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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Um homem de riquezas e bom gosto

Superada, ao menos por ora, a discussão sobre a autorização para que o STF processasse o presidente, o governo anunciou intenções de retomar a agenda de reformas, principalmente a previdenciária. Há, contudo, distância considerável entre intenção e gesto, e as consequências desta distância não são nada agradáveis.

Se havia dificuldade em aprovar meses atrás a reforma na versão proposta pelo relator da comissão especial – ou seja, já bastante aguada com relação à original – a tarefa soa ainda mais complicada agora. Em primeiro lugar porque a votação a favor do presidente, 263 votos na Câmara, sugere uma base parlamentar insuficiente para aprovar tal mudança constitucional (308 votos), mesmo considerando que alguns deputados que se opuseram ao presidente tenham declarado apoio à proposta.

Afora isto, o foco do Congresso não está na reforma previdenciária, mas na definição das regras que guiarão a eleição de 2018, cuja aprovação precisa ocorrer um ano antes do evento, ou seja, em escassos dois meses. Enquanto a usina de péssimas ideias (o “distritão”, para citar apenas uma) funciona a pleno vapor, com o objetivo quase explícito de manter tudo como está, a atenção dos nobres parlamentares não pode se dedicar a assuntos secundários, como tentar colocar as contas públicas numa trajetória com alguma chance de sustentabilidade num horizonte minimamente razoável.

Como escrevi há pouco, o tempo não corre a nosso favor, muito pelo contrário. Sem a reforma da previdência o país enfrentará um dilema sério em horizonte não muito distante: ou mantém o teto constitucional para as despesas (e, com ele, uma chance de controlar o endividamento crescente), mas observa o eventual desaparecimento da já minúscula folga fiscal; ou descarta o teto, submetendo-se, porém, a uma trajetória explosiva da dívida, que termina do jeito que conhecemos por décadas, isto é, inflação e instabilidade.

A esta altura está para mim mais do que claro que o mundo político não entendeu a gravidade do problema, reflexo provavelmente da mesma falta de compreensão por parte da sociedade, em particular de suas elites. A reivindicação salarial do ministério público, 16,7%, por exemplo, em meio à maior crise fiscal do país não é só sintoma de descolamento da realidade; trata-se de tapa na cara da população que, ao contrário dos procuradores, recebe baixos salários, corre risco de desemprego e não tem direito à aposentadoria integral bancada pelo Tesouro Nacional.

Enquanto cada corporação busca se proteger, seja elevando seus salários, seja na manutenção de privilégios, como acesso a crédito subsidiado, proteção contra a concorrência, ou rendas de toda espécie, as finanças públicas pioram a cada dia, a ponto de ser cogitada a revisão da atual meta fiscal, de forma a permitir déficits ainda mais elevados.

E o problema não se limita a isto. À parte iniciativas louváveis, como a luta para eliminar gradualmente o subsídio do BNDES, mesmo em face de considerável oposição pelos defensores do status quo, mantemos o capitalismo de compadrio, que mina nossa capacidade de crescimento de longo prazo.


A verdade é que o atual pacto social se esgotou e descobrimos que, assim como em outros pactos, o que nos espera não é o paraíso, mas exatamente o seu oposto.



(Publicado 9/Ago/2017)

17 comentários:


Gostaria que você deixasse mais claro qual a sua posição em relação ao BNDES.
Eliminar os subsídios dados pelo banco significaria eliminar o próprio BNDES? Na sua opinião os bancos privados poderiam assumir os bancos públicos?

Alexandre,

Qual sua posição sobre a proposta de se subir aliquota de IR pra quem ganha mais de 20 salários mínimos?
E se talvez aumetássemos os impostos sobre os juros e baixasse sobre os salários, pobres salários. Impedisse os Juros sobre K próprio.

Onde vc acha que dá pra mexer sem afetar os trabalhadores mais pobres?

