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terça-feira, 19 de novembro de 2019

O mito do estado mínimo


Dados levantados pelo Tesouro Nacional mostram que os 3 níveis de governo no Brasil gastam hoje mais do que em 2016, apesar do teto de gastos. Isto resulta da expansão persistente do dispêndio obrigatório, cuja contrapartida é a queda do investimento governamental e da provisão de serviços públicos.

Houve quem manifestasse surpresa quando da divulgação do novo conjunto de emendas constitucionais acerca do tamanho estimado do gasto público no país, pouco menos da metade do PIB no ano passado, correspondente a R$ 3,5 trilhão, medidos a preços do segundo trimestre deste ano. Espero que não os leitores desta coluna, que já haviam sido apresentados a este conjunto de dados em coluna recente, quando explorei precisamente a evolução da despesa pública no país.

Estamos acostumados a acompanhar os gastos do governo federal, divulgados mensalmente pelo Tesouro Nacional, série histórica que se iniciou em 1997 (embora haja esforços de reconstrução dos números pelos mesmos critérios a partir de 1991). Em que pese sua utilidade, inclusive pelas tentativas de compatibilização do resultado do governo central com o resultado estimado, segundo metodologia distinta, pelo Banco Central (conhecido como Necessidade de Financiamento do Setor Público), a verdade é que ele nos oferece uma visão parcial do resultado fiscal do governo, deixando de lado tanto estados quanto municípios.

Mais recentemente, porém, o próprio Tesouro tem feito um esforço considerável para ampliar o retrato, estimando receitas e despesas dos três níveis de governo, trabalho que tive a oportunidade de apresentar em capítulo de livro organizado por Affonso Pastore e publicado (em PDF) pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP) (link aqui). Os números são calculados com base na metodologia do Manual de Estatísticas de Finanças Públicas do Fundo Monetário Internacional, representando visão não só mais moderna acerca do tamanho dos fluxos do governo, como também integradas à metodologia das contas nacionais, as mesmas utilizadas para o cálculo do PIB.

Despesa do governo geral – R$ bilhões do 2T2019 (deflator do PIB)

2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017
2018
2019*
Despesa
2.751,8
2.894,0
2.943,2
3.086,8
3.220,7
3.516,7
3.372,9
3.433,5
3.460,6
3.444,5
Remuneração de empregados
805,5
830,0
846,8
896,6
912,2
924,1
897,2
929,2
943,8
951,3
Uso de bens e serviços
376,0
379,8
390,9
396,8
410,4
382,7
376,0
371,1
385,4
384,9
Consumo de capital fixo
88,5
91,5
93,9
97,3
100,4
104,7
106,4
108,4
110,4
113,0
Juros
476,9
537,7
497,8
515,1
556,5
856,5
691,6
629,9
637,3
604,9
Subsídios
11,3
19,8
22,2
35,4
39,2
29,5
32,1
25,0
25,9
25,5
Transferências / Doações
2,1
1,8
2,0
2,6
4,0
3,2
5,1
3,9
3,8
3,0
Benefícios sociais
926,8
954,2
999,7
1.049,9
1.099,1
1.115,4
1.166,4
1.281,6
1.260,5
1.266,8
Outras despesas
64,8
79,2
90,0
93,2
98,9
100,4
98,0
84,4
93,4
95,1
Investimento líquido em ativos não financeiros
91,4
49,1
54,7
56,4
68,1
8,8
-9,8
-32,9
-19,0
-25,1
Aquisição de ativos não financeiros
184,1
151,5
155,4
161,9
181,4
121,4
103,1
86,5
96,4
91,7
Alienação de ativos não financeiros
4,3
10,9
6,8
8,2
12,8
7,8
6,4
11,1
5,0
3,8
Consumo de capital fixo
88,5
91,5
93,9
97,3
100,4
104,7
106,4
108,4
110,4
113,0
Memo:










  Despesa primária (ex-consumo de capital fixo)
2.186,5
2.264,8
2.351,5
2.474,5
2.563,8
2.555,5
2.574,9
2.695,2
2.712,9
2.726,6
* 12 meses até junho de 2019
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional

A tabela acima resume a evolução das despesas do governo (medidas a preços constantes do segundo trimestre deste ano) desde 2010, quando a atual série começou.

