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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cachorro, raivoso, morde carteiro


Faz frio no Pólo Sul; o time do Íbis não vai ser campeão brasileiro; o leilão do pré-sal, conduzido sob as regras desenhadas por Dilma Rousseff e companhia, foi um fracasso. 

Já estou com saudades de semana passada, quando as discussões sobre política fiscal e procedimentos legislativos nos Estados Unidos geravam pelo menos manchetes interessantes.

Que o leilão do pré-sal seria um fracasso retumbante, qualquer um poderia saber desde quando as novas regras de partilha foram estabelecidas alguns anos atrás (basta ler no noticiário que a presidente, então ministra "tecnocrata", estava no centro da operação). 

Menos de um mês atrás, ouvi de uma jornalista econômica que um membro da equipe econômica altivamente desdenhava da falta de interesse das principais companhias de petróleo pelo leilão do pré-sal (“Não é uma surpresa para mim. As companhias espernearam quando nós mudamos as regras”, justificava altaneiro).

E la nave va, vivendo seu experimento com a idiocracia.

sábado, 20 de abril de 2013

Clóvis Rossi, o anti pundit


A palavra inglesa ‘pundit’ é uma variante do term ‘pandit’ em sânscrito, que denota um indivíduo de grande conhecimento. O termo ‘pundit’ é usado para descrever intelectuais públicos que pontificam sobre temas variados, tanto nas colunas de comentários dos jornais quanto nos programas de televisão.

Clóvis Rossi é um anti-pandit. Ele discorre sobre os mais variados temas, e não importa qual seja o assunto, invariavelmente, fala estultices e jequices, como se fora um buraco negro que devora qualquer informação e cospe ignorância.

Vejamos o que Clóvis Rossi disse sobre os rapazes chechenos que foram filmados e fotografados levando as bombas que mataram 3 e aleijaram dezenas em Boston:

“No caso de Boston, o que diabos faziam dois tchetchenos vivendo em Cambridge, como está sendo informado?”

Pode uma pergunta estar errada? 

Com Clóvis Rossi, pode!

Primeiro, o irmão mais novo não era checheno, mas um cidadão dos EUA. Por ter nascido no exterior, não pode ser presidente, mas exceto este detalhe, é tão americano quanto Hollywood ou a torta de maçã.

Segundo, se Clóvis Rossi não fosse um jeca ignorante, saberia que em qualquer das maiores áreas urbanas dos EUA (ou do Canadá, Europa Ocidental), existem chechenos, somalis, etíopes, vietnamitas, palestinos, haitianos etc.  Não existe nada surpreendente nisto.

Terceiro, 'o que diabos eles faziam' lá? Que tipo de idiota faz uma pergunta destas?


sábado, 20 de agosto de 2011

A opinião de Dawkins sobre o ensino de ‘intelligent design’

Recentemente na lista de comentários de um dos posts sobre a ascensão dos idiotas altivos, um de nossos leitores comentou que o biologista inglês Richard Dawkins teria ‘adimitido’ (seja lá o que for que isso significa!) aquilo que se convenciona chamar de ‘teoria do design inteligente’.

Como o Dawkins escreve muito bem (recomendo fortemente seus livros!), vale a pena reproduzir este parágrafo de um artigo no The Guardian em 2005:

Intelligent design is not an argument of the same character as these controversies. It is not a scientific argument at all, but a religious one. It might be worth discussing in a class on the history of ideas, in a philosophy class on popular logical fallacies, or in a comparative religion class on origin myths from around the world. But it no more belongs in a biology class than alchemy belongs in a chemistry class, phlogiston in a physics class or the stork theory in a sex education class. In those cases, the demand for equal time for "both theories" would be ludicrous. Similarly, in a class on 20th-century European history, who would demand equal time for the theory that the Holocaust never happened?

Cheque mate

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Boçalidade do tamanho do Texas

Diz-se que tudo no Texas é maior. Uma bobagem. Mas nos dias de hoje, fica difícil negar a liderança daquele estado na produção de boçalidades.

Vejam a última do Rick Perry (Governador do Texas, Idiocrats), que eu encontrei no blog do Stephen Williamson: sua política para as universidades públicas texanas consiste de tratar professores e pesquisadodes como vendedores de carros usados.

Indeed, officials at Texas A&M took the first step in implementing the first of the Seven Solutions, which essentially involves creating a bottom line for each professor in the university. Teaching a lot of students is a good thing. That brings in tuition dollars and enters as a plus. Earning a big salary is a bad thing. That enters as a negative. A grant is a good thing. That brings money into the university and enters as a plus.

Para qualquer pessoa que já pôs os pés em uma universidade focada em pesquisa, a idéia arde nos olhos como de uma estupidez fenomenal. Uma boa universidade é caracterizada pela diversidade de cursos. É de se esperar que alguns cursos tenham poucos estudantes, enquanto outros tenham muitos. Ligar o salário dos pesquisadores à sua capacidade de trazer dinheiro para a universidade também é uma péssima idéia, afinal isto limitaria os incentivos para pesquisa em campos que ‘não estão na moda’.

Mas o que podemos esperar de um político que acha uma boa idéia que a pseudo-teoria do “intelligent design”, o contraponto jeca-cristão ao darwinismo, seja ensinada nas escolas públicas?

Ano que vem temos mais uma eleição presidencial nos Estados Unidos. Gostem ou não de Obama ou Romney, ambos claramente não são idiotas. Entretanto, o clima político é assustador. A nominação do candidato a presidente do GOP, hoje em dia um condomínio de lunáticos, fanáticos e jecas fundamentalistas, pode escapar de Romney ou Huntsman e cair no colo de um demente como Ron Paul que gostaria que o Federal Reserve fosse extinto, ou um idiota altivo como Rick Perry.

Temei.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A descoberta do Professor Marconi

Graças à indicação do Rogerio Ferreira, descobri que o Brasil tem menos indústria hoje em dia do que em 1947, segundo um índice construído pelo Professor Marconi (ou seria Martoni?) da FGV-SP (link)...

