Implícita ou
explicitamente muitos dos argumentos contra a austeridade fiscal se apoiam na
ideia (errada) que a contenção dos gastos nos levará
a um cenário de estagnação, ou baixo crescimento. Não por menos,
comparações com o desempenho europeu nos últimos anos pipocam nas análises
sobre o assunto.
Há, por trás desta
noção, a crença que apenas o gasto público poderia impulsionar a demanda e
assim levar à recuperação da atividade. Esta análise peca tanto no que se
refere à teoria quanto à realidade local, bastante distinta da enfrentada pelos
países ricos.
Do ponto vista teórico
ignora que, exceto em condições bastante específicas, que jamais se
materializaram no Brasil, há uma troca entre o gasto público e as taxas de
juros. Uma política fiscal mais frouxa, como a defendida pelos keynesianos de
quermesse, implica taxas de juros mais elevadas e vice-versa, ou seja, há
fortes razões para crer que um programa de estabilização fiscal bem sucedido se
transforme em taxas de juros mais baixas, por pelo menos dois canais.
Em primeiro lugar,
gastos menores tendem a reduzir a inflação, o que, como notado pelo Banco
Central em sua comunicação mais recente, abre espaço para taxas de juros mais
baixas. Em segundo lugar, no caso de economias em que o descontrole fiscal implica
elevação do risco-país (o tanto a mais que o governo precisa pagar na sua
dívida em comparação a países percebidos como bons pagadores), sua correção
leva à queda.
Não se trata de um
delírio teórico: o risco brasileiro caiu à metade, de cerca de 5% ao ano no
início de 2016 para algo em torno de 2,5% ao ano agora, queda impulsionada em
larga medida pelas medidas que começaram a sinalizar desenvolvimentos mais
positivos no caso das contas públicas. Note-se que há ainda muito terreno a
recuperar: há poucos anos o risco-Brasil seguia de perto o risco-México; hoje
mexicanos podem tomar recursos pagando a seus investidores 1% ao ano a menos do
que brasileiros.
Já no que se refere à
taxa de juros doméstica o progresso foi ainda mais extraordinário. Embora a
Selic tenha sido reduzida em apenas 0,25%, as taxas mais longas caíram muito
mais.
Mesmo se deixarmos de
lado os níveis distorcidos do começo do ano, que apontavam para uma taxa real
de juros para 2017 acima de 10% ao ano, tínhamos valores na casa de 6,5-7,5% ao
ano pouco antes do afastamento da presidente.
Hoje, porém, a taxa
real de juros para 2017 se encontra hoje ao redor de 5,5% ao ano, ainda
elevada, mas, como previsto pela teoria, muito inferior à observada antes da
adoção de medidas de ajuste fiscal de longo prazo. Seus efeitos sobre o
crescimento devem se fazer sentir em 2017 e 2018.
Esta dinâmica não pôde
se materializar nos países europeus, onde taxas de juros se encontravam
próximas a zero, dada a inflação baixa. Já em nosso caso, em circunstâncias
bastante diversas, o ajuste fiscal contribuiu fortemente para a redução da taxa
real de juros e pode continuar a fazê-lo, caso medidas adicionais sejam
aprovadas nos meses à frente.
É incrível como este
pessoal, depois de quebrar o país com sua mistura de má teoria e desrespeito
aos dados, ainda se ache capaz de participar do debate brandindo os mesmos defeitos. Por sorte, ninguém mais os ouve fora de seus próprios círculos.
(Publicado 2/Nov/2016)









