teste

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Prêmio CDPP 2018

Excelente iniciativa do CDPP - Centro de Debate de Políticas Públicas
Diante da importância do tema e da escassez de trabalhos acadêmicos de qualidade, decidimos incentivar a pesquisa através do Prêmio CDPP 2018 sobre “COMO MELHORAR A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA NO BRASIL”.
Participe você também da divulgação, e os detalhes podem ser encontrados no nosso site.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ladeira da memória

A cada divulgação de novos dados se torna mais claro que a maior recessão da história brasileira recente ficou para trás. Isto não significa que está tudo bem, mesmo porque persistem desafios consideráveis, que o mundo político tem varrido para debaixo do tapete com a mesma sem-cerimônia que caracteriza o toma-lá-dá-cá do jogo no Congresso.

Apesar da recuperação visível a partir do final de 2016, indicadores como a produção industrial e as vendas no varejo ainda se encontram cerca de 15% abaixo dos níveis observados em 2013, enquanto o desemprego – embora em queda – é quase o dobro daquele registrado em 2014. Há, portanto, uma longa ladeira para subir de modo a recobrar o que foi perdido ao longo dos últimos anos, mas as chances de alguma recuperação são boas.

Em particular, restrições que no passado limitaram o crescimento são hoje bem menos relevantes, nem sempre por bons motivos. Assim, a elevada taxa de desemprego sugere que a inflação não deve subir demais (ao menos não pelos canais convencionais) por um longo período. Em que pese não sabermos exatamente qual o nível de desemprego compatível com a manutenção da inflação ao redor da meta, parece haver espaço apreciável para aumentar a ocupação sem receio de aceleração indevida da inflação.

Há também enorme capacidade ociosa, sugerindo que, nos estágios iniciais da recuperação, não haverá necessidade de investimentos pesados, à exceção notável do setor de infraestrutura, o que reforça a conveniência de avançarmos nas concessões e privatizações.

Além disso, a convergência das expectativas de inflação para a meta – e aqui não me refiro somente à pesquisa Focus – permite não só que a taxa de juros siga em queda, mas que, crucialmente, seja mantida em patamares bastante inferiores à sua média histórica por muito tempo. Como notado na comunicação do BC, a política monetária pode ser calibrada, sem risco inflacionário, para estimular a demanda interna, situação rara no país, e provavelmente inédita no que se refere à sua duração esperada.

Já o balanço de pagamentos segue em boa forma, caminhando para déficit modesto das contas externas, na casa de US$ 12 bilhões, uma ordem de magnitude inferior aos US$ 104 bilhões registrados em 2014, valor financiado com sobras pelo investimento estrangeiro direto e equivalente a uma fração das reservas internacionais, próximas a US$ 380 bilhões. Se é verdade que a melhora do balanço externo começou com a forte queda das importações, cortesia da recessão, já há algum tempo são as exportações que tocam o show, na esteira do crescimento global.

O conjunto da obra aponta, pois, para condições ideais para a recuperação cíclica da economia (já o crescimento potencial segue problemático, por razões que não explorarei neste espaço). Resta saber o que pode ameaçá-la.

Deve ficar claro que muito do progresso obtido nessa frente resulta da mudança de rumo da política econômica, embora ainda haja muito a corrigir, em especial no que se refere às contas públicas.

O risco, assim, é o abandono deste projeto, a depender dos resultados das eleições no ano que vem. Caso a eleição aponte para o retorno da heterodoxia, que nos jogou na crise agora superada, não me resta dúvida que a frágil evolução pode ser mais uma vez perdida.



(Publicado 11/Out/2014)


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os Nobeis e o Perfeito

Thaler: parabéns! Muito bom mesmo, você merecia. Puta pesquisador e cara legal.


A economia mainstream precisa de gente como Thaler, que pesquisa de maneira séria a validade de alguns postulados comumente empregados e pouco questionados por nós no dia-à-dia do chão de fábrica dos modelos e estimações.


As pessoas não poupam quanto deveriam, mas se o formulador coloca o default de contribuição de um plano de aposentadoria num patamar mais alto, elas automaticamente poupam mais. Faz um rio de diferença para o futuro. Há aversão à perda: as pessoas sofrem mais em termos de função utilidade com payoffs negativos do que se sentem felizes com payoffs positivos. Há tendencia a procrastinar. Há também estranhas falhas de Mercado: o valor de fundo com ABCDEF na carteira é menor do que o valor de A B C D E F.


Tem NUDGES agora em todos os cantos do mundo, graças a você, meu velho. Um empurrãozinho na direção de fazer a coisa certa, um papel claro para os formuladores de policy. Que belo exemplo aquele de vocês no caso da merenda das crianças: esconde o chocolate lá atrás e coloca o broccoli logo na frente, exposto; ou aquela maçã viçosa. Paternalismo liberal é o que há. Mais disso e menos BNDESess da vida.


Thaler, deixa eu te dizer: tem um brasileiro chamado Perfeito que disse que sua pesquisa é um ramo bastardo da area de pesquisa dele. Que você e outros zé manes como o Kaheman apenas perpetuam o erro neoclássico fundamental, seja lá o que for essa porra.  Ele grandiosamente argumenta que há um mundo de diferença entre a psicologia e a psicanálise -- vai saber o que o cidadão quer ressaltar com esse truismo...


Mas não liga não, continua com tudo que a gente agradece. Deixa o Perfeito vivendo lá no mundo paralelo dele.


Abraços


Doutrinador

Rápido e devagar

O mercado de trabalho continua a emitir sinais de vida. Após chegar a 13,7% no primeiro trimestre deste ano, a taxa de desemprego caiu para 12,6% no trimestre encerrado em agosto, redução de 14,2 milhões para 13,1 milhões de desempregados.