Eu imagino o professor interpolando as séries de contas nacionais e outras estatísticas econômicas, e encontrando o resultado de maior participação da indústria em 1947... Eureca! Finalmente! Vou provar meu valor para o Mestre da Luz Que Não Se Apaga! E assim, desengata a carroça de suas costas (para chegar mais rápido), e corre para trazer as notícias para a Estrela d'Alva da Itapeva. Mestre! Consegui provar que a indústria brasileira está na maior crise de toda sua história! Sua participação no PIB é menor do que em 1947!

Admiro muito a falta de dúvida.

Será que o professor em algum momento se questionou sobre o ridículo de seu achado?

Nunca passou pela cabeça do professor que se o índice que ele construiu mostra maior participação da indústria em 1947 (pré-CSN, pré-montadoras do ABC, pré-petroquímicas etc) do que hoje em dia, isso é evidência para qualquer pessoa razoável que seu índice não está medindo um fenômeno relevante?

[Nem passa pela imaginação do professor que algum desavisado pode inadvertentemente duvidar de sua inteligência ou honestidade por ter argumentado que houve desindustrialização no Brasil baseado em uma definição de indústria total que inclui a indústria extrativa, construção e serviços públicos? ] Menos... Este parágrafo em rosa não faz justiça ao artigo do professor Marconi, mas sim reflete a sua caracterização defeituosa pela reportagem do Valor Econômico. (Nota: "O" Anonimo)

Martoni considera que o processo brasileiro de desindustrialização começou na década de 80, quando a renda per capita do país não havia atingido US$ 4 mil.
Alguém poderia confirmar para mim, mas eu tenho uma leve desconfiança que o professor está usando dólares correntes para comparar o PIB brasileiro no tempo. Ai ai ai...

O professor da FGV observa que a mudança no câmbio fez a indústria adotar uma estratégia que ele classifica de "hedge produtivo"
Arrrrghhh! The horror, the horror!

ADENDO (09/29/2010)

Perdi uma hora de minha vida lendo finalmente o texto do Marconi & Barbi, só para descobrir hoje que o Rogerio Ferreira já apontou boa parte das besteiras cozinhadas naquele artigo.

Focando nos aspectos principais (e aceitando os dados construídos pelos autores como verdade), é chocante que os autores não tenham notado que a trajetória da participação da indústria de transformação tem tido uma tendência declinante desde meados dos anos 70 pelo menos. Se vamos acreditar nos dados apresentados no Gráfico 1 de Marconi & Barbi, fica muito difícil concluir que fatores como liberalização financeira ou comercial tenham tido um papel crucial em um suposto processo de desindustrialização brasileiro. Os autores são cegos a esta evidência.

Também é curioso que os autores olimpicamente ignoram que em tempos recentes (1995-2007), o setor de manufaturados de média-alta e alta tecnologia tem (a) mantido sua partipação no valor adicionado agregado (Gráfico 2); (b) aumentado sua participação na ocupação (Gráfico 4); e (c) reduzido sua participação no investimento da indústria (Gráfico 5). Pontos (a)-(b) são inconsistentes com a ladainha histérica de certos autores sobre ‘primarização’ da economia brasileira, enquanto ponto (c) é consistente com o efeito da apreciação cambial barateando o preço relativo do investimento em equipamentos mais avançados tecnologicamente.

Outra grande sandice, entretanto, é a visão dos autores sobre a expansão da compra de insumos intermediários no exterior. É fantástico para nossa indústria que ela possa reduzir seus custos adquirindo insumos no exterior. Mais que isso, é necessário que ela faça isso se quisermos ter uma indústria competitiva. Eu não consigo deixar de me surpreender que ainda existam economistas brasileiros que até agora não entenderam que a economia brasileira entrou em uma crise que durou quase duas décadas exatamente porque nossos planejadores nos anos setenta resolveram endividar o país para “adensar a cadeia produtiva” (ou seja lá qual for o eufemismo para “forçar nossos produtores a pagarem mais caro por seus insumos intermediários”).

Mas o mais engraçado disso tudo é que os próprios resultados econométricos dos autores desmentem algumas das teses que eles defendem. Por exemplo, os autores não conseguem achar qualquer efeito significativo da taxa real de câmbio (não que alguém precise de econometria para saber isso, basta ver o Gráfico 1) e conhecer a trajetória da taxa real de câmbio.


Este professor Marconi...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Professor Costa Oreiro no Monitor Mercantil: Medo de Securitizações!!

Manifestações de boçalidade às vezes guardam um certo paralelismo com a arquitetura de uma cebola: vêm em camadas. Este é o caso da nova contribuição combinada do Professor Costa Oreiro e o Monitor Mercantil.

É certamente questionável o julgamento de qualquer economista que se disponha a dar uma entrevista ao Monitor Mercantil, uma publicação cuja existência fascina paleontólogos amadores como um sinal de que o elo perdido pode ainda andar entre nós.

Ainda mais se tal economista já passou pelo contratempo de ter sido citado –segundo ele, erroneamente – por aquele jornal como dizendo que Chávez é “o cara” e que "a Revolução Bolivariana encontrou o caminho para obter câmbio depreciado e competitivo no longo prazo".

Mas este é só o exterior da cebola. Quando a descascamos, a barbaridade é de assustar. Leia, segurando-se na cadeira, o trecho abaixo (em azul as passagens mais boçais):

EM VEZ DE CAPITALIZAR CAIXA VIA TESOURO, GOVERNO OPTA POR PAPÉIS TÓXICOS

"Há risco de formação de uma bolha. Não se pode esquecer que a crise começou com a securitização." O alerta é do economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), ao comentar a possibilidade de, nas próximas semanas, a Caixa Econômica Federal captar R$ 500 milhões via securitização (títulos que repassam a dívida dos mutuários via papéis a serem comercializados livremente no mercado financeiro) de sua carteira de empréstimos, conforme disse a presidente do banco, Maria Fernanda Ramos Coelho, reafirmando anúncio feito esta semana pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Para Oreiro, o melhor é capitalizar a Caixa (e também o Banco do Brasil) pelo próprio governo, via aportes do Tesouro, a exemplo do que já ocorre no BNDES.

