teste

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Carga tributária, gasto primário e juro real: o que dizem os números

Conforme prometido, seguem abaixo os dados de custo real (deduzida a inflação) da dívida, bem como a evolução de carga tributária e gasto. Os dados de custo real da dívida são do BC e mostram uma forte queda no período mais recente, motivada pela aceleração do IGP. Para "limpar" o efeito das diferenças entre IGP e IPCA há uma média móvel, que mostra queda bem mais modesta na margem, mas também sugere o custo da dívida estável entre 4-5% do PIB/ano.
Já no que se refere à relação carga-gasto, o gráfico foi contruído da seguinte forma:

1) A carga tributária é o dado da Receita Federal, e se refere ao governo federal, estados e municípios (infelizmente a Receita ainda não divulgou o dado do ano passado);

2) Temos os dados do superávit primário dos entes que coletam impostos (União, estados e municípios) estimados pelo BC. A diferença entre a carga tributária e superávit primário é a estimatativa de gasto primário consolidado;

3) Este número provavelmente subestima o verdadeiro gasto primário consolidado. Não há dados sobre as receitas não tributárias do governo (por exemplo, dividendos recebidos de empresas estatais). A notar também que o gasto primário não é o mesmo gasto de contas nacionais, pois inclui transferências a pessoas (Bolsa-Família, e, principalmente, aposentadorias e pensões);

De qualquer forma fica claro que a carga cresceu em linha com o gasto primário. Em particular, notem que as observações gasto-carga têm ficado (até 2006, pelo menos) abaixo da combinação que manteria o primário de 1994 constante. A notar também que entre 1995 e 2004 não se registrou o mesmo primário de 1994.


sábado, 29 de novembro de 2008

Jumento de Ouro Awards

"pedro disse...

Você demonstrou um profundo desconhecimento sobre a economia Brasileira. O Brasil tem potencial para crescer 8% AA,o problema é o BC com a Selic. Índia cresce 8%,China a 9%,Brasil 5%.Temos que crescer 9%,basta você baixar o juros que o Brasil cresce."

10:42 da manhã e já temos um candidato ao Jumento de Ouro (podem votar, segundo sugestão do Kléber; depois eu publico os resultados).

A começar pela afirmação "Índia cresce 8%, China a 9%, Brasil 5%". Como bem lembrado pelo "O", trata-se de países muito pobres, com renda per capita bastante inferior à brasileira. Se há um fato que sobrevive em todos os estudos sobre crescimento é a convergência (condicional): economias mais pobres tendem a crescer mais rápido que economias mais ricas, isto é, a produtividade marginal do capital tende a ser maior onde capital é escasso.

Para quem gosta de outra abordagem (eu diria mais complementar que substituta), o que China passa hoje não é fundamentalmente diferente do que o Brasil passou há 40-50 anos: urbanização. Saem pessoas de atividades de produtividade baixa (agricultura) para atividades de produtividade relativamente elevada (indústria). No processo a produtividade total cresce (mesmo se não houver crescimento de produtividade em cada setor individual), e o crescimento acelera. Isto disto, já passamos por tal processo. Nossa história agora é outra, a saber, fazer crescer a produtividade em cada um dos setores, não mais pela transferência entre setores.

“O Brasil tem potencial para crescer 8% AA”. Isto acabou de ser desmentido. Com o crescimento batendo 5,5-6% a inflação sobe, como já mostrado aqui (http://maovisivel.blogspot.com/2008/05/inflao-e-o-p-de-feijo.html), aqui (http://maovisivel.blogspot.com/2008/05/inflao-alm-do-p-de-feijo_28.html), e aqui (http://maovisivel.blogspot.com/2008/06/inflao-contagiosa.html).

A propósito: de onde saiu o número de 8% (aliás, insuficiente, já que “Temos que crescer 9%,”)? Há algum trabalho, alguma estimação, ou é só uma questão de “vontade ‘pulítica'”?

Meu voto para o Jumento de Ouro de 29/11/08 já foi dado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

De fato e ficção

Uma característica central dos nossos heterodoxos é a permanente recusa a confrontar suas afirmações com os dados. Em suas análises a realidade é sempre um problema a ser cuidadosamente evitado, como transparece na apreciação heterodoxa dos efeitos da crise internacional sobre o Brasil. Segundo esta, o país sofre por ter permitido que a moeda flutuasse, ao contrário de países que evitaram a apreciação de suas moedas, apesar da melhora de seus termos de troca. Mesmo as reservas acumuladas nos últimos anos não serviriam de proteção, supostamente por não terem se originado de superávits em conta corrente, mas sim do endividamento externo. A distância entre estas afirmações e a realidade, no entanto, só pode ser medida em parsecs.

A começar porque, a despeito dos devaneios heterodoxos, a crise não tem poupado nenhum país emergente. Pelo contrário, os países que mais têm sofrido em termos de piora da sua percepção de solvência são exatamente aqueles que nossos keynesianos de quermesse tomavam (ainda tomam?) como exemplo. A Argentina, que pré-crise pagava cerca de 6% a.a. a mais do que um título de cinco anos do Tesouro norte-americano para emitir seus papéis, passou a pagar 48% a.a.. No caso da Rússia, o aumento, na mesma base de comparação, foi de 1% a.a. para 9% a.a., a despeito de seu superávit em conta corrente superior a US$ 100 bilhões nos 12 meses até junho deste ano.

As reservas russas, aliás, que, pelo critério heterodoxo, seriam presumidamente estáveis por resultarem da acumulação de superávits em conta corrente, já caíram de US$ 596 bilhões para US$ 453 bilhões entre 31/julho e 14/novembro, uma redução de aproximadamente 25%, quase toda ocorrida nos últimos 45 dias.

No caso brasileiro isto seria equivalente a uma redução de US$ 207 bilhões para US$ 155 bilhões. Em contraste, no conceito de liquidez internacional, nossas reservas alcançavam, na última sexta-feira, US$ 206 bilhões, praticamente intocadas, a despeito da virulência da crise e de sua suposta instabilidade por terem sido, Tupã nos perdoe, “construídas com base em endividamento externo”.

Da mesma forma que o câmbio flutuante mitigou o efeito do aumento de preços de commodities sobre a inflação, ele agora absorve parcela relevante da piora do ambiente externo. A diferença, porém, com relação a episódios anteriores de deterioração do ambiente internacional e conseqüente depreciação da moeda é que agora não só o setor público se tornou credor em moeda estrangeira, como a maior parte do passivo externo líquido do país consiste de investimento estrangeiro, o que passa o risco da desvalorização da moeda em larga medida para o investidor externo.

Em que pesem os efeitos (aparentemente esgotados) dos derivativos cambiais sobre as empresas privadas, o BC brasileiro pode permitir que a moeda flutue, preservando as reservas (e, portanto, a solvência externa), ao mesmo tempo em que os ganhos sobre estas ajudam a reduzir a dívida pública, melhorando a solvência doméstica. Não por acaso, em contraste com os modelos heterodoxos, nosso risco-país cresceu relativamente pouco, de 1% a.a. para 4,3% a.a., mais por conta da piora geral do que algum problema específico no Brasil.

Contra este pano de fundo só mesmo a duradoura “privação momentânea de sentidos”, tão particular aos keynesianos de quermesse, pode explicar a insistente louvação a um modelo que está levando países que o adotaram a uma crise financeira de grandes proporções. Para heterodoxos, contra a ficção não há argumentos.
(Publicado 26/Nov/2008)

sábado, 15 de novembro de 2008

Estarei fora esta semana

Estou com um notebook e devo conseguir entrar algumas vezes, mas, aviso, a liberação de comentários ficará lenta.

Abs

Alex

P.S. Por ter esquecido a senha do notebook (tinha usado uns três meses antes) consegui travar a máquina.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Como se contradizer no longo espaço de duas linhas

"Washington, 14 - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sinalizou que a tendência no Brasil, a exemplo de todos os países no mundo, é que haja redução de juros. Apesar de não falar em prazos ou índices, o ministro insistiu na necessidade de reduzir o custo do financeiro. 'Vai haver espaço para a política monetária mais flexível em todos os países', declarou Mantega, em entrevista à imprensa, depois de participar de várias reuniões ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com os primeiros ministros do Reino Unido, do Japão e da Austrália. (...)

Diante da insistência dos repórteres se o Brasil ia seguir a tendência do resto do mundo de reduzir os juros na próxima reunião do Copom, já que o ministro estava defendendo uma ação coordenada entre os países para conter a crise financeira, Mantega desabafou: 'vocês estão querendo é criar uma armadilha para que eu diga qual vai ser o próximo resultado do Copom, coisa que eu jamais direi, até porque eu não sei. Mas, aqui, o importante é dizer qual vai ser a diretriz, a linha mestra, e a linha mestra é a redução do custo financeiro no mundo inteiro e no Brasil também'. (...)

Mantega insistiu que 'nenhuma economia cresce com o custo financeiro elevado e crédito escasso'. E prosseguiu: 'nós temos de reverter isso, reduzindo o custo financeiro de diversas maneiras, e o Brasil vai fazer à sua maneira. Não vai fazer exatamente igual fez o Reino Unido ou os Estados Unidos. Mas nós também faremos um movimento neste sentido'. (Tânia Monteiro e Nalu Fernandes, enviadas especiais)"

Eu ia comentar, mas, francamente, preciso?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Emplasto Brás Cubas

Há quem prefira Dom Casmurro, mas meu favorito sempre foi Brás Cubas e seu miraculoso “emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar nossa melancólica humanidade”. Se, porém, o defunto autor não teve reconhecidas as glórias da invenção do alívio contra todos os males, podemos comemorar agora: basta gastar e baixar o juro. Cura até unha encravada.

No entanto, que pena, nem o maravilhoso mundo da ficção admite inconsistências desta ordem. Quem acha que pode tratar de problemas distintos com as mesmas políticas irá se decepcionar amargamente.

Os países no epicentro da crise tiveram seu sistema financeiro devastado: não só o capital dos bancos foi severamente reduzido como também estes têm que reduzir a relação entre empréstimos e capital, redundando em forte contração do crédito e, portanto, da demanda. A inflação, por outro lado, deixou de ser problema, face à própria queda de demanda e à redução de preços de commodities no caso de países que são fundamentalmente importadores destes produtos. Dados preços e atividade em queda, a melhor política é mesmo impulsionar a demanda.

O Brasil, porém, é um exportador líquido de commodities e, como tal, prejudicado pela queda de seus preços. A expressão real deste fenômeno - como mostrei em meu último artigo - é a redução da capacidade de importar, enquanto sua expressão monetária é a depreciação da taxa de câmbio, cujo efeito sobre preços domésticos é bastante conhecido. Ao contrário de países importadores de commodities, o choque externo é, no nosso caso, inflacionário. O remédio de uns é o veneno dos outros.

Sabemos, é verdade, que o crédito desacelerou fortemente no mês passado, tendência que, mantida à frente, conduziria à diminuição expressiva da demanda. No entanto, o que nos levaria a crer que o sistema financeiro nacional reproduzirá nos próximos meses o desempenho de outubro? Ao contrário do que ocorre mundo afora, os bancos brasileiros não sofreram perdas de capital, nem precisam reduzir a relação entre crédito e capital. Passado o choque inicial em que a incerteza acerca dos efeitos da crise sobre o país levou a um comportamento cauteloso, bancos devem voltar à normalidade e o ocorrido em outubro dificilmente será a norma.

Assim, aplicado o emplasto na forma de políticas econômicas que mantenham o crescimento da demanda doméstica, na linha do ocorrido em outros países, não é difícil imaginar as conseqüências. Importações, bastante sensíveis à demanda, não se desacelerarão. Exportações, por sua vez, seguindo o crescimento do comércio mundial e preços de commodities, devem perder fôlego. Estes desenvolvimentos combinados à maior escassez de capital num mundo de liquidez em baixa se traduzem em taxas de câmbio ainda mais depreciadas e, portanto, efeitos inflacionários adicionais ao choque da desvalorização inicial.

Óbvio que sempre iremos achar, entre os “keynesianos de quermesse” que cá abundam, quem diga que a preocupação com inflação é coisa menor no atual cenário e que o foco deveria estar no crescimento. No entanto, o problema não é (e nunca foi) crescer em 2009, e sim garantir que o crescimento seja duradouro, o que só é possível num cenário de estabilidade, exatamente como mostrado pela nossa própria experiência nos últimos anos. Por mais tentador que soe, ficará muito caro abandonar o regime de metas bem como toda estrutura de política econômica comprometida com a estabilidade.

A alternativa é o emplasto Brás Cubas. Só não espere que ele nos livre do legado da nossa miséria.

(Publicado 12/Nov/2008)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Contágio e conseqüência

Há pelo menos três canais por onde o impacto da crise internacional nos afeta diretamente: comércio global, preços de commodities e, finalmente, fluxos de capitais. A combinação destes deverá implicar não apenas a redução da taxa de crescimento, mas também uma alteração importante na sua composição, à medida que a demanda doméstica, fator preponderante da aceleração do crescimento nos últimos quatro anos, deverá encontrar limites bem mais claros à sua expansão.

De 2002 até meados deste ano a conjuntura internacional se mostrou extremamente favorável ao país. Sem desmerecer a adoção de políticas domésticas que, não tenho dúvida, ainda ajudarão o país a se diferenciar de vários de seus pares no futuro próximo, parcela relevante dos desenvolvimentos positivos no país se originou de fatores externos.

O país foi beneficiado, em primeiro lugar, pelo aumento de preços de commodities. Como exporta muito mais commodities do que importa, esta alta resultou em preços de produtos exportados crescendo acima dos preços de importados, isto é, uma melhora dos termos de troca. Conjugada à expansão dos volumes exportados, em parte derivada da expansão do comércio global, esta melhora implicou forte elevação da capacidade de importar: entre 2002 e o terceiro trimestre de 2008, estima-se que o poder de compra das exportações tenha crescido em torno de 80%.

Este processo, por sua vez, permitiu que a demanda doméstica passasse a crescer acima da produção, o que não observávamos desde 1997/98, quando preços de commodities em queda haviam piorado nossos termos de troca. Obviamente, se a demanda doméstica cresce mais rápido que a produção, a diferença deve ser coberta com importações físicas crescendo acima das exportações físicas, o que foi possível principalmente pelo aumento do poder de compra das exportações.

Completando este quadro, a expansão da liquidez mundial barateou o financiamento, trazendo vastos volumes de capital estrangeiro, aparentes na expansão do investimento estrangeiro no país, em particular o investimento direto, que se acelerou de US$ 15 bilhões/ano entre 2002/05 para US$ 35 bilhões/ano em 2007/08.

Não há dúvida, porém, que estes três fatores mudaram de direção, isto é, podemos esperar queda de preços de commodities, desaceleração do comércio global e menores fluxos de capital. A resultante não poderia ser mais clara: a capacidade importadora se reduz e, portanto, também a diferença entre o crescimento da demanda doméstica e do produto deverá cair, revertendo o processo observado nos últimos anos.

Quem anuncia esta mudança, como seria de se esperar, é o sistema de preços. Da mesma forma que a melhora externa se traduziu numa taxa real de câmbio mais forte, incentivando a demanda doméstica às expensas da demanda externa, a piora das condições internacionais requer o inverso, isto é, câmbio real mais depreciado, mesmo com a diferença entre os juros locais e os externos na verdade até mais alta que no passado. Aliás, isto só demonstra o que venho há muito insistindo neste espaço, isto é, que a trajetória da taxa real de câmbio depende mais de variáveis externas que a mera diferença de taxa de juros.

Em resumo, o choque externo reverteu as condições que permitiam o crescimento rápido da demanda doméstica com efeitos inflacionários mitigados (não eliminados) pela disponibilidade de importações. Insistir em manter a demanda doméstica acelerada só há de trazer mais depreciação cambial e inflação. Vamos tentar não repetir este erro?
(Publicado 29/Out/2008)

domingo, 26 de outubro de 2008

Abração de quebrar costela

Seguem abaixo alguns comentários do Kléber. Estava ficando difícil seguir na janela de comentários. É pra rir, mas, principalmente, pra pensar. Como vocês Kléber S (e abraço de esmagar pulmão):

I -

O valor das acoes obviamente nao afeta o equity. Mas tem tido ligacao com o credito. O spread em CDSs tem andado de maos dadas com o preco das acoes. Dificil saber quem empurra quem, mas o fato e' que a queda do preco das acoes torna as chamadas de capital mais diluidoras das outstanding shares. O que nao ajuda o credito nem um pouquinho. Uma das grandes bobagens que os grandes bancos daqui fizeram foi nao chamar capital early enough in the game.

A marcacao a mercado vale para os bonds emitidos pelas firmas tambem. E' um jeito perverso de melhorar o seu balance sheet. Os falecidos bancos de investimento de WS mitigaram substancialmente suas perdas by booking gains com a queda do valor de seus bonds.

Mudando o assunto, agora ficou claro como muitas empresas brasileiras deram uma de Luzia atras da horta no negocio de hedging. A Coreia esta' se entubando precisamente por causa disso. E' o tal do kiko (knock-in knock-out, que seria melhor chamada caso o nome fosse kick-in knock-out). Curiosamente esse produto apareceu, ou se tornou popular, em 2006, e em paises de longa apreciacao de suas moedas. Enquanto o cambio se situa dentro da banda contratada, como a moeda local se aprecia de forma lenta e continua, o comprador do contrato acaba vendendo dolar por taxa acima do mercado. Parece ate' um free lunch. Os bancos vendedores dos contratos pareciam ate' instituicoes de caridade, doadores de dinheiro. So' que quando o cambio SAI da faixa, o comprador tem de pagar a diferenca em dobro. Sera' que os bancos inventaram esse instrumento desavisadamente, sem contar com a desvalorizacao brusca de moedas emergentes? Ho, Ho, HO, conta outra! Eles e' que fizeram um hedging de seus lucros com a tigrada emergente. Pois eles sabiam quem estava financiando a galera: eram eles! Portanto as moedas so' iriam para a cucuia caso ELES puxassem o carro. Como eles tinham estes instrumentos em maos, ao perderem o lucro dos emprestimos com o credit crunch, deram um ultimo aperto na laranja para tirar o resto do suco.

Dai' a minha sugestao para o novo nome: at first the banks kick-in the money, then the knock-out the customers.

Um grande abraco aos amigos

PS: Meu sonho e' abrir um sopao no centro de Zurich. A grana que o governo emprestou ao UBS e' equivalente a 15% do PIB! O balance sheet de UBS mais Credit Suisse e' de 6 vezes o PIB suico! Fiquem de olho nos anoes!

***

II-

A chamada de capital deveria ter sido feita no ano passado. As acoes do LB estavam em torno de 60 dolares. Eles SABIAM da propria situacao. Entao era para ter feito um deleveraging via aumento do equity. Mas isso iria diluir o share holder value. Entao eles tentaram sair de fininho, via encolhimento do balance sheet. So' que como a liquidez do lixo radioativo era baixa, acabaram nao tendo eficacia nenhuma. O Bear Stearns NAO foi salvo. No pacote original do Ben, as acoes foram valorizadas por 2 (dois!) dolares. Posteriormente, para evitar lawsuits, o JP concordou com 10, o que enfureceu a patota do Fed. Na verdade quem foi salvo na jogada do BS foram os debt-holders, assim como os counterparties, do falecido.

Em primeiro de abril, no rally farsesco que mencionei anteriormente, Lehman e UBS ANUNCIARAM chamada de capital, a que o rally foi atribuido pelos "experts" do mercado. "This was saluted by the market as the end of the crisis", disse um deles. Bom, hoje a gente sabe que nao foi bem assim.

Os "anoes" nao teriam como agir no valor dos ativos do UBS. Mas eles podem agir comprando CDSs. 'A medida em que ha' uma corrida para seguro de credito de um fulano qualquer, o spread dos juros a serem pagos por esse fulano no mercado sobe. Num certo momento ele fica sem credito na praca. Nao sobra outra alternativa senao recorrer ao seu Banco Central. Mas se o balance sheet do banco e' muito maior que o PIB do pais de origem, a velha pergunta volta 'a tona: "Where in the hell is the fuck-ng money coming from?"

A tchurma ta' tirando o olho da bola. O problema todo desta crise e' o CDS, nao os pobres dos subprimes. Eles foram so' o estopim. CDSs sao chamados de "seguro de credito", o que na verdade e' uma falacia. Por que? Por duas razoes:

1- Seguro so' pode ser feito por seguradora, que tem regulamentacao sobre reserva de capital. Muito neguinho estaria fora desse mercado.

2- Seguro so' pode ser feito pela parte diretamente interessada, ou com autorizacao do terceiro. Ja' pensou se a tchurma pudesse fazer seguro de vida sobre voce, sem sua autorizacao? Acho que ai' ce taria morto, cumpadre, pois era so' soltar uns trocados para um profissional do gatilho. De posse de seu atestado de obito, o contratante ficaria rico sem fazer forca, nao e' mesmo? Isso NAO ocorre no caso dos CDSs. Eu posso fazer um "seguro" desse tipo SEM ter debito do objeto em carteira. Vai dai' entao que CDSs sao mera APOSTAS feitas sobre um evento qualquer. Como num cassino, se eles percebem que todo mundo esta' apostando nos Giants contra os Raiders o spread sobe, o mesmo ocorrendo no caso dos CDSs. Como esses contratos nao sao feito em bolsa ou clearing house, nao se tem controle sobre quem esta' fazendo o que. Dai' o meu "postulado", de que bancos cujo balance sheet sao substancialmente maiores do que o seu backstop estao numa situacao periclitante. Veja so' uns exemplos: Citibank 2 trilhoes em assets. Fed balance sheet, agora em 1.5 trilhao, PIB americano 14 trilhoes. UBS assets (estimativa) 1.3 trilhoes. PIB suico: 400 bilhoes. Nao tenho ideia do tamanho do balance sheet do BC suico, mas nao pode ser mais do que 100 bilhoes. Morou na jogada? Caso os "anoes" decidam que eles vao quebrar o UBS, o governo suico NAO TEM CACIFE pra guentar a parada. O Soros ficou famoso por jogar o pe'-de-ferro com o BC britanico e arrebentou com a libra ha' anos atras.

Por enquanto esta e' so' uma possibilidade teorica. Mas ela existe. O meu palpite no entanto e' que os austriacos podem dancar primeiro, apesar de nao ter numeros sobre seus bancos. O Raiffeisen, que recentemente confessou ser feliz proprietario de mikkassons da Islandia, expandiu uma barbaridade em direcao ao Leste Europeu. Li um boato de que la' ja' ha' inadimplencia pra dedeu. A Hungria abriu o biquinho, o BCE ta' pingando uns 7 bilhoes de dolares pra equilibrar a situacao. A historia e' a mesma de sempre: moeda supervalorizada, deficit em conta corrente, o credito externo sumiu, etc, etc. Fiquemos pois com um olho na Austria.

***
III-

Muito esclarecedor o seu comentário, ao menos pra mim. Mas acho que o problema com moral hazard como resultado do salvamento dos debt-holders e counterparties do Bear Sterns não é negligenciável.(Adolpho)

Voce tem toda a razao sobre o moral hazard. Mas dado o desespero da situacao, ele teve de ser sacrificado no altar da sobrevivencia. (Po, eu to retorico hoje).

Seguindo a dica do Doutrinador, dei uma espiada na nova garfada argentina. Meu, os governantes de la' nao brincam em servico! Nao ha' nenhum escrupulo! Numa penada a dona Kiki surrupiou todo o sistema de aposentadoria! O loco, meu! Vai cancelar bilhoes de dolares em divida publica, pois como 55 pct dos ativos dos fundos sao titulos do tesouro, a garfada permite o cancelamento. Com isso ela se financiara' por mais algum tempo, compensando desta forma a perda de receitas com a exportacao de commodities. Isso torna ainda mais engracada a decisao do Marolinha em eliminar o dolar como moeda de troca entre os paises. Quero ver o que os bancos brasileiros farao com os pesos do saldo comercial, que antes da desvalorizacao do real era de 4 bilhoes de dolares por ano. Sera' que o Bacen comprara' "los miquitos"? O Marolinha vai utiliza-los como papel-de-parede em edificios publicos? Ou a eles destinara' um fim menos nobre, nos banheiros de Brasilia?

De qualquer maneira isso encerra mais uma discussao economica idiotica, entre os discipulos do Tio Alex e a quermesse, se a politica economica brasileira nao deveria ter seguido a argentina. Eu tenho a impressao que o ministerio do Exercito deveria preventivamente realocar umas tropinhas para a fronteira sul, so' para impedir a onda de refugiados que esta' para vir.

* * *
IV-

Mas nao tem duvida, Alex. Eu nunca vi um povo ser tao sacaneado como o argentino. Mas parece que eles gostam, pois vivem elegendo gente desse naipe. Alias, espero que eles equilibrem a situacao ate' o ano que vem. To sem tempo pra ir pra Argentina ate' meados de 2009. Porque essa quebra eu quero assistir "in loco". Parte das ferias de dezembro eu vou passar na Hungria. A outra parte na Austria. Vou trabalhar no Projeto do Sopao. To aceitando socios. O negocio e' o seguinte:

-Nome: Pensei inicialmente em Kleber Suppen, mas como kleber em alemao quer dizer "cola", nao acho que iria fazer muito sucesso. Ai' decidi por BEI MAROLINHA, escrito em letras garrafais, com "alles suppen" embaixo.

-Decoracao: pintado todo de verde, com balcoes amarelos, onde o pessoal comeria 'a moda "steht". Pra que sentar, certo? Ninguem vai na porra de um Sopao pra jogar cunversa fora, nao e' mesmo? Uma catraca na entrada onde o fulano iria inserir a moeda de acesso. No centro um caldeirao de 200 litros onde o cozinheiro, um negao barrigudo, com bituca de cigarro na canto da boca, de camiseta regatas, chapeu de cook, e avental sujo, cuidaria do grude. Nas paredes, retratos e frases famosas do Marolinha em portugues, com traducao para o alemao.

- O Cardapio

segunda-feira: sopa de nabos. Preparada com nabos marinados em azeite de dende, em encruzilhada, pra tirar mau olhado. Eu sei que os suicos nao acreditam nisso, AINDA. Mas vai mudar.

terca-feira: sopa de pepinos. Pepinos em profusao, de todos os tamanhos, cozidos em agua sem sal, senao a rapaziada e' capaz de gostar.

quarta-feira: sopa de mandioquinha. Preludio para a de quinta.

quinta-feira: sopa de mandiocona. Dentro do tema, dara' um tom bem brasileiro ao pedaco.

sexta-feira: sopa de cara'. Em parceria com a de sabado, o cliente recebera' um cupom de desconto de 50% para a sopa do dia seguinte.

sabado: sopa de alho. Em complementacao 'a de cara'.

domingo: consomee da Luzia. Um maco de couve diretamente da horta (entao tematica) da companheira, cozido no caldeirao do negao ate' que todas as folhas se dissolvam, sobrando so' o talinho. Cada prato tera' direito a um naquinho de talo.

Preco: 2 francos-novos.

Extras: fatia de pao (amanhecido) e um copo de Tubaina, por 1 franco-novo. Quem apresentar carteirinha do falecido (UBS) paga so' 50 centavos.

* * *
V-

Parece que a presidenta Kiki e eu temos uma coisa em comum: ambos queremos que a Argentina se dane! Hoje o governo fez grande intervencao na bolsa tambem, fazendo com que o indice Merdal recuperasse 7% das perdas em poucos minutos. Interessantemente, como as ANJP detem mais ou menos um quarto das acoes negociadas na bolsa, a estatizacao tambem coloca o governo como principal stakeholder do mercado. Isso dara' um resultado maravilhoso. Para o governo melhorar seu balance sheet, so' o que ele tem a fazer e' despejar dinheiro na bolsa. Ai' as acoes sobem, e o governo contabiliza ganhos. No mes seguinte, mais do mesmo, certo? Ate' o dia em que ele acabe precisando de uma graninha viva, quando entao a bolsa portenha sera' destruida para sempre.