Como notei na semana passada, parte disto reflete o padrão sazonal favorável, mas, corrigindo os dados para levar este fator em consideração, estimamos que o desemprego sazonalmente ajustado tenha caído de 12,9% em março para 12,5% em agosto, indicando que cerca de metade da queda resulta de melhora genuína do mercado de trabalho.

Nota-se também que isto ocorreu apesar de aumento considerável da oferta de trabalho. À parte o crescimento da população em idade ativa (PIA), fenômeno demográfico, houve também elevação da proporção das pessoas na PIA engajadas no mercado, de 61,6% para 61,8%, o maior valor da (curta) série histórica. Não parece muito, mas considerando que a PIA representava algo como 167,5 milhões de pessoas em março (e 168,5 milhões em agosto), esta elevação equivale a uma oferta adicional de 423 mil trabalhadores.

Houve, no entanto, criação de 1,0 milhão de postos de trabalho no período, ou 1,6 milhão em termos dessazonalizados, permitindo não só a absorção dos que ingressaram no mercado, como também a queda do desemprego, desempenho surpreendente, se levarmos em conta a recuperação modesta da atividade e a defasagem usual entre o aumento da produção e a resposta de emprego. Ainda assim, há motivos para preocupação.

Sazonalidade à parte, não houve geração de empregos com carteira assinada no período. O grande aumento veio do emprego por conta própria (pouco mais de 730 mil postos), seguido pelos trabalhadores sem carteira assinada (pouco menos de 580 mil) e, num distante terceiro lugar, pelo emprego no setor público (190 mil).

É verdade que o emprego formal tem representado pouco menos de 40% da ocupação no país, enquanto o trabalho por conta própria chega perto de 25% e o informal em torno de 12%, bem próximo do emprego público. Todavia, trata-se da modalidade em geral associada a salários mais elevados, não só pelo status no mercado de trabalho, mas também porque está ligado a ocupações tipicamente melhores.

Nos últimos 12 meses, por exemplo, salários no setor superaram em 30% o rendimento do trabalho por conta própria e foram 65% mais altos do que no setor informal (embora sejam 35% menores do que no setor público, claro).

Conclui-se, pois, que a recuperação do mercado foi mais rápida do que a própria velocidade da economia indicaria, porém de pior qualidade. Talvez seja o “normal” depois de uma recessão atípica em termos de duração e profundidade, mas ilustra bem o estrago provocado pela aventura voluntarista que nos jogou nesta situação. Espero que sirva de vacina a outras tentativas, mas no fundo não acredito que o país tenha captado a lição.

*
Concordo com a avaliação de Mathias Alencastro a respeito da minha coluna sobre o ajuste fiscal português, porém, confesso, não tinha notado o paralelo (em retrospecto, óbvio) com a transição FHC-Lula no Brasil.


Creio que chegamos a um denominador comum: sem garantir a estabilidade, não há como programar políticas sociais, mais uma lição que eu apreciaria ver aprendida, sem, contudo, muita esperança.



(Publicado 4/Out/2017)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

PIB, desemprego e juro

Por força do desempenho acima do esperado no segundo trimestre, as projeções de crescimento do PIB, tanto para 2017 como para 2018, vêm sendo revistas: de 0,4% para 0,7% e de 2,0% para 2,3% respectivamente, processo que deve continuar, embora a ritmo mais lento, nas próximas semanas.

É uma boa notícia, sem dúvida, mas resta traduzir este desempenho em algo que pareça menos distante da experiência das pessoas do que uma grandeza abstrata como o PIB. Em particular, o que significa isto em termos do desemprego, possivelmente a faceta mais nítida da recessão iniciada em meados de 2014?

A este respeito também se observa uma melhora. A taxa de desemprego, que atingiu 13,7% no primeiro trimestre deste ano (14,2 milhões de desempregados), recuou para 12,8% nos três meses encerrados em julho (13,3 milhões de pessoas).

É verdade que parte disto se deve puramente à sazonalidade, já que tipicamente o desemprego sobe no começo do ano para atingir seu valor mais elevado em março/abril e aí recua até dezembro. “Limpando”, porém, o dado das flutuações sazonais estimamos que a taxa de desemprego tenha caído do pico de 13,1% em fevereiro para 12,6% em julho.

Isso dito, o que esperar daqui para frente, à luz de um crescimento mais rápido?

Para responder esta pergunta estimamos a relação entre a taxa de crescimento e a variação do desemprego no Brasil (a “lei do Okun, no jargão da profissão), ou seja, como se comporta a taxa de desemprego para diferentes ritmos de expansão do PIB. No caso, comparamos a evolução do desemprego em um dado trimestre sobre o mesmo trimestre do ano anterior em resposta à variação do PIB, também calculada desta forma.

Nossos resultados foram supreendentemente robustos, considerando a qualidade dos dados, especialmente no que se refere às estatísticas de desemprego antes de 2012. Para o período mais recente (do segundo trimestre de 2008 ao segundo trimestre de 2017), em que mais da metade da amostra se concentra em dados de melhor qualidade, obtivemos os seguintes resultados.

Em primeiro lugar, a taxa de desemprego só cai (sempre na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior) quando a variação do PIB ultrapassa 2,2% (isto, a propósito, se tomado ao pé da letra, sugeriria que nossa capacidade de crescimento potencial seria ao redor deste valor). Em particular, quando o PIB fica estagnado, a taxa de desemprego aumenta em torno de 1%. Em segundo lugar, cada ponto percentual de crescimento que supere o patamar de 2,2% implica redução da taxa de desemprego entre 0,4% e 0,5%.

Tais resultados sugerem que o desemprego em 2017 ainda será maior que o de 2016, apesar da queda recente, e que somente em 2018 devemos observar queda, embora modesta.

Por outro lado, a persistência de taxas elevadas de desemprego – acoplada à promessa de ajuste fiscal – deve manter a inflação baixa, como sugerido pelas projeções do BC, recentemente divulgadas em seu Relatório Trimestral de Inflação.

