... Joao Fernandes de Campos Cafe Filho was the son of a low-rung civil servant in the state of Rio Grande de Norte's finance department. In those days an imaginary social-economic boundary divided the state capital of Natal (turn-of-the-century pop. 16,000) into two distinct dietary sections. On the lower ground, near the sea, lived the canguleiros, the poorer people who ate a cheap fish called the cangulo; on the higher ground lived the more prosperous xarias', who could afford to eat a more succulent fish called the xareu. The part-Indian Cafes were canguleiros.

...At 13, Joao finished up at the Porter school, went on to Natal's public high school. Recalls one of his old teachers: "He was a restless, unruly, rebellious boy with a strong dislike for study. I never dreamed he would amount to anything." Restless Joao never finished high school.

...Since war's end, Brazil's gross national product has increased at a rate of 6% a year, keeping well ahead of population growth (2.3% a year).

Jesse James, Bruce Springsteen

Não consigo mais parar de ouvir o CD do Bruce Springsteen ao vivo em Dublin.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Noel Rosa - Gago Apaixonado

Centenário do nascimento de Noel: não posso deixar passar em branco.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Para entender a “guerra cambial”

Como saber se um país está “manipulando” sua taxa de câmbio? Em tese, bastaria comparar a taxa observada àquela que deveria prevalecer em equilíbrio. Caso a taxa observada permaneça sistematicamente mais fraca do que o indicado pela taxa de equilíbrio, há bons motivos para acreditar que o país em questão está distorcendo o valor da sua moeda. O único (e nada trivial) problema consiste em determinar a taxa de câmbio de equilíbrio, mas a teoria econômica pode nos dar algumas pistas a respeito.

Em termos teóricos, esta taxa ideal é aquela congruente com o equilíbrio interno e externo de um dado país. Por equilíbrio doméstico vamos entender uma situação na qual o produto da economia esteja próximo ao seu potencial e, portanto, que a inflação também se encontre ao redor da meta.

Há, porém, várias combinações consistentes com esta situação. Se, por exemplo, a demanda interna estiver muito fraca, tal fraqueza poderia ser compensada por uma taxa de câmbio bastante desvalorizada, que produzisse uma demanda externa forte, mantendo a economia próxima ao seu potencial. Da mesma forma, uma taxa de câmbio mais forte, que levasse à redução das exportações (líquidas das importações), poderia ser compensada por uma demanda doméstica mais aquecida.

A manutenção do equilíbrio doméstico nos termos acima definidos implica, de maneira geral, uma relação direta entre a taxa de câmbio e o ritmo de expansão da demanda interna: a demanda forte requer uma taxa de câmbio forte para manter a economia operando sem pressões inflacionárias, enquanto a fraqueza da demanda doméstica precisa ser compensada com uma taxa de câmbio fraca para evitar a deflação. Se, porém, a demanda estiver forte com o câmbio fraco, a inflação ficará acima da meta, isto é, em desequilíbrio interno.

A definição do equilíbrio externo é um pouco mais complicada. Em princípio seria um nível do déficit externo considerado “sustentável”. A dificuldade aqui é a noção de “sustentável”, que pode (e deve) significar coisas diferentes em momentos (ou países) distintos. Para fins da presente discussão, aceitemos que o equilíbrio seja um saldo externo zerado, sem, como veremos, grande perda de generalidade.

Imagine, pois, um país em que a demanda interna cresça vigorosamente, requerendo um aumento das importações além das exportações. Para manter as contas externas equilibradas, a taxa de câmbio tem que se desvalorizar. Da mesma forma, se a demanda interna fraqueja, a taxa de câmbio pode se apreciar sem prejuízo à manutenção do saldo zerado. A relação neste caso é inversa à observada no anterior: para manter o equilíbrio externo uma economia forte precisa de câmbio fraco e vice-versa. Assim, se observarmos demanda fraca acompanhada de câmbio desvalorizado, o balanço de pagamentos mostrará superávit, revelando desequilíbrio externo.

 Na China observamos simultaneamente tensões inflacionárias e grandes superávits externos, duas características do câmbio demasiadamente depreciado. Caso permitisse que a taxa de câmbio se apreciasse, tanto a inflação quanto os saldos externos cairiam, trazendo a economia para o equilíbrio. Por outro lado, os EUA, que enfrentam riscos de deflação no contexto de déficits externos, apresentam uma taxa de câmbio excessivamente apreciada, requerendo um dólar mais fraco para retornar ao equilíbrio.

Entretanto, enquanto o dólar flutua (e se deprecia), o yuan é fixo com relação a esta moeda, de modo que sua correção só se dá (lentamente) pela aceleração da inflação interna, exigindo uma desvalorização ainda maior do dólar face às demais moedas. Se há, portanto, algo de artificial é a fixação da taxa de câmbio chinesa, atitude alegremente aceita pelas mesmas autoridades que acusam os EUA de fomentar uma “guerra cambial”, revelando incompreensão assustadora de um assunto tão relevante.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Hans Rosling's 200 Countries, 200 Years, 4 Minutes - The Joy of Stats - ...

Dica do Mankiw...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Uma proposta modesta

A proposta (a rigor um balão de ensaio, como de praxe) do ministro da Fazenda – definir um novo índice de preços, o IPCA sem alimentos e combustíveis, como meta para a política monetária – tem sido atacada como mais um casuísmo para, pretensamente, ganhar espaço para uma redução artificial da taxa de juros. Trata-se de uma injustiça inominável: a valer a experiência recente, caso tivesse sido adotada, esta nova definição do índice referencial para o regime de metas teria, pelo contrário, impedido a queda mais acentuada da taxa de juros no Brasil. Assim, me parece que, ao propor a nova medida, o ministro quis, na verdade, se mostrar ainda mais severo no combate à inflação do que o próprio Banco Central.

É bom que se diga que a ideia em si, se não presenciou o Dilúvio, certamente pisou na lama. Desde a adoção do regime de metas no país tem havido uma discussão profunda sobre os prós e contras da definição de um índice para a meta de inflação que fosse menos sujeito às variações acidentais de preços do que o IPCA “cheio”. Não por acaso, ainda nos primeiros anos de vigência do regime o Banco Central definiu três medidas distintas do “núcleo” de inflação (o núcleo por exclusão de alimentos e preços administrados, o núcleo por médias aparadas, e o núcleo por médias aparadas com suavização de preços administrados), precisamente para obter uma visão do processo inflacionário que refletisse de forma mais clara os desequilíbrios entre demanda e oferta agregadas.