"Cheguei a propor isso ano passado. Afinal, os financiamentos da Caixa geram muitos empregos. Mas sou contra produtos financeiros exóticos", criticou, advertindo que, a longo prazo, a Caixa se tornaria um banco de investimento, "o que é ruim".

De acordo com o economista da UnB, o risco da securitização é a perda de controle sobre as emissões seguintes. "Uma obrigação lastreada em ativos, quando vendida no mercado secundário, para um banco de investimento, pode criar outro instrumento exótico que será empacotado e repassado. Aí, pode perder o controle, já que reduz a transparência."

Quanto à elevação do risco, Oreiro ponderou que se, por exemplo, algum fundo de pensão resolver vender ativos secundários, é provável haver queda acentuada no preço dos papéis, causando apreensão no mercado financeiro.

A presidente da Caixa disse que deverão ser lançadas também letras financeiras, espécie de debêntures criadas pelo governo no fim de 2009, para os bancos captarem recursos de longo prazo. A Caixa já lançou R$ 1 bilhão em letras financeiras e pode lançar mais R$ 2 bilhões.

Juro que vou tentar entender.

O professor acha que securitizações geram bolhas, portanto a Caixa deve se capitalizar via endividamento do Tesouro. Mas como securitizações geram bolhas segundo o mestre? Elas geram porque securitizações porque "há uma perda de controle sobre as emissões seguintes (...) Uma obrigação lastreada em ativos, quando vendida no mercado secundário, para um banco de investimento, pode criar outro instrumento exótico que será empacotado e repassado. Aí, pode perder o controle, já que reduz a transparência." Interessantemente, o mesmo pode ser dito de qualquer ativo financeiro. Dívida pública pode ser empacotada no mercado secundário, assim como recebíveis das Casas Bahia ou do crédito consignado. Mas aparentemente o doutor Costa Oreiro não parece saber disso...

Além disso, o professor Costa Oreiro também se preocupou com a possibilidade que a venda por algum fundo de pensão de posse de papéis secundários lastreados por crédito imobiliário da Caixa possa causar apreensão no mercado financeiro. Alguém pode explicar para o professor que fundos de pensão compram e vendem todo tipo de ativo financeiro todos os dias?

“a longo prazo, a Caixa se tornaria um banco de investimento” Er... Alguém pode explicar para o professor o que é um banco de investimento?

Este engolidor de espadas não é o Professor Costa Oreiro.


Pois é... Tio “O” escreveu mais um texto enfadonho. Quem poderia imaginar que o professor de macroeconomia da UNB e diretor da AKB não tem idéia alguma sobre mercados financeiros? Qual vai ser a próxima? Anunciar ao mundo que o Internacional de Porto Alegre joga com uma camisa vermelha?

Pelo menos sinto um conforto em saber que este é o calibre intelectual dos nossos Luditas do século 21.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

De Volta à República dos Abestados

Um dos comentários a meu post “A República dos Abestados” de 20 de agosto é representativo do zeitgeist descrito naquele post, portanto merece os holofotes e uma resposta cheia de novas indagações.

Um anônimo fez um copia-e-cola de uma fala ou texto do Jim O’Neill, o economista da Goldman Sachs, seguido de um comentário próprio:


Jim O’Neill: “Penso que o Lula tem sido muito mais astuto do que muitos dos analistas locais acreditam. Creio que o Lula é um dos mais, se não o mais interessante, de todos os criadores de políticas do G20 na última década. E em parte, é porque ele sabe que para adotar políticas econômicas ortodoxas no Brasil — um grande país em desenvolvimento — ele precisa, por outro lado, adotar outras políticas, como o aumento do número de servidores. E eu aplaudo as políticas de Lula.”
Anônimo: “volta pra escolinha de economia.”

Achei a fala intrigante.

Quem deve voltar para a escolinha de economia? Jim O’Neill? Lula? O Alex? Eu?

Infelizmente nosso anônimo não prima pela clareza em seu texto.

Então passei a indagar-me sobre o que poderia estar passando embaixo das telhas daquela criatura de Deus.

Por acaso ele acha que o Alex, um ex-membro da equipe econômica do Lula, não considera Lula astuto ou suas políticas meritórias de aplauso? Eu não faço a mínima idéia, nunca perguntei nem vou perguntar agora, assim como não faço hipótese alguma sobre suas preferências eleitorais. Tudo que sei, aprendi da leitura de seus textos que não escondem uma ponta de orgulho de sua passagem pelo governo Lula, onde fora bem-sucedido além de qualquer dúvida.

Ou o anônimo talvez ache que eu discordaria da fala de Jim O’Neill? Gostaria de saber o que o anônimo pensa de minhas preferências políticas. Sou Serra? Marina? Dilma? Semana passada mesmo, eu encontrei um documento oficial do governo Lula onde um documento não publicado que escrevi em defesa de alguns aspectos da política econômica brasileira é citado extensivamente. O mínimo que posso dizer sobre os formuladores de política econômica que o Lula emprega é que eles usam de bom senso na escolha de seus argumentos de autoridade :)

Ou talvez o anônimo discorde da avaliação do O’Neill que o Lula teria usado de astúcia para vender às massas um pacote de políticas econômicas ortodoxas?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A República dos Abestados

De vez em quando, minha capacidade de filtrar ou relevar notícias ruins chega ao limite e tenho que desabafar. Esta semana foi barra pesada.

Primeiro, o Alex postou sobre o retorno do discurso protecionista entre nossos grandes ‘empresários’. Deprimente.

