Caro "O", o senhor até agora não tocou no aspecto mais importante tratado pelo Oreiro: Crescimento causando maior taxa de poupança. Ele usa o trabalho de Modigliani como "prova" do sentido causal do crescimento para a poupança e não o contrário.
O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?
Saudações,
Carlos
Respondendo ao Carlos:
Interessante pergunta. A citação do Modigliani não configura ‘prova’, ela apenas descreve os resultados que podem ser gerados com o modelo de consumo no ciclo de vida daquele economista em sua versão mais simples e estilizada.
O modelo de ciclo de vida representou um grande avanço no entendimento de economistas sobre a determinação da poupança, mas nesta versão estilizada deixa a desejar em alguns aspectos. Por exemplo, existe evidência empírica de uma correlação positiva entre taxas de poupança e níveis de renda per capita – uma característica dos dados que não é explicada pelo modelo. Assim como existe evidência de correlação positiva entre taxas de crescimento e taxas de poupança – uma característica dos dados que pode ser racionalizada dentro do modelo de Modigliani (para a evidência empírica, veja [1]).
Quanto à questão da causalidade, tenho algumas observações:
(1) Há muito nós sabemos que existe um viés na estimação da relação entre crescimento da renda e poupança: ganhos temporários de renda (por exemplo, devido a um choque nos termos de troca) são poupados em maior medida, portanto criando a ilusão de uma conexão mais forte entre taxas de crescimento de longo prazo e taxa de poupança.
(2) Existem mecanismos que explicariam uma causalidade no outro sentido, das taxas de poupança para o crescimento. Por exemplo, em um modelo neoclássico de Solow em que o crescimento é exógeno, os níveis de renda per capita no estado estacionário são função crescente da taxa de poupança. Então economias que por algum motivo passassem a poupar permanentemente mais teriam crescimento mais rápido durante o período de transição para o estado estacionário com maior nível de renda per capita.
(3) Uma maior taxa de poupança também pode aumentar o crescimento de longo prazo via redução de vulnerabilidade a crises. Um dos resultados mais influentes da literatura recente sobre crises é um paper de Valerie Cerra e Sweta Saxena [2] que mostra que perdas de produto devido a crises financeiras são permanentes. Na medida que países com taxas de poupança mais alta são menos propensos a crises financeiras, existe uma conexão causal das taxas de poupança para o crescimento econômico.
(4) O sempre-prolífico professor Oreiro escreve “O trabalho pelo qual Franco Modigliani ganhou o Prêmio Nobel de Economia mostra que o crescimento econômico gera a sua própria poupança. Esse é um resultado eminentemente Keynesiano !!!!”. Com todo respeito, esta é uma bobagem tão grande quanto um sujeito que, após constatar que o céu é azul e o ar quente e úmido, exclama “Estamos no Rio de Janeiro!”. É perfeitamente possível que o mundo não seja keynesiano e exista uma correlação positiva entre crescimento econômico e poupança. Assim como é possível o céu azul e o ar quente e úmido em Kinshasa ou Savannah. Mas se você avistar o Pão de Açúcar, pode ter certeza que está no Rio de Janeiro... Este é um exemplo ilustrativo do problema de identificação em economia. Voltando à questão do Carlos (O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?), é muito difícil identificar a direção de causalidade entre poupança e crescimento, pois diferentes teorias plausíveis sugerem uma causalidade positiva em ambas direções.
(5) Resumindo: tanto evidência empírica quanto teoria implicam que taxas de crescimento afetam positivamente as taxas de poupança e vice-versa.
(6) Nosso país tem uma taxa de poupança bem baixa, em parte porque nossa taxa de crescimento é medíocre, mas também porque nossas políticas públicas são inconsistentes com taxas de poupança mais altas. Déficits públicos reduzem a taxa de poupança nacional; aposentadorias precoces e ricas para a elite dos servidores públicos também reduzem a taxa de poupança. Não por acaso, somos um país devedor líquido do resto do mundo e sofremos com os riscos inerentes a esta condição devedora.
Referências
[1] Norman Loayza & Klaus Schmidt-Hebbel & Luis Servén, 2000. "What Drives Private Saving Across the World?," The Review of Economics and Statistics, MIT Press, vol. 82(2), pages 165-181, May.
[2] Valerie Cerra & Sweta Chaman Saxena, 2008. "Growth Dynamics: The Myth of Economic Recovery," American Economic Review, American Economic Association, vol. 98(1), pages 439-57, March