Abraço

Como sempre, "o dedo na ferida", infelizmente. Capitalismo de compadrio -- os donos do poder. -- os homens de negócios e os políticos, ou vice-versa ou versa-vice, desde tempos remotos, capitanias hereditárias, casas-grandes e sensatas, vieiras soutos e rocinhas, quem tem boca vai a, perdão, o dinheiro compra tudo, até o caráter dos altos dignatários, mandatários, celibatários, garanhões de diversas plumagens. Nietzsche fala de 200 anos até vir o super-homem, isto é, um homem que, mesmo sem deus, pois este estava morto, fosse capaz de uma nova Moral, não a da culpa, do pecado, mas da afirmação da vida universal. Salvo melhor juízo, entramos num período histórico de completo niilismo -- o pai não acredita no filho, o filho, idem. A trama do joio e do trigo, agora, é a seguinte: todos roubam, se locupletam dos bens públicos, só que uns, narcisicamente, se dizem trigo (e roubam), os outros também se dizem trigo (e roubam também). O joio vira trigo e o trigo vira joio num passe de mágica. Aqueles conceitos de "bem público", "interesse nacional", "futuras gerações", honra, orgulho, probidade -- que nunca foram mesmo levados a sério, hoje termos arcaicos da língua. Aprenderemos, com certeza, nos próximos 200 anos, a completa geografia do inferno, suas técnicas e produções fraticidas.

"Eliminar os subsídios dados pelo banco significaria eliminar o próprio BNDES?"

Não, mas iria botar o pessoal do banco para correr.

"Na sua opinião os bancos privados poderiam assumir os bancos públicos?"

E por que não?

"Qual sua posição sobre a proposta de se subir aliquota de IR pra quem ganha mais de 20 salários mínimos?
E se talvez aumetássemos os impostos sobre os juros e baixasse sobre os salários, pobres salários. Impedisse os Juros sobre K próprio.

Onde vc acha que dá pra mexer sem afetar os trabalhadores mais pobres?"

Minha opinião a respeito é a o Beca Appy

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,tributacao-de-dividendos,70001903158

Please, allow me to introduce myself
I'm laffer, Arthur laffer
and that´s my curve
Obey it! or die!

"é hora, oras."

As expressões por hora e por ora existem na língua portuguesa e estão corretas. Contudo, apesar de apresentarem a mesma pronúncia, apresentam grafias e significados diferentes, devendo ser usadas em contextos diferentes.
Quando usar por hora?
Por hora é uma expressão que indica tempo, ou seja, que indica o que acontece a cada hora, no intervalo de tempo de uma hora. É muito usada para indicar a distância que um veículo percorre por cada hora de deslocação.
Exemplos com por hora
O carro ia a cem quilômetros por hora.
Este médico atende apenas dois pacientes por hora.
Aquele funcionário recebe dez reais por hora.
Você verificou a previsão do tempo por hora?
Quando usar por ora?
Por ora é uma expressão sinônima de por enquanto, por agora, neste momento.
Exemplos com por ora
Por ora, apenas temos que esperar, já não há nada que possamos fazer.


https://duvidas.dicio.com.br/por-hora-ou-por-ora/

"é hora, oras."
Chuuuupaaaaa!

Alexandre,

aproveitando que vc foi do Bacen, você acha que a galera lá ganha muito além do que merece? Fazendo talvez uma análise tridimensional: salário, qualificação e empenho e comparativa com o setor privado.

Segundo o artigo meio marroumenos dessa galera aqui:
http://porque.uol.com.br/existe-desigualdade-entre-funcionarios-publicos-e-privados/

o pessoal do funcionalismo, quando analisado por grau de instrução, ganha quase o mesmo que o pessoal no setor privado. Me parece que as distorções são bem pontuais, como no judiciário.

Att

Mesmo um aumento de impostos sobre os mais ricos afeta diretamente os mais pobres: Os ricos irão consumir menos, girar menos a economia e tirar empregos justamente dos mais pobres por isso.

Não tem solução sem corte de salários e demissões massivas no setor público. Não fazem nada mesmo, poderiam ganhar proporcionalmente.

Alex, já recomenda compra de ouro?

Alex, já recomenda a compra de ouro?

Alexandre, onde eu arrumo uma série trimestral do hiato do produto mundial ou então o crescimento do pib potencial mundial, tal como requerido na curva IS do BCB? Por acaso você usa o dado do Netherland Bureau de produção industrial mundial, coloca em base trimestral e calcula um HP boladão?

Abs, Julio Maia

"Por acaso você usa o dado do Netherland Bureau de produção industrial mundial, coloca em base trimestral e calcula um HP boladão?"

Precisamente...

"você pode aumentar impostos, mas não pode aumentar a arrecadação"