Depois, o Cláudio Shikida me levou para o Coturno Noturno, que por sua vez me apresentou para esta monstruosidade, um manifesto de uma organização de blogueiros oficialistas, digo progressistas, pela nassifização da blogosfera:

Reivindicamos a elaboração de políticas públicas que incentivem a veiculação de publicidade privada e oficial remuneradas nos blogs, bem como outras formas de financiamento que efetivamente viabilizem essa forma de comunicação representada pela blogosfera progressista (...)

Mas nada me preparou para algo que vi citado no blog do ótimo Mansueto Almeida, esse texto do professor Antonio José Alves Junior (veja o texto inteiro aqui), que apresenta um argumento que eu já havia ouvido anteriormente da boca de um economista estrangeiro de banco narrando um argumento que ele teria ouvido em Brasília, mas pensei que estava parodiando:

(...) a política de crédito direcionado vigente favorece a eficácia da política monetária.

(...) Assim sendo, não fosse a atual política de crédito direcionado, que mantém estáveis os custos do financiamento do investimento, o aumento da Selic prejudicaria desproporcionalmente a formação de capital.

(...) O efeito do aumento da Selic, ao ser canalizado pelo crédito livre, pode ser empregado para ajustar os gastos em bens de consumo, cujos preços formam o IPCA, enquanto o crédito direcionado, ofertado em condições estáveis, contribui para a manutenção do nível dos investimentos. Dessa forma, a expansão do crédito direcionado, neste momento de incerteza, impulsiona a economia brasileira rumo ao crescimento acelerado e não inflacionário.


Em outras palavras, segundo o professor Alves Junior, a SELIC deve aumentar para contrair a demanda, mas ao mesmo tempo o erário deve oferecer um subsídio aos tomadores do BNDES (Petrobrás, Vale, Friboi...) para que a demanda não se contraia.

Isto me remete então para a pergunta clássica da nassifologia: ele escreve isso porque é um boçal ou está de sacanagem?

Professor do Departamento de Economia da UFRuralRJ diz que transferências dos contribuintes para os acionistas das empresas tomadoras do BNDES aumentam a eficácia da política monetária.

A resposta neste caso é cristalina: os abestados somos nós.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Se em Campinas é ruim, imagina em Lusaka...

Nada como começar a semana com pensamentos profundos em macroeconomia.

Imprimam e leiam este imperdível artigo do gênio renascentista zambiano Siize Punabantu (link).

Financing the doubling of GDP in one year at constant price

If the heading has drawn your attention then it has achieved the second objective of this paper, its first objective being to lead the reader through a discussion of how economic scarcity is a reversible problem. This paper examines reasons why scarcity may remain unresolved by economics as a result of how history and the machinations of business have evolved, especially in relation to the circular flow of income, price, value and the exchange of goods and services. The hypothesis that an economy has sufficient latent financial resources with which to finance the doubling of its GDP in one year at constant price is used to first anchor the idea resources are available so that a greater emphasis is placed on the burden of proof. The reader is asked, as a warm up exercise, to take a moment to meditate and reflect on the hypothesis; then suspend disbelief briefly in order to be able to follow the arguments unhindered by conventional wisdom. This aids in grasping how important thinking outside traditional views in economics can open new vistas in how the problem of scarcity is addressed. The gist is to grapple with ideas taken for granted in economics pertaining to enterprise, observe their evolution and attempt to mould them toward a construct that better exposes the latent potential within economic thought to change the economic landscape. It explores the view that even practices taken for granted in economics and business such as those used to understand cost, revenue, and the significance of money may harbour hidden factors that can affect how money transfers value between transactions. Further, it discusses how the tension between pessimistic and optimistic views can influence outcomes in economics.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Professor Bresser Pereira volta às suas raízes (mas talvez não saiba disso)


Pouca gente se lembra, mas antes do Professor Luiz Carlos Bresser Pereira ser ministro da Fazenda de José Sarney, ele foi o autor de um livro chamado Desenvolvimento e Crise no Brasil no final dos anos 60, que recebeu uma nova edição nos anos 80. Não tenho palavras para descrever a maionese estragada que aquele livro era e se não fosse brasileiro, recomendaria a leitura com certo ar de superioridade e bom humor. Entretanto como sou brasileiro, vivi as conseqüências de ser governado por chimpanzés que se viam intelectuais originalíssimos e não acho graça alguma nisso.

Pois bem, uma das crenças do Professor Bresser Pereira então era que a apreciação da taxa real de câmbio era:
(estou citando da versão em inglês).

“an efficient tool to raise the marginal efficiency of capital.”

Desde então, ele se converteu e agora acredita que:

“a apreciação da moeda causará a diminuição da poupança por meio da diminuição das oportunidades de investimentos lucrativos voltados para a exportação. A queda das expectativas de lucro causará a diminuição dos investimentos e, em conseqüência, nos termos de Kalecki, dos lucros, e nos de Keynes, da poupança interna (...) a apreciação do câmbio tem como resultado a redução dos investimentos e da poupança interna.”

E assim o Professor Bresser Pereira juntou forças com o Professor Gala e a Professora Araújo para escrever um artigo para avaliar empiricamente essas relações. O artigo está pronto e é acessível aqui.

Sinceramente não quero perder tempo cortando cada bola que os três professores levantaram. Mas não posso deixar de compartilhar a conclusão do exercício empírico.

Gala, Araújo e Bresser Pereira produziram uma figura que demonstra sem margem de dúvidas que para a amostra de 1950 a 2007, usando a metodologia escolhida pelos autores, choques que depreciam a taxa de câmbio têm o efeito de reduzir a taxa de investimento permanentemente.

A taxa de investimento é por identidade contábil igual à soma das poupanças doméstica e externa. Portanto, o efeito de um movimento da taxa de câmbio sobre a taxa de investimento é dado pela soma dos efeitos sobre as poupanças doméstica e externa. Basta olhar a Figura 2 que os autores produziram para vermos que (1) um choque que deprecia a taxa de câmbio real tem um efeito sobre a poupança doméstica estatisticamente insignificante e próximo a zero, tanto no curto quanto no longo prazo; e (2) o mesmo choque tem o efeito de deprimir a poupança externa no curto e longo prazo e por uma quantia economicamente significativa.