Assim, taxas de juros devem também cair para menos de 7,0% ao ano e lá permanecer durante muito tempo, sobretudo se o país avançar nas reformas fiscais.


Só falta mesmo explicar porque o impedimento da presidente teria como objetivo manter os juros altos, mas – vamos falar a verdade – não sou eu quem deve esta explicação.



(Publicado 27/Set/2018)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A conversation

Perfect: Master Yoda! Have u been following my discussion about interest rates in the social media?




Y: Yes, my dear Padawan




P: Don't call me that, it sounds silly




Y: I know, young padawan




P: Anyways, I totally buy your theory relating interest rates to slavery (or lack of thereof); there can be no other explanation! Those neoclassical morons! They know shit, and yet are making fun of me all the time!




Y: Tomate hatred in your heart I sense, my pupil. beware of the dark neoclassical forces. they want you to respond, but do not! chill !




P: They insist on failed explanations, like risk, fiscal imprudence, subsidized credit, clogged channels, etc




Y: Listen my dear, stop the whining and please tell me your forecasts for inflation and gdp for 2018? You work for a bank, correct?




P: Yes, Master. I expect inflation to be 1% and growth -2% next year. It is the neoclassical economists' fault.




Y: Into the top 5 u shall not make, my padawan, with these projections




P: I DONT CARE




Y: Control your anger, u must.


P: I hate that indoctrinator, I cannot help it. Help me Master.


Y: He wants to seduce you to the dark side. He is also trying to tempt me with strange riddles. He wrote a note saying: "US also had a long period of slavery and yet interest rates are super low"


P: what does that mean, Master?


Y: It is unclear; I am conferring today with Masters Goldsmith and BLoser. Solve this mystery we ought.









terça-feira, 26 de setembro de 2017

Fake history e análise econômica

“You are entitled to your opinion. But you are not entitled to your own facts.”

(Daniel Patrick Moynihan)

"Never let the truth get in the way of a good story"

(Mark Twain)

Yoshiaki Nakano cometeu coluna na semana passada argumentando que as elevadas taxas de juros observadas no Brasil teriam origem na economia cafeeira, que dominou o país de meados do século XIX até a primeira metade do século XX.

Segundo Nakano, o cafeicultor “se assemelhava mais a um rentista do que um produtor preocupado com redução de custos. Seus lucros dependiam da extensão da sua posse de terras e de variáveis fora de seu controle, não do seu empreendedorismo ou espírito inovador.” Como recebia o pagamento uma vez por ano e tinha que guardar o dinheiro, preferia juros elevados. Por outro lado, como “consumia importados e passava parte do ano na Europa”, preferia uma taxa de câmbio apreciada. Por causa disto, conclui, até hoje temos que conviver com juro alto e câmbio apreciado...

Há vários problemas com o raciocínio, se cabe aqui o termo.

Quem já estudou o assunto deve ter ficado chocado com a caracterização do cafeicultor como um “rentista”. A economia cafeeira se caracterizava por grandes investimentos, pois, ao contrário de culturas anuais, pés de café precisam ser plantados com antecedência, bem antes da materialização das receitas. Posto de outra forma, cafeicultores eram, por natureza, empreendedores e, como tal, precisavam constantemente de crédito.

E, como algum leitor já deve ter notado, a produção de café não se destinava ao mercado interno, pois sequer um exército de bebedores do precioso líquido do meu calibre (6 a 9 xícaras de expresso por dia) dariam conta da produção local. Na qualidade, portanto, de exportadores, é curioso imaginar que cafeicultores pleiteassem uma taxa de câmbio mais apreciada. Ao contrário, as pressões do setor sempre foram no sentido de depreciar a moeda.

Só para lembrar, logo após a Proclamação da República, apoiada entusiasticamente pela cafeicultura, a política econômica foi caracterizada pela rápida expansão do crédito (o famoso Encilhamento, que começou ao fim da monarquia, por pressão do setor de café). Já o mil-réis, que comprava 27 pence em 1888, só conseguia comprar 7 pence 10 anos depois. Houve valorização para 11 pence por ocasião da política de estabilização de Joaquim Murtinho (1898-1902), mas já em 1906 foi criada a Caixa de Conversão, justamente para evitar a apreciação da moeda, por reivindicação do setor.

Vale dizer, cafeicultores não defendiam nem câmbio apreciado, nem juro alto, muito pelo contrário e qualquer um que tenha lido a respeito sabe disto, mas não, claro, Nakano. Não bastasse o ridículo de atribuir a persistência de altas taxas de juros a acontecimentos tão remotos, ainda erra sobre fatos que são de conhecimento comum.

Isto pode parecer implicância, mas, creiam, não é (só) o caso.

Há economistas que acreditam poder escrever sobre qualquer tema sem se dignar a verificar se há um mínimo de verdade nas afirmações que fazem. Ignoram fatos, mas querem que suas ideias sejam levadas a sério a ponto de influenciar decisões de política.

Argumentos no debate econômico têm que ser ancorados em boa teoria e, principalmente, em fatos. Infelizmente, o que mais vejo são “chutes” como o explorado acima, sem qualquer conexão com a realidade.


Não sei, sinceramente, como ainda dão importância para quem apresenta esta postura lamentável...



(Publicado 20/Set/2017)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Imortal

Há algo comum entre Jason Vorhees, Freddy Krueger, Michael Myers e certas afirmações econômicas: não importa quantas vezes sejam mortos, seguem aparecendo, sem jamais se dar ao trabalho de explicar como renasceram.

Uma destas ideias, divulgada com mais frequência do que recomendável, diz respeito à suposta alternativa portuguesa à austeridade fiscal e seu imenso sucesso, em geral acompanhada da sugestão que o Brasil persiga caminho semelhante, muito mais fácil do que a penosa busca pela redução de gastos.

