O cenário econômico dos
próximos anos será fortemente afetado pelas iniciativas a serem tomadas pelo
novo governo americano, em particular nas áreas fiscal e de comércio exterior. Já
quanto à política monetária, muito embora deva permanecer relativamente
insulada, já que membros do Federal
Reserve possuem mandatos não coincidentes com o do presidente, é de se
esperar que reaja às políticas adotadas nas demais frentes.
No lado do comércio
exterior, à parte bravatas quanto à imposição de barreiras tarifárias punitivas
sobre as importações chinesas e mexicanas, é sincero o desejo de atrair
novamente para os EUA setores manufatureiros que se moveram nas últimas décadas
para fora do país. Parece um objetivo meritório e quem segue o debate nacional
a respeito já há de ter visto defesas bastante
apaixonadas de medidas com o mesmo objetivo por aqui. Isto não impede a
proposta de estar errada em várias dimensões.
Ainda que medidas de
proteção comercial sejam tipicamente justificadas com base nos empregos que
poderiam gerar, não se consideram efeitos que possam ter no funcionamento geral
da economia, principalmente nas que operam próximas ao pleno-emprego, como
parece ser o caso americano.
De fato, o desemprego lá
se encontra ao redor de 5% da força de trabalho, cerca de metade do pico atingido
após a crise financeira internacional, apenas meio ponto percentual acima do
patamar que vigorava logo antes dela, e colado nas estimativas da taxa natural de
desemprego
(4,8%).
É verdade que parcela
da queda do desemprego reflete regimes de trabalho mais precários, mas, mesmo
se adotarmos uma medida de desemprego mais ampla (U6, no jargão), que contemple este
problema, a conclusão pouco se altera. Em outubro a U6 registrava 9,5%, metade
do anotado em seu pior momento e apenas 1,5 ponto percentual acima do observado
logo antes da crise.
Por onde se olhe, a
economia americana opera bastante próxima ao pleno-emprego. Isto significa que
o espaço para a geração não-inflacionária de emprego é pequeno: um aumento do
emprego nos setores privilegiados pela política comercial teria que ser
compensado pela redução de emprego nos demais, de forma a evitar pressões sobre
a inflação. Concretamente, o Fed
elevaria taxas de juros em ritmo mais intenso do que era esperado há pouco para
compensar desemprego sistematicamente inferior à taxa natural.
Além disso, numa
economia como a americana, com baixas barreiras comerciais, a migração da
produção para o exterior permite que o setor privado se especialize naquilo que
faz de mais produtivo, da mesma forma que uma advogada contrata um motorista
para dedicar mais tempo à sua tarefa mais produtiva, ainda que dirija melhor
que seu funcionário.
A reversão deste
processo reduziria a produtividade geral, assim como a demissão do motorista
faria nossa advogada perder horas valiosas no trânsito. O menor crescimento da
produtividade exacerbaria pressões inflacionárias e contribuiria para um aperto
monetário mais intenso.
Tais raciocínios são ao
menos parte da explicação para a (ainda modesta) elevação das taxas de juros
nos EUA nos dias que seguiram à eleição. Na semana que vem examinaremos outros
motivos, assim como sua provável repercussão sobre o Brasil.
(Publicado 16/Nov/2016)