Agora a grande pergunta: seria a MP 443, com sua autorizacao ao Bacen para fazer currency swaps com outros BCs, uma medida pra beneficiar a Argeh? Eu nao vejo grande interesse para o Fed, nem para o BCE em ter reais no caixa. Muito menos o BoJ. Ja' nao seria o mesmo caso para os "hermanos", nao e' mesmo cumpadres?

O presidente Xavito deve estar um pouco meio muito nervoso. Enquanto o preco do petroleo cai por deleveraging da especulacao financeira, machuca mas nao mata. Mas a hora em que o preco cai por causa de queda no consumo, a coisa pega. Porque o oleo venezuelano e' um dos piores do mundo! Ai' pode ser que a reducao de compras se de mais acentuadamente na Venezuela, uma vez que os outros oleos sao mais baratos de refinar. A conferir.

Estou criando a minha propria agencia de credit rating. Apreciaria muito o input dos amigos com opinioes e informacao.

Esta agencia emitiria periodicamente o Indice Ze' do Caixao. Cada P no rating indica um prego adicional no caixao do referido pais.

Vamos la':

1- PPP+ - paises que ja' morreram e nao sabem.

Argentina

2- PPP - paises com dois pes na cova.

Islandia
Belarus

3- PP+ - paises com um pe e meio na cova.

Hungria

4- PP - paises com um pe na cova.

Turquia

5- P+ - paises cavando o buraco.

Indonesia
Filipinas
Russia
Korea
Brasil

6- P - paises sob observacao.

Austria
Suica

***
VII-

Tio "O", o medico do interior navegou bem em mar de almirante. Ele e' parte do problema atual. Assim como eu nao confiaria no Alex para fazer uma cirurgia, eu tambem acho que economia e' pra gente do ramo, como o Malan, por exemplo. Voce tem toda a razao quando diz que esta' na hora de botar profissionais no comando. E' muita carga pro Henricao guentar sozinho.

Acho que a Hungria tomou a decisao desesperada de sempre. O passado nao mostra sucesso no medio prazo para medidas como essa. Continua no rating PP+. Entram com rating PP os seguintes paises:

- Balticos
- Sudeste Europeu (Croacia, Servia, Romenia, Bulgaria, Bosnia)
- Ucrania

Continuamos com forte apoio ao Aleconomics: ta' na hora de apertar os juros, sim. Senao a situacao pode sair de controle. Alias deveriamos iniciar uma campanha extra-blog: Alex na Economia! No entanto, se o efeito Orloff com a Coreia continuar, o BC devera' abaixar as taxas.

A Austria continua causando "concern". O Tio "O" retratou bem a situacao do Leste Europeu. Vao ai' alguns numeros pra rapaziada se divertir:

Deficit em conta-corrente (% do PIB):

Czech Rep - 3.4
Hungria - 4.4
Polonia - 5.4
Paises Balticos - 11
Bulgaria - 23
Outros do Sudeste Europeu - entre Balticos e Bulgaria.

Numeros sobre os bancos austriacos (em bilhoes de euros), Raiffeisen (terceiro maior) e Bank Austria (maior):

Ativos: R - 159
BA - 228

Equity: R - 8.9
BA - 15

PIB austriaco: 250

Complicometros:

1- O R tem 1.3 bi de seus ativos como "intangibles". Que na hora do vamos ver nao compraria um prato de sopa no Bei Marolinha.

2- O BA anunciou seus mikkassons. Pouca coisa. O R declinou comentar a quantidade, so' confirmando a posse. Cheira maaaaaaal, cheira muuuiiiiito mal.

3- Diferentemente do UBS e CS, que tem atuacao global, os bancos austriacos sao de enorme concentracao regional. Aonde? Ora, em todos esses paises "joia" que mencionamos acima.

4- As acoes do Raiffeisen International, holding das filiais do leste europeu, que perfaz 60% do valor do grupo, cairam 60% nos ultimos 30 dias.

5- Seria razoavel supor que o segundo maior banco se situe entre os dois, 190 bi de ativos, 12 de equity. Teriamos entao 3 bancos com 570 bi em ativos e 36 bi de equity, operando numa area que esta' caindo aos pedacos, sediados em um pais de 250 bi de PIB.

Por isso, anuncio aos amigos do Tio Alex que o Indice Ze' do Caixao da Austria continua P, mas agora com vies negativo.

* * *
VIII-

Parece que a nacao brasileira esta' acordando do torpor marolistico a que lhe foi imbosta, digo, imposta, pelo governo (?) de plantao. Perguntas comecaram a abundar aqui no blog sobre o porvir na terra brasilis (Po, to me sentindo um autentico Mane' Bandera). Passemos entao a alguns factoides (?) economicos do fim da semana (aparentemente infindavel) passada.

1- O RBS (Royal Bank of Scotland) reuniu o seu Board para decidir sobre uma chamadinha de capital de 12 bilhoes de LIBRAS (que por enquanto ainda esta' bem mais alta nominalmente que o dolar) em acoes ordinarias e 5 bi em preferenciais (que nao tem nada a ver com a "ordinaria" PP da Bovespa). Estao se antecipando 'as perdas monstruosas a serem anunciadas em subprime-related issues. O board tambem votou sobre a mudanca do nome do banco para Real Bull Shit, which by still keeping the RBS acronym, would NOT require a change in stationary.

2- A Russia, cuja capital e' uma das cidades mais caras do mundo, e cujo salario medio e' de 700 dolares/mes (olha o "segundo postulado" ai', o galera!), esta' tendo um pobreminha (para usar lingagem ptelha).

Depois da invasao da Georgia, cujo "champagne" eu recomendo fortemente, a bolsa (quem sabe agora apenas um "saquinho") de Moscou so' nao caiu mais por falta de espaco. Como seus oligarcas e minigarcas estao alavancados up to the wazoo, e essa alavancagem foi feita tendo acoes como garantia, a Russia tem o seguinte leque de opcoes 'a sua frente: bail them out com o Fundo Soberano, o que potencialmente renderia uma grana preta para os decision-makers, ou estatiza the whole damned thing.

3- Gostaria muito que alguem lesse para o Marolinha o relatorio daquela firminha sueca que fabrica umas porras de uns caminhoezinhos, uma tal de VOLVO. Esta empresa liberou dados muito pouco usuais de seu orders intake from last quarter. Em comparacao com o mesmo periodo do ano passado, caiu de 41.970 para 155. E' isso mesmo, cumpadres, nao tem erro de digitacao nao! E confirmei a noticia em every possible way. Alex, sera' que nao tem mesmo ninguem do governo que leia o seu blog, mesmo como um espiao, que possa levar ao Marolinha a seguinte mensagem: "Iih, presidente, sujou mesmo, viu? Nao e' nem "pequenininha gripe" nem "marolinha". IT IS A FUCK-NG DAMNED THING THAT MAY LEVEL THE LAND!"