Ergo, a análise empírica de Gala, Araújo e Bresser Pereira mostra que para dados brasileiros de 1950 a 2007, choques que depreciaram a taxa de câmbio têm o efeito de reduzir a taxa de investimento permanentemente.

Tendo em vista o que escrevi sobre as antigas crenças do professor emérito, será uma volta ao passado? Ou apenas ele está sendo embaraçado pelo pobre controle de qualidade de seus co-autores?

O freak show está chegando!!


Nos dias 11 a 13 de agosto, várias dezenas de saltimbancos e deviantes exibirão suas artes e peculiaridades em um teatro fulo em pleno centro de Sao Paulo. Como de costume, eles vão se vestir de pesquisadores, franzir as sobrancelhas, e receber os cumprimentos gentis de seus pares após apresentarem ainda mais um artigo não-original, com texto medíocre, coalhado de erros metodológicos e muitas vezes internamente incoerente.

O anfitrião, o professor emérito de epidemiologia batava Luiz Carlos Bresser Pereira, célebre bem-humorado mambembe e autor de frases clássicas do repertório bufo brasileiro (*) vai reinar supremo entre manadas de puxa-sacos e zerões.

E o Tio “O” talvez visite para dar um alô amigos!

Ou talvez não.

Mas certamente não vou perder a oportunidade de me divertir com as dezenas de trabalhos que vão ser apresentados (veja o programa do encontro aqui). Não vai ser surpresa alguma se uma meia dúzia dessas pérolas aparecer como tema de artigos neste blog. Já aviso, o primeiro artigo a ser abordado vai ser Gala, Araújo e Bresser Pereira. Vocês nem imaginam o que eles produziram inadvertidamente. Tem gente que não lê o próprio trabalho antes de imprimir o PDF.

P.S. Pelo menos por alguns poucos dias, os pais de meninos pré-adolescentes em Brasília vão ter um problema a menos para preocupá-los.

(*) Por exemplo:

"If inflation is inertial, if it is not the result of an excess of demand, but rather of the ability of economic agents to automatically pass on increases in their costs to their prices, the natural solution to break this cycle is administrative price controls. This solution becomes even more natural when we learn that this ability to automatically reproduce past inflation in the present would become greater not only if inflation is higher, but also as the market for goods and services as well as the labor market are oligopolized and nationalized."

"The conditions necessary for the success of the Cruzado Plan are clear. Actually, the Plan is already an extraordinary success, a great conquest of theory and economic policy. The predominantly inertial nature of Brazilian inflation before the shock is indisputable.”

terça-feira, 15 de junho de 2010

Traduzindo Platão para as massas

O Professor Oreiro cometeu uma nova obra-prima do surrealismo quermesseiro. Como o texto do professor é longo e prolixo, eu achei que valeria a pena resumir suas idéias em poucas palavras e alguns comentários.

Abaixo, minha interpretação (e caso o ilustre professor discorde, estou pronto a ceder-lhe direito de resposta neste mesmo blog):

Para o mui-publicado professor, uma suposta desindustrialização (segundo o imparcial IEDI...) afeta nossas perspectivas de crescimento no longo prazo. Portanto, o Tesouro deveria emitir uns 10% do PIB de dívida pública adicional para fundear um fundo especulativo para intervir no mercado cambial. Tal política no melhor dos cenários em que a dívida adicional não afeta os prêmios de risco, custaria uns meros 0.5% do PIB por ano ao Fisco (uma ninharia...). O objetivo desse maior endividamento é deprimir o salário real de modo que o capital industrial tenha lucros maiores, mas podemos ficar sossegados que não há evidência alguma que usar o câmbio para deprimir os salários reais tenha algum efeito negativo sobre a distribuição pessoal de renda (e somente um tolo ortodoxo veria problemas para implementar tal estratégia em uma democracia). Nós também não temos que nos preocupar com a consistência macroeconômica porque controles de capitais a-bran-gen-tes e di-nâ-mi-cos podem resolver qualquer inconsistência, afinal, são a-bran-gen-tes e di-nâ-mi-cos. Mais que isso, não existe nenhum custo em adotar-se controles de capitais, pois em um artigo na renomada REP, Oreiro, Paula e da Silva demonstraram que se a variável dívida pública/PIB for omitida de um modelo VAR, uma medida crua de controles de capitais não é correlacionada com o prêmio de risco (resultado que não é robusto à inclusão da variável dívida pública/PIB, mas como todos sabemos, é careta achar que dívida pública/PIB tem qualquer relação com o prêmio de risco...).

Acreditem em mim, não estou parodiando o Professor Oreiro, ele escreveu mesmo algo nessas linhas. Se vocês duvidarem, podem seguir o link para a verborragia original da figura. Mais bizarro ainda é constatar que o gênio da raça que cozinha um esquema para mobilizar mais que uma centena de bilhões de reais com o objetivo de deprimir os salários reais na indústria é ligado ao ex-Partido Comunista Brasileiro... Não comento mais para evitar ser acusado de auto-ódio no futuro...


"You represent the idiocy of today. (...) You are part of a league of morons."
Osborne Cox em Burn After Reading (2008)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O ataque dos sraffianos




De todos os comunicadores, o humorista é geralmente um dos mais desvalorizados. Comédias raramente são premiadas pelo Oscar, comediantes são vistos como atores de menor valor que atores dramáticos, e dentro da academia de Economia, existe um monopólio de facto das páginas das melhores publicações por economistas enfadonhos, obcecados com restrições orçamentárias e incapazes de sorrir.

Por isso, agora que comento seu último trabalho, sinto-me na obrigação de dar crédito à obra do Professor Franklin Serrano. Ser humorista é difícil. Manter as piadas em dia é tarefa que requer um olho atento ao mundo e grande bagagem cultural. Então, quando critico sua última produção por reciclar velhos risos enlatados, tento fazê-lo com respeito. Afinal, não é todo dia que tenho a oportunidade de resenhar o artista que criou o supermultiplicador sraffiano (na foto acima, um sraffiano ameaçador empunha seu supermultiplicador).