Para deixar claro desde o início, trata-se de uma falsidade e, o que é pior, uma falsidade facilmente demonstrável com não mais do que alguns minutos dedicados à nobre (e tão vilipendiada) tarefa de procurar os dados no sítio da OCDE (e devidamente cruzados com números provenientes do FMI, para termos mais confiança acerca da sua consistência). 

Pois bem, depois desse imenso esforço de pesquisa descobrimos que em seu pior momento (2010) o déficit português superava 11% do PIB; já no ano passado registrou valor equivalente a 2% do PIB, o menor da série histórica iniciada em 1995. Na verdade, exceção feita a 2014, o déficit caiu de forma contínua de 201o em diante, revelando que – a despeito da troca de governo em 2015 – não houve mudança de rumo na política fiscal, muito pelo contrário.

Sim, há quem possa contra argumentar que a melhora das contas públicas teria sido resultado da própria recuperação da economia e que, portanto, a redução do déficit não teria se originado das decisões de política, isto é, teria ocorrido mesmo sem medidas de austeridade.

Noto, porém, que o desemprego em Portugal hoje, pouco abaixo de 10% da força de trabalho, não difere muito do registrado em 2010, embora tenha caído cerca de 7 pontos percentuais desde meados de 2013 (quando o déficit já havia caído a menos da metade do observado em 2010). Posto de outra forma, é possível (e até provável) que a retomada da economia tenha contribuído para reduzir o buraco nas contas públicas, mas a magnitude da melhora fiscal é muito maior do que a que resultaria apenas do crescimento mais rápido.

A excitação acerca da experiência portuguesa provém da mudança política acima mencionada. Naquele momento, muito embora a centro-direita tenha obtido a maior votação, não conseguiu formar o governo, que acabou nas mãos da coalizão de esquerda liderada pelo Partido Socialista. Apesar disto, como se vê, acabou por manter a austeridade.

Muito menos atenção se dá, por exemplo, à vizinha Espanha, que se recuperou de forma semelhante (lá o desemprego caiu os mesmos 7 pontos percentuais entre 2013 e 2017), enquanto o déficit fiscal foi reduzido de 11% do PIB em 2009 para 4,5% do PIB no ano passado. A Espanha manteve a austeridade e retomou o crescimento, mas, por se tratar de continuidade (ainda que minoritária) da administração de centro-direita que governa o país desde a eclosão da crise, sua experiência tem sido convenientemente ignorada pelos adversários do ajuste fiscal.

Isso dito, não tenho a menor ilusão de ter matado mais um zumbi. Como no debate econômico brasileiro o que menos importa é a evidência empírica (e sim, a “narrativa”), não tenho a menor dúvida que ainda ouviremos falar da “alternativa portuguesa”.


A desonestidade é imortal...



(Publicado 13/Set/2017)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Oak and Doutrinador on inequality

L.Oak's last piece in the "Leaf" at least is based on some serious study on inequality. But it lacks thrust, it is sort of boring and does not advance any interesting new thoughts (though that may be a plus in her case).


My two cents: being obsessed with the income of the top 1% is wrong (I had breakfast with Aghion the other day and we were both kind of puzzled by the 1% mania that has taken hold).


It would be better to shift the discussion to mechanisms because that is what matters. Why the 1% are doing so much better? Is it because they are being able to secure more rents from cozy relationships, thus harming society, or is it due to a combination of "super star economics" (winner's take it all) + truly global markets. Shouldn't guys like Montanha-de-Açucar get richer more rapidly than our fellow citizen Alex S? Fuck yeah !


In Sweden, GINI is super low but the income of the top 1% is increasing. And there is a lot of competition (meaning no rents or crony capitalism). Why should that be a problem then?


I did not expect L.Oak to discuss these things more deeply, of course, but that is the discussion that matters.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O tempo não para

Se fosse pelo número em si, 0,2% de crescimento, teria até vergonha de comemorar, mas um olhar mais detalhado às entranhas das estatísticas do PIB no segundo trimestre dão um pouco mais de alento acerca do desempenho da economia no curto e médio prazos.

Muito embora o crescimento tenha ficado bem aquém daquele verificado no primeiro trimestre (1,0%), observamos agora a primeira variação positiva da demanda interna em 10 trimestres, 0,6%, puxada, como se sabe, pelo forte desempenho do consumo das famílias, que cresceu nada menos do que 1,4%.

É um bom começo, pois o consumo representa quase 2/3 da demanda interna, de longe seu maior componente, seguido pelo consumo do governo, pouco acima de 20% dela. Assim, para onde o consumo se inclina, para lá irá a demanda interna.

Por outro lado, o investimento voltou a cair. À exceção de um soluço no segundo trimestre do ano passado, vem em queda livre há quase 4 anos, acumulando declínio de R$ 108 bilhões (a preços de hoje) desde o terceiro trimestre de 2013, redução próxima a 30%.

Esta combinação de consumo em alta com investimento ainda deprimido tem implicações importantes para o padrão de recuperação da economia depois da pior recessão de sua história.

Noto, em primeiro lugar, que não há grandes problemas em recomeçar o crescimento por meio do consumo nas atuais circunstâncias. Há uma folga colossal de capacidade na economia como um todo: mesmo com a modesta queda observada do começo do ano para cá, o desemprego ainda se encontra na casa de 13%, praticamente o dobro daquele observado em 2014 (notem que falo aqui da pesquisa utilizada atualmente – a PNAD – que mede desemprego no país, e não apenas em seis regiões metropolitanas como se fazia).

Isto sugere que há espaço para a economia crescer sem pressões inflacionárias, ao contrário, por exemplo, do período de 2012 a 2014, em que restrições pelo lado da oferta (baixo desemprego, falta de mão de obra qualificada e virtual inexistência de capacidade ociosa) implicavam limites claros ao crescimento, materializados na combinação de inflação elevada (apesar de controles de preços) e expansão anêmica da atividade.