Há, além da diferença em termos de cobertura, também distinções importantes em termos de conceitos entre esta série e o resultado do governo federal. Sem querer esgotar o assunto (interessados podem explorar o capítulo do livro acima referido), quero chamar a atenção para as seguintes:

a.       Enquanto na metodologia tradicional os gastos com pessoal compreendem tanto o que é pago a trabalhadores na ativa quanto inativos, a remuneração de empregados refere-se apenas aos funcionários ativos (inativos estão incluídos na conta de benefícios sociais);
b.      Por outro lado, inclui-se nesta remuneração as contribuições feitas para a aposentadoria do funcionalismo, da mesma forma que se inclui na folha de pagamento de uma empresa privada não apenas os salários, mas também os encargos (dentre os quais contribuições previdenciárias);
c.       A nova metodologia separa o pagamento de juros do recebimento de juros (por exemplo, sobre reservas internacionais, ou empréstimos ao BNDES), enquanto a antiga contabiliza o resultado líquido de despesas menos receitas de juros;
d.      Segundo a nova metodologia, os investimentos não são contabilizados como despesas (aparecem como aquisição de ativos não-financeiro), isto é, o número de quase 50% do PIB não contempla os investimentos dos três níveis de governo; por outro lado as estimativas da “depreciação” do bens públicos (consumo de capital fixo) são incluídas entre as despesas, embora não representem saída do caixa.

Isto dito, o que há para destacar?

Em primeiro lugar a trajetória de alta constante dos gastos públicos, mesmo após a promulgação da emenda constitucional 95, o “teto de gastos”. Em 2016, quando a emenda foi aprovada, o governo geral gastava R$ 3,37 trilhões; no ano passado, R$ 3,46 trilhões (e R$ 3,44 trilhões nos 12 meses até junho deste ano).

Note-se que houve queda do gasto com juros no período (de R$ 692 bilhões para R$ 605 bilhões). Já os gastos primários (sem investimento e, no caso, sem considerar o consumo de capital fixo) aumentaram de R$ 2,57 trilhões (37,2% do PIB) para R$ 2,73 trilhões (38,4% do PIB).

Duas despesas representam praticamente a totalidade do aumento observado de 2016 a meados de 2019: R$ 55 bilhões se originam do aumento dos gastos com funcionalismo; R$ 100 bilhões vêm de maiores despesas com benefícios sociais, que representam principalmente aposentadorias e pensões pagas tanto aos egressos do setor privado como a funcionários inativos (e pensionistas), embora também capture programas assistenciais como o Bolsa-Família. À luz, contudo, da evolução deste último, o aumento dos benefícios sociais reflete na prática gastos maiores com pensões e aposentadorias.

Em contrapartida, o uso de bens e serviços, que se relaciona aos serviços providos pelo governo (medicamentos, suprimentos, merenda escolar, etc.) permaneceu praticamente inalterado de 2016 para cá e bem inferior ao registrado em 2014, revelando piora na prestação de serviços.

É também contra este pano de fundo que se observa a forte queda do investimento público: R$ 11 bilhões a menos entre 2016 e 2019. Todavia, comparado a 2014, quando o investimento bruto ultrapassou R$ 181 bilhões (2,4% do PIB), o nível atual (pouco superior a R$ 90 bilhões, ou 1,3% do PIB) revela a natureza do problema do gasto público no país.

A verdade é que a elevação persistente do dispêndio público obrigatório, como funcionalismo e previdência (principalmente) vem expulsando o gasto com a provisão de serviços à população, bem como levando o investimento do governo abaixo dos níveis estimados para a reposição do capital público consumido pela depreciação, como mostram tristemente os viadutos paulistanos.

É neste contexto que se inserem as reformas fiscais. Iniciamos com a previdenciária, mas, como sugerido pelos números acima, isto não esgota o assunto. As novas propostas, que pretendo examinar nas próximas colunas, tentam lidar precisamente com a elevação persistente das despesas obrigatórias e abrir espaço no orçamento do governo, em seus três níveis, para a prestação de serviços e investimentos, em detrimento dos gastos que até agora beneficiaram principalmente uma parcela reduzida da população: o funcionalismo.

Quem argumenta que o objetivo seja precisamente o de promover o “estado mínimo” precisa urgentemente entender a mensagem que os técnicos do Tesouro Nacional têm se esforçado para levar à sociedade.


