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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A descoberta do Professor Marconi

Graças à indicação do Rogerio Ferreira, descobri que o Brasil tem menos indústria hoje em dia do que em 1947, segundo um índice construído pelo Professor Marconi (ou seria Martoni?) da FGV-SP (link)...

Eu imagino o professor interpolando as séries de contas nacionais e outras estatísticas econômicas, e encontrando o resultado de maior participação da indústria em 1947... Eureca! Finalmente! Vou provar meu valor para o Mestre da Luz Que Não Se Apaga! E assim, desengata a carroça de suas costas (para chegar mais rápido), e corre para trazer as notícias para a Estrela d'Alva da Itapeva. Mestre! Consegui provar que a indústria brasileira está na maior crise de toda sua história! Sua participação no PIB é menor do que em 1947!

Admiro muito a falta de dúvida.

Será que o professor em algum momento se questionou sobre o ridículo de seu achado?

Nunca passou pela cabeça do professor que se o índice que ele construiu mostra maior participação da indústria em 1947 (pré-CSN, pré-montadoras do ABC, pré-petroquímicas etc) do que hoje em dia, isso é evidência para qualquer pessoa razoável que seu índice não está medindo um fenômeno relevante?

[Nem passa pela imaginação do professor que algum desavisado pode inadvertentemente duvidar de sua inteligência ou honestidade por ter argumentado que houve desindustrialização no Brasil baseado em uma definição de indústria total que inclui a indústria extrativa, construção e serviços públicos? ] Menos... Este parágrafo em rosa não faz justiça ao artigo do professor Marconi, mas sim reflete a sua caracterização defeituosa pela reportagem do Valor Econômico. (Nota: "O" Anonimo)

Martoni considera que o processo brasileiro de desindustrialização começou na década de 80, quando a renda per capita do país não havia atingido US$ 4 mil.
Alguém poderia confirmar para mim, mas eu tenho uma leve desconfiança que o professor está usando dólares correntes para comparar o PIB brasileiro no tempo. Ai ai ai...

O professor da FGV observa que a mudança no câmbio fez a indústria adotar uma estratégia que ele classifica de "hedge produtivo"
Arrrrghhh! The horror, the horror!

ADENDO (09/29/2010)

Perdi uma hora de minha vida lendo finalmente o texto do Marconi & Barbi, só para descobrir hoje que o Rogerio Ferreira já apontou boa parte das besteiras cozinhadas naquele artigo.

Focando nos aspectos principais (e aceitando os dados construídos pelos autores como verdade), é chocante que os autores não tenham notado que a trajetória da participação da indústria de transformação tem tido uma tendência declinante desde meados dos anos 70 pelo menos. Se vamos acreditar nos dados apresentados no Gráfico 1 de Marconi & Barbi, fica muito difícil concluir que fatores como liberalização financeira ou comercial tenham tido um papel crucial em um suposto processo de desindustrialização brasileiro. Os autores são cegos a esta evidência.

Também é curioso que os autores olimpicamente ignoram que em tempos recentes (1995-2007), o setor de manufaturados de média-alta e alta tecnologia tem (a) mantido sua partipação no valor adicionado agregado (Gráfico 2); (b) aumentado sua participação na ocupação (Gráfico 4); e (c) reduzido sua participação no investimento da indústria (Gráfico 5). Pontos (a)-(b) são inconsistentes com a ladainha histérica de certos autores sobre ‘primarização’ da economia brasileira, enquanto ponto (c) é consistente com o efeito da apreciação cambial barateando o preço relativo do investimento em equipamentos mais avançados tecnologicamente.

Outra grande sandice, entretanto, é a visão dos autores sobre a expansão da compra de insumos intermediários no exterior. É fantástico para nossa indústria que ela possa reduzir seus custos adquirindo insumos no exterior. Mais que isso, é necessário que ela faça isso se quisermos ter uma indústria competitiva. Eu não consigo deixar de me surpreender que ainda existam economistas brasileiros que até agora não entenderam que a economia brasileira entrou em uma crise que durou quase duas décadas exatamente porque nossos planejadores nos anos setenta resolveram endividar o país para “adensar a cadeia produtiva” (ou seja lá qual for o eufemismo para “forçar nossos produtores a pagarem mais caro por seus insumos intermediários”).

Mas o mais engraçado disso tudo é que os próprios resultados econométricos dos autores desmentem algumas das teses que eles defendem. Por exemplo, os autores não conseguem achar qualquer efeito significativo da taxa real de câmbio (não que alguém precise de econometria para saber isso, basta ver o Gráfico 1) e conhecer a trajetória da taxa real de câmbio.


Este professor Marconi...

Reações:

35 comentários:

Olha a pérola: "O diagnóstico feito por Martoni, da FGV, o faz defender uma mudança nas regras atuais do mercado de câmbio no Brasil como saída necessária para, pelo menos, estancar seus efeitos perversos sobre a competitividade da indústria. "É preciso regular o mercado futuro", argumenta, defendendo algum tipo de limitação de volume das operações no mercado futuro ou a taxação dessas operações. "O movimento financeiro do câmbio, e não aquele vinculado à produção é o principal responsável pela apreciação do real", diz ele."

E eu ainda tive o desprazer de ter aula com esse professor. completamente alheio à realidade.

O artigo está neste link

http://virtualbib.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/7677/TD%20255%20-%20Nelson%20Marconi%3b%20Fernando%20Barbi.pdf?sequence=1

O Martoni está na GV? Eu nunca morri de admiração pelo Martoni, mas acho que ele não cometeria erros tão grosseiros. Confesso que não li o texto original. A tese não é nova, alguns já a chamaram de "Argentinação" de nossa industria, eu particularmente acredito que outros fatores estruturais são mais danosos à nossa atividade economica do que apenas o cambio, e cito a questão trabalhista, falta de infraestrutura,questão tributária e por aí vai.

O Regis Bonelli e o Samuel Pessoa na Carta do Ibre de Agosto têm números parecidos.

Não é o Celso Martone o alvo da crítica e sim Nelson marconi.

Rogério

Fui ler o artigo que não foi escrito para leigos em economia. No entanto chamou-me atenção o cuidado dos autores ao empregar verbos e tempos verbais não conclusivos. Ou seja, precisaria fazer uma análise de texto mais rigorosa, mas em algumas passagens importantes do texto é possível perceber que os autores acionam o recurso das "embreagens lógicas” que permitem seguir adiante morro acima com a análise. É o recurso do “pode ser” e do “parece” funcionando como a "embreagem" do pensamento. O caminhão do discurso se depara com um aclive conceitual, então pisa na embreagem e segue adiante engatando as marchas do “pode ser”, “parece”, “neoliberalismo”...

Seria interessante examinar se essa atenuação das assertivas relativas à tese da desindustrialização no texto escrito não está em contradição com a suprema assertividade dos gráficos e tabelas. Em outras palavras, para mim não ficou claro no texto a distinção entre o que é evidência e o que é fato. Ora, se os gráficos e as tabelas são a representação fiel de uma certa empiria, por que então os autores não são conclusivos e preferem escapