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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O movimento dos sem-teto

 Não falta quem defenda o drible no teto dos gastos, ainda mais de olho na recompensa política, apesar do histórico nada remoto de irresponsabilidade fiscal. Fica mesmo claro que “de 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”.

Há menos de 4 anos o Congresso aprovou a Emenda Constitucional 95, também conhecida como “teto de gastos”, legislação que limitava o aumento das despesas federais não-financeiras, com poucas ressalvas (notadamente o Fundeb), à inflação nos 12 meses até junho do ano anterior.

 

De 1997 até aquele ano elas haviam registrado crescimento médio de 5,6% ao ano acima de inflação, isto é, dobrando de valor a cada 12-13 anos. Não é preciso nenhum grande exercício de imaginação para entender que tal dinâmica era simplesmente insustentável, ainda mais dado o ritmo muito menor de expansão do PIB entre 1997 e 2014 (ignorando, portanto, a Recessão Órfã de 2015-16), em torno de 3% ao ano, dobrando a cada 23-24 anos.

 

Obviamente uma lei, mesmo inscrita na constituição, não tem o poder de alterar certas dinâmicas econômicas, algumas inclusive oriundas do mesmo texto constitucional. Assim, muito embora no conjunto da obra os gastos tenham de estabilizado em termos reais desde então, houve mudança considerável em termos de sua composição. As despesas obrigatórias, como benefícios previdenciários, funcionalismo, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), abono e seguro-desemprego, transferências a outros poderes, etc., continuaram a crescer acima da inflação.

 

As implacáveis leis da aritmética, essas sim irrevogáveis, implicam, portanto, que o ajuste dos gastos se dê sobre as despesas ditas discricionárias, inclusive investimento, reduzidos em pouco mais de 20% desde então, o equivalente a R$ 16 bilhões a preços de hoje.

 

Nenhum desses desenvolvimentos era desconhecido à época. Pelo contrário, tanto analistas quanto os formuladores da proposta deixaram claro que o teto teria que ser complementado com medidas, também constitucionais, que alterassem o ritmo de expansão das despesas obrigatórias. Não por outro motivo, ainda no governo Temer foi encaminhada uma proposta de reforma previdenciária, mais tarde substituída por outra, mais abrangente, apresentada pela atual administração e trabalhada com afinco pelo Congresso.

 

Sabia-se também que apenas a reforma da previdência, embora necessária, não era suficiente para alterar a dinâmica do gasto obrigatório. Daí o clamor pela reforma administrativa, bem como pela aprovação da PEC emergencial, que permitiria alguma redução nas despesas com o funcionalismo em prazos menores. A segunda foi enviada ao Congresso, mas sem qualquer articulação política digna do nome; a primeira permanece envolta em brumas e mistério (mais quinta que vem, sem falta, será devidamente divulgada).

 

Em outras palavras, não há nada que sugira que a despesa obrigatória deixará de crescer; pelo contrário, tudo indica que seguirá firme e forte, mesmo depois de passada a epidemia.

 

A ser mantido, assim, o teto de gastos, a data de encontro com a verdade, isto é, com um nível de despesas discricionárias tão reduzido que inviabilize o funcionamento do governo federal se torna cada vez mais próxima.

 

Há, além disso, motivações de natureza político-partidária. Tendo experimentado as delícias da aprovação política do coronavoucher, bem como do adiantamento de seguro-desemprego (em conjunto transferências em torno de R$ 50 bilhões/mês) o governo agora sonha com o Renda Brasil, cujo desenho, para variar permanece também envolto em segredo, além de programas de investimentos públicos, também por receio do que possíveis rivais em 2022 terão para apresentar.

 

Não faltam, portanto, vozes a favor de mudar o teto, permitindo que despesas “meritórias” não entrem no seu cômputo.

 

Impossível nesse contexto não lembrar da frase imortal de Ivan Lessa: “de 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”.

 

Foi exatamente assim que o prévio regime fiscal foi para o vinagre: foram excluídos inicialmente do cômputo da meta de superávit primário os investimentos em... saneamento, sem, é claro, qualquer impacto sobre a qualidade do serviço, depois o PAC, depois as desonerações, depois a soma dos CPFs dos secretários do Ministério da Fazenda, até que o número em si não tivesse qualquer aderência ao que de fato acontecia com as contas públicas, na antecâmara das “pedaladas”.

 

Já a opção por trabalhar duro para mudar o status quo segue solenemente ignorada.

 

Não é necessária clarividência para saber onde isso irá nos levar; apenas um pouco de conhecimento da nossa história recente, mas 15 anos parecem, de fato, muito tempo.


(Publicado 12/Ago/2020)

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Pedra cantada

Conforme previmos, a desvalorização do real levou de fato à redução expressiva do passivo externo líquido do país, principalmente no setor privado. Cai por terra assim o argumento que a redução da Selic poderia afetar a estabilidade financeira das empresas endividadas em dólares; ao contrário, desse ponto de vista, o setor privado saiu mais fortalecido.


Contestei em coluna recente a visão defendida pelo Banco Central, a saber, que haveria um piso para a taxa Selic abaixo do qual seus efeitos se manifestariam ao contrário, isto é, contraindo – ao invés de expandir – a atividade econômica e portanto, afastando ainda mais a inflação da meta.