Apêndice: Despesa do governo geral – % PIB

Despesa do governo geral – % PIB

2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017
2018
2019
Despesa
40,7
41,1
41,0
41,8
43,4
49,1
48,7
49,0
48,9
48,4
Remuneração de empregados
11,9
11,8
11,8
12,1
12,3
12,9
13,0
13,3
13,3
13,4
Uso de bens e serviços
5,6
5,4
5,5
5,4
5,5
5,4
5,4
5,3
5,4
5,4
Consumo de capital fixo
1,3
1,3
1,3
1,3
1,4
1,5
1,5
1,5
1,6
1,6
Juros
7,0
7,6
6,9
7,0
7,5
11,9
10,0
9,0
9,0
8,5
Subsídios
0,2
0,3
0,3
0,5
0,5
0,4
0,5
0,4
0,4
0,4
Transferências / Doações
0,0
0,0
0,0
0,0
0,1
0,0
0,1
0,1
0,1
0,0
Benefícios sociais
13,7
13,6
13,9
14,2
14,8
15,6
16,8
18,3
17,8
17,8
Outras despesas
1,0
1,1
1,3
1,3
1,3
1,4
1,4
1,2
1,3
1,3
Investimento líquido em ativos não financeiros
1,4
0,7
0,8
0,8
0,9
0,1
-0,1
-0,5
-0,3
-0,4
Aquisição de ativos não financeiros
2,7
2,2
2,2
2,2
2,4
1,7
1,5
1,2
1,4
1,3
Alienação de ativos não financeiros
0,1
0,2
0,1
0,1
0,2
0,1
0,1
0,2
0,1
0,1
Consumo de capital fixo
1,3
1,3
1,3
1,3
1,4
1,5
1,5
1,5
1,6
1,6
Memo:
  Despesa primária (ex-consumo de capital fixo)
32,3
32,2
32,8
33,5
34,5
35,7
37,2
38,5
38,3
38,4
* 12 meses até junho de 2019
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional

(Publicado 13/Nov/2019)

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Cautela, caldo de galinha e banho quente


Apesar da comunicação do BC enfatizar “cautela” a partir da redução da Selic para 4,5% ao ano, acredito que se trata de referência ao ritmo de corte do juro no começo de 2020. Espero a Selic a 4% ao ano no fim do ciclo de afrouxamento monetário

O BC, no comunicado que se seguiu à sua última reunião, bem como na Ata do Copom, fez algo ousado para seus padrões, notando que “a consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir um ajuste adicional [da taxa de juros], de igual magnitude, [isto é, 0,5 ponto percentual]”, na prática se comprometendo com a redução adicional da meta para a Selic para 4,5% ao ano”.

Ao mesmo tempo, porém, advertiu que “o atual estágio do ciclo econômico recomenda cautela em eventuais novos ajustes no grau de estímulo”, expressão exarada no mais castiço bancocentralês que tem gerado algum debate sobre o que esperar da política monetária em 2020.

Há quem interprete a expressão como indicação que depois de dezembro, o BC consideraria seu trabalho feito, isto é, “cautela” a esta altura do campeonato significaria literalmente a interrupção no novo ciclo de afrouxamento monetário. Não é, adianto, a minha opinião.

Tentando me colocar no lugar dos diretores do BC, entendo as razões para a reintrodução do termo “cautela”. A taxa de juros, como se sabe, costuma ter efeitos defasados sobre a demanda interna e, por meio dela, sobre o nível de atividade. Tempos atrás a comparei à experiência de tomar banho naqueles velhos chuveiros elétricos: a água vinha gelada, o que nos levava a ajustar a torneira para esquentá-la, mas, como a reação da temperatura demorava, era bastante comum “perder” a mão, tornando o simples ato de tomar banho numa aula sobre como preparar uma sopa com nossa própria carne.

As dificuldades com a sintonia fina do fluxo de água faziam a temperatura do banho oscilar de sopa para zero Kelvin, tornando a experiência do banho, normalmente prazerosa, num festival de uivos, urros, gritos e pulos nas mais diversas direções. Evitar algo similar no que diz respeito à gestão da política monetária é a motivação do BC, que inclui dentre os riscos a seu cenário básico “o atual grau de estímulo monetário, que atua com defasagens sobre a economia, aumenta a incerteza sobre os canais de transmissão e pode elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária”.

