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terça-feira, 13 de abril de 2021

Protocolos náuticos e o mercado de trabalho

Medidas de geração de empregos formais (CAGED e PNAD) mostram realidades muito distintas. As mudanças metodológicas no CAGED sugerem que, ao menos por enquanto, é melhor se fiar na PNAD.

Segundo o governo, vivemos um momento bom no mercado de trabalho: em fevereiro foram criados mais de 400 mil postos no mercado formal (“o melhor fevereiro em 30 anos!”), acumulando quase 690 mil novos postos nos últimos 12 meses. Segundo o governo, vivemos ainda um momento ruim do mercado de trabalho: houve destruição de 108 mil empregos formais em janeiro, acumulando perda de 4,4 milhões de postos nos últimos 12 meses.

Ficou confuso? Não se sinta envergonhado, porque o assunto tem gerado mais controvérsia do que se pode esperar de uma questão em que os dados falariam mais alto do que qualquer polêmica teórica.

Há duas fontes nacionais de dados mensais sobre o mercado de trabalho: o Cadastro Geral de Emprego e Desemprego, conhecido como CAGED, e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios contínua mensal, alcunhada PNAD, a primeira estimada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, hoje incluído no Ministério da Economia, enquanto a segunda é conduzida pelo IBGE desde 2012.

O CAGED registra admissões e demissões no mercado formal de trabalho, isto é, empregos com carteira assinada. Já a PNAD mede, por amostragem, todo o emprego, seja ele com carteira assinada, sem carteira assinada, estatutário, conta própria, empregador, ou ainda o trabalhador familiar auxiliar. Tais dados são devidamente segregados, o que nos permite comparar a evolução do mercado formal de trabalho em ambas as pesquisas. 

Fontes: CAGED e IBGE


O gráfico acima mostra a criação líquida de empregos formais medida numa janela móvel de 12 meses do início de 2013 (quando foi possível acumular 12 observações para a PNAD) até o final de 2019. As séries não são idênticas, como se vê (e há a complicação adicional do dado “mensal” da PNAD ser, na verdade, um média de 3 meses), mas não é difícil concluir que medem essencialmente o mesmo fenômeno.

Em particular, entre 2013 e 2019 a PNAD estima perda mensal média de 207 mil postos, enquanto o CAGED mostrava perda de 214 mil empregos formais por mês, refletindo a recessão de 2014 a 2016. Vale dizer, à parte divergências temporárias, ambas revelavam um comportamento similar do mercado formal de trabalho até 2019.

O CAGED, contudo, foi alterado a partir do começo de 2020, passando a ser alimentado também com os dados do eSocial e Empregador Web, tornando-se o Novo CAGED. Em particular, enquanto o antigo CAGED requeria a declaração de todos os empregados pela CLT, o novo passou a incluir também trabalhadores temporários, avulsos, agentes públicos, trabalhadores cedidos e dirigentes sindicais, bem como contribuintes individuais e bolsistas.

 

Comparando o comportamento do novo CAGED com o antigo em 2019, nota-se que as admissões registradas pelo primeiro tendem a superar às do segundo por uma margem em torno de 100 mil/mês. Já no caso dos desligamentos, o padrão é menos claro, mas pela metodologia anterior, no período de abril a dezembro de 2019, foram geralmente mais elevados do que sob a nova metodologia. Em outras palavras, ao menos naquele período de 2019 o novo CAGED já apontava geração de empregos formais superior à registrada pelo antigo.

Provavelmente por este motivo, seu desempenho passou a ser muito distinto daquele medido pela PNAD.

O gráfico abaixo traz a comparação dos dois indicadores de janeiro de 2020 a fevereiro de 2021. Como temos apenas 14 observações do CAGED (e 13 da PNAD para o mesmo período), não é mais possível expressar os dados em 12 meses (teríamos apenas 3 observações para o CAGED e 2 para a PNAD); usamos, portanto, os dados mensais para isto (sem ajuste sazonal, também impossibilitado pela série muito curta).

Fontes: CAGED e IBGE

Há enorme discrepância. O Novo CAGED aponta para a criação de 280 mil empregos formais no ano passado; já a PNAD sugere destruição de 4,3 milhões de empregos formais no mesmo período, divergência similar à apontada no primeiro parágrafo.

Ressalta-se, contudo, a estranheza de o Novo CAGED registrar aumento de emprego formal mesmo em meio à maior queda do PIB da história do país. Em 2015 e 2016, por exemplo, quando o PIB caiu 3,5% e 3,3% respectivamente, o emprego formal (CAGED antigo) reduziu-se em 1,6 e 1,4 milhão concomitantemente. Aparentemente as mudanças metodológicas de fato não permitem a comparação das diferentes encarnações do CAGED.

É verdade que os números da PNAD também nos deixam algo ressabiados. Em 2015 e 2016, os anos de recessão, a pesquisa estimava queda de 1 milhão e 1,6 milhão respectivamente, muito inferiores à registrada no ano passado, embora a queda do PIB não tenha sido tão maior. Talvez as peculiaridades do ano da peste possam justificar a contração extraordinária do emprego formal, mas não há como evitar também neste caso certo ceticismo.

Resumindo, a verdade verdadeira é que nossos termômetros de mercado de trabalho não parecem bem calibrados para aferir o tamanho do estrago causado pela crise. Tendo a confiar mais nos dados da PNAD que, se não na intensidade, ao menos na direção parecem mais congruentes com a redução da atividade econômica no ano passado, além, é claro, de não sofrerem o azar de passarem por mudanças metodológicas precisamente em 2020, o que sugere maior comparabilidade quanto ao passado.

O protocolo náutico recomendava que navios partissem com um conjunto de três cronômetros a bordo; assim, se um deles perdesse a sincronia, os demais provavelmente marcariam a hora certa, possibilitando a correção.

Não temos, porém, um terceiro medidor para o mercado de trabalho que permita eliminar esta dúvida. Enquanto isso, fiquemos (cautelosamente) com a PNAD.



(Publicado 7/Abr/2021)

sábado, 3 de abril de 2021

Não com um estrondo, mas um gemido

O orçamento imaginário recentemente aprovado representa mais um passo na desconstrução institucional do país.

Não bastasse a demora em sua aprovação, já no fim de março, quase às vésperas da apresentação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2022, o orçamento do governo federal – que sempre flertou com a ficção – virou agora uma peça de literatura fantástica.

Já se sabia que o projeto inicial, enviado em agosto do ano passado, havia se tornado obsoleto, à luz, por exemplo, da elevação do salário mínimo bem maior que a originalmente proposta (R$ 1.100,00 contra R$ 1.067,00). No conjunto da obra, estimava-se defasagem de R$ 17,6 bilhões no conjunto das despesas. A tal montante soma-se agora a subestimação dos gastos obrigatórios (benefícios previdenciários, abono salarial, seguro desemprego, dentre outros) de R$ 26,5 bilhões, ou seja, um total de R$ 44 bilhões.

Obviamente, dada a “folga” orçamentária assim criada, parlamentares cuidaram de ocupar o espaço na forma de emendas para atender suas bases políticas, cuja execução, a propósito, passou a ser obrigatória. A moral da história é que o volume de gastos, se executado de acordo com o projeto aprovado, deve extrapolar o teto de gastos em R$ 44 bilhões, lembrando que o auxílio emergencial recriado há pouco não está incluído neste limite.

Para evitar tal resultado, sem alterar a lei orçamentária, a alternativa restante seria o corte dos gastos discricionários, ligados ao funcionamento da máquina pública e ao cada vez mais esquálido investimento federal (exceto, claro, na área militar), cuja consequência seria o risco de paralisia das operações do governo (apesar da tentação, não, não é uma boa ideia).

O interessante no caso é que, do ponto de vista formal, o teto de gastos continua respeitado, seja pela exclusão do auxílio emergencial (o que é correto), seja pela subestimação das despesas, que, na falta de melhor expressão, é uma brincadeira de péssimo gosto.

Com isso, sem medidas compensatórias, o déficit primário, orçado em cerca de R$ 250 bilhões (3,1% do PIB), atingiria quase R$ 300 bilhões (3,8% do PIB), o segundo maior da série histórica, inferior apenas ao registrado no ano passado. Apesar da retórica, seja de governo, seja da oposição, o tal “austericídio” também deve ser classificado como literatura fantástica, merecendo talvez um dos capítulos do Livro de Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, ao lado da Banshee e do A Bao a Qu.

O teto de gastos está, portanto, sendo comido pelas bordas. É bem verdade que o IPCA medido em 12 meses até junho deste ano deve ficar bem alto, ao redor de 7,5%, o que permitirá aumento do teto de gastos para 2022 na mesma proporção, dando fôlego adicional à medida. É clara, porém, a fadiga política com o instrumento, mesmo notando que, desde sua criação, só tenha sido integralmente respeitado nos seus dois primeiros anos, 2017 e 2018.

A “tecnologia” para driblar os limites orçamentários sempre foi uma área de pesquisa de ponta no país, como aprendemos com as pedaladas de Guido Mantega, Arno Augustin e sequazes. Não é diferente agora.

Sempre soubemos que, na ausência de medidas que limitem o aumento do gasto obrigatório, o teto seria inviável. Não digo isso agora; ao contrário, ainda antes de sua aprovação no final de 2016, já escrevia que “[ele] apenas explicita limites à despesa pública, que, na ausência de uma discussão adicional e mais profunda sobre a rigidez do gasto, condenam [sua] própria existência.

O Congresso ainda não ousa revogar o mecanismo, talvez receoso da reação negativa do dólar e dos juros, como pudemos brevemente observar quando do balão de ensaio sobre a retirada do Bolsa-Família do teto. Todavia, a cada dia, como uma criança pequena, testa seus limites, lentamente desconstruindo – como já foi feito com a Lei de Responsabilidade Fiscal, ou com a reestruturação das dívidas estaduais no final dos anos 90 – todo arcabouço institucional que limite a voracidade do poder público.

 O teto não acabará com um estrondo, mas com um gemido.



(Publicado 31/Mar/2021)

sexta-feira, 26 de março de 2021

Elemento surpresa

A surpresa do Copom implicou elevação dos juros curtos, mas queda dos juros longos refletindo uma visão algo mais otimista sobre a inflação esperada. Se houvesse ação no lado fiscal, esses desenvolvimentos poderiam ser mais positivos.

Mentiria se dissesse que não fui surpreendido pela magnitude da elevação da Selic na semana passada. Como a maioria dos economistas (o que, diga-se, não é desculpa alguma, muito pelo contrário), esperava um aumento de meio ponto percentual, não os 0,75% anunciados pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que levaram a taxa básica para 2,75% ao ano até a próxima reunião em maio. Aliás, como indicado pelo Copom, naquele mês devemos esperar nova elevação da mesma magnitude, ou seja, a Selic a 3,50% ao ano.

A reação do mercado de renda fixa à decisão foi positiva em pelo menos duas dimensões importantes. Em primeiro lugar, os juros futuros cederam, aparentemente em resposta à percepção de um BC mais agressivo do que se esperava, o que é visível (pelo menos assim o espero) no par de gráficos logo abaixo.

 

Fontes: ANBIMA e cálculos do autor

À esquerda temos a famosa curva de juros (estimada pela ANBIMA), que mapeia a taxa de juros para cada maturidade, no caso de 6 meses a 5 anos. A linha preta mostra as taxas de juros vigentes no dia da reunião do Copom, 17 de março, enquanto a vermelha representa as taxas observadas no dia seguinte.

Como se vê, a linha vermelha se deslocou para cima da preta nos prazos de seis meses a dois anos e meio e para baixo dela nos períodos superiores a 3 anos.

Calculando a taxa de juros vigente para cada período de seis meses (a curva FRA, bem menos famosa, acima à direita), notamos que houve elevação nos primeiros 12 meses; a partir daí o mercado estimava que as taxas ficariam em média 0,15% ao ano abaixo do que se esperava no dia anterior.

No jargão de mercado, a curva de juros ficou mais “achatada”, isto é, a diferença entre os juros longos e os juros curtos caiu, em parte porque os últimos aumentaram, mas também porque os primeiros se reduziram. Ficou um pouco mais barata, por exemplo, a colocação de títulos mais longos do Tesouro.

A segunda dimensão positiva foi o comportamento das expectativas de inflação embutidas nas taxas de juros. Há, como se sabe, papéis do Tesouro cujas taxas são prefixadas assim como títulos indexados à inflação; a diferença de remuneração entre eles pode (com um pouco de boa vontade) ser pensada como a expectativa de inflação para o período (há, aviso, complicações, como prêmios de risco, liquidez e tributos que tornam essa medida menos precisa do que gostaríamos, principalmente para prazos mais longos).

Tais expectativas (“inflação implícita”) caíram ao longo de todos os prazos, de forma mais vigorosa para os primeiros seis meses, mas consistentes para o período acima de 3 anos, como ilustrada pelos gráficos abaixo.

 

Fontes: ANBIMA e cálculos do autor

Dito de outra forma, a resposta inicial de mercado foi reduzir os juros futuros porque passou a antecipar uma trajetória mais benigna para a inflação por conta da reação de política monetária mais rápida do que esperada.

Entendo que não se trata de medida para conter a evolução do dólar. Não será 0,25% ao ano a mais (ou 0,50%, se considerarmos o aumento encomendado para maio) que fará o dólar recuar acentuadamente e, de acordo com o mostrado logo acima, as taxas mais longas também recuaram em seguida à reunião, fator que diminui em algum grau a atratividade da moeda.

Como explorei há duas semanas, o aperto da política monetária tem como objetivo impedir (ou atenuar) o possível contágio sobre preços de serviços advindos da elevação de preços dos produtos afetados pelo dólar, notadamente as commodities. Esse efeito, dadas as defasagens de atuação da política monetária (o efeito máximo se materializa 5-6 trimestres depois da alteração da Selic), só deverá se manifestar, portanto, a partir do final de 2021 e atingir seu máximo em meados do próximo ano.

Resta saber quanto é necessário em termos de taxa de juros para cumprir a tarefa. Se as projeções do BC estiverem corretas, um ciclo de 3,5 pontos percentuais seria suficiente, já que o BC prevê inflação na meta em 2022 com a Selic a 5,5% ao ano.

Sempre sob a hipótese (por vezes her          oica) que as previsões do modelo do BC sejam precisas, o aumento mais forte da taxa de juros agora não seria, portanto, sinal de taxa mais elevada ao final do ciclo de ajuste monetário, mas uma forma de acelerar o ajuste, que se encerraria, assim, no começo de 2022, ao invés de meados do ano que vem.

Há, é bom que se diga, incerteza quanto às projeções, como não poderia deixar de ser. Não temos como prever, por exemplo, o comportamento dos preços das commodities, que me surpreendeu no final do ano passado e começo desse ano, e deve ser o principal fator puxando a inflação para cima, somado, não nos esqueçamos, ao comportamento do dólar, por sua vez resultado da fraqueza da política econômica doméstica, em particular no campo das contas públicas.

Se tivéssemos condições de mudar o quadro de política doméstica, provavelmente o ciclo de aperto monetário seria menos intenso do que se afigura. O dólar recuaria e com ele algumas pressões inflacionárias. Não parece ser o caso, por tudo que tivemos condições de ver nos últimos meses, em particular com a aprovação da PEC Emergencial, que ficou bem aquém do que precisamos para recolocar as contas públicas em trajetória sustentável.




segunda-feira, 22 de março de 2021

The end

O país segue impávido para o desastre, incapaz de aprender com seus próprios erros, seja no campo sanitário, seja no campo fiscal, mas principalmente no campo político.

O Brasil hoje parece uma obra de arte. No caso, a épica abertura de Apocalypse Now: coqueiros explodindo em chamas enquanto o vozeirão de Jim Morrison declama “this is the end”.

Exagero? A cada dia a Covid mata mais de 2 mil pessoas e previsões indicam piora à frente, resultado da delicada combinação de incompetência, negligência e completa ausência de empatia. As preocupações do governo, face ao desafio, se resumem a tentar comprar o apoio do Centrão, irritado com a inaptidão na área da saúde, mas obviamente sem pensar em colocar em seu lugar qualquer pessoa disposta a lidar de fato com a tarefa, como ilustrado na tragicomédia que testemunhamos nos últimos dias.

O desastre sanitário tem, como aprendemos da pior (e mais didática) maneira possível, consequências não menos calamitosas para o desempenho econômico. O risco concreto (que, a bem da verdade, já se converteu em certeza) de esgotamento da capacidade das UTIs força novas medidas de distanciamento social, cujo impacto é negativo para a atividade, não só pela perda de renda (a ser atenuada pela renovação, afinal, do auxílio-emergencial), mas porque o medo da doença leva à redução do contato interpessoal, crucial para a vasta maioria das atividades de serviços, principal origem de emprego no país.

Um ano depois, enquanto países mais previdentes e organizados, se preparam para a volta a uma certa normalidade, contemplamos uma nova rodada de recessão e aumento do desemprego.

Não há indicações que o duro aprendizado pelo qual a população passou tenha chegado à elite governante. Não há nada de errado, como princípio, na extensão do auxílio-emergencial, que cansei de defender nesse espaço, devidamente compensado num futuro de preferência não muito distante, por medidas que permitam interromper a tendência crescente do gasto obrigatório. Deveria esse ser o sentido, como também já argumentei, da PEC aprovada na semana passada.

Todavia, como explorado com detalhe por pessoas mais bem qualificadas, em particular Felipe Salto e Marcos Mendes, o efeito líquido da aprovação na trajetória dos gastos é pequeno, se é que existe (e, não, não é verdade, infelizmente, que tenha congelado salários de servidores por 15 anos). No caso do governo federal, talvez apareça em 2025, se nada ocorrer no meio do caminho que inviabilize também essa proposta.

Evitou-se, é bom que se diga, um desastre ainda maior, como a incipiente discussão (com o aparente apoio do presidente da República) acerca da retirada do Bolsa-Família do teto de gastos, mas impedir um gol contra de pouco adianta quando a defesa é incapaz de segurar o ataque adversário. As perspectivas, portanto, são que o retorno a saldos positivos nas contas primárias ficou ainda mais longínquo, se é que um dia haverá de ocorrer.

O resultado do descontrole fiscal é maior pressão sobre o dólar e sobre os juros. Como explorado na minha última coluna, o dólar mais caro, acoplado a preços mais altos de commodities (uma combinação rara), tem feito a inflação se acelerar, se manifestando em particular na elevação persistente de preços de alimentos.

Ao contrário do que eu imaginava no final do ano passado e começo desse ano, o IPCA deve superar consideravelmente a meta de inflação talvez pela margem mais alta desde 2016. Muito embora o efeito do atual aumento dos alimentos deva ficar restrito a 2021 (desde que dólar e commodities não sigam subindo), cabe agora ao BC evitar que esse impacto seja repassado aos preços dos demais produtos, notadamente serviços, o que parece ser o motivo para o início do processo de normalização da taxa de juros que devemos testemunhar essa semana.

Não há como evitar o desconforto de observar a elevação da Selic com a economia prestes a uma recaída recessiva, mas, dados os demais erros de política, sanitária e econômica, não parece haver alternativa para lidar com o problema, ainda mais depois do fiasco da aprovação da PEC.

Em outubro de 2018, às vésperas do primeiro turno da eleição, em entrevista aqui mesmo no InfoMoney, eu dizia que, independentemente do resultado, não tínhamos a menor chance de dar certo. Não escrevo isso para me gabar (na verdade, sim, mas só um pouquinho); apenas para confessar que meu pessimismo (realismo?) naquele momento não chegou perto de antecipar a obra de arte que hoje contemplamos.

Não foi por acaso. Desde antes daquele momento o país, incapaz de forjar um consenso político, é campo de batalha de grupos de interesse, cuja luta incessante por nacos da renda nacional conseguiu nos fazer marchar impávidos rumo ao desastre.

 

This is the end

My only friend, the end

Of our elaborate plans, the end

Of everything that stands, the end

No safety or surprise, the end




(Publicado 17/Mar/2021)

terça-feira, 16 de março de 2021

A conta

 Semana que vem o Copom deve iniciar um ciclo de elevação da Selic. A aceleração recente da inflação decorre de uma quebra na relação inversa entre preços de commodities e o dólar por força da piora de nossos fundamentos. A conta já chegou e há outros boletos no correio.

O Copom se reúne na próxima semana e se dá de barato que a meta para a taxa de juros básica, a Selic, será elevada de 2,00% para 2,50% ao ano, apenas o primeiro movimento de novo ciclo de alta. Muito embora a atividade econômica siga ainda deprimida, como capturado pelo comportamento do mercado de trabalho, a inflação desenvolveu uma nova feição nos últimos meses, requerendo uma resposta do BC.

Uma forma de entender o fenômeno é analisar o comportamento de diferentes grupos de produtos no IPCA, em particular o que tem acontecido com os preços dos produtos ditos “comercializáveis”, isto é, aqueles que são comumente transacionados com o exterior (ou seja, cujos preços refletem similares internacionais devidamente convertidos em moeda doméstica), dos produtos “não-comercializáveis”, cujo consumo (e formação de preço) é eminentemente local. O gráfico abaixo resume o comportamento desses grupos de 2016 para cá.

 

Fonte: Autor com dados do IBGE
Como se vê, a partir de meados do ano passado os preços de produtos comercializáveis não apenas reverteram a tendência de queda que prevalecia desde o final de 2019 (e que se aprofundou nos primeiros momentos da pandemia), mas também se aceleraram visivelmente em comparação aos não-comercializáveis, cuja variação em 12 meses permanece próxima a 3%, superando 9% em janeiro de 2021.

Trata-se de fenômeno relativamente raro: de 1996 a 2020 (ou seja, 25 observações) houve apenas 7 anos em que a variação de preços comercializáveis superou a de não-comercializáveis, dos quais 4 entre 1999-2003, nos primórdios do regime de metas. Vale dizer, tipicamente a inflação brasileira não foi pressionada pelos produtos cujo preços estivessem mais ligados ao dólar e às cotações internacionais, refletindo principalmente a dinâmica interna da economia, isto é, o balanço doméstico entre oferta e demanda.

O motivo para isso parece ter sido uma característica que o Brasil em geral compartilha com países exportadores de commodities: a elevação de seus preços internacionais tipicamente fortalece a moeda desses países, atenuando seu impacto sobre os preços domésticos.

Isto é claramente visível no gráfico abaixo, que compara a evolução do índice de preços de commodities do FMI medidos em dólares e reais: até recentemente, a medida em reais dos preços de commodities era mais “bem-comportada” do que sua contrapartida em dólares. Momentos de forte alta de preços internacionais, como por exemplo entre 2006 e 2008, quando as cotações em dólares subiram mais que 75%, se traduziam em elevação das cotações locais pouco inferiores a 30%; da mesma forma, a queda de preços internacionais entre 2013 e 2015, superior 45%, atingiu perto de 11% medida em reais.

Fonte: FMI e autor

O dólar funcionava assim como amortecedor das variações dos preços internacionais de commodities, parcialmente isolando a inflação doméstica da inflação global. Esse padrão, contudo, deixou de existir no período mais recente. De dezembro de 2019 a dezembro de 2020 preços de commodities em dólares subiram 4,5%; em reais, 31%, discrepância que continuou no início de 2021, mais aparente, claro, no preço de combustíveis, mas não limitada a eles. Em particular, as pressões sobre preços de alimentos derivam primordialmente dessa nova dinâmica.

Posto de outra forma, a mudança do comportamento da inflação capturado pelo nosso primeiro gráfico é resultado da “quebra” da relação histórica entre preços de commodities e o valor do dólar no país.

 

Resta saber o motivo da quebra. A hipótese mais promissora aponta para a piora dos “fundamentos” do país, ou seja, das condições domésticas, desde a evolução da epidemia, que ameaça descarrilar a recuperação (incompleta) da economia, até as péssimas perspectivas das contas públicas, menos por força do auxílio-emergencial e mais pela sinalização de nossa persistente incapacidade para resolver o problema em prazo minimamente razoável. Sem progresso nessa frente, será difícil produzir um dólar significativamente mais barato.

Ao BC restou a alternativa de retirar parte dos estímulos monetários introduzidos durante a epidemia. Note-se que a elevação da Selic não deve ter como objetivo primeiro a valorização da moeda nacional, não só porque isso requereria um aumento muito mais vigoroso da taxa de juros, possivelmente insustentável dadas as condições das contas públicas, como incongruente com o próprio regime de metas para a inflação. A ideia, sempre, é fazer a inflação convergir para a meta, não manter a taxa de câmbio em torno de algum nível “ideal”.

Concretamente, significa que o papel da política monetária será garantir que o aumento dos preços de produtos comercializáveis não “contamine” os preços de não-comercializáveis. Isso requer, por um lado, que o BC mantenha as expectativas inflacionárias próximas à meta, ao menos em 2022, mas significa também que a demanda interna terá que se recuperar mais lentamente no ano que vem, para compensar o crescimento mais vigoroso da demanda externa resultado do aumento das exportações (menos importações) de commodities.

A conclusão é que não precisamos de um choque de juros, mas da remoção gradual dos estímulos monetários, mais cedo, confesso, do que imaginava ser necessário.

Alternativamente, poderíamos embarcar num ciclo vigoroso de reformas para colocar as contas públicas em ordem nos próximos anos, mas adultos não têm direito de crer em fantasias fora da esfera artística. A conta da inação já chegou e novos boletos estão a caminho.



(Publicado 10/Mar/2021)

terça-feira, 2 de março de 2021

Quando o sólido se desmancha no ar

Propostas de reviver o auxílio emergencial nos mesmos moldes do ano passado com financiamento monetário do gasto adicional implicam risco de aceleração considerável da inflação. Foco é essencial.

Como já tive oportunidade de explorar aqui, defendo a extensão do auxílio emergencial, menor e mais bem focado, para os grupos mais vulneráveis, notando que a PNAD mais recente, referente ao trimestre terminado em dezembro do ano passado, estimava que o nível de emprego naquele momento ainda se encontrava cerca de 8 milhões abaixo do registrado em fevereiro (dados dessazonalizados).

Há também necessidade de medidas compensatórias para a expansão de gastos decorrentes do auxílio, que, inclusive, sequer precisariam se materializar necessariamente em 2021. Se conseguíssemos apontar com boa dose de certeza que as contas públicas se reequilibrariam num horizonte razoável, iniciando, digamos, no ano que vem, mas com componentes que tornassem possível a manutenção do teto de gastos ao longo dos próximos 5 a 6 anos, seria possível evitar uma trajetória de expansão descontrolada da dívida pública.

Muitos “ses”, reconheço, a começar pela presunção de comprometimento com o controle dos gastos públicos ao longo de um horizonte extenso, factível, ainda que improvável.

Dito isso, quando vejo economistas defendendo a manutenção do auxílio emergencial no mesmo montante observado no segundo e terceiro trimestres do ano passado, uma conta de aproximadamente R$ 50 bilhões/mês, tenho a nítida convicção que vivem numa dimensão à parte. Ainda mais considerando que preferem que “o auxílio emergencial não seja financiado através da venda de títulos públicos ao mercado, para evitar o aumento da dívida pública mantida por agentes privados”, mas que, ao contrário, seja financiado por expansão monetária, isto é, pela compra de títulos do Tesouro pelo Banco Central.

Essa proposta só pode levar a dois resultados: (a) uma deterioração significativa do perfil da dívida pública; ou (b) uma aceleração extraordinária da inflação, provavelmente ambos.

Para entender o motivo consideremos em primeiro lugar a mecânica da coisa. Digamos que o Tesouro emita R$ 50 bilhões em títulos em determinado mês, devidamente adquiridos pelo BC, aumentando o montante da conta única do Tesouro no BC em R$ 50 bilhões, que serão então gastos para bancar o auxílio emergencial.

Concretamente, se a Caixa Econômica Federal (CEF) for o agente dos pagamentos, os R$ 50 bilhões se tornam reserva bancária da CEF. Só para ilustrar a magnitude da proposta, o total de reservas bancárias no dia 19/02/21 era R$ 32,7 bilhões (a média em fevereiro até aquele dia registrava R$ 40 bilhões, de acordo com dados do BC), ou seja, em apenas um mês, sem medidas compensatórias, o montante de reservas mais do que dobraria.

Notem que a taxa básica de juros no Brasil, a Selic, é a taxa cobrada para a troca de reservas bancárias: bancos com reservas abaixo do necessário tomam emprestado (de outros bancos, ou, mais comumente, do BC) pagando a Selic, enquanto aqueles com excesso de reservas emprestam recursos à taxa Selic. Numa situação como a descrita acima, com reservas mais do que dobrando de patamar, deve ser óbvio que falamos de um gigantesco excesso de reservas, cenário em que duas coisas podem acontecer.

Num primeiro caso, o BC toma esses recursos do mercado por meio da venda (com compromisso de recompra) de títulos públicos federais de sua carteira, garantindo que a taxa Selic fique próxima ao valor definido pelo Copom com o objetivo de manter a inflação na trajetória de metas. Nesse caso, a dívida aumenta no mesmo montante inicialmente adquirido pelo BC (R$ 50 bilhões); apenas, ao invés de aparecer como dívida mobiliária, aparece como operação compromissada.

Note-se, contudo, que isso implica piora do perfil da dívida pública, já que as operações compromissadas tipicamente são feitas por prazos bastante inferiores aos observados no caso de venda desses títulos no mercado. Sem considerar as compromissadas, pouco mais de ¼ da dívida vence nos próximos 12 meses; se as incluirmos na conta, algo como 40% da dívida vence nos próximos 12 meses.

Alternativamente, o BC pode não tomar o excesso de reservas. Nesse caso, ele não consegue garantir que a Selic permaneça no patamar definido pelo Copom como apropriado para manter a inflação na meta; no caso, a Selic ficará bem abaixo do valor considerado adequado. O resultado é que a inflação deve se acelerar em comparação à trajetória prevista sob a Selic “correta”.

Agora imaginem isso ocorrendo repetidamente ao longo do ano, ao ritmo de R$ 50 bilhões por mês... Inflação em alta com Selic perto de zero: o que poderia dar errado?

O mais provável face a essas alternativas seria a opção do BC pela manutenção da Selic no nível que determina a cada reunião do Copom e, portanto, reverter o aumento das reservas bancárias por meio da colocação de compromissadas, o primeiro caso que analisamos acima. Isso, contudo, implica expansão da dívida a R$ 50 bilhões/mês, ou seja, R$ 600 bilhões/ano sem considerar a incidência de juros sobre este montante, perto de 8% do PIB além do crescimento já contratado (que já coloca a dívida bruta na casa de 90% do PIB ao final de 2021).

Sim, é verdade que não há um patamar mágico e preciso além do qual tudo que até então era sólido se desmancharia no ar, mas não é menos verdade que o crescimento descontrolado da dívida pública levará em algum momento à percepção que não poderá ser honrada nas condições originalmente contratadas.

Com parcela considerável da dívida sob a forma de operações compromissadas, ou seja, com seu prazo bastante encurtado, não é difícil imaginar as pressões que podem ocorrer no dólar, nos preços de imóveis, etc., de uma enorme massa de liquidez buscando proteção. Dito de outra forma, cedo ou tarde o BC perderá a capacidade de controlar a inflação, que então fará o serviço sujo de ajustar o nível de endividamento do país pela corrosão do valor da dívida.

Vamos estender o auxílio emergencial, sim, mas sem perder de vista os custos dessa abordagem, mantendo o foco nos mais vulneráveis (portanto um programa menor em termos de valor mensal, escopo e duração) e trabalhando para compensar seus impactos sobre a dívida. O resto é lacração barata, em busca de aplausos da bolha.



(Publicado 3/Mar/2021)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Além do primeiro ano

As estimativas do MADE sugerindo que a redistribuição de renda poderia elevar o crescimento não se sustentam. Ignoram impactos sobre comércio exterior, bem como a reação de preços e taxa de juros. Também confundem efeitos de curto prazo com crescimento de longo prazo. Um assunto sério merece tratamento à altura.

Quando dava aulas no Insper, era corresponsável pelo curso de Problemas em Economia, iniciativa da Luciana Yeung. Oferecida no final do terceiro ano, era uma disciplina dita “capstone”, requerendo dos alunos que juntassem os conhecimentos adquiridos ao longo dos semestres anteriores para identificar e solucionar alguma questão econômica relevante. Houve trabalhos excelentes, sem esgotar os exemplos, na área de política monetária, crescimento, crime, prostituição, e comércio exterior, que me deram enorme satisfação na leitura.

Não posso, porém, dizer o mesmo da Nota de Política Econômica formulada pelo MADE (Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade) da USP, estimando que a redistribuição de renda poderia elevar o PIB em 2,4% caso as medidas que defende fossem implementadas.

O argumento é simples e, à primeira vista, bastante persuasivo. Indivíduos (ou famílias) mais pobres tendem a consumir mais de sua renda do que os mais ricos – em economês, sua “propensão a consumir” é mais alta –, ou seja, se transferirmos renda dos mais ricos para os mais pobres, não só reduziríamos a enorme disparidade de renda no Brasil, como cresceríamos mais, embalados pelo consumo.

Tal impacto não se encerraria no efeito direto da transferência em si, mas, como o consumo aumentaria, também o emprego seria maior, logo a renda, portanto novas rodadas de consumo e assim por diante, configurando o chamado “efeito multiplicador”. Como o multiplicador é tanto maior quanto mais alta for a “propensão a consumir”, a redistribuição de renda teria resultados ainda mais vigorosos sobre o crescimento.

Ou, pelo menos, é o que extrairíamos dos modelos macroeconômicos que ensinamos aos estudantes do primeiro ano, mas dificilmente do que eles aprendem pouco depois.

Há, para falar a verdade, omissões sérias nas estimativas mesmo dentro do marco de referência deste modelo mais simples. A começar porque, se houve a iniciativa de estimar a “propensão a consumir” para cada faixa de renda, a questão do quanto o consumo “vazaria” para fora, seja sob a forma de importações mais elevadas, seja por seu impacto sobre o volume exportado não foi adequadamente tratada.

Não há, por exemplo, estimativas por faixa de renda da “propensão a importar”. Há uma estimativa da “propensão a importar” da economia como um todo ponderada pela participação na renda, mas implicitamente supondo que cada real de renda adicional geraria o mesmo acréscimo de importações para diferentes grupos de renda. Ignora-se, ademais, o efeito do consumo sobre as exportações, por exemplo, o que ocorre com as exportações de açúcar se há aumento da demanda por álcool combustível?

Sim, sempre à primeira vista, isto pareceria um problema menor. Ricos devem demandar mais produtos importados do que pobres, não? Se alguém está pensando em uísque ou carros importados, parece verdade, todavia:

(a)   a maior parte das importações brasileiras não consiste de bens de consumo, mas matérias primas e componentes para produção local, então não podemos dizer a priori se a propensão a importar é maior dentre os mais pobres, pois seu consumo, mesmo de produtos nacionais, tem componentes importados (pense em todos derivados de trigo, por exemplo);

(b)   extratos mais ricos da população consomem mais serviços, cuja produção é local, do que os mais pobres, ou seja, o “vazamento” do consumo para o exterior por este lado é menor. De fato, enquanto no índice oficial de inflação, o IPCA, serviços respondem por quase 48% da cesta de consumo daqueles que ganham até 40 salários mínimos, no IPNC, índice irmão, calculado para quem ganha até 6 salários mínimos, serviços representam pouco menos de 41% do consumo;

(c)   O aumento da demanda por alimentos, que tipicamente acompanha a expansão da renda dos mais pobres, subtrai das exportações, fenômeno omitido da análise.

Os problemas, contudo, não se encerram com a omissão das exportações e tratamento insatisfatório das importações.

De forma bem mais grave, as estimativas ignoram a reação do conjunto da economia ao aumento do consumo. Logo depois de ensinarmos no primeiro ano o modelo em que foi baseado o trabalho do MADE, costumamos complicar um pouco a história, introduzindo taxas de juros no problema, fenômeno ignorado pelos pesquisadores. Um pouco mais adiante, trazemos também a resposta dos preços, isto é, o comportamento da inflação, que também tem impactos sobre as taxas de juros.

Tipicamente, um aumento do consumo leva também à elevação da taxa de juros, fenômeno que modera o efeito sobre a demanda. Se os pesquisadores tivessem atentado para isso, sua estimativa do impacto final do consumo sobre a renda seria menor.

Adicionalmente, ao ignorar o comportamento dos preços, supuseram (de novo implicitamente) que a produção pode se expandir sem efeitos sobre a inflação. Talvez possa ser uma boa representação da realidade em países de inflação muito baixa que lutam para escapar do risco deflacionário, mas certamente não é o caso do Brasil. Mesmo que não estejamos prevendo descontrole inflacionário iminente, a inflação se encontra próxima a 4,5% em 12 meses, e as medidas menos sensíveis a acidentes de percurso (os chamados “núcleos de inflação”) rodam na casa de 3% no mesmo horizonte, não particularmente elevadas, mas bem distantes do zero.

Em particular, quanto mais próxima estiver a economia de seu potencial – não o caso hoje, mas uma situação que também deve ser considerada – tanto maior será o risco inflacionário e tanto mais alta será a taxa de juros requerida para evitá-lo. Vale dizer, a taxa estrutural (ou neutra) de juros se elevaria em resposta, outra consequência não analisada.

Posto de outra forma, as estimativas teriam que levar em conta possíveis impactos sobre inflação e a reação das taxas de juros, duas forças que moderariam o efeito da redistribuição. Todavia, analiticamente isso não é viável pela simplicidade extrema do modelo. Há, é bom que se diga, alternativas que não precisam ser extraordinariamente complexas, mas que demandam mais do que algumas regressões e um tanto de álgebra para avaliar a extensão da resposta da economia de maneira mais completa. Ou, pelo menos, seria este meu conselho se alunos do terceiro ano me abordassem para estudar o fenômeno.

Os problemas não se esgotam aí. Segundo uma das autoras do estudo “é perfeitamente possível desenhar um programa que combine redução da desigualdade com aumento do ritmo de crescimento econômico” [grifo meu]. Na verdade, não.

Para começar, o modelo não tem condições de avaliar crescimento. Tudo se passa dentro de um único período, enquanto o crescimento é um fenômeno que se desenrola ao longo de vários períodos. O que o modelo consegue mostrar, quase que por desenho, é que a distribuição de renda de ricos para pobres pode gerar algum efeito sobre o consumo da economia, efeito esse que – por força dos argumentos anteriores – está bastante superestimado nos resultados dos autores.

Crescimento econômico, porém, é algo distinto. A expansão da economia ao longo do tempo não depende da demanda, mas do aumento da capacidade produtiva, ou seja, do investimento em capital físico (máquinas, equipamentos, infraestrutura, etc.), do investimento em capital humano (educação e qualificação da força de trabalho) e do crescimento da produtividade. Aliás, como diria Paul Krugman, “produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”.

Apenas uma dentre as muitas omissões gritantes do tratamento do tema é o silêncio ensurdecedor acerca do efeito da tributação sobre o crescimento. Tributação progressiva da renda, ou seja, mais alta para a parcela mais rica da população é analiticamente equivalente a imposto sobre capital, cujo efeito é deprimir o investimento em relação ao cenário livre de tributação, o que leva a menor crescimento.

Diga-se, aliás, que este é um dos motivos mais citados para a troca entre crescimento e equidade, isto é, porque economias mais igualitárias crescem menos do que aquelas com maior desigualdade, tema frequentemente levantado, dentre outros, por Samuel Pessoa. No entanto, os autores simplesmente omitem essa questão central da discussão.

Nada nas estimativas sugere que seja possível elevar o ritmo de crescimento econômico sustentável; no máximo, como notado, consegue levar ao aumento da demanda que pode, ou não, se traduzir em aumento da renda e do emprego dependendo do estado cíclico da economia, isto é, da distância da economia relativamente ao seu potencial.

A verdade é que a discussão sobre políticas públicas requer um tanto de profundidade, certamente bem mais que pode ser encontrada no trabalho do MADE.

Isso obviamente não quer dizer que a distribuição de renda no Brasil não seja desigual, nem que não mereça ser devidamente tratada, inclusive porque resulta de mecanismos de gastos e tributos que a tornam ainda mais desigual. Quer dizer, todavia, que deve ser encarada de maneira séria, o que certamente não foi o caso no estudo do MADE.

Tenho certeza que meus alunos fariam melhor.



(Publicado 24/Fev/2021)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Final de jogo

Mais que a demissão na Petrobras em si, a mensagem que ela encerra é preocupante: o país segue à deriva em meio à grave crise sanitária, econômica e política. Quando até a Faria Lima consegue entender isso é sinal que o jogo está se encaminhando para seu final...

A demissão do presidente da Petrobras, Roberto Castelo Branco, caiu pesado, tanto sobre o mercado acionário, mais diretamente atingido pela medida, inclusive por força do peso da empresa sobre o índice Bovespa, como sobre o mercado financeiro em geral. Engana-se, porém, quem acredita que o problema se restringe àquela esfera: as consequências são várias e abrangentes; o mercado financeiro apenas reage mais rápido em antecipação à deterioração dos fundamentos econômicos do país.

Pelo que se depreende, o motivo da demissão foi a insatisfação do presidente com a elevação dos preços dos combustíveis, decorrência direta da política da empresa, adotada já há algum tempo, de espelhar no mercado doméstico os preços internacionais de combustíveis, devidamente convertidos em moeda nacional. Preços mais altos de combustíveis costumam erodir a popularidade de governantes e, no caso específico de Bolsonaro, o efeito é pior, pelo menos na visão do presidente, por afetar uma categoria, caminhoneiros, que ele entende como aliada, ou, pelo menos, alguém que grunhe na mesma idioma.

Popular, ou não, trata-se de política essencialmente correta, como já pude argumentar em outros momentos. No que se refere à empresa, a prática contrária, usada além do limite da irresponsabilidade no governo Dilma, levou a sérios prejuízos. Medidos aos preços de hoje, os prejuízos acumulados entre 2014 e 2016 atingiram pouco mais de R$ 93 bilhões, outorgando à empresa o nada honroso título de petroleira mais endividada do planeta. Dado que o principal acionista é o governo federal, falamos aqui do que Armínio Fraga memoravelmente denominou “o meu, o seu, o nosso dinheiro”.

Note-se que tal política não resulta do poder de monopólio, muito pelo contrário. Ao equiparar seus preços aos do mercado internacional a Petrobras permite que outras empresas compitam na oferta de combustíveis. Caso praticasse preços domésticos abaixo do equivalente internacional impediria que concorrentes pudessem importar o produto e comercializá-lo no mercado interno, já que ficariam sempre acima do preço da empresa.

Há, afora isso, motivos de eficiência econômica. Quando preços de um determinado produto se elevam, a resposta (eficiente) de mercado é reduzir o consumo e aumentar a produção. O segundo efeito, no caso do petróleo, não é imediato (a menos de condições muitos específicas quanto à capacidade ociosa), mas o primeiro, a redução do consumo, é exatamente a reação que esperamos face a um produto mais caro, portanto mais escasso. Não permitir o funcionamento do sistema de preços no caso agride um princípio básico de qualquer economia de mercado.

Sim, é verdade que combustíveis são bastante tributados, assim como também é verdade que produzem chamadas “externalidades negativas”: o uso de combustíveis fósseis polui e colabora para o uso exagerado de outro recurso escasso, espaços na malha viária, cuja tradução no dia-a-dia é “congestionamento”. Obviamente não imagino que a carga tributária sobre tais produtos seja guiada apenas por tais preocupações, mas, como o ônus da prova tipicamente cabe ao acusador, críticos teriam a obrigação de provar que combustíveis são tributados em excesso ao “ótimo” (a chamada taxa pigouviana).

Todavia, as implicações vão além da manutenção da política de equiparação do preço doméstico ao internacional.

Do ponto de vista de “governança” (não sou fã da expressão, mas não me veio outra à mente) a demissão de um dirigente de empresa estatal por razões político-eleitorais é uma distorção grave. Trata-se do uso do aparato do poder público em benefício próprio, prática que deve ser genericamente repudiada em países que prezem a democracia e o respeito à coisa pública.

