“You are entitled to your opinion. But you are not entitled to your own facts.”
(Daniel Patrick Moynihan)
"Never let the truth get in the way of a good story"
(Mark Twain)
Yoshiaki Nakano cometeu coluna na semana passada argumentando que as elevadas taxas de juros observadas no Brasil teriam origem na economia cafeeira, que dominou o país de meados do século XIX até a primeira metade do século XX.
Segundo Nakano, o
cafeicultor “se assemelhava mais a um rentista do que um produtor preocupado
com redução de custos. Seus lucros dependiam da extensão da sua posse de terras
e de variáveis fora de seu controle, não do seu empreendedorismo ou espírito
inovador.” Como recebia o pagamento uma vez por ano e tinha que guardar o dinheiro,
preferia juros elevados. Por outro lado, como “consumia importados e passava
parte do ano na Europa”, preferia uma taxa de câmbio apreciada. Por causa
disto, conclui, até hoje temos que conviver com juro alto e câmbio apreciado...
Há vários problemas com
o raciocínio, se cabe aqui o termo.
Quem já estudou o
assunto deve ter ficado chocado com a caracterização do cafeicultor como um
“rentista”. A economia cafeeira se caracterizava por grandes investimentos,
pois, ao contrário de culturas anuais, pés de café precisam ser plantados com
antecedência, bem antes da materialização das receitas. Posto de outra forma,
cafeicultores eram, por natureza, empreendedores e, como tal, precisavam
constantemente de crédito.
E, como algum leitor já
deve ter notado, a produção de café não se destinava ao mercado interno, pois
sequer um exército de bebedores do precioso líquido do meu calibre (6 a 9
xícaras de expresso por dia) dariam conta da produção local. Na qualidade,
portanto, de exportadores, é curioso imaginar que cafeicultores pleiteassem uma
taxa de câmbio mais apreciada. Ao contrário, as pressões do setor sempre foram
no sentido de depreciar a moeda.
Só para lembrar, logo
após a Proclamação da República, apoiada entusiasticamente pela cafeicultura, a
política econômica foi caracterizada pela rápida expansão do crédito (o famoso Encilhamento, que começou ao fim da
monarquia, por pressão do setor de café). Já o mil-réis, que comprava 27 pence em 1888, só conseguia comprar 7 pence 10 anos depois. Houve valorização
para 11 pence por ocasião da política
de estabilização de Joaquim Murtinho (1898-1902), mas já em 1906 foi criada a Caixa de Conversão, justamente para
evitar a apreciação da moeda, por reivindicação do setor.
Vale dizer,
cafeicultores não defendiam nem câmbio apreciado, nem juro alto, muito pelo
contrário e qualquer um que tenha lido a respeito sabe disto, mas não, claro,
Nakano. Não bastasse o ridículo de atribuir a persistência de altas taxas de
juros a acontecimentos tão remotos, ainda erra sobre fatos que são de
conhecimento comum.
Isto pode parecer implicância,
mas, creiam, não é (só) o caso.
Há economistas que
acreditam poder escrever sobre qualquer tema sem se dignar a verificar se há um
mínimo de verdade nas afirmações que fazem. Ignoram fatos, mas querem que suas
ideias sejam levadas a sério a ponto de influenciar decisões de política.
Argumentos no debate
econômico têm que ser ancorados em boa teoria e, principalmente, em fatos.
Infelizmente, o que mais vejo são “chutes” como o explorado acima, sem qualquer
conexão com a realidade.
Não sei, sinceramente,
como ainda dão importância para quem apresenta esta postura lamentável...
(Publicado 20/Set/2017)