Com as taxas reais de juros (isto é, a taxa de juros deduzida a inflação esperada) nos menores níveis da história e sem uma noção clara de como a água quente vai escorrer pelos canais de transmissão, o BC não tem condições de se comprometer com novas rodadas de estímulo monetário com três meses de antecedência (a primeira reunião de 2020 ocorre no dia 5/fevereiro, dois dias antes do meu aniversário!).

Isto, todavia, não significa que não irão ocorrer. As projeções do próprio BC indicam que a inflação em 2020 ficaria na casa de 3,6-3,7% (ou seja, 0,3-0,4% abaixo da meta de 4,0%) caso a taxa de juros fosse reduzida para 4,5% ao ano em dezembro de 2019 e lá permanecesse até o final do ano que vem.

Há, portanto, espaço para redução adicional da Selic. Se tomássemos literalmente os resultados do modelo do BC (que indica 0,25-0,30% a mais de inflação para cada ponto percentual a menos da taxa de juros), leitura que não endosso, poderíamos até imaginar a Selic próxima a 3,5% no final do ciclo.

Colocando, todavia, sobre a mesa a incerteza acerca de quanta água quente já está encomendada, me parece pouco provável que o BC queira se comprometer com isto.  Neste contexto, a menção à cautela, mais que referência quanto ao fim do ciclo de expansão monetária, parece ser indicação de que o ritmo de redução de juros será mais modesto daqui para a frente, condicionado à materialização do cenário explícito nas projeções do BC.

Em outras palavras, caso a inflação siga se comportando em linha com o que espera o BC, haverá novas rodadas de cortes na Selic, mas possivelmente ao passo de 0,25% por reunião, o que deve dar ao BC condições de avaliar até que ponto seu cenário básico é o correto (ou não).

Assim, me parece bastante provável que observemos a Selic abaixo de 4,5% em 2020, possivelmente na casa de 4% ao ano já no primeiro trimestre do ano que vem.

Isto dito, não há como resistir: não faltou quem atribuísse o impedimento da presidente Dilma aos “interesses rentistas” (veja aqui, ou aqui, ou ainda aqui), em particular a manutenção de altas taxas de juros. Seu silêncio frente aos menores juros da história só é menos ensurdecedor do que a falta de explicação para a monumental falha de previsão sobre o crescimento virtuoso que magicamente adviria do dólar a R$ 4,00, que teimosamente se recusa a aparecer. Esperemos a explicação, mas em algum lugar confortável, porque vai demorar...




(Publicado 6/Nov/2019)

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Um santo remédio


A taxa de câmbio está há um ano e meio no patamar que alguns economistas defendiam como o valor de equilíbrio para a indústria. Apesar disto, o setor segue estagnado, indicando que a solução simples e direta para a indústria era, como sabíamos, errada.


Não é segredo que a indústria brasileira enfrenta sérias dificuldades. Entre 2013 e 2016 a produção industrial caiu praticamente 20%, desempenho similar ao das vendas no varejo, termômetro do consumo (de bens), no mesmo período. Do final de 2016 para cá, contudo, as vendas varejistas têm crescido à velocidade média de 5,4% ao ano, insuficiente, é verdade, para recolocá-las no patamar de 2013 (permanecem 7% abaixo). Por outro lado, no mesmo intervalo a produção industrial vem crescendo a medíocres 1,2% ao ano e desde o início de 2018, entre altos e baixos, não sai do lugar, nada menos do que 17% inferior aos níveis registrados em 2013.

O péssimo desempenho do setor não é apenas um problema para o país. É, ou pelo menos deveria ser, uma questão ainda maior para os autointitulados “neodesenvolvimentistas”, que sempre afirmaram que o crescimento, puxado pelo setor industrial, viria com a taxa de câmbio no nível “certo”, uma ficção chamada de “taxa de câmbio de equilíbrio industrial” (TCEI), que, por meios misteriosos, talvez envolvendo o sacrifício de pequenos animais e oferendas diversas, “estimaram” se encontrar ao redor de R$ 4,00/US$.

Não precisam acreditar em mim: a tabela abaixo traz as “estimativas” da taxa de câmbio de “equilíbrio industrial”, bem como a data em que foram publicadas e também as referências originais para os eventuais céticos (minha favorita é a janeiro de 2016, em que, com base na TCEI, o sumo sacerdote da seita previu a iminente recuperação da economia brasileira no ano que o PIB caiu 3,3%, mas, por favor, explorem para definir sua predileta).