Mas quem sabe o Marolinha ja' saiba, e apenas use suas declaracoes estapafurdias (quem sabe um dia a historia as julgue como criminosas) para atingir objetivos - quem sabe - inconfessaveis. Cumpadres, voces ja' viram qualquer governo de qualquer pais do mundo (cruzive a Uganda de Idi Amin), investir dinheiro publico em CONSTRUTORA? Me RECUSO a acreditar que ninguem esta' levando nada nessa historia! Marolinha e sua entourage estao cometendo um equivoco fatal: o publico a quem vossas excelencias (ho, ho, ho) estao se dirigindo NAO e' o publico que os elegeu. Ao pessoal anestesiado pelas bolsas, os senhores podem falar qualquer bobagem, porque tudo o que eles querem dos senhores e' uma esmolinha mesmo. Porem, eles, 'a semelhanca de seu Guia, nao leem porra nenhuma! Nao vao saber o que as Bestais do governo estao bostejando aos microfones midiaticos. Mas o mercado sim, marolenses.

Voces "enganaram" esse mercado enquanto eles estavam no "me engane que eu gosto". Mas agora que a puta ficou velha e ta' pra morrer, nao tenham ilusoes de que algum dos clientes vai querer segurar alguma alca do caixao!

E' a pior coisa desde 29 e ninguem SABE se vai ser menos ruim. Pode acabar sendo muito pior. Fernando Blanco fez uns comentarios muito pertinentes, na linha do "po, tao falando de trilhoes como se fosse trocado". E' isso ai' amigao. Todo mundo ta' muito preocupado em dizer como vai fazer pro dinheiro entrar no mercado, mas NINGUEM estabaleceu regras sobre o como TIRAR esse dinheiro de la'. Um erro de pilotagem e estaremos todos WEIMARIZADOS! COLETIVAMENTE. A NIVEL MUNDIAL! MAS VA' SER GLOBALIZADO ASSIM NA PIRITUBA!

***
IX-
Os queridos primos que usam parte do seu tempo para ler as mal tracadas linhas dos meus comentarios em portugues chulo, podem ter depreendido que o meu Bazofionomics tem um forte embasamento dialetico. Parte dele vindo dos filosofos naturistas (nao gosto muito de usar o termo "platonico", para nao ser confundido com amor de broxa), parte hegeliano. Esta segunda vertente e' perigosa como uma navalha, como debateremos um dia no blog, uma vez que a antitese seja mal estabelecida, o resultado e' fatalmente catastrofico. Marx, o gorduxo xarlatao que o diga.
Platao escreveu uma obra monumental, A Republica, onde ele frequentemente recorre 'a utilizacao de exemplos "graficos", chamados de "mitos". O "Mito da Caverna" e' particularmente interessante. Eu ja' recorri 'a mesma tecnica no "mito dos adolescentes e a cerveja na geladeira". Hoje, seguindo a mesma linha, criarei outro "mito", mas com mais tempo para desenvolver o raciocinio juntamente com a cambada. Se interromper antes do final, e' porque a bateria dessa porra desse Blackberry esta' acabando.

Entao vamos la', mocada. Tratemos pois da construcao do "mito da piscina de josta".

Um dia Zeus (a suprema divindade grega) botou um urubu para bicar o figado do Prometeu, acorrentado. O que a midia da epoca nao cobriu, e' que tambem os mortais pagaram sua parte do pato.

Zeus mandou construir uma piscina de uns 2.5 metros de altura, e botou uns 200 neguinhos em seu interior. Cada neguinho simbolizava um pais, e sua altura era do tamanho da economia do pais representado. Tinhamos entao uma porcao de anoezinhos de 90 centimetros de altura, como tambem um negao de 2 metros e 20. Puto da vida como ele estava, ele chamou Hades, o deus do inferno, para aprontar uma sacanagemzinha com a tigrada, que era encher a piscina de josta. Hades chegou com uma betoneira, cheia de um sludge merdolento, que comecou a despejar na tal piscina. Inicialmente a tigrada ficou incomodada com o cheiro. 10 cm, 20, cm, 50 cm. Ai' ja' tava ate' que meio tranquilo, pois todo mundo ja' estava se acomodando ao fedor.

Quando o nivel chegou a 80 cm, o pessoalzinho miudo, paralizado de pavor, comecou a gritar em unissono, um canto triste e macabro:

"Num faz oooonda, num faz oooonda!"

Ouvindo o apelo dos neguinhos, Hades teve uma ideia genial: botou um dispositivo para enchimento/esvaziamento rapido no fundo da piscina e uma "paddle" enorme em uma das extremidades. Com isso ele poderia nao so' variar o nivel da josta, como tambem criar ondas ou marolas so' para aumentar o tumulto.

O "primo" leitor deve estar se perguntando: "OK, Kleber S. Muito engracado. Mas quicatsu que isso tem a ver com economia?"

Vamos la' mermao. Isso tem a ver com o fator "volatilidade". Imagine voce, que analisou tudo direitinho sobre a macroeconomia brasileira e mundial, e decidiu acertadamente que a Bovespa iria despencar, portanto fazendo o shorting de uma pa' de acoes. Mas eis que nao mais que de repente, um bando de retardados vai 'as compras e promove um rally farsesco como o do dia 13. Apesar de estar 100 pct certo, no dia 14 voce poderia acordar na sarjeta, certo?

O mesmo se passa entre paises. Fulanos fazendo a tal "licao de casa" perfeitamente, poderiam ser "wiped-out" numa onda na "piscina de Hades". Ele pode acabar com uma mao na frente, outra atras. Tipo a Islandia.

Isto posto, para enriquecer o nosso Indice Ze' do Caixao, estaremos tambem emitindo o indice de volatilidade. Eu sei que ja' existe o Indice VIX para isso. Mas como esse indice nao aborda a condicao macroeconomica das nacoes, em homenagem ao "mito da piscina de josta", estaremos emitindo o indice JIX. Este indice tera' dois numeros: um para a profundidade, outro para a amplitude de sua oscilacao, tipo:

"JIX, Nov 1st 08:

Height: 90 cm

Amplitude: 10 cm"

sábado, 18 de outubro de 2008

Correndo atrás...

1 - O fato do setor financeiro ter pela frente uma regulação mais apertada poderá comprometer os atuais níveis de alavancagem, com impactos permanentes sobre o nível de crédito?

2 - A intervenção do Estado na gestão dos bancos afetará a alocação de recursos das instituições financeiras?

3 - Vc acha que o crescimento mundial dos últimos anos foi função da liberalização do comércio e das conta de capital dos países ou foi causado pela grande alavancagem dos bancos? (M.)


M:

1) Sim, os níveis de alvancagem que prevalecerão (mesmo depois de superada a crise) deverão ser menores do que os que prevaleciam antes. Eu não vejo isto como um desenvolvimento necessariamente ruim. A alavancagem que observamos nas instituições pré-crise é um problema. Como já mencionei em outros posts, uma alavancagem desta põe necessariamente o setor público na reta. Uma instituição alavancada 40x quebra com perda de 2,5% dos ativos e, se tiver potencial para risco sistêmico, vai ter conseqüências semelhantes às que temos observado.