Mais recentemente, às três medidas originais o Banco Central adicionou duas novas definições, aumentando seu arsenal analítico: o IPCA-EX (que exclui do cálculo alguns bens e serviços mais voláteis) e o IPCA-DP (que modifica os pesos do índice, reduzindo aqueles associados a produtos cujos preços que apresentem maior volatilidade).

Realçando, pois, obsessão nacional com a inflação, hoje temos nada menos que cinco medidas de núcleo, além dos oito índices normalmente divulgados (14 vezes) ao longo de um mês, já descontando os menos famosos, assim como algumas medidas locais. Não que nós, economistas que ganham a vida acompanhando minuciosamente cada divulgação, estejamos reclamando, mas eu não descartaria a possibilidade de haver certo exagero na coisa.

De volta, porém, à vaca fria, como teria se comportado um índice de preços que excluísse o preço de alimentos (no domicílio) e combustíveis nos últimos anos? O gráfico mostra o comportamento desta medida relativamente ao IPCA “cheio” de 2004 para cá, revelando que, à exceção de período de meados de 2007 ao segundo trimestre de 2009, o IPCA sem alimentos e combustíveis acumulado em 12 meses superou o índice “cheio”. De fato, este fenômeno ocorreu em cerca de 70% das observações naquele período.


Fonte: IBGE

Mais grave, porém, é que, ao contrário do índice “cheio”, que ficou pouco abaixo da meta nos últimos meses de 2009, justificando a política monetária praticada pelo BC, o IPCA ex-alimentos e combustíveis ficou persistentemente acima dela. Vale dizer, a redução da taxa de juros ocorrida em 2009 não teria acontecido caso a meta tivesse sido definida nos termos defendidos hoje pelo ministro. Se restava ainda alguma dúvida acerca de sua severidade inabalável no trato com a inflação, creio que esta proposta seja suficiente para dispersá-la.

Isto dito, é possível argumentar que, além dos preços dos alimentos em casa, deveríamos também deduzir os preços dos alimentos consumidos fora do domicílio, mas isto não alteraria muito as conclusões. Concretamente, ao invés de uma medida de inflação que supera o IPCA “cheio” em quase 70% das observações, teríamos uma medida que faz isto apenas 63% dos casos.

Ademais, a alimentação fora do domicílio apresenta uma dinâmica muito diferente da alimentação em casa. Não é incomum, por exemplo, observarmos valores muito baixos para a inflação de alimentos no domicílio (0,59% em 2005, -0,13% em 2006, e 0,88% em 2009) acompanhada de observações bastante distintas fora do domicílio (6,90%, 5,92% e 7,75% respectivamente), revelando que a alimentação fora do domicílio apresenta características mais próximas à inflação de serviços, incluindo o hábito condenável de se manter invariavelmente acima da meta.

Nem tudo está perdido, porém. Se o que precisamos é de uma medida de inflação que justifique juro baixo, não faltam candidatas. Minha favorita é parente (distante) do núcleo por médias aparadas. Enquanto este descarta as variações exageradas para cima e para baixo, o núcleo por altas aparadas excluirá tudo o que sobe num determinado mês. No caso bastante provável (se tal medida for adotada) em que todos os preços subam, o núcleo será necessariamente zero.

Com isto garantimos inflação e juros baixos e, de quebra, uma passagem só de ida para Buenos Aires. Não é bem mais vantajoso que o rigor antiinflacionário do ministro?


Aqui não vejo inflação alguma
 (Publicado 2/Dez/2010)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A dolorosa

Há algumas semanas Alexandre Marinis me chamou a atenção para um assunto até então pouco notado: o peso crescente das receitas extra-fiscais (dividendos de empresas estatais e receitas de concessões) na constituição dos superávits primários do governo federal. Mesmo relevando o caso mais patológico nesta área (os R$ 32 bilhões associados à “venda” de direitos de exploração de petróleo), tais receitas, que representavam algo como 14% do superávit médio no período 2003-2008, saltaram para 46% do saldo entre 2008 e 2010. Medidas a preços constantes de setembro deste ano cresceram de cerca R$ 10 bilhões em meados de 2008 para R$ 28 bilhões nos últimos 12 meses.

Esta evolução revela um segredo de Polichinelo: o esforço fiscal, em particular do governo federal, vem caindo consistentemente. Retirando as receitas extra-fiscais do cálculo do saldo primário, assim como despesas extra-fiscais (o depósito no Fundo Soberano em 2008, por exemplo), estimamos que o superávit federal tenha se reduzido de uma média equivalente a 2% do PIB entre 2002 e 2008 para pouco menos de 0,5% do PIB nos últimos dois anos. Se, com algum esforço de imaginação e muita boa-vontade, era possível fingir que a piora de 2009 devia-se à atuação contracíclica do governo, o desempenho de 2010 não deixa dúvidas que enfrentamos uma expansão fiscal persistente e considerável, da ordem de 1,5% do PIB.

Obviamente não faltará quem justifique que receitas são receitas, não interessa se sua origem seja tributária ou proveniente de fontes extra-fiscais, mas há problemas nada triviais com este argumento. É verdade que, no sentido de controlar a expansão da dívida relativamente ao PIB, qualquer trocado ajuda, mas a discussão de política fiscal no Brasil já passou deste estágio; debatemos hoje se a política fiscal auxilia o controle da demanda, reduzindo a pressão sobre a taxa de juros, ou se, pelo contrário, é fator adicional sobre esta variável.

Neste aspecto, não deveria restar dúvida que a natureza destas receitas é distinta da tributação. A começar porque receitas de concessões são eventos não-recorrentes, mais semelhantes à venda das joias da família do que uma fonte de rendimento constante. Assim como não é difícil concluir que uma família que venda seus bens para financiar seu consumo corrente irá inevitavelmente passar por dificuldades, também um governo que financie gastos adicionais pela venda de seus ativos irá, cedo ou tarde, enfrentar o momento da verdade.

Já no caso de dividendos, é bom lembrar que ao aumento do caixa do Tesouro corresponde uma redução do caixa das empresas públicas, ou seja, no setor público como um todo o efeito é nulo (ou negativo, pois há acionistas minoritários). Adicionalmente, parcela considerável do aumento dos dividendos recebidos pelo Tesouro resulta de operações cujo efeito fiscal é, na verdade, negativo.

Imagine, por exemplo, que eu compre uma mercadoria por R$ 10 e a venda a meu filho por R$ 6, que, por sua vez, a revende por R$ 7, me pagando R$ 1 como dividendo. No final das contas, mesmo com o dividendo, o prejuízo é de R$ 3. Esta operação pode parecer estranha, mas trata-se de descrição estilizada da origem dos dividendos pagos pelo BNDES ao Tesouro, financiados, em última análise por subsídios do próprio Tesouro. A diferença é que estes últimos não aparecem nas contas primárias, enquanto os dividendos sim, isto é, temos uma piora fiscal (R$ 3, no meu exemplo), disfarçada como melhora do saldo primário (R$ 1).

Resumindo, por trás das pirotecnias contábeis há uma piora apreciável das contas públicas, equivalente a 1,5% do PIB, cujo impacto esperado, segundo estimativas recentemente compiladas pelo Banco Central, seria de 0,5% sobre a inflação e 1,5% ao ano sobre a Selic.

Podemos fingir o quanto quisermos, mas, cedo ou tarde, a conta sempre chega.

(Publicado 24/Nov/2010)

Valores em muitos bilhões

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Paul

Estou no show! Beatles 4ever!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Anais da idiocracia, versão ANPEC 2010

Quando eu folheio o programa da ANPEC desse ano, tenho a sensação de estar acordando no Groundhog Day em Punxsutawney, Pennsylvania. Ano após ano, as mesmas figuras tristes apresentam os mesmos papers, pa-ta-ti pa-ta-tá...

Nenhuma surpresa. Os professores Paulo Gala, Eliana Araujo e Luiz Carlos Bresser-Pereira rodaram uma regressão da taxa de poupança privada no PIB e ao encontrarem uma função de resposta ao impulso consistente com a poupança privada aumentando em resposta a choques positivos no PIB e concluiram (obviamente...) que isso seria evidência que um Real mais fraco causaria um aumento na poupança do setor privado (**)

Já os professores André Nassif (que família!), Carmem Feijó e Marco Antônio Silveira de Almeida fizeram uma ampla resenha da literatura sobre desalinhamento cambial... que aparentemente não entenderam... e produziram uma mega-pérola para os anais da análise econométrica abestada. O trio rodou uma regressão da taxa de câmbio real em um monte de variável endógena (saldo de conta corrente entre elas!) e achou por bem tratar o resíduo da regressão como uma medida de desalinhamento cambial. Por exemplo, examinando a Figura 2 do artigo, o câmbio real estaria uns 15% mais forte que seu ponto de equilíbrio em 2006 enquanto que na média de 2009, estaria bem perto do equilíbrio. Não obstante, o dream team concluiu que há uma tendência à sobre-valorização do Real porque os resíduos da regressão seriam negativos 55% do tempo... Uau! Os professores não fizeram econometria na graduação?

Bem, vou parar por aqui. Nem vou mencionar o artigo do Professor Costa Oreiro e comensais elogiando o modelo de boom de crédito dos últimos 5 anos. Isso mesmo, o mesmo Professor Costa Oreiro que se preocupa com o câmbio apreciado diz oba-oba para o boom de crédito... Como diz Nhô Zaqui, o judeu de Piracicaba: “oy véio”.

(**) Sério. É isso mesmo que eles fizeram, se você leu o artigo deles e não consegue ver isso, é porque existe um risco que você seja um deles.

Freak, moi? Eu sei até cointegrar!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando eu achava que já havia visto tudo...

A primeira fala da presidente-eleita Dilma para o público mundial – na capa do Wall Street Journal desta terça-feira:
“The last time there was a competitive devaluation of currencies it ended up where it did, in the Second World War.”

Impressionante.

sábado, 13 de novembro de 2010

Esporte chinês

Este foi o melhor de uma série de comerciais politicamente incorretos de um canal de TV a cabo especializado em esportes com um foco regional nos EUA. Tem também uma versão da Turquia, India, Rússia etc.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Grey Street

Faz tempo que eu não posto DMB.

Kiwi tuu

QE2 (pronuncia-se “kiwi tuu”), como ficou conhecida, é a nova tentativa do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de impulsionar a economia dos EUA após sinais de perda de fôlego da recuperação. Concretamente consiste na compra de mais US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro americano, de preferência com prazo entre 5 e 6 anos, de modo a reduzir as taxas de juros dos títulos daquela maturidade.

Em condições normais não é exatamente assim que se opera a política monetária. Na prática, bancos centrais preferem agir diretamente sobre a taxa de juros – quase sempre a taxa overnight (aplicável a empréstimos de um dia) – comprometendo-se a emprestar e tomar emprestados recursos à taxa meta determinada pelos seus comitês de política monetária, isto é, pela compra (ou venda) ilimitada de títulos à taxa meta.

No entanto, o Fed já reduziu a taxa de juros overnight para praticamente zero e é impossível reduzi-la ainda mais. De fato, se um título fosse remunerado a taxas nominais negativas, seus detentores sempre poderiam trocá-los por notas de dinheiro, cujo retorno (zero) seria superior.

A ocorrência de juro zero, ainda que rara, não é inédita: aconteceu durante a Grande Depressão e, mais recentemente, tornou-se característica da longa crise japonesa. Passou a ser, desde então, objeto de estudos por parte de economistas monetários, entre eles o atual presidente do Fed, Ben Bernanke. Em 2002, já no Fed, embora não como seu presidente, Bernanke, numa palestra famosa, sugeriu os passos que deveriam ser seguidos para contornar o problema caso ele viesse (como afinal veio) a se manifestar.

Dizia então que o Fed poderia estender para maturidades mais longas os mesmos procedimentos que usa para fixar a taxa de juros de um dia, isto é, se comprometer a comprar ilimitadamente títulos de, digamos, 5 anos, para fixar seu rendimento. A bem da verdade, o Fed não foi tão longe na decisão da semana passada, anunciando, em princípio, que sua intervenção está limitada a US$ 600 bilhões até junho de 2011 (que, somados ao reinvestimento dos títulos a vencer, representam compras de aproximadamente US$ 900 bilhões).

Ainda assim, mesmo antes do anúncio da decisão, as taxas de juros dos papéis mais longos se reduziram nos últimos dois meses: houve uma queda próxima a 0,50% ao ano no caso dos títulos de 5 anos. Em outras circunstâncias isto representaria um impulso considerável à demanda interna.

No entanto, não vivemos em condições normais (fosse o caso, não estaríamos discutindo QE2) e restam dúvidas sérias acerca da disposição de consumidores e empresas americanas em elevar seus gastos, mesmo com taxas de juros mais baixas, isto para não mencionar a pouca disposição dos bancos (ainda fragilizados) no sentido de aumentar a disponibilidade de crédito. Em outras palavras, há chances consideráveis de que esta estratégia não funcione, isto é, que a trajetória da economia com QE2 seja muito similar à que ocorreria na ausência de QE2.

Isto dito, deve ser claro que, nas atuais circunstâncias, trata-se de um risco que o Fed tem que correr. Com efeito, o risco maior é o de pecar por omissão e permitir que a fraqueza hoje existente se transforme no temido “segundo mergulho”, que poderia levar os EUA ao território deflacionário, com conseqüências sérias para a economia mundial.

À luz disto, só a obsessão equivocada com a taxa de câmbio real-dólar (deixando de lado todas as demais moedas contra as quais o real se depreciou) poderia explicar a reação de certas autoridades. Ignorando que QE2 é uma tentativa de acelerar a demanda interna, tal mania os leva a interpretá-la como uma estratégia para desvalorizar o dólar (numa economia em que exportações representam meros 12% do PIB!), enquanto engolem placidamente práticas bem mais deletérias por parte de outros países da China.

(Publicado 10/Nov/2010)

Plácidos

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Zoellick “Upper Class Twit of the Year”

Eu até pretendia escrever sobre o assunto, mas o Brad DeLong já matou o tema.



Let's not engage in currency wars




Idiocracia, versão MEC

Via Reinaldo Azevedo,


Deprimente.

Agora reflita e responda: qual a probabilidade de um funcionário do ETS postar uma logorréia destas e manter seu emprego?

Alguém pode traduzir a palavra “accountability” para o português?

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Update!!

Mais asneiras de Fernando Haddad (via Reinaldo Azevedo, de novo):

“Sob o capital, os vermes do passado, por vezes prenhes de falsas promessas, e os germes de um futuro que não vinga concorrem para convalidar o presente, enredado numa eterna reprodução ampliada de si mesmo, e que, ao se tornar finalmente onipresente, pretende arrogantemente anular a própria história. Esse
é o desafio que se põe aos socialistas. A tarefa, 150 anos atrás, parecia bem mais fácil”.


Quem diria que é possível um país ser tão surreal que uma criatura que escreve uma asnice canábica destas possa se tornar Ministro da Educação.

domingo, 7 de novembro de 2010

Idiocracia, versão Itamaraty

Via Reinaldo Azevedo, a embaixadora brasileira na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo tem algo a dizer sobre o aumento da pobreza na sociedade americana.
O Itamaraty aproveitou ontem a primeira sabatina realizada pela ONU sobre a situação dos direitos humanos nos EUA para declarar que estava “preocupado” com o aumento da pobreza na sociedade americana e sugeriu ao governo de Barack Obama que amplie programas sociais.

“O Brasil nota com preocupação o aumento do número de pessoas vivendo na pobreza nos EUA e a persistente diferença racial”, afirmou a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo. “A desigualdade é refletida em áreas como moradia, emprego, educação e saúde”, disse.

O Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, ainda deu sua sugestões sobre como os EUA deveriam tratar da pobreza: “O reconhecimento das necessidades fundamentais da população como um direito humano é um passo importante para superar a pobreza”, ensinou a embaixadora, que ainda criticou a política de imigração americana.
Imagina a arro-ignorância de nossos representantes se a renda média do brasileiro fosse mais do que um terço da renda média do americano, ou no dia que o estoque de prêmios Nobel do Brasil atingir a marca de 5% do estoque de prêmios Nobel recebido pelo corpo docente da Universidade de Chicago.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

The rent is too damn high

Apresento a vocês, Jimmy McMillan, um dos maiores figuras de New York; foi candidato a governador do estado de New York nesta última eleição.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Contabilidade criativa e autoengano

É arriscado escrever algo sobre o assunto depois que Mansueto Almeida descreveu nestas páginas as exéquias do superávit primário, mas neste caso a indignação supera o receio da comparação com o excelente artigo publicado há uma semana. Refiro-me, é claro, à divulgação do desempenho fiscal do governo federal em setembro, que, segundo a Secretaria do Tesouro Nacional, teria registrado saldo pouco superior a R$ 26 bilhões, constituindo-se assim no maior da série histórica iniciada em 1997.

O futuro do pretérito se aplica porque tal resultado não reflete, na verdade, um esforço fiscal do governo, mas um surto de contabilidade criativa que trata um aumento do endividamento como se fora crescimento da receita.

De fato, como se sabe, o superávit recorde resulta da contabilização da cessão onerosa (“venda”) de 5 bilhões de barris de petróleo por R$ 75 bilhões, dos quais R$ 43 bilhões foram utilizados para a aquisição das ações da Petrobrás em oferta pública. A diferença, R$ 32 bilhões, foi incorporada ao saldo do superávit primário do mês. Note-se que, sem esta “receita” extraordinária, o resultado primário do governo federal teria sido negativo em quase R$ 6 bilhões, a despeito do crescimento fenomenal da arrecadação.

A cessão onerosa significa que o governo antecipou as receitas que proviriam da exploração futura dos campos petrolíferos do pré-sal, operação que não difere, em sua essência, da emissão de títulos públicos federais. Com efeito, neste último caso o governo antecipa receitas tipicamente associadas à arrecadação de tributos, enquanto no caso anterior obtém hoje as receitas que apareceriam alguns anos à frente, em ambos os casos onerando as próximas gerações. Apesar disso, a emissão de títulos é contabilizada como dívida, enquanto a cessão onerosa foi tratada como receita.

Não bastasse isto, parcela da “receita” oriunda desta operação veio do BNDES, que, para pagar ao Tesouro Nacional, obteve recursos do... Tesouro Nacional! Impossível não lembrar da velha anedota em que dois sócios num bar venderam um ao outro todo o estoque de bebidas, contabilizando a carraspana como lucro.

Na prática, portanto, o que se observa é uma contínua piora do desempenho fiscal. Se ainda era possível explicar a redução do superávit primário em 2009 pela combinação da queda da arrecadação (devida à recessão) com políticas supostamente anticíclicas, hoje não resta dúvida que vivemos uma expansão fiscal quase sem precedentes. O gasto federal real tem crescido a uma velocidade superior a 10% ao ano na comparação com 2009, mesmo contra um pano de fundo de crescimento vigoroso do produto, deixando claro que a política fiscal não guarda qualquer relação com o ciclo econômico (se guardasse, deveríamos observar agora forte redução das despesas).

Como sabe qualquer um que tenha lido (e não apenas colorido) um livro básico de macroeconomia, uma expansão fiscal desta magnitude tem impactos consideráveis sobre a demanda doméstica. Aliás, não é por outro motivo que cansamos de ouvir no ano passado que o aumento do dispêndio se justificava para evitar que a economia mergulhasse numa recessão. Curiosamente, quem fazia este argumento à época afirma agora que o gasto público não afeta a demanda. A menos, porém, que isto queira dizer que política fiscal expansionista só tenha efeito sobre a demanda nos anos ímpares, é simplesmente impossível conciliar essas duas afirmações.

Isto dito, as implicações para inflação, taxas de juros e taxa de câmbio são bastante diretas. Gastos mais elevados significam que a demanda interna cresce mais rápido do que ocorreria sem tal aumento. Numa situação de relativa folga (desemprego alto e baixa utilização de capacidade) o crescimento da demanda se materializa em expansão do produto, mas, à medida que os gargalos no mercado de trabalho, infraestrutura e de capacidade começam a se manifestar, as pressões inflacionárias aparecem e eventualmente levam o Banco Central a praticar uma política monetária mais apertada do que a que prevaleceria sob uma política fiscal mais austera.

Inclusive, se resta ainda quem duvide que estas considerações façam parte do processo de decisão de política monetária, sugiro apenas a leitura do parágrafo 25 da última ata do Copom, onde se lê que “[a] convergência [da inflação] está condicionada à materialização das trajetórias com as quais o Comitê trabalha para variáveis fiscais e creditícias, entre outras”. Em “bancocentralês” é difícil mensagem mais explícita.

Entretanto, se a taxa de juros é mais alta, também a taxa de câmbio deve ser mais apreciada. Obviamente, há outros elementos afetando simultaneamente a taxa de câmbio (dentre os quais os preços de commodities e o valor global do dólar são particularmente influentes), mas, independente disso, pode-se afirmar que, dados os demais fatores, um aumento do gasto público implica, sim, um câmbio mais apreciado relativamente ao que ocorreria num cenário de gasto mais baixo.

Autoengano à parte, não há contabilidade criativa que resolva este problema.

(Publicado 4/Nov/2010)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ernesto Geisel 2.0

Segundo O Globo:


“Já em relação à equipe econômica, existe consenso dos três principais nomes do governo Dilma nesta área: Guido Mantega, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e o secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa. Mas ainda não há definição dos cargos que ocuparão. Um dia depois das eleições, interlocutores de Dilma chegaram a cogitar até a mudança de Mantega para o Planejamento, caso a futura presidente decida pôr Coutinho na Fazenda. O Banco Central pode ser ocupado por um dos três. Diferentemente de Lula, que estimulou divergências para criar um consenso, Dilma quer uma equipe harmoniosa de linha desenvolvimentista.”

Como brasileiro, minha primeira reação a essa possibilidade é bem desanimada.

Mas refletindo um pouco mais, existem outras conseqüências e conclusões.

Primeiro, parece-me um erro estratégico da presidente Guerra. A presença de Meirelles no Banco Central sempre funcionou como um escudo às críticas da oposição à política econômica de Lula e facilitou a venda da idéia de um Brasil bem-sucedido para a imprensa internacional. Luciano Coutinho, por outro lado, parece um ator representando o papel de comissário do PC.

Segundo, do ponto de vista da oposição, seria uma benesse pelo menos no médio prazo. A linha desenvolvimentista não tem nada a oferecer ao país e sua associação ao governo Guerra permitiria a limpeza ideológica dentro do complexo DEM/PSDB (por que raios a turma do Bresser Pereira está no PSDB e não no PMDB ou PT?).


Nem anjo nem demônio: o patrono do desenvolvimentismo pacificou o Araguaia.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Rousseff é a nova presidente do Brasil

Admito que ela não é exatamente a minha pessoa preferida, mas ganhou, com direito a humilhação do candidato do PSDB em Minas Gerais.

Focando no positivo, o resultado de hoje marca a transformação do PT de veículo das corporações de servidores públicos e trabalhadores sindicalizados em indústrias protegidas e ineficientes em um partido de massas com uma forte base entre os pobres, os nordestinos, os menos-educados e os beneficiários do Bolsa Família. Não foram os metalúrgicos do ABC nem os delegados grevistas de São Paulo ou as professoras de filosofia da USP com hábito de copiar-e-colar o trabalho dos outros que elegeram Dilma, mas sim foram os pobres que vivem à margem das benesses do Brasil moderno. Que ela então não decepcione esses eleitores.

Espero que nos próximos quatro anos, a oposição aprenda a andar ereta novamente.

domingo, 31 de outubro de 2010

Minha previsão

Eu não entendo quase nada de política e não sei se Serra ou Erenice vão ganhar a eleição.

Mas faço algumas previsões:
  • O resultado das urnas vai estar fora da margem de erro dos quatro principais institutos.
  • Os institutos vão errar feio o resultado do estado de São Paulo.


UPDATE:

Em linhas gerais, errei minhas previsões. Eu esperava um pouco mais de Serra em São Paulo e os institutos de pesquisa até que chegaram perto do resultado final. Ainda bem que a comida das crianças não depende de minhas habilidades como analista político!

sábado, 30 de outubro de 2010

Vamos todos exorcisar as bruxas amanhã!


Nada que não possa ser consertado por um bom cirurgião plástico!

Brasil Piano Masters

É algo fora dos temas do blog (mas não totalmente, vistos todos os vídeos que eu e o "O" já publicamos aqui), mas adicionei à lista de blogs o Brasil Piano Masters, recentemente iniciado pela minha esposa (Eleni). Faz parte de um projeto que ela está começando para ajudar a desenvolver o mercado (fazer o quê? Ela também é economista!) para pianistas.

Maiores detalhes do projeto estão nos primeiros textos do blog, assim como as fotos da inauguração oficial do Steinway.

Quem gosta de música vai se interessar.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Plano Real e o vício quermesseiro

Irresistível.

Algumas pessoas me pediram um comentário sobre este texto de Theotonio dos Santos Júnior:
Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação [grifo meu] na qual todas [grifo meu] as economias apresentavam inflações [sic] superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário (...)
Conclusões: O plano real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial [grifo meu] que fez cair as inflações no mundo inteiro.

Gosto disso. É uma afirmação cretina, porém científica, pois pode ser confrontada com os dados. E que diz Sua Majestade, A Evidência?

Em primeiro lugar que, certamente, a economia mundial NÃO vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. O gráfico abaixo mostra as taxas de inflação em 1993 e 1994 para países desenvolvidos (e alguns emergentes que já estavam bastante próximos dos desenvolvidos). Dentre estes apenas Grécia e Israel registravam taxas de inflação maiores que 10% naquele ano (Israel 11,3%; Grécia 11,9%). A média aritmética simples (não estou com paciência para ponderar os dados, ainda mais sabendo que a ponderação não mudará a conclusão) mostra uma inflação de 3,9% para este grupo. Talvez na Dimensão Z (de zurro, como sabemos) este nível represente hiperinflação; no planeta Terra, aqui no quadrante Alfa da galáxia, de forma alguma.


Fonte: FMI

A média recuou para 3,5% em 1994, que, ainda no quadrante Alfa, também não representa uma deflação global. Segundo o gênio em questão, foi esta queda que fez a inflação brasileira despencar de 40% ao mês para 20% ao ano (nos primeiros 12 meses do plano Real). Sinceramente, me faltam palavras para descrever os píncaros de cretinice atingidos por tal afirmação.

Fora isto, não faltam exemplos de países cuja inflação aumentou (e não aumentou pouco) entre 1993 e 1994. Nossos amigos venezuelanos, por exemplo, viram a inflação saltar de de 46% para 71%; os búlgaros de 64% para 122%, os turcos de 70% para 120%. Como nosso perito nos mecanismos de transmissão da inflação global para a inflação nacional explica este fenômeno? Será que não havia gênios locais nestes lugares?

Em suma: afirmações peremptórias baseadas nos delírios de "intelectuais" que não se preocupam em perder 5 minutos para uma checagem mínima dos dados são um vício nacional. Só com um processo cuidadoso de desintoxicação a academia brasileira se livrará do "vício quermesseiro".

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Nestor Kirchner, descanse em paz

Achei chocante a notícia da morte repentina do ex-presidente argentino Nestor Kirchner. Ainda um jovem de sessenta anos apenas, caiu vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Sim, não existe hora melhor para deixar isso claro, Nestor Kirchner foi uma verdadeira desgraça de político, um capo mafioso que nunca hesitou antes de quebrar contratos, falsificar estatísticas, destruir a reputação e instituições de seu país, e em tempos recentes até conspirar contra as liberdades individuais.

Mas ainda assim, era um ser humano. E como tal, preferia-o vivo.

Meus mais sinceros pêsames àqueles que sentirão sua falta.

Dólar caro não se compra


Ao avaliarmos decisões, em particular as referentes à política econômica, não é correto comparar o desempenho anterior à sua adoção com o posterior. É, na verdade, necessário desenvolver uma análise complexa: sabendo o ocorrido após a implantação da política, temos também que saber o que teria acontecido caso a decisão não tivesse sido tomada. Esta análise é difícil porque, quando adotamos a decisão “A” ao invés da decisão “B”, não temos como observar o curso dos eventos caso “B” fosse a escolha inicial.

Complicado? Há um bom exemplo, que, imagino, é também bastante familiar.

Em seu filme “A Felicidade Não Se Compra” (It’s A Wonderful Life, 1946), Frank Capra conta a história de George Bailey (James Stewart), que contempla o suicídio após perceber que sua empresa está à beira da falência, acreditando que sua vida não fez sentido. Um anjo (Clarence), atendendo às preces da família, mostra a Bailey como seria o mundo na sua ausência (muito pior, diga-se), convencendo-o a não se matar e conduzindo a um final feliz (com direito a Clarence conquistar as ansiadas asas).

Bailey vive uma situação muito rara: ele sabe como o mundo se comportou com sua presença (decisão “A”) e fica sabendo como se comportaria se pudesse escolher não existir (decisão “B”), o que lhe permite optar pela melhor alternativa. Nós, sem um anjo da guarda, temos que tomar decisões com base em modelos que possam nos dizer o que teria ocorrido se a decisão “B” tivesse sido tomada.

Tomemos o caso do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), recentemente elevado com o objetivo de impedir a apreciação do real. A taxa de câmbio se desvalorizou um pouco em seguida, mas será que podemos realmente atribuir este comportamento ao IOF? Para responder esta pergunta, temos que, como Clarence, construir um simulacro de realidade que nos permita dizer como a taxa de câmbio reagiria caso o IOF não tivesse sido aumentado.

Nós (eu e Tatiana Pinheiro) construímos um modelo que explica a evolução da taxa de câmbio do real contra o dólar como função de quatro variáveis: (1) preços de commodities (índice CRB); (2) apetite global por risco (índice VIX); (3) a taxa de câmbio do dólar contra as principais moedas do mundo (índice DXY); e (4) a diferença entre a taxa de juros nacional e a americana.

Como esperado, o modelo sugere que o real ganha valor ante ao dólar quando o preço de commodities sobe e quando a taxa interna de juros sobe relativamente à externa. Por outro lado se deprecia quando o dólar se valoriza no mercado internacional e quando o apetite por risco cai.

Isto dito, o que ocorre quando introduzimos o IOF no modelo? Estatisticamente falando, nada. A trajetória da taxa de câmbio praticamente não se altera na presença do IOF relativamente a modelos que não incluem o imposto na sua determinação. Nos termos do filme, seria como se o mundo sem George Bailey fosse o mesmo mundo com George Bailey (o que teria levado a um final muito menos feliz). Em outras palavras, o IOF, de acordo com nossas estimativas, é uma política ineficaz para lidar com a apreciação da moeda.

Dado, porém, que não podemos mudar os preços internacionais de commodities, nem o apetite global a risco, e muito menos o valor do dólar relativamente às demais moedas do planeta, a única variável doméstica é a taxa de juros.

Isto dito, o desafio é achar formas de reduzir a taxa de juros sem, ao mesmo tempo, levar a desvios ainda maiores da inflação relativamente à meta. O instrumento é o mesmo que venho insistindo neste espaço: um forte ajuste fiscal, que, a depreender de declarações recentes, ainda não é visto desta forma, pelo menos em certos círculos. A persistir esta postura o câmbio continuará apreciado (exceto por mudanças nas demais variáveis), mas, se você ouvir tocar um sino, é sinal que eu e a Tatiana ganhamos nossas asas.


(Publicado 27/Out/2010)

Economista com asas

terça-feira, 26 de outubro de 2010

There must be some kind of way out of here...



E quem disse que ele morreu?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Jumentena

Graças ao grande Reinaldo Azevedo, fiquei sabendo desta fala jumentica da Professora Mensalena Chauí (aquela mesma de infame notoriedade pelo episodio do plagio de Claude Lefort) no Largo São Francisco.





Primeiro, nega que a liberalização do aborto fosse parte do programa do PT... Mas tudo bem, deixa para lá, vai que eles mudaram o que eles pensam, é o direito deles. Já fizeram isso quanto ao regime de metas de inflação, a lei de responsabilidade fiscal, o PROER, a reforma da Previdencia, o calote da dívida pública, as privatizações, o apoio ao agronegocio etc.

Mas o fim da picada foi mesmo a fala ignorante ou mentirosa, bucéfala, tão estúpida que não consigo nem ver saindo do teclado de um Luis Nassif (nem ele é tão ignorante ou mente tão descaradamente), que José Serra teria sido vitorioso em todas as regiões de agroindústria, portanto latifúndio (a partir do minuto 4:45)... Impressionante... Os dois estados que melhor podem ser caracterizados como intocados pelo latifúndio no Brasil, Santa Catarina e Paraná, votaram em Serra.

Os estados que votaram em Serra são melhor caracterizados como aqueles em que as únicas forças que em toda a história da humanidade melhoraram permanentemente a condição de vida das massas – o capitalismo e os ganhos de produtividade na agricultura – fizeram o seu trabalho. São exatamente os estados onde a erradicação da miséria rural está completa ou mais perto de completa.

Pior ainda, mais que isso, mais patético ainda, sendo Mensalena uma professora de Filosofia, foi o argumento com que fechou sua fala. Acredite se quiser (o link para o vídeo está aí em cima), mas ela teve a desfaçatez de argumentar que como teria dedicado sua vida a estudar Spinoza, nós deveríamos – passivamente - aceitar que sua opinião sobre democracia e liberdade de expressão vale mais do que um quilo de bosta em compota.

Marilena Chauí, tu és uma aparatchik sem talento, és ignorante sobre Brasil ou mentirosa, não sei qual o pior.

Este é o jumento Juvenal. Como ele não acha que Santa Catarina é uma província dominada pelo latifúndio de herança colonial, ele é certificadamente melhor conhecedor do Brasil do que alguns intérpretes de Spinoza.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Feliz Aniversário

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O IOF funciona?

O IOF funciona?

Eu diria que não, mas acho sempre interessante perguntar para Sua Excelência (a evidência empírica) o que ela tem dizer a respeito.

A história completa está num relatório que escrevi com a Tatiana Pinheiro, mas essencialmente testamos se a introdução do IOF implicaria uma alteração na trajetória de taxa de câmbio (nominal), dadas as trajetórias das demais variáveis. O que se segue aqui é uma versão (bastante) resumida do trabalho.

Nosso modelo parte da paridade descoberta da taxa de juros, isto é, da arbitragem de taxas de juros, que sugere que a diferença entre taxas locais e externas deve refletir a depreciação esperada da moeda. Assim, dada a expectativa da taxa futura de juros (e(t+1)), um aumento do diferencial de juros deveria apreciar a taxa corrente (relativamente à esperada). Da mesma forma, dado o diferencial de juros, movimentos da taxa esperada de câmbio deveriam se manifestar sobre a taxa corrente.

Mas o que determina a taxa esperada? Se há uma tendência da taxa de câmbio retornar aos valores de equilíbrio, a taxa esperada deve estar mais próxima da taxa de equilíbrio do que a taxa corrente. Nesse caso, a taxa esperada deve refletir termos de troca, assim como o apetite internacional por ativos locais. (Deveria também incluir uma medida do passivo externo do país, mas isto não deve fazer muita diferença num horizonte de poucos anos de estimação em freqüência diária, de modo que deixamos de lado esta variável)

Note-se, porém, que estes são os determinantes da taxa multilateral de câmbio (i.e., do real contra uma cesta de moedas). Se, porém, estamos interessados na taxa de câmbio contra o dólar, temos que incluir na história uma medida da taxa de câmbio do dólar contra as demais moedas (de preferência, sem o real, é claro).

Assim, podemos exprimir a taxa de câmbio esperada como função de termos de troca (usamos o CRB para capturar termos de troca), apetite por risco (medido pelo VIX), e pela taxa de câmbio do dólar contra uma cesta de moedas (o DXY). O modelo exprime, então, a taxa corrente de câmbio como função destas variáveis, bem como do diferencial de juros.

Os sinais esperados das elasticidades estão resumidos na tabela abaixo.


Para testar a eficiência do IOF adotamos dois enfoques: alteração do intercepto e alterações das elasticidades. No caso de alteração do intercepto estimamos a seguinte expressão.

O coeficiente associado à dummy deveria ser positivo e significante, caso o IOF realmente tivesse impacto sobre a taxa de câmbio. Como houve duas experiências com o IOF, estimamos um modelo com uma dummy para as duas experiências, e outro com uma dummy para cada experiência.

Abaixo mostramos um exemplo de alteração de elasticidade relativa ao diferencial de juros. Nesse exemplo em particular espera-se um coeficiente positivo e significante, caso o IOF tenha efeito, reduzindo a sensibilidade do câmbio ao diferencial de juros.


Há questões econométricas relevantes, como a presença de raízes unitárias nas séries (que, afortunadamente, cointegram, implicando resíduos estacionários). Há também um problema de endogeneidade, pois a taxa de juros afeta a taxa de câmbio, mas também é afetada por ela. Para lidar com endogeneidade usamos GMM, utilizando como variáveis instrumentais os valores correntes do CRB, VIX e DXY (que são variáveis exógenas, afetando o câmbio, e, portanto, o diferencial de juros, mas não são afetadas nem pelo juro, nem pelo câmbio no Brasil), além do diferencial de juros defasado. Os testes também descartam sobreidentificação.

Os resultados aparecem na tabela abaixo (sim, deste tamanho fica ilegível, mas clicando na tabela ela aparece com o tamanho orginal), onde apresentamos também, para fins de comparação, os resultados da estimação por Mínimos Quadrados Ordinários (OLS). As porcentagens são os p-valores.


Note-se que os sinais (refiro-me aqui ao GMM) vieram de acordo aos esperados e significativos, sugerindo elevada sensibilidade a preços de commodities, ao valor do dólar, e ao diferencial de juros (nem tanto com relação ao VIX, ainda que significativo).

Por outro lado, nenhuma dummy (seja intercepto, seja elasticidade) se mostrou significativa, sugerindo que os efeitos do IOF não são relevantes para determinação da taxa de câmbio. Se estamos numa guerra cambial, o IOF seria, no máximo, um estilingue.

Assim falou A Evidência.(Ou, pelo menos, até que apareça alguém com uma evidência diferente).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ao Sul do Equador

Brasília, 15 - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliou há pouco na entrevista ao programa Conta Corrente, da GloboNews, que o gasto público no Brasil não é inflacionário. Mantega contestou as avaliações feitas por analistas econômicos de que é preciso reduzir os gastos públicos para permitir uma queda maior dos juros e, com isso, ajudar a diminuir a atratividade do Brasil nas operações de carry trade feitas pelos investidores estrangeiros.

Questionado sobre se uma política fiscal mais dura poderia auxiliar no controle da efetiva valorização do real frente ao dólar, Mantega disse que isso é um grande equívoco. "Não tem nada a ver A com B. Nós estamos com um dos resultados fiscais melhores do mundo. Hoje o Brasil vai ter um déficit nominal menor que o dos Estados Unidos, da Alemanha, da China e de vários países", argumentou Mantega, acrescentando: "temos um resultado fiscal bom".

Para o ministro, a taxa de juros no Brasil se deve "exclusivamente à inflação e não ao gasto público". Mantega disse que o Brasil teve que aumentar o gasto público, na época da crise, para estimular a economia e a retomada do crescimento. "Se a inflação é baixa, e está sob controle, significa que o gasto público não é excessivo. Ele está regulado. Não faz sentido dizer que temos que reduzir o gasto público para reduzir a taxa de juros", insistiu o ministro na sua tese de que o gasto público no Brasil não é inflacionário.

Mantega acrescentou que a taxa de juros tem "que olhar" a inflação. E se a inflação estiver sob controle, a taxa de juros pode continuar caindo. A reportagem da GloboNews questionou o ministro se este não seria o momento de enfrentar de forma mais incisiva o problema da taxa de juros elevada, neste momento de forte valorização do real. Mantega respondeu: "as taxas de juros mais elevadas aqui ajudam a atrair os capitais. Agora essa é a política do BC", disse.

Mantega lembrou ainda que a taxa de juros no Brasil já foi muito mais alta no passado. "Nós reduzimos essa taxa ao longo do tempo. Só que outros países reduziram mais ainda. Então, nós ficamos com diferencial grande", afirmou Mantega, acrescentando que esse diferencial permite as operações chamadas de arbitragem, feita pelos investidores que pegam recursos emprestados a uma taxa de 0,5% e aplicam no Brasil a uma taxa de 10%.

(Adriana Fernandes e Fabio Graner)


Vocês não sabiam? No Brasil as coisas caem para cima.

O inesquecível momento da revelação

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma relação tão delicada

Na semana passada o Fundo Monetário Internacional publicou a versão mais recente do seu World Economic Outlook (WEO, Panorama Econômico Mundial), documento em que discute as perspectivas para a economia global e explora alguns temas atuais de política econômica. Um deles, como, aliás, não poderia deixar de ser, refere-se aos efeitos de um aperto da política fiscal, isto é, de uma redução intencional do déficit público.

Trata-se de uma questão candente, pois a estratégia para evitar que a crise financeira se metamorfoseasse numa reedição da Grande Depressão requereu que governos ao redor do mundo elevassem seus déficits orçamentários para compensar o efeito da queda da demanda privada e, com menos sucesso, tentar reviver esta última. A combinação da expansão fiscal com taxas muito baixas de juros e medidas para impedir o colapso das instituições financeiras conseguiu evitar a repetição dos fenômenos dos anos 30, mas à custa, entre outras coisas, de uma deterioração sem precedentes (em tempos de paz) das contas públicas em vários países.

Não por outro motivo, um dos temas centrais do debate econômico refere-se a como e quando remover o estímulo fiscal, sob pena de problemas mais sérios quanto à capacidade dos governos de manter o pagamento de suas dívidas. À luz desta questão, o capítulo 3 do WEO dedica-se à exploração das possíveis consequências de um eventual aperto fiscal. Embora a discussão esteja mais voltada para os problemas fiscais dos países desenvolvidos (onde, afinal de contas, a questão é mais aguda), o relatório traz conclusões relevantes para o Brasil, em particular no que se refere ao gerenciamento da demanda interna e à taxa de câmbio.

A evidência empírica sugere que a redução deliberada (isto é, decorrente de decisões de política, e não dos efeitos do ciclo econômico sobre gasto e receitas do governo) do déficit público tipicamente tem impacto negativo sobre a atividade. Para os países desenvolvidos, que passam por um período difícil no que se refere ao crescimento, isto é má notícia. Já no caso brasileiro, em que se sabe que o ritmo atual de expansão é insustentável, um aperto fiscal, ao moderar o crescimento, aliviaria a carga sobre a taxa de juros.

Com efeito, o estudo ainda acha evidências que a redução da demanda por conta do ajuste fiscal permite que as taxas de juros também sejam reduzidas. Não é grande consolo para economias em que o juro já é praticamente zero, mas, em nosso caso, os efeitos podem ser consideráveis. Isto não significa apenas que a queda da demanda interna privada (consumo e investimento) é atenuada, mas também que a taxa de câmbio tende a se depreciar e que a demanda externa (exportações menos importações) também tende a reagir positivamente, suavizando o efeito da contração fiscal.

Ademais, quando o ajuste fiscal ocorre pela redução da despesa pública, estima-se que o efeito sobre a redução dos juros seja maior do que o decorrente de um aumento de impostos, o que se traduziria também em depreciação mais vigorosa da taxa de câmbio. A bem da verdade, inclusive, o trabalho indica que a contração da atividade neste caso não é estatisticamente significativa, sugerindo que a redução da demanda interna poderia ser compensada pela expansão mais vigorosa das exportações líquidas.

Em suma, o estudo do FMI mostra que, ao contrário do que afirmam alguns, o ajuste fiscal tem sim uma relação muito clara e direta com taxa de juros e a taxa de câmbio, em particular se baseado na redução do gasto corrente.

No entanto, é justamente no mundo político que o entendimento desta relação tão delicada ainda inexiste e a política fiscal continua sendo visto apenas pela ótica parcial da estabilidade da dívida pública. Sem esta compreensão, as chances de um ajuste significativo permanecem tristemente insignificantes.

(Publicado 13/Out/2010)

Mas política fiscal afeta câmbio?