Pois bem, o experiente histrião trouxe seu espetáculo “Juros, câmbio e o sistema de metas de inflação no Brasil” ao palco da última Revista de Economia Política (janeiro-março/2010).

No primeiro segmento de sua apresentação, Serrano tenta demolir a visão consensual sobre a macroeconomia, esgrimindo contra os quatro “pressupostos fundamentais” do “novo consenso”. Assim argumenta que:

• Ao contrário do que não-humoristas argumentam, o hiato de produto não afetaria a inflação de forma sistemática (a despeito da evidência retratada no gráfico abaixo)

• Os choques de inflação não tem persistência total sobre a inflação, portanto o modelo dos macambúzios não corresponde à realidade (a despeito que a ausência de persistência é conseqüência óbvia e necessária da credibilidade do regime de metas de inflação – É logicamente impossível que um quadro de política monetária seja crível e tenha persistência total da inflação)

• O produto tem raiz unitária, portanto “a tendência do produto é totalmente correlacionada com a evolução do produto corrente” (!). Este é um não-argumento absurdo, a existência de raiz unitária diz absolutamente nada sobre a validade do consenso dos sem-graça. Diga-se de passagem, qualquer bom aluno de graduação sabe que os modelos do consenso apresentam raízes unitárias no produto.

• Os choques de oferta não são aleatórios (!). Outro não-argumento, afinal não há nada no consenso macroeconômico que dependa desse suposto ‘pressuposto’.

Mas tendo o cabotino 'acabado' com o consenso cabisbaixo, cabe a ele agora lidar com os fatos – o modelo de metas de inflação no Brasil tem conseguido consistentemente manter a inflação perto da meta, apesar da preocupação de Serrano com a falta de relação entre a demanda agregada e a inflação. Deve-se então explicar como isso ocorre.

Segundo o burlesco, isso se dá pelo efeito das taxas de juros sobre o taxa de câmbio. Um elevado diferencial de juros resultaria na valorização do câmbio e a neutralização de choques de oferta em dólares. Para os risos da platéia, o cômico, pimpão em seu melhor momento, apresenta um gráfico (Gráfico I no texto) que mostra uma visível correlação positiva entre o preço do dólar em reais e o diferencial de juros - repito: o gráfico mostra uma correlação positiva entre o Real desvalorizado em termos nominais e o diferencial de juros, contradizendo assim a fala de Serrano, e criando um efeito similar ao velho e sempre cômico truque do palhaço que perde as calças no picadeiro.

Mas depois desse grande momento, o satírico se perdeu. Um gracejo genial em que argumenta que a economia brasileira seria bastante aberta, tornando o preço de muitos bens transacionáveis insensíveis a mudanças na demanda doméstica, foi relegado a uma nota de rodapé.

Na tentativa de fechar a apresentação com um último chiste, apelou para aquela mesma velha pilhéria já interpretada com perfeição pelo duo bufo da Avenida Nove de Julho: cantou um tango sobre o deleite da desvalorização cambial aliada a quebra de contratos, taxação das exportações de produtos básicos e controle de capitais.

E pôs a platéia – muitos tiraram do fundo do armário suas velhas fantasias de sraffianos na esperança de ver o supermultiplicador em ação – para dormir.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Que gracinha!

Vocês não vão acreditar o que eu encontrei na minha caixa de mensagens:

Caro O,

Fiquei curioso de saber sua identidade. Besteira, mesmo. É que sou aluno de mestrado da EPGE, começando agora nessa vida sofrida de futuro acadêmico, e queria saber quem é a personalidade fazendo tantos comentários pertinentes, e conseguindo mandar bem nas piadas (melhores que as do Alex, pelo menos).

Apesar de eu achar que você é o próprio Alex, mas enfim. Hehehe

Grande abraço!


Não é comovente? Não dá um arrepio saber que estou tocando o... intelecto da juventude brasileira? É por causa de comentários como esse que eu sinto que estou no caminho certo, que eu tenho mais é que continuar com meu serviço de utilidade pública, orgulhoso que estou construindo um mundo melhor.

Vamos guardar para a posteridade o nome desse jovem de muito futuro em nossa profissão: Johnny Beltrano -- Pois bem, Sr. Beltrano, não vou me esquecer de suas palavras de incentivo!

P.S. Isso me faz lembrar um estudo antropológico que li sobre os pigmeus das florestas africanas. Apesar de expostos a evidência contraditória, alguns aparentemente não processavam o conceito que eles têm estatura abaixo da média dos outros povos da floresta e usavam a premissa que todos os homens são pequeninos como eles em decisões cruciais para seu bem-estar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O que é o pós-keynesianismo?

Um dos leitores desse blog pediu-me para definir pós-keynesianismo.


Vou explicar como nenhum pós-keynesiano poderia.


Em sua essência, pós-keynesiano é um economista que não desenvolveu as capacidades cognitivas ou analíticas para raciocinar em equilíbrio geral.


Por exemplo, escreve o Professor Marco Resende da UFMG:

“Embora esteja disseminada na literatura econômica do maistream e nos meios de
comunicação a idéia de que a poupança é um pré-requisito para o
investimento, este argumento não é consensual na literatura.”


Somente um pós-keynesiano engajaria nessa discussão sobre quem vem primeiro, o investimento ou a poupança. Este diálogo não passa de uma manifestação de um vazio cognitivo onde deveria haver um feixe de neurônios gritando: “Tal pergunta não faz sentido, afinal investimento e poupança são determinados simultaneamente!”


O investimento e a poupança, assim como o desemprego, a taxa de câmbio real, o nível de preços, o nível de atividade econômica, o balanço em conta corrente, entre outras, são variáveis endógenas, isto é, são determinadas simultaneamente dentro do sistema econômico (em equilíbrio geral). Quem é incapaz de entender este conceito, não é um economista de verdade e tem mais que tirar carteirinha da AKB...