2) Não. São ações preferenciais e acredito que as instituições de países desenvolvidos são suficientemente sérias para afetar muito a gestão das instituições.

3) Nem uma, nem outra. Como a economia mundial, ainda que de forma imperfeita, já é muito integrada, a liberalização adicional do comércio e das contas de capitais não devem ter efeitos grandes. Por exemplo, estima-se que a Rodada Doha possa trazer ganhos da ordem de grandeza de uma centena de bilhões. Mas o PIB global é algo da ordem de dezenas de trilhões.

Também não foi a alavancagem dos bancos. Ainda que possa ter impacto na demanda, seu efeito sobre a oferta (que, em última análise, governa o crescimento de longo prazo) é relativamente modesto.

É fato que as empresas que ficaram expostas ao câmbio, envolvidas com os já famosos derivativos exóticos dos últimos dias, estão comprando dólar no mercado à vista, como foi noticiado em algumas matérias ? Mesmo as exportadoras ? Se é verdade, por que seria ? Não é melhor operar contrato futuro na BMF ? (Marcelo)

Marcelo:

Até onde eu sei, estas empresas estão se zerando na BM&F, não no pronto. A liquidez é maior e não envolve desembolso imediato (tem margens, mas é menos do que a compra do pronto requer).

Nao entendi este pedaço, mesmo que estejao com mais capital os bancos por conta do dinheiro injetado pelos governos os bancos nao emprestam com medo um do outro, cortam linha de credito etc que vai resultar numa recessão. Mas por que isto irá proporcionar uma recuperação mais rapida? (Anônimo)

A recapitalização evita, em primeiro lugar, uma quebra simultânea de vários bancos. Em segundo lugar, uma vez superada a incerteza presente e restabelecido os níveis seguros de alavancagem, será este o capital que servirá de base para a expansão do crédito. Hoje o efeito é pequeno. Alguns trimestres (anos?) à frente, será de grande ajuda.

Será que teremos uma crise cambial?

Se isso acontecer, os heterodoxos de plantão vão rir de orelha a orelha.

Eu sei que essa pergunta não faz tanto sentido em um regime de câmbio "quase-flutuante", mas parece que o BC não está deixando o dólar flutuar muito com medo ou de inflação, ou que as empresas quebrem... Bom, ainda tem mais de US$ 200 bilhões de reservas... (Adolpho)


Adolpho:

Não acredito. Até agora o BC, mesmo intervindo, não caiu no erro de tentar impor uma taxa de câmbio, mas sim de atacar problemas de falta de liquidez. A magnitude de intervenção no pronto é pequena e deverá continuar a sê-lo.

1) Como você compara as duas estratégias mais gerais pensadas para resolver o problema do congelamento do crédito: compra de ativos podres; e injeção de capital sob a forma de equity? Ainda neste assunto, o pacote do Paulson não lhe parece um tanto deslocado no momento, já que o mundo como um todo parece ter adotado a segunda estratégia como solução?

2) Pensando um pouco para frente, como pode se dar a estratégia de saída dos governos desses bancos, ou dos ativos podres? Digo, qual é na tua opinião a melhor forma de se fazer isso? (Felipe F.)


Felipe:

1) Mesmo no caso dos EUA a intervenção já está sendo no sentido de injeção de capital.

2) No caso das ações preferenciais, simplesmente vão vendê-las. Bem mais tranqüilo, porque não envolve controle. No caso americano, em “x” anos (não lembro quantos) o cupom das ações preferenciais será de 9% a.a.. Quer uma pref. a 9% a.a. do Citi?

Li seu (e da sua equipe) relatorio do dia 9, e sua opiniao é que o choque no cambio vindo da queda dos preços das commodities (crb) aumentará a inflação, o que implica numa necessidade de aumento dos juros. Minhas duvidas:

1) Tudo bem, concordo, mas vc não acha que a variação de bens importados, tambem dependentes em boa parte do crb (petroleo, graos, bens dependentes de commodities) vao cair de preço, ainda que no medio prazo (bens dependentes de commodities), de forma que num horizonte mais longo a inflação seria menor do que o numero que vc projetou?

2) Interessante sua observação sobre a pequena participação dos investimentos externos no credito interno. Seria então via comercio o maior impacto da crise no crescimento? Caso seu cenario se realize (aumento da selic), qual seria o pib de 2009? (ED)


ED:

1) Meu problema com inflação não era commodities antes da crise e continua não sendo depois. E todo o comércio em não-commodities?
2) Sim, é via comércio, mas não diretamente pelo canal da demanda. A redução da capacidade de importar (tanto pela queda do quantum exportado como pela deterioração dos termos de troca) requer que a demanda doméstica volte a se alinha com o crescimento do produto (hoje é 2% a.a. mais rápido). Se nosso cenário de Selic se materializar, nossa melhor estimativa para 2009 é 2,5%.

Em um dos seus últimos posts, vc quantificou o impacto da desvalorização do real na inflação entre 2-3%. Nessas circunstâncias:

- o BC deve buscar o centro da meta em 2009? Aceitar o teto ou um pouco mais?

- Em cada uma das alternativas, você arrisca uma previsão para o crescimento do PIB brasileiro em 2009? (Eduardo Perugier)


Eduardo:

1) Não dá tempo de atingir o centro da meta em 2009. Se reagir a contento consegue limitar o desvio a algo como 5,5%. Se acreditar que o mercado fará o ajuste por ele verá a inflação no topo da banda ou acima dela em 2009.

2) 2,5%

Vc acha que o BB pode ter um papel importante nesta crise, como provedor de liquidez com garantias do setor público?
Devemos notar que esta é a primeira grande crise enfrentada pelo Brasil na ausencia dos bancos estaduais, que, apesar de todos os problemas conhecidos, atingiam um público substancial mesmo nos momentos áridos. (LL)


LL:

Não. E também não é verdade que se trate da primeira crise sem os bancos estaduais. 19998, 1999, 2001 e 2002 ocorreram sem a presença dos bancos estaduais (ainda bem, senão seriam mais alguns bilhões do meu, do seu, do nosso dinheiro, nas palavras imortais de Armínio Fraga).

Andei lendo os balancos do Bradesco e do Itau'. Ambos aumentaram seus assets am muitos bilhoes de reais (113 e 88, respectivamente, entre o primeiro semestre de 2007 e 2008), mas esse aumento todo resultou em um aumento de lucro de 96 e 88 MIlhoes de reais, respectivamente. (Kleber S.)

Kleber:

Não vi estes números, mas me parecem meio altos. Volto depois.

Voltando ao Belluzzo, o que é aquilo??? Pelo amor de Deus!!! Tenho pena dos alunos dele, aquele blá blá blá não convence nem, ele deveria estar procurando uma nova parceria pro Palmeiras...

E quando ele começa a usar citações... Como dão ouvido para um cara desses?