 Segundo o BCB, isso ocorreria por conta da piora dos balanços das empresas endividadas em dólares, uma vez que taxas de juros mais baixas levariam fortalecimento daquela moeda face ao real e, portanto, ao aumento da dívida expressas em moeda local. Assim, argumenta o BC, essas empresas diminuiriam tanto o emprego quanto o investimento, com efeitos adversos sobre o produto, reduzindo adicionalmente a inflação.

 Notei, no entanto, que, ao olhar apenas para o lado passivo dos balanços, o BC perdia de vista os consideráveis ativos externos ​​acumulados pelo setor privado. De fato, conforme resumido na tabela abaixo, embora o setor privado tenha registrado em dezembro do ano passado um passivo externo líquido equivalente a US$ 863,7 bilhões, sua exposição efetiva às flutuações da moeda seria bem menor que a sugerida pelo Banco Central.


Passivo externo líquido (por setor, por moeda) em dezembro de 2019– US$ bilhões

 

Ativos

Passivos

Passivo líquido

 

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Moeda doméstica

0,0

0,0

0,0

102,1

948,4

1.050,5

102,1

948,4

1.050,5

Moeda estrangeira

356,9

535,6

892,5

123,0

450,9

573,9

 (233,9)

 (84,7)

 (318,6)

Total

356,9

535,6

892,5

225,2

1.399,2

1.624,4

 (131,7)

863,7

731,9

Fonte: autor (com dados do BCB)

A tabela revela que a maior parte do passivo externo líquido do setor privado era denominada em moeda local, correspondendo principalmente ao estoque de investimento direto estrangeiro. Segundo nossas estimativas, com base nos dados do BCB, o passivo externo líquido privado em moeda local totalizava US$ 948,4 bilhões naquele momento, enquanto os denominados em moeda estrangeira eram negativos (ou seja, eram ativos externos líquidos), equivalentes a US$ 84,7 bilhões.

 Nessas circunstâncias, o real mais desvalorizado fortaleceria, em média, os balanços do setor privado. Dito de outra forma, o passivo externo líquido privado diminuiria à medida que o dólar se fortalecesse, ou seja, quem corria o risco de câmbio era o investidor estrangeiro.

 A tabela abaixo atualiza esses números para março de 2020, revelando ser exatamente isso que ocorreu. Para o país como um todo (tanto setor público como privado), o passivo externo líquido caiu de US$ 731,9 bilhões para apenas US$ 362,5 bilhões. Note-se que isso não resultou do comportamento do passivo externo líquido em moeda estrangeira, que permaneceu praticamente estável (US$ 315,2 bilhões em março de 2020 contra US$ 318,6 bilhões em dezembro de 2019).

 Passivo externo líquido (por setor, por moeda) em março de 2020 – US$ bilhões

 

Ativos

Passivos

Passivo líquido

 

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Moeda doméstica

0,0

0,0

0,0

73,0

604,7

677,7

73,0

604,7

677,7

Moeda estrangeira

343,2

539,0

882,2

119,3

447,7

567,0

-223,9

-91,3

-315,2

Total

343,2

539,0

882,2

192,3

1052,4

1244,7

-150,9

513,4

362,5

Fonte: autor (com dados do BCB)

 Tal melhora expressiva decorreu, na verdade, do declínio substancial no passivo externo em moeda local, conforme havíamos previsto, que caiu de US$ 1.050,5 bilhões em dezembro de 2019 para US$ 677,7 bilhões em março de 2020, refletindo a valorização do dólar no período, de R$ 4,03/US$ para R$ 5,48/US$ (cotações de final de trimestre).

 Esse movimento teve efeito principalmente sobre o setor privado. Seu passivo externo líquido em moeda local caiu de US$ 948,4 bilhões para US $ 604,7 bilhões no primeiro trimestre do ano, um impacto de US$ 343,7 bilhões, expresso logo abaixo.

 Variação do passivo externo líquido de dez-19 a mar-20 – US$ bilhões

 

Ativos

Passivos

Passivo líquido

 

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Público

Privado

Total

Moeda doméstica

0,0

0,0

0,0

-29,1

-343,7

-372,8

-29,1

-343,7

-372,8

Moeda estrangeira

-13,7

3,4

-10,3

-3,7

-3,2

-6,9

10,0

-6,6

3,4

Total

-13,7

3,4

-10,3

-32,9

-346,8

-379,7

-19,2

-350,3

-369,4

Fonte: autor (com dados do BCB)

 Vale dizer, como previsto, o fortalecimento do dólar melhorou os balanços do setor privado, efeito contrário àquele postulado pelo BC. Obviamente, isso não é verdade para todas as empresas locais, pois estamos lidando com números agregados aqui, sem a granularidade necessária para chegar a conclusões para cada empresa em particular. No entanto, os dados indicam que os receios do BCB não se materializaram na época e permanecem improváveis (para dizer o mínimo), à luz da estrutura do passivo externo líquido resumida nas tabelas acima.

 Nesse ponto, um analista modesto evitaria falar “eu te disse”, mas tal qualificação dificilmente se aplicaria a mim. Repito, assim, o desafio: mesmo que uma taxa Selic mais baixa fosse a principal causa da dólar mais caro (o que não é verdade: prêmios de risco e preços de commodities são bem mais importantes), não há razões para acreditar que isso levaria a uma deterioração tamanha dos balanços das empresas que provocasse um impacto na atividade econômica e na inflação contrário ao normalmente esperado.

 Se restava qualquer dúvida a respeito, os dados aqui apresentados devem tê-la eliminado por completo.


(Publicado 5/Ago/2020)