Em um sistema macroeconômico, além dessas variáveis endógenas, existem também variáveis de política, como a taxa nominal de juros (SELIC), as alíquotas dos impostos, as reservas compulsórias dos bancos, a estratégia financeira do setor público, o salário mínimo nominal, a taxa de câmbio em que o governo compra ou vende moeda estrangeira quando o câmbio é fixo, a alíquota do IOF etc; e variáveis exógenas, como o preço do frete marinho, a política fiscal chinesa, os choques climáticos como o El Niño e todas as ações que podemos acreditar que não sejam influenciadas pelo que ocorre no Brasil (o que vai fazer o Bank of England amanhã?).


Faz sentido se perguntar o que acontece com a poupança se “o câmbio” se depreciar? Não! É uma pergunta mal colocada, pois não tem resposta independente do contexto.

Vejamos... Quando acontece um aumento no preço de nossas exportações, vários mecanismos tendem a causar uma apreciação da taxa real de câmbio, e no caso dos agentes econômicos considerarem a melhoria nos termos de troca como temporária, também um aumento em nossa poupança. Por outro lado, se o nosso governo aumentar suas compras de bens não-negociáveis, uma apreciação da taxa real de câmbio seria esperada (segundo ampla literatura empírica), assim como uma deterioração da poupança nacional (porque equivalência ricardiana é um conto de carochinha). Resumindo, a correlação diferente entre a poupança e a taxa real de câmbio é dependente do contexto.


Esta falta de noção dos pós-keynesianos tem conseqüências para o mundo real. Do vácuo cognitivo na cabecinha dos membros da AKB, idéias equivocadas brotam como fungos no pasto depois da chuva. Afinal se nós podemos afirmar que variável endógena ‘bolinha’ não é realmente endógena, então nosso horizonte para alterar a realidade se torna mais amplo.

Por exemplo, a questão do câmbio. É comum que nossos pós-keynesianos enunciem que um câmbio mais depreciado faria maravilhas para a economia (aumentaria o investimento, a poupança, o crescimento etc). Mas de onde vem o câmbio depreciado? Daí temos que discutir política econômica. Existem várias alavancas que podem ser puxadas para atingir o objetivo do câmbio depreciado. Algumas são altamente malignas para o bem-estar da população. Outras podem depreciar o câmbio real, ao mesmo tempo que destroem o incentivo para investir.


Como o Keynes de bobo não tinha nada, ele criou o conceito de animal spirits para amparar a idéia de investimento autônomo (isto é, os capitalistas investem quando lhes dá na telha) e assim justificar que o sistema não tenha feedback loops ou determinação simultânea. Nossos pós-keynesianos tomam literalmente um truque de retorica de Keynes e tornam-no uma licença para não processar feedback loops.

Assim, na desvirtuação tupiniquim, eles organizam na cabecinha um sistema recursivo em que o investimento vem antes e determina a poupança. É mais fácil de explicar e provavelmente é tudo que eles conseguem entender mesmo. Mais ainda, eles querem argumentar que podem determinar a taxa de câmbio real e assim afetar a decisão de investimento (que afinal não é determinado apenas por animal spirits!), mas para isso faz-se necessário que a taxa de câmbio não seja afetada pela taxa de poupança, pois do contrário haveria um feedback loop e as cabecinhas não seriam capazes de processar ou poderiam chegar a conclusoes não do gosto deles... Então faz-se necessario argumentar ad nauseam sobre a irrelevância da decisão de poupança, chegando alguns ao extremo da boçalidade de escrever que a poupança é um resíduo da decisão de consumo, portanto irrelevante (a decisão de consumo e poupança são a mesma decisão).


Voltando ao ponto principal e resumindo:


  • Pós-keynesianismo é uma escola de pensamento única, pois pode ser definida por uma deficiência cognitiva compartilhada por seus adeptos.

  • À medida que economistas estudam mais e aprendem a pensar em termos de equilíbrio geral, eles abandonam o pós-keynesianismo. Eu mesmo passei por isso – quando tinha 19 anos, eu era fascinado pelos escritos do Cardim de Carvalho ou do Bresser Pereira, afinal pós-keynesianismo é fácil, deixa estudantes que ainda não criaram o hábito de pensar mais profundamente se sentirem inteligentes, qualquer aluno medíocre de graduação pode ler qualquer artigo do Journal of Post-Keynesian Economics.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Oreiro o que é de Oreiro!

Acabei de visitar o blog do professor Oreiro e ele tem uma explicação convincente para o parágrafo pró-Chavez que ele escreveu: foi uma tentativa (em minha opinião, fracassada) de ironia que foi tomada fora de contexto pelo jornalista do Monitor Mercantil. Tendo sofrido no passado com citações fora de contexto por jornalistas, ofereço minha simpatia ao professor evidentemente não-chavista.

Em um outro texto (link) o ilustre professor deixa bem claro sua opinião rejeitando o modelo econômico bolivariano.

Tendo dito isto, não posso deixar de comentar as bataquadas do texto do professor hoje (link). Transcrevo e comento abaixo:

Está ficando sem graça debater (?) com os (pseudo-)ortodoxos brasileiros.

Não entendo a necessidade de rotular e o ridículo ‘pseudo’.

Os caras estão tão desesperados com a perda de espaço no debate econômico nacional e com o fato óbvio de que, ganhe Dilma ou Serra, eles estarão fora da equipe econômica do próximo governo, que resolveram subverter a longa tradição de seu próprio referencial teórico, qual seja a ênfase na análise dos resultados de longo-prazo dos processos econômicos, e se refugiam no curto-prazo (além de ataques ad hominem, os quais demonstram a existência de um certo Complexo de Édipo por parte dos expoentes menores dessa tradição de pensamento).