“Estimativas” da taxa de câmbio de “equilíbrio industrial” (TCEI)
Data
R$/US$
Referência

Efetiva
TCEI

dez/15
3,870
3,800
http://www.brasil247.com/pt/247/economia/210874/Bresser-Pereira-prev%C3%AA-retomada-da-economia-j%C3%A1-em-2016.htm
jan/16
4,052
3,800
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/01/1728409-a-reversao-da-crise-esta-a-vista.shtml
mar/16
3,704
3,900
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/03/1753528-onde-foi-que-erramos-quando-e-por-que-a-economia-saiu-da-rota.shtml
abr/16
3,566
3,900
http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2016/04/aecio-neves-eduardo-cunha-e-michel.html
mai/16
3,539
3,900
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/229519/Bresser-Pereira-lamenta-o-Brasil-enlouqueceu.htm
jul/16
3,276
3,800
http://www.vermelho.org.br/noticia/283216-2
set/16
3,256
3,900
http://brasildebate.com.br/perdemos-a-ideia-de-nacao/
out/16
3,186
3,800
Oxford Handbook on the Brazilian Economy
fev/17
3,104
4,000
http://www.vermelho.org.br/noticia/293744-2
mar/17
3,128
4,000
http://www.vermelho.org.br/noticia/294492-2
dez/17
3,300
4,000
http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1943566-novo-desenvolvimentismo-e-resposta-para-a-crise-escreve-bresser-pereira.shtml
fev/19
3,778
4,000
https://portaldisparada.com.br/politica-e-poder/bresser-pereira-industria-br/
Fonte: Pesquisa do autor

Todavia, desde meados de 2018 a taxa de câmbio, devidamente corrigida pela diferença entre a inflação brasileira (IPCA) e a norte-americana (PPI), tem flutuado neste intervalo, registrando média de exatos R$ 4,00/US$ (alerto que há dúvidas se existe mesmo uma média para esta variável, mas, para os fins da coluna, vamos supor que sim), notando que em apenas 3 das 18 observações mensais o valor ficou abaixo de R$ 3,90 (a menor delas R$ 3,80).

Em outras palavras, a taxa de câmbio real ficou precisamente onde os “neodesenvolvimentistas” juravam ser o valor de “equilíbrio industrial”, com poucas e modestas flutuações abaixo do nível mágico. Ainda assim, a indústria não reagiu. Pior: também não dá indicações que virá a reagir num horizonte de curto ou médio prazos.

Se prevalecesse um mínimo de honestidade intelectual, os proponentes da tese da TCEI como fator determinante da atividade industrial teriam que rever seus preconceitos, inclusive porque os melhores anos de crescimento industrial (principalmente entre 2005 e 2010) se verificaram com o real bem mais forte do que o sugerido pelas “estimativas” da TCEI.

Todavia, não é, claro, o caso. Pelo contrário, invocam-se todos os epiciclos possíveis, da falta de demanda interna à crise argentina, passando pelo aperto fiscal (apesar dos proponentes sempre afirmarem defender uma política fiscal apertada), fatores que não apareciam na formulação original da tese, mas agora invocados quando a realidade insiste em rejeitá-la.

A verdade é que não só a teoria não faz muito sentido, como a estimação da TCEI resultou de um estudo cometido por Nelson Marconi que seria rejeitado como trabalho de conclusão de curso em qualquer escola séria de economia, como tive oportunidade de explorar em artigo no ano passado.

Resumindo, por motivos obscuros Marconi define que a taxa média de câmbio real observada entre 1968 e 1979 seria a TCEI e repete seu valor (supostamente ajustado à inflação) para os dias de hoje. Nenhuma palavra sobre produtividade, investimento, qualificação da mão de obra, tecnologia, estrutura tributária, nível de gasto público. A uma teoria econômica sem fundamentos juntou-se um processo de estimação desprovida de qualquer Norte.

A verdade é que os “neodesenvolvimentistas” não mediram esforços para produzir uma estimativa sem sentido, e, falando sinceramente, obtiveram sucesso estrondoso em sua empreitada.


A taxa de câmbio de equilíbrio industrial cura unha encravada, espinhela caída e traz de volta o amor perdido junto com a produção industrial


(Publicado 30/Out/2019)