Por conta disto, o baixo investimento não deve se tornar, agora, um impeditivo à retomada. Mais à frente, porém, caso o investimento não volte a crescer, a capacidade de expansão sustentável do país ficará comprometida e os mesmos gargalos de oferta que minaram a economia brasileira anos atrás irão novamente se manifestar.

Não há, hoje, como dizer quanto tempo temos para retomar o investimento antes que isso aconteça, pois depende da velocidade de expansão da demanda interna nos próximos anos. No entanto, também este desenvolvimento sublinha a urgência de acelerarmos as reformas, visto que investimentos em grande escala dificilmente retornarão sem que haja clareza quanto à evolução do endividamento público, por um lado, bem como rumo acerca das medidas que poderão elevar a produtividade no país, por outro.

A retomada do crescimento, ainda que modesto, é motivo para celebração comedida, pois deve marcar o fim da recessão, mas também deixa clara a escala gigantesca do tanto que é preciso fazer para colocar o Brasil numa rota sustentável.


Ah, sim: mais uma vez os keynesianos de quermesse erraram feio...



(Publicado 06/Set/2017)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Interest rates and culture

Woke up this morning and promised not to be stunned by human stupiduty. I failed miserably.
Master Nakano is the culprit. In his piece published in The Value, our Yoda comes up with a novel theory for Brazil's high interest rates: it is related to cultural factors.
Forget risk, clogged transmission channels, crazy fiscal, indexation.
Nakano's storyline is (roughly) as follows: brazucas planted coffee, which meant seazonal revenues. These were saved to allow for consumption smoothing thru the year. Because of the periodic nature of revenues, savers demanded high interest rates (the money has to make due for an entire crop year!!!) and got what they wanted. The influential also liked to treat themselves with nice imports from Europe and thus demanded an overvalued exchange rate. To appease their luxurious desires at a reasonable price.

And that is why we got here. It is all about cultural traits. Sloth and lust.

If you are striving to estimate neutral rates using sophisticated econometrics, and your likelihood is not converging, try adding coffee production to your model.

Before i go, let me propose a new growth theory: growth rates are a function of initial GDP per head and of the number of extreme morons in the country. I expect both coeficients to be negative.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

System-GMM = same shit

Another seminar, another kid presenting results from system-GMM.


And again eluding the "what is your ID strategy?" question with the same absurd reply: "But I am using system-GMM".




I say: my dear, fuck u please.


the kid puts on a puzzled face.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

JosephS S.

what are their common traits?

Both seek power at all costs; both will go after you in case you disagree; both are scheming and deceitful.

In what do they differ?

The one long ago dead had an excessive amount of hair. The other has none.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Jurassic Park

Não pretendia comentar a proposta de privatização da Casa da Moeda, por me parecer um tópico de pouca importância (e é!), mas tive a triste oportunidade de ver nas redes sociais toda espécie de bobagens, inclusive de “economistas” heterodoxos-novo-desenvolvimentistas-keynesianos-sei-lá-o-que-mais e não resisti.

Para colocar nos termos mais simples possíveis, a Casa da Moeda é apenas uma gráfica qualificada. Quem determina gestão da moeda nacional é o Banco Central, cliente da Casa da Moeda, assim como de outras gráficas (importou no começo do ano 100 milhões de cédulas de R$ 2,00 da Crane AB da Suécia pagando cerca de R$ 20 milhões por elas). Não faz a menor diferença quem controla a gráfica; o relevante é tirar do governo de plantão mais alguns cargos públicos que costumam ser utilizados para fins inconfessáveis.

Esclarecido o ponto, vamos ao que interessa. Samuel Pessôa, amigo e colega de espaço, deu uma ótima entrevista ao Valor Econômico, cuja leitura recomendo. Embora concorde com toda sua análise econômica, há um ângulo mais político que o Samuel menciona e sobre o qual sou mais cético.

Ele atribui, com razão, a atual calma ao teto constitucional de gastos. Em suas palavras, “se mexer no teto o câmbio vai a R$ 5 (...) O mercado não está calminho à toa. Não é pelos belos olhos do Michel Temer. A âncora é o teto”.

Mais adiante nota que, se o teto for rompido “vai gerar tanto problema que você vai constituir uma base de apoio para aprovar a reforma da Previdência e fazer tudo que precisa fazer para gerir o conflito distributivo de modo civilizado”. E é aqui que tomo um rumo distinto do Samuel e do mercado em geral.

Sigo com dificuldades para conectar os pontos “teto rompido” e “fazer tudo o que precisa”, talvez a mesma dificuldade que os personagens de Jurassic Park tenham enfrentado quando o matemático critica a abordagem adotada pelo programa de criar apenas fêmeas para evitar a reprodução dos dinossauros. Ele apenas afirma “a vida há de encontrar um caminho”, o que, de fato, ocorre no filme (ou seja, o Samuel pode estar certo), sem, contudo, explicitar os passos que ligariam um evento a outro.

É verdade que até o governo Temer, com todas suas limitações, pode ter chegado perto da aprovação da reforma previdenciária (jamais saberemos, graças ao inefável Joesley), mas tivemos também a oportunidade de ver como a sociedade se opõe ao ímpeto reformista.

Abusando do meu chapéu de cientista político amador, me parece necessário que a proposta de reformas seja colocada explicitamente à população nas eleições do ano que vem, mesmo porque acabamos de ver as reações a uma administração que se reelegeu dizendo que tudo estava bem para, logo em seguida, ter que admitir problemas graves e recrutar um ministro da Fazenda dentre aqueles a quem demonizou durante a campanha. Mentir para reformar não vai funcionar... (E, deixo claro, o Samuel não está sugerindo isto).

Aí pergunto: qual é a chance de vitória de uma plataforma reformista em 2018?


Torço para que seja alta, mas torcida é uma coisa e realidade outra. O tempo corre contra e temo que em breve passemos do ponto em que ainda haverá o que fazer. Se esperarmos o teto estourar para começarmos a nos mexer, tenho convicção que terá sido tarde demais.