A triste verdade é que, por mais que tentemos impor alguma espécie de disciplina a quem ocupa a cadeira presidencial (ou estadual, ou municipal) em dado momento, cujo exemplo mais recente é a Lei 13.303/2016 (Lei de Governança das Estatais), empresas controladas pelo poder público estão tipicamente à mercê do mandatário de plantão. Em tempos de Lava Jato em retirada, é sempre bom lembrar como a própria Petrobras foi usada e abusada para fins políticos partidários, sem esquecer, é claro, que o quase esquecido “mensalão” revelou esquemas semelhantes em outra empresa federal, no caso os Correios.

Torno a repetir: enquanto houver carniça, haverá urubus. Para acabar com a carniça, a melhor alternativa é a privatização, promessa em que muitos acreditaram quando da indicação de Paulo Guedes à liderança da área econômica (eu, modéstia às favas, não, obrigado). Talvez agora caia a ficha dos últimos ingênuos, exceto, é claro, Luiz Carlos Mendonça de Barros: não vai rolar privatização de peso no governo Bolsonaro.

Também se iludem aqueles que acreditam nos compromissos do presidente com o equilíbrio das contas públicas e reformas liberalizantes. Seu objetivo é um só: se manter no poder, custe o que custar e se o ministro da Economia ainda não entendeu isso, não será aqui que irá aprender, mas na dura realidade dos fatos.

A paralisia do governo em face de nossos desafios, de que a demissão na Petrobras é apenas uma faceta, irá, por vários caminhos, agravar a situação que já vivemos, seja do ponto de vista do nosso endividamento, seja o risível crescimento da produtividade. Mais que o fato em si, a mensagem que ele encerra é preocupante: o país segue à deriva em meio a uma grave crise sanitária, econômica e política.

Quando até a Faria Lima consegue entender isso é sinal que o jogo está se encaminhando para seu final.



(Publicado 22/Fev/2021)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Foco

 A evolução do desemprego sugere que o auxílio emergencial poderia ser melhor focalizado, protegendo os diretamente afetados a um custo menor do que sua versão original. Tais informações, contudo, não parecem balizar a decisão de sua provável extensão.

Defendo a volta do auxílio emergencial, como já deixei claro em colunas anteriores, principalmente por razões humanitárias. Da mesma forma que bombeiros têm por função apagar incêndios e exércitos nos defender em caso de agressão externa, face a uma calamidade pública como a epidemia, que impede o acesso de pessoas ao mercado de trabalho, o poder público deveria ajudar este grupo, obviamente enquanto a crise sanitária não permitir o retorno à normalidade.

Há obviamente implicações para a evolução do endividamento que precisam ser devidamente consideradas e, claro, compensadas, mesmo que tal compensação não ocorra no mesmo ano fiscal, mas ao longo de horizonte algo mais extenso. De qualquer forma, já tenho me pronunciado bastante sobre o que acredito ser necessário para contrabalançar o impacto do auxílio emergencial (reforma administrativa – séria, não o projeto de brinquedo enviado ao Congresso – e a PEC emergencial) e não pretendo me alongar sobre o assunto.

Meu ponto hoje, inspirado, devo dizer, pelo excelente artigo de Fernando Genta aqui mesmo no InfoMoney, é ajudar a mapear o universo dos que devem, em princípio, receber o amparo público. Trata-se, ao menos em tese, das pessoas que tiveram que se afastar do mercado de trabalho por força da pandemia e que não dispõem mecanismos de reposição da renda perdida.

Fonte: PNAD (dados dessazonalizados pelo autor)

Submeto assim aos leitores o gráfico acima, elaborado a partir dos dados da PNAD contínua. Medimos ali a evolução do emprego a partir de fevereiro do ano passado, último mês de evolução positiva do mercado de trabalho, imediatamente antes do impacto da crise sanitária. No caso, uso a classificação pela posição no emprego, isto é, com ou sem carteira de trabalho, ou, no que se refere a empregadores e trabalhadores por conta própria, com ou sem CNPJ, distinguindo também funcionários públicos estatutários.

Este último grupo, aliás, como mostrado acima, registrou expansão de quase 800 mil novos empregados em termos dessazonalizados, de 7,9 milhões no trimestre terminado em fevereiro para 8,7 milhões no trimestre encerrado em novembro. Trata-se de uma ilha de estabilidade (o trocadilho é intencional) no oceano de devastação, dado que todos os demais grupos apresentaram redução expressiva em termos de ocupação.

O maior impacto absoluto foi registrado entre os que estavam empregados com carteira de trabalho, incluindo trabalhadores domésticos: perda de 4 milhões (chegou a 5 milhões, mas houve alguma recuperação) entre fevereiro e novembro. Nesse caso, inclusive, o seguro desemprego, devidamente estendido, poderia ser um instrumento mais preciso de reposição da renda perdida, ainda que não integral para todos os elementos do conjunto.

O segundo maior impacto se deu entre os sem carteira de trabalho, 2 milhões no mesmo período, seguido por empregadores (menos) e trabalhadores por conta própria (bem mais) sem registro no CNPJ, pouco mais de 1,6 milhão. Já a queda entre os registrados no CNPJ foi menos expressiva, 242 mil no período referido. Para todos estes, cuja visibilidade é bem menor (mas não tanto no caso daqueles com CNPJ) caberia alguma versão do auxílio emergencial.

Note-se desde já que tratamos de universo bem menor do que o atendido pela versão inicial do auxílio, que abrangeu quase 70 milhões de pessoas. O desafio, portanto, passa por focalizar o auxílio nos grupos diretamente prejudicados pela epidemia e pela necessidade de distanciamento social dela decorrente enquanto não conseguimos debelá-la por meio da vacinação em massa. Assim, conseguiríamos com um volume bem menor de recursos, atender as pessoas efetivamente prejudicadas pela crise sanitária.

Os dados do próprio auxílio, em suas versões 1.0 e 1.1, já poderiam servir de ponto de partida para a recalibragem do programa, mas isso deveria ter sido pensado e investigado meses atrás para servir de opção para a versão 2.0.  

Não foi feito. Perdeu-se tempo negando a extensão do auxílio e agora provavelmente repetiremos, como notado pelo Genta, os equívocos da versão inicial sem o desconhecimento e necessidade de ação imediata que justificaram a decisão do ano passado.

Não chega a ser surpreendente, dado o histórico do país em termos de avaliação de suas políticas públicas, da qual fugimos consistentemente. Não é por outro motivo que gastamos como países europeus, mas obtemos resultados até piores do que os de países emergentes.



(Publicado 17/Fev/2021)