Essa foi boa... Primeiro o bom professor abre com uma referência pimpona às eleições e a possibilidade que competência técnica vai se tornar um estigma na seleção de economistas para a equipe do próximo governo(o que ele parece aprovar!), depois ele fecha com psicanálise de botequim citando até um suposto complexo de Édipo (creio que dirigida a mim?). Tudo isso no mesmo parágrafo em que ele acusa aqueles que em um laivo de arrogância ele enxerga como rivais de praticar ataques ad hominem!

Repitam comigo: Oy vey.

Tudo bem, vamos relevar a dissonância cognitiva, afinal é carnaval! Mas ainda no espírito festivo, vamos analisar o que o professor tem a dizer sobre economia:

Nesse contexto, os pseudo-ortodoxos brasileiros criticam os heterodoxos com base na tese de que as políticas defendidas pelos últimos são contra-producentes … no curto-prazo.

Sim, são políticas contra-producentes no curto prazo.

Com efeito, os pseudo-ortodoxos brasileiros afirmam que a política correta para obter uma desvalorização da taxa de câmbio é aumentar a taxa de poupança, quando o seu próprio referencial teórico mostra que, no equilíbrio de longo-prazo, uma taxa de poupança mais elevada estará associada, na falta de uma política deliberada de administração da taxa de câmbio como faz a China, com um câmbio mais apreciado …

Exatamente. Um aumento de poupança hoje tem o efeito inequívoco de depreciar a taxa de câmbio real e aumentar a competitividade de nossas exportações. Você discorda disso, professor Oreiro?

(...) a depreciação é apenas um efeito temporário, não sistemático, de um aumento persistente da taxa de poupança.

Non-sense, professor! Ninguém está dizendo que o efeito de um aumento permanente da taxa de poupança causa um efeito ‘não sistemático’ na taxa real de câmbio. Eu não disse isso, o Renato e o Pedro não disseram isso, nenhum economista que mereça respeito tem dito isso. Este espantalho não existe. Não existe no debate econômico brasileiro, não existe nos manuais de economia, não existe na literatura publicada em journals acadêmicos.

Desafio-o a encontrar um artigo teórico que negue o argumento que um aumento persistente na taxa de poupança -como por um exemplo uma reforma na previdência ou uma redução na taxa de crescimento dos gastos públicos – tenha o efeito de depreciar o câmbio real persistentemente.

Além disso, os pseudo-ortodoxos criticam os heterodoxos afirmando que uma política de desvalorização da taxa de câmbio teria o efeito de aumentar a participação dos lucros na renda nacional, ou seja, a concentração de renda nas mãos dos capitalistas …

Não é bem assim. Posso afirmar sem sombra de dúvida que os heterodoxos [como o Professor Oreiro] são abertamente a favor de uma política de desvalorização da taxa de câmbio porque eles entendem que isso levaria a mais concentração de renda nas mãos dos capitalistas e esse deveria ser o objetivo da política cambial (segundo os heterodoxos).

O problema é que esse resultado é apenas um efeito temporário, não persistente, da política de administração da taxa de câmbio. No longo-período ( o qual é uma sucessão de curtos-períodos, para não confundir com o longo-prazo neoclássico), o câmbio desvalorizado atua no sentido de acelerar a exportação de manufaturados, o que aumenta a produtividade do trabalho devido a lei de Kaldor-Verdoorn, o que leva, ao fim e ao cabo, a um aumento sustentado dos salários reais.

Bela ideologia, professor!

Para mim que li meu Gramsci quando ainda adolescente, não é nenhuma surpresa que exista terreno fértil no Brasil para justificativas ideológicas para o uso da política macroeconômica para concentrar a renda. Afinal, o Brasil não se tornou um dos países com renda mais concentrada do mundo por falta de intelectuais capazes de concatenar um argumento justificando mais concentração de renda (enquanto mantem uma auto-imagem de progressista).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Apelo aos professores Gala e Rocha

Em meados de dezembro, em minha primeira contribuição a este blog, eu analisei um artigo de Paulo Gala e Marcos Rocha, ambos autores da EESP/FGV.

Como de costume quando comento sobre as tentativas de pesquisa empírica da quermesse, eu encontrei farto material merecedor de críticas de natureza metodológica (por exemplo, entre outras maluquices, os autores regrediram a taxa de poupança doméstica na conta corrente, que por construção é igual a diferença entre a taxa de poupança e a taxa de investimento).

Entretanto, uma critica que fiz até agora me embrulha o estômago. Na Figura 1 do artigo, os autores mostram uma linha de regressão que aparentemente não tem nada a ver com a dispersão dos dados. Comentei até, com algum sarcasmo: “Deve ser um daqueles pontos em que a ciência encontra sua intersecção com a arte.”

Entretanto, arrependo-me do comentário sarcástico, e gostaria de oferecer uma oportunidade para os professores Gala e Rocha oferecerem uma defesa.

Afinal, é bem possível que meus olhos tenham me enganado e a reta de regressão que os autores postaram reflita de fato o relacionamento entre as variáveis. Se os autores enviarem-me o arquivo com os dados (email: oanonimo2009@live.com), eu posso verificar essa possibilidade e testemunhar a favor dos autores.

Também é possível que os autores tenham se enganado no código do STATA e acabaram, acidentalmente, elaborando um gráfico mostrando uma reta de regressão que não corresponde à dispersão de pontos no gráfico. Quem trabalha com pesquisa empírica sabe que snafus são bem corriqueiros.

Outra possibilidade, ainda que mais remota, é que algum inimigo pessoal desses autores tenha sabotado o documento que eles submeteram à comissão de seleção do encontro da ANPEC.

Vamos torcer para esse blog ter visibilidade suficiente entre os ilustres professores da quermesse brasileira e o recado chegue aos professores Gala e Rocha. Afinal, seria bem desagradável se o meu post de dezembro levantasse dúvidas sobre a honestidade acadêmica desses pesquisadores. Eu pessoalmente acredito que deve ter sido algum erro no código do STATA! Esperemos por alguma resposta.