(Publicado 30/Ago/2017)

domingo, 3 de setembro de 2017

"Stupidity Prize of the Week"

Which is not necessarily weekly.

Anyways, we are proud to announce this week's winnerS.

(Ties happen, as shit happens).

Perfetto: for running a nice regression of GDP on its components and getting an R2 of  0.999.

Goldsmith piggy : which is also running for the "Delusional Prize of the Week". Mister JO states in his facebook account that the recent neoclassical economists' rant against guilds (CORECON, COFECON) is due to sheer envy, as this comes after he was awarded the best book prize of the year by one of the former (forgot which). The funny bit is this: CO_* awarded an academic prize to a fella who does not understand the difference between a printing house and the monetary authority.

Human stupidity is unbounded.

sábado, 2 de setembro de 2017

Doutrinador

Sou o doutrinador.
Sou mais belo que Alexandre (tenho cabelo).
Estudei grego.
Gosto de matemática.
Não gosto de heterodoxo.
Uma vez me perguntaram: "quem foi a pessoa que mais danos causou ao Brasil, desde 1503?"  Eu respondi: Luciano Coutinho.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Na janelinha

Na semana passada foram divulgados vários indicadores de atividade econômica, culminando com o índice do Banco Central (IBC-Br), que busca antecipar o comportamento do PIB e que, pela primeira vez desde o final de 2013, mostrou dois trimestres consecutivos de crescimento, 1,2% e 0,3%, sempre na comparação com o trimestre imediatamente anterior, ajustados à sazonalidade.

Trata-se de desempenho positivo, nem tanto pelo IBC-Br em si, que nem sempre consegue capturar os movimentos do PIB, mas pelo conjunto da obra. No período observamos expansão da produção industrial (+0,9%), do varejo (+1,7%) e do volume de serviços (+0,3%), números que sugerem recuperação difundida da atividade, não mais limitada à agropecuária, como havia ocorrido no primeiro trimestre.

Mais próximo do dia-a-dia das pessoas, há ainda sinais de melhora no mercado de trabalho. Dados do IBGE indicam que, também corrigida a sazonalidade, o emprego total aumentou no segundo trimestre, muito embora o crescimento tenha se dado principalmente entre os trabalhadores informais. Assim, detectamos pequena queda do desemprego (dessazonalizado), de 12,9% para 12,7%, a primeira desde o último trimestre de 2013.

Para ser sincero, não dá para garantir que o crescimento do PIB já se mostre positivo no segundo trimestre, mas a evidência aponta para uma economia que finalmente saiu do fundo do poço. Ao contrário do ocorrido no primeiro trimestre, quando o crescimento veio do setor externo e da acumulação de estoques, componentes que tipicamente não sustentam a economia por muito tempo, o consumo deve ter sido o principal motor da expansão, sugerindo continuidade da retomada.

Em particular, como tenho insistido já há algum tempo, a redução persistente da taxa real de juros (de 7% há um ano para menos de 4% agora), resultado da queda da inflação, é a causa mais provável da recuperação. Notando ainda que seus efeitos costumam aparecer com defasagem ao redor de seis meses, é bastante razoável concluir que ainda há impulso a se materializar na segunda metade do ano, ou seja, devemos testemunhar um desempenho um pouco melhor à frente, longe de espetacular, mas sólido o bastante para nos levar a terreno positivo ainda em 2017 e mais vigoroso em 2018.

Não se segue, contudo, que nossos problemas estejam superados. Muito embora haja condições para uma retomada moderada nos próximos 18 a 24 meses, o comportamento das contas públicas permanece como fonte constante de ansiedade e mais ainda após a revisão das metas fiscais para o período 2017-20.

Mesmo com taxas reais de juros mais baixas, a se confirmarem os números ali previstos, o governo a ser eleito em 2018 herdará uma dívida superior a 80% do PIB e a necessidade de transformar o déficit primário de 2,3% do PIB (R$ 159 bilhões) em superávit de 1% a 1,5% do PIB (de R$ 70 a R$ 100 bilhões).

A eleição do ano que vem pode ser, portanto, a mais importante pós-redemocratização do país: decidiremos se vale a pena seguir o difícil caminho do ajuste, ou se optaremos pela manutenção do status quo, que nos trouxe à pior crise da nossa história.


A depender de nossos políticos, que continuam lutando pelos lugares na janelinha enquanto o ônibus marcha para o abismo, temo que o status quo largue com ampla vantagem.



(Publicado 23/Ago/2017)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Podcast para o NOVO

https://soundcloud.com/novo30/novocast-2-alexandre-schwartsman

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Os fins e seus meios

Há no país uma crença estabelecida: se queremos atingir determinado objetivo simplesmente passamos uma lei afirmando isto e damos o assunto por resolvido; pouca atenção é dedicada à construção dos meios para chegar onde queremos. Este padrão também se aplica à principal medida aprovada até agora no âmbito fiscal, a criação do teto para as despesas federais.

Considero o teto um passo importante para recuperarmos o equilíbrio fiscal, em particular porque institui como princípio o controle das despesas, que cresceram de forma praticamente ininterrupta por 20 anos, de R$ 454 bilhões em 1997 para R$ 1,3 trilhão nos 12 meses terminados em junho, valores expressos a preços de junho de 2017. No entanto, como tive a oportunidade de apontar mais de uma vez, trata-se de um ponto de partida, não a jornada completa.

De fato, a emenda aprovada no ano passado estabelece medidas de controle de gastos em caso de violação do limite (os incisos de I a VII ao artigo 109 da Constituição), mas não dá nenhum instrumento para evitar que isto aconteça. Ao contrário, deixadas à própria sorte, as despesas obrigatórias – notadamente as ligadas à previdência, mas uma série de outros gastos também – seguirão crescendo sem controle.

