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terça-feira, 19 de junho de 2012

Mais sobre o BF e a criminalidade

Outro problema que deve ser levantado sobre o artigo da galera da PUC e Banco Mundial sobre o papel da expansão do BF na redução da criminalidade em SP é a interpretação equivocada que os autores fazem do resultado das regressões (“our results suggest that the reduction in inequality determined by the program was accompanied by reduced crime rates, reinforcing the connection between inequality and crime stressed before in the literature.”, ou na carta de JPMP para RA: "Encontramos que o crime caiu mais fortemente no entorno das escolas com mais alunos de 16 e 17 anos. Por isso a inferência de que o Bolsa Família causou queda na criminalidade em SP.").

O coeficiente negativo para o número de jovens recebendo BF nas escolas identifica quanto a criminalidade se reduziu no entorno da escola relativamente ao resto da cidade de São Paulo.

Por exemplo, digamos que o Bolsa Família aumentasse a freqüência escolar dos jovens de 16-17 anos (algo que os autores não tentaram demonstrar, mas que pode ser medido usando dados como o PNAD). Se jovens criminosos cometerem crimes predominantemente longe de suas escolas - uma hipótese plausível, pois assim reduziriam a chance de serem reconhecidos – então é perfeitamente plausível que o BF tenha apenas o efeito de deslocar o local da criminalidade para longe das escolas freqüentadas pelos jovens criminosos.

Repito: não há absolutamente nada na equação estimada no artigo da galera da PUC que implica que o BF tenha reduzido o total de crimes em SP. Qualquer afirmação neste sentido, como aquelas supra-citadas no primeiro parágrafo, é errada.

A controvérsia Reinaldo vs JMPM

Como quase todos vocês devem ter ouvido falar, um post de Reinaldo Azevedo criticando um estudo de economistas da PUC-Rio sobre o efeito do Bolsa Família sobre a criminalidade na cidade de São Paulo tem dado o que falar na blogosfera.

Se você não leu ainda, tem tempo a perder, e estômago sadio, aqui está o primeiro post de Reinaldo Azevedo em que ele encontra petistas embaixo de sua cama, na gaveta do faqueiro e dentro da maquina de lavar roupas; aqui a réplica de João Manuel Pinho de Mello, que provou que realmente trabalha duro em sua pesquisa e atividades docentes, pois ficou blatantemente óbvio que ele nunca bateu boca na internet (ou bar ou seminário...); e a resposta de Reinaldo, anunciando que está trabalhando em sua tréplica.

Resumindo, o Reinaldo Azevedo ficou indignado que o estudo dos professores da PUC-Rio atribui parte da redução da criminalidade em São Paulo à expansão do Bolsa Família para adolescentes de 16 e 17 anos, ocorrida em 2008. Sua indignação, em minha opinião, reflete um pouco de sua paranóia anti-petista, afinal o resultado do artigo atribui apenas uns 20% da redução da criminalidade aos efeitos do Bolsa Família, sobrando uma parcela leonina para outras variáveis como as políticas públicas do governo paulista.

Assim, Reinaldo pergunta:
"Por que, então, a campanha do desarmamento não produziu os mesmos efeitos no resto do Brasil? Por que, então, houve, na média, aumento da violência no Norte e Nordeste, embora sejam as regiões mais beneficiadas pelo Bolsa Família?"
JMPM responde:
"Consideremos o Nordeste, o contraexemplo preferido. É possível, na realidade provável, que o crime tivesse aumentado ainda mais no Nordeste na ausência do Bolsa Família, mas não temos como saber. Em linguagem científica isso se chama contrafactual. (...) Mutatis mutandis, o aumento da criminalidade no Nordeste ao mesmo tempo em que o Bolsa Família lá se expandiu não demonstra que o Bolsa Família não ajudou a diminuir o crime."
Aqui eu vou divergir do bom Pedro, que nos comentários desse blog argumentou que Reinaldo deveria ser reprovado com zero em qualquer curso de introdução às ciências sociais. O ponto que o Reinaldo levantou é relevante e deve ser considerado. Se o efeito do Bolsa Família na criminalidade é causal e generalizável (eu não estou convencido que seja um ou outro, e explico logo porque), então este programa teria contribuído para reduzir a criminalidade no Nordeste significativamente. Como sabemos que a criminalidade no Nordeste não caiu, então a divergência na criminalidade entre o Nordeste e São Paulo teria sido ainda maior do que observada – e isso reduz a plausibilidade das estimativas, pois aumenta ainda mais o puzzle do aumento da criminalidade no Nordeste. Na melhor das hipóteses, o fato que a criminalidade aumentou no resto do país sugere que o resultado não seja generalizável.

Quanto ao artigo, eu não estou convencido ainda. Vários resultados já publicados mostram que o BF tem efeitos bem modestos sobre variáveis como a oferta de trabalho. Também é pouco plausível que um benefício tão pequeno tenha efeito economicamente significativo, ainda mais em São Paulo. Os autores têm dados de 2006 a 2009. Por que não fazer um teste de placebo, estimando o efeito da expansão do BF ocorrida em 2008 na criminalidade em 2007? Eu sugeriria que os autores estimassem uma forma reduzida com dados de 2006-07 e testassem se a interação entre o número de estudantes entre 16 e 17 anos e a dummy para 2007 é significativa. Se o teste de placebo encontrar algum efeito da expansão do BF na criminalidade em 2007, é porque a estratégia empírica está mal especificada. Mas se a especificação passar pelo teste de placebo, dou meu braço a torcer (ainda que mantendo minhas dúvidas sobre a generalidade do resultado, vide comportamento da criminalidade no resto do Brasil).