Como tenho um senso de humor peculiar, não dormi, mas o que tinha de gente pescando na platéia não era brincadeira...

Não sei o que você acha acha do Lisboa, mas ele era o mais lúcido da turma...

Bem, foi melhor do que assistir A Grande Família... (Netto)


O Marcos é brilhante. Quanto ao Belluzzo, como bom palmeirense, é um arregão...

Alex depois que essa maré passar vai ser necessário aumentar a regulação ou supervisão?

Uma maior regulação que diminua os níveis de alavancagem dos bancos,entre outras coisas não levariam a um sistema bancário menos diversificado, potencialmente mais concentrado, de maior spread, cujo crédito sendo mais restrito traria maior prejuízo ao crescimento mundial?

Acredito que a falha principal foi uma maior supervisão das autoridades nesse mercado,ele era um mercado pouco claro o que dificultava que a regulação ,coisa que uma supervisão pode resolver.Com esse novo sistema financeiro nos EUA que estar surgindo ,poderia se tornar mais fácil uma supervisão do que uma regulação mais forte.

Alex o que você acha do Krugman nessa sua fala.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081018/not_imp262032,0.php

"Na política, está na moda falar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, um aumento nos gastos do governo é exatamente o que o médico receitou e a preocupação com o déficit orçamentário deve ser adiada."

Realmente um economista que defende deficit fiscal da forma que vigora há 6 anos nos EUA.Sinceramente não merecia ter ganho o Nobel. (Fernando Botler)


Fernando:

Não necessariamente. Não vejo nenhuma relação direta entre alavancagem e concorrência. E, concordo com você, a falha maior foi supervisão.

Quanto à política fiscal, a depender do tamanho da recessão e da (falta de) eficiência da política monetária, há bons motivos para crer que se trate da solução correta. Isto dito, é exatamente por este motivo que na fase positiva do ciclo o governo deve acumular superávits (i.e., reduzir a dívida). A este respeito ver o post “Lições do Bom Livro” (http://maovisivel.blogspot.com/2008/02/lies-do-bom-livro.html)

Abs

Alex

Duas perguntas

Estas eu recebi por e-mail:

Olá Alexandre.

Mais uma vez, gostaria de tirar uma dúvida com o senhor. Desde o ínicio da faculdade aprendemos modelos que dizem que sempre que a taxa de juros sobe, a poupança aumenta.

Temos a maior taxa de juros do mundo e nossa poupança não chega a 20% do PIB. Onde está o problema? Eu sei que o setor público não poupa, mas de acordo com os modelos, o próprio setor privado deveria poupar mais. Gostaria de saber onde está a armadilha dessa questão.

Resposta:

O que muitos economistas, inclusive alguns que ensinam a matéria, não conseguem entender é a diferença entre o comportamento individual e a agregação destes comportamentos por meio das condições de equilíbrio.

Deixe eu ilustrar por meio de um problema parecido, mas mais familiar: demanda e preço. Sabemos que preços mais altos reduzem a quantidade demandada, certo?

No entanto, quando a demanda aumenta (i.e., a curva de demanda se desloca para a direita), o preço aumenta. Alguém observa isto e diz: "estes economistas não entendem nada; não conseguem nem ver que os preços variam em linha com a demanda, não em oposição à ela".

Qual o erro? Confundir deslocamentos ao longo da curva demanda com deslocamentos da curva de demanda, isto é, a descrição do comportamento individual (preços mais elevados reduzem a quantidade demandada) versus o equilíbrio (o deslocamento da curva de demanda implica um preço de equilíbrio mais elevado).

Agora para sua questão. A confusão é entre o comportamento individual (a elevação da taxa de juros implica aumento do preço do consumo presente relativamente ao futuro, portanto eu poupo mais [é um pouco mais complicado que isto, mas deixa pra lá]) e a condição de equilíbrio (forte preferência pelo consumo presente requer um preço mais alto do consumo presente [taxa de juros] para equilibrar demanda e oferta agregadas.

Ficou claro?

Os economistas neoclássicos dizem que a poupança gera o investimento.

Porém, os determinantes de cada um são diferentes. As famílias podem poupar e aplicar em títulos, ações, etc, tudo isso no mercado secundário, não gerando, a princípio, investimento. Ou podem até mesmo entesourar. Então quando se justifica, por exemplo, o alto investimento chinês pela alta poupança, que deriva da falta de garantias do governo para a velhice (por exemplo, falta de previdência pública), e portanto, as famílias necessitam poupar para a aposentadoria, eu não consigo entender muito bem. Se as famílias aplicam o dinheiro no mercado secundário, como isso gera um investimento simultâneo?


Trata-se, mais uma vez, da diferença entre comportamento individual e condição de equilíbrio. Vamos começar com sua primeira afirmação:

“Os economistas neoclássicos dizem que a poupança gera o investimento.”

Não é bem isto. Numa economia fechada, sem governo, a condição de equilíbrio (demanda = oferta agregada) também implica investimento = poupança. Numa economia sem rigidez de preço, esta igualdade ocorre com o produto igual ao potencial, com a taxa de juros garantindo que – mesmo com determinantes distintos – investimento iguale a poupança. Não há relação de causa e efeito: nem poupança gera investimento, nem investimento gera poupança, mas sim a determinação simultânea destas quantidades e dos preços (no caso a taxa de juros). Obviamente, se compararmos duas economias idênticas, exceto pela preferência pelo consumo corrente, aquela com menor preferência terá taxa de juros mais baixa e, portanto, investimento e poupança mais elevada.

Mantendo a analogia com o pergunta anterior, os determinantes de oferta e demanda são distintos. Como é possível que demanda seja igual à oferta? É possível via mecanismo de preços. No caso em questão, é a taxa de juros (ou a seqüência de taxas de juros se estivermos tratando de problema dinâmico) que equilibram poupança e investimento.

Isto dito, se preços não são flexíveis, ainda que a condição de equilíbrio continue sendo a mesma, o resultado não necessariamente se dá com o produto igual ao potencial. Ainda que esta consideração seja importante para o ciclo econômico, quando, porém, tratamos da questão de crescimento econômico de longo prazo, o problema da rigidez de preços se torna secundário e podemos tratar do equilíbrio poupança-investimento exatamente como no mundo de preços flexíveis.

Isto deve, porém, parecer muito abstrato à luz da sua pergunta: “se as famílias aplicam o dinheiro no mercado secundário, como isso gera um investimento simultâneo?”.

Concretamente posso pensar em dois mecanismos (não excludentes). Um aumento da poupança eleva a demanda por títulos de renda fixa, o que eleva os preços e baixa as taxas de juros. Companhias se aproveitam deste fato para emitis novos títulos e investir mais (ou, se preferir, o valor presente do investimento aumenta porque as taxas de juros caíram, portanto a empresa investe mais).

Um canal alternativo se dá por meio do investimento em ações. Isto eleva o preço do capital existente (representado pelas ações) com relação ao capital novo, isto é, torna-se mais atrativo criar novo capital (investimento) que adquirir o capital existente, o que também eleva o investimento (isto é um sumário muito pobre da teoria “q” de investimento proposta por Tobin).

OK?