No primeiro semestre deste ano, por exemplo, as despesas obrigatórias aumentaram pouco mais de 5% na comparação com o mesmo período do ano passado, já descontada a inflação, ou seja, R$ 24 bilhões. Já as despesas ditas “discricionárias” caíram R$ 23,1 bilhões, em particular o investimento, que registrou R$ 11 bilhões de retração no mesmo período.

Há, portanto, um paradoxo: faltam gastos em setores vitais para a operação do estado, mas, em outros flancos, as despesas ainda crescem a ritmo quase chinês. Desta forma, não apenas o governo deixa de controlar o conjunto do dispêndio federal, mas também a rigidez do gasto público aumenta (com maior peso para as despesas obrigatórias), enquanto a qualidade do gasto federal despenca.

Posto de outra forma, conseguimos o pior dos mundos: seguimos gastando mais do que o suficiente para fazer nossa dívida crescer de maneira acelerada, mas não para termos serviços públicos com um mínimo de qualidade. O resultado deste arranjo é o aumento da meta de déficit para 2017 e 2018 em meio a notícias como corte no orçamento das forças armadas, assim como na Polícia Federal, entre outros.

Deve estar claro que esse arranjo não é sustentável. Sem controle da despesa obrigatória não interessa que o teto de gasto esteja inscrito no código penal, na constituição, ou mesmo nos 10 Mandamentos: não há diploma legal que se sobreponha a um fato inexorável. Se a lei estiver no caminho, será devidamente alterada, podem contar com isto.

Obviamente não estou recomendando que o teto constitucional seja revogado, apenas notando que, pelo que sabemos das instituições brasileiras, contar com mandamentos legais sem trabalhar para que funcionem é cortejar o fracasso. A Lei de Responsabilidade Fiscal, que, reconheço, é uma lei complementar, não um preceito constitucional, não foi capaz de evitar a imensa deterioração das contas públicas.


A moral é simples: não resolveremos o problema só passando leis que expressam nossos objetivos; vamos ter que ralar muito para por este país em ordem.



(Publicado 16/Ago/2017) 

Participação no É Notícia

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Um homem de riquezas e bom gosto

Superada, ao menos por ora, a discussão sobre a autorização para que o STF processasse o presidente, o governo anunciou intenções de retomar a agenda de reformas, principalmente a previdenciária. Há, contudo, distância considerável entre intenção e gesto, e as consequências desta distância não são nada agradáveis.

Se havia dificuldade em aprovar meses atrás a reforma na versão proposta pelo relator da comissão especial – ou seja, já bastante aguada com relação à original – a tarefa soa ainda mais complicada agora. Em primeiro lugar porque a votação a favor do presidente, 263 votos na Câmara, sugere uma base parlamentar insuficiente para aprovar tal mudança constitucional (308 votos), mesmo considerando que alguns deputados que se opuseram ao presidente tenham declarado apoio à proposta.

Afora isto, o foco do Congresso não está na reforma previdenciária, mas na definição das regras que guiarão a eleição de 2018, cuja aprovação precisa ocorrer um ano antes do evento, ou seja, em escassos dois meses. Enquanto a usina de péssimas ideias (o “distritão”, para citar apenas uma) funciona a pleno vapor, com o objetivo quase explícito de manter tudo como está, a atenção dos nobres parlamentares não pode se dedicar a assuntos secundários, como tentar colocar as contas públicas numa trajetória com alguma chance de sustentabilidade num horizonte minimamente razoável.

Como escrevi há pouco, o tempo não corre a nosso favor, muito pelo contrário. Sem a reforma da previdência o país enfrentará um dilema sério em horizonte não muito distante: ou mantém o teto constitucional para as despesas (e, com ele, uma chance de controlar o endividamento crescente), mas observa o eventual desaparecimento da já minúscula folga fiscal; ou descarta o teto, submetendo-se, porém, a uma trajetória explosiva da dívida, que termina do jeito que conhecemos por décadas, isto é, inflação e instabilidade.

A esta altura está para mim mais do que claro que o mundo político não entendeu a gravidade do problema, reflexo provavelmente da mesma falta de compreensão por parte da sociedade, em particular de suas elites. A reivindicação salarial do ministério público, 16,7%, por exemplo, em meio à maior crise fiscal do país não é só sintoma de descolamento da realidade; trata-se de tapa na cara da população que, ao contrário dos procuradores, recebe baixos salários, corre risco de desemprego e não tem direito à aposentadoria integral bancada pelo Tesouro Nacional.

Enquanto cada corporação busca se proteger, seja elevando seus salários, seja na manutenção de privilégios, como acesso a crédito subsidiado, proteção contra a concorrência, ou rendas de toda espécie, as finanças públicas pioram a cada dia, a ponto de ser cogitada a revisão da atual meta fiscal, de forma a permitir déficits ainda mais elevados.

E o problema não se limita a isto. À parte iniciativas louváveis, como a luta para eliminar gradualmente o subsídio do BNDES, mesmo em face de considerável oposição pelos defensores do status quo, mantemos o capitalismo de compadrio, que mina nossa capacidade de crescimento de longo prazo.


A verdade é que o atual pacto social se esgotou e descobrimos que, assim como em outros pactos, o que nos espera não é o paraíso, mas exatamente o seu oposto.



(Publicado 9/Ago/2017)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Custo de oportunismo

Há coisas com que apenas economistas se importam. Não quer dizer que sejam irrelevantes, muito pelo contrário, mas que, de maneira geral, estão sempre, por força do hábito, em nosso radar, mas não tanto no de quem não foi treinado especificamente para isto. Dentre elas, o custo de oportunidade é uma preocupação que parece sempre negligenciada, em particular no discurso político.

A noção do custo de oportunidade é bastante clara: ao optarmos por alguma alternativa dentro de um conjunto de escolhas, estamos abrindo mão dos benefícios das demais oportunidades. Por exemplo, na praia, se uso o (pouco) dinheiro que carrego para pagar pela cerveja, estou automaticamente desistindo de tomar um sorvete, ou seja, o custo de oportunidade da cerveja é o sorvete que desisti de tomar quando decidi molhar a garganta com um belo suco de cevada...

