Fui irônico, claro, ao mencionar
o desrespeito do Dr. Bellezza pela aritmética, mas me enganei: ele realmente nada sabe do assunto. Não me
espanta, pois, que associe matemática à tortura. Imagino sua infância
aterrorizada pela matéria, a ponto de encarar com evidente temor cálculos que
um egresso do ensino fundamental não teria dificuldade de entender.
Meu argumento é
simples. A relação dívida-PIB é uma fração na qual o numerador, a dívida,
cresce em linha com a taxa de juros, na ausência de um saldo primário. Já o
denominador, o PIB, cresce pela combinação do aumento real da atividade e dos
preços, este segundo conhecido como inflação.
É óbvio que a fração só
aumenta se o numerador crescer mais rápido que o denominador, ou seja, se a
taxa de juros for maior do que a combinação entre inflação e crescimento real
do PIB. Posto de outra forma, na ausência de um saldo primário, a razão dívida-PIB só cresce se a taxa real de juros (isto é, a diferença
entre a taxa nominal de juros e a inflação) for maior que o crescimento real do
PIB.
A evolução da
dívida-PIB, portanto, depende da taxa real de juros, conclusão que só escapa a
quem não distingue numerador de denominador. Isto dito, vamos aos números.
Nos 12 meses até
setembro o custo da dívida ficou em 12,1% (próximo à taxa Selic acumulada no
período, 12,6%), enquanto a inflação (IPCA) atingiu 9,5%. Isto significa que a
taxa real de juros foi 2,4% (1,121÷1,095-1. A conta é geométrica: chamem a
Anistia Internacional!). Aplicada a uma relação dívida-PIB de 57,6% em setembro
de 2014 implica custo real da dívida
de 1,3% do PIB (0,024×0,576) naquele período.
Como prometido, são contas
simples, passíveis de reprodução por qualquer um que domine as quatro
operações, mas que, para quem tem pouca afinidade com elas, devem soar como
feitiçaria.
Aliás, falando em
dificuldade com as quatro operações, é notável a peculiar matemática do Dr. Bellezza.
Segundo ele, se somarmos o “efeito da inflação sobre a dívida”, R$ 188 bilhões
em 2014, ao déficit primário, R$ 20,7 bilhões, obteríamos um “superávit
operacional” de R$ 167 bilhões (3,2% do PIB) no ano passado. Nunca se viram
tantas asneiras em tão pouco espaço.
A começar porque os
números de 2014 estão todos errados. O déficit primário atingiu R$ 32,5 bilhões,
não R$ 20,7 bilhões. Segundo, o efeito da inflação deve ser calculado sobre a
dívida do final de 2013, não no final de 2014. Terceiro, a inflação foi 6,41%,
não 6,14%. Estes erros, porém, são modestos perto da atrocidade perpetrada.
Com efeito, a definição
de resultado operacional é saldo primário (-R$ 32,5 bilhões) menos o juro
real sobre a dívida (R$ 110 bilhões), ou seja, déficit de R$ 143 bilhões
(2,6% do PIB) no ano passado. Já o Dr. Bellezza comete o seguinte “cálculo”:
saldo primário menos sua estimativa (errada!) do efeito da inflação. Obtém
assim um resultado totalmente desprovido de significado para concluir que
teríamos “superávit operacional” em 2014. E ousa me acusar de maus-tratos aos
números...
Podem, porém, ter
certeza que não assumirá a culpa pelos erros grosseiros, assim como evita a
responsabilidade por sua gestão desastrosa no Palmeiras e pretende nos
convencer que foi crítico da “Nova Matriz Macroeconômica” desde 2010. Baita coragem...
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Somando
dois déficits obtenho um superávit
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(Publicado 25/Novembro/2015)