Obviamente, se escolhi uma alternativa deve ser porque a considero melhor. Assim, no mundo das escolhas individuais podemos concluir que o custo de oportunidade será menor ou igual ao retorno da opção preferida.

Já no mundo das políticas públicas, nem sempre este é o caso. É bastante comum ouvirmos que a política X gerou N mil empregos, sem qualquer consideração no que diz respeito ao uso alternativo dos recursos públicos. Em outras palavras, é bem possível que os recursos usados para bancar a política X pudessem ser utilizados para financiar a política Y, cujos resultados podem ser superiores àqueles da política X.

Aliás, no caso da escolha pública, em países como o nosso, ouso dizer que na imensa maioria dos casos há alternativas que seriam superiores do ponto de vista do retorno desses recursos, mas que não são levadas em conta por vários fatores, principalmente de ordem política.

É possível que os beneficiários de X tenham maior capacidade de influenciar políticas públicas do que os beneficiados por Y. Um caso clássico é o da proteção comercial: o setor protegido engorda seus lucros e pode até empregar mais, às expensas, porém, do resto da sociedade, que paga mais caro pelo produto nacional, na prática transferindo renda para um setor politicamente conectado.

Mais relevante, no atual contexto, é o extenso subsídio que beneficia empresas cujo poder de persuasão é suficiente para que tenham acesso aos financiamentos do BNDES. Há vários usos alternativos para estes recursos, em particular a possibilidade de reduzir a dívida pública, ou, de forma equivalente, fazer a dívida crescer menos do que cresceria caso o dinheiro não fosse usado para pagá-la. Assim, o custo de oportunidade dos empréstimos do BNDES deve ser igual ao custo da dívida pública.

O senador José Serra, porém, argumenta que os recursos originários do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), por serem constitucionalmente vinculados ao BNDES, não têm este custo de oportunidade, já que não poderiam ser usados para pagar a dívida. Trata-se de argumento formalista, que ignora, como sempre, o fenômeno econômico.


A vinculação orçamentária não elimina magicamente o custo de oportunidade do FAT. Ainda que regras não permitam redução da dívida diretamente pelo FAT, seu uso eficiente permitiria que outros recursos fossem liberados para este fim. Mas, como notado no começo da coluna, só economistas se importam com isso...

Custo de oportunidade?!


(Publicado 02/Ago/2017)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Anda, mas para trás...

Incapaz de resolver o problema do gasto público, o governo mais uma vez passou o mico para a sociedade. Para atender a meta de déficit primário de R$ 139 bilhões aumentou o tributo sobre combustíveis, medida que, espera-se, irá trazer receitas adicionais da ordem de R$ 10 bilhões ainda em 2017, ao custo de uma elevação ao redor de 0,6 ponto percentual no IPCA deste ano, que, ainda assim, deverá ficar ao redor de 4%.

Não é uma boa solução. Há, é claro, quem defenda uma tributação mais pesada de combustíveis fósseis, já que seus custos para a sociedade não são totalmente capturados pelos preços. Esta, porém, é uma argumentação de eficiência no uso de recursos e, para ser sincero, deveria ser mais bem embasada, o que não parece ter sido o caso. Na verdade, o real motivo, como antecipado, é elevar as receitas do governo.

Temos mais de um problema com esta proposição. Em primeiro lugar, não se trata de uma estratégia nova. Ao contrário, usamos (e abusamos) do aumento de tributos para conter o déficit público: entre 1997 e os 12 meses até maio de 2017 a arrecadação federal saltou de 15,5% para 18,8% do PIB, aumento de 3,3% do PIB. No entanto, as despesas federais cresceram bem mais no mesmo período: de 14,2% para 19,8% do PIB, ou seja, elevação de 5,6% do PIB.

Em que pese alguma perda de arrecadação por força da recessão de 2014 para cá, deve ficar mais do que claro que responder ao aumento das despesas com maiores impostos é uma estratégia destinada ao fracasso. Apenas adia (e cada vez menos) o doloroso encontro com a realidade: o setor público no país saiu de qualquer controle e, enquanto não for domado, não há estabilidade possível a médio e longo prazo.

Posto de outra forma, a medida pode até ajudar a atingir a meta em 2017, mas não será à custa da elevação persistente de impostos que conseguiremos reverter a trajetória crescente da dívida pública.

Em segundo lugar, a experiência internacional sugere que há assimetrias importantes entre redução de gastos e elevação de tributos. Em trabalho publicado em maio deste ano, Alberto Alesina e coautores, examinando 17 países da OCDE entre 1978 e 2009, mostram que reduções de gastos (ou transferências) “causam (...) modesto impacto recessivo no primeiro ano, mas este efeito já começa a desaparecer no ano seguinte”, ponto, aliás, nada sutilmente ignorado por Laura Carvalho.

Já aumentos de impostos têm efeitos recessivos maiores do que cortes de gastos e também mais persistentes. Segundo os autores “quatro anos após a introdução de um ajuste equivalente a 1% do PIB, o produto é mais do que 1% menor do que seria na ausência do programa”.

Como notado, o estudo se refere a economias maduras. Contudo, outro trabalho, de Troy Matheson e Joana Pereira, aplicado precisamente ao caso brasileiro, chega a conclusões semelhantes. Em particular, “espera-se que, na atual conjuntura, estímulos fiscais [gasto e crédito público] sejam ineficazes”, enquanto “ajustes baseados em receitas provavelmente devem levar à freada da atividade”.

À luz desses resultados me pergunto como economistas supostamente preocupados com a recuperação da economia, como nelson barboooosa, ainda batam na tecla de mais impostos como saída para a crise fiscal.


Não há evidência que demova a ideia fixa.

Moonwalking



(Publicado 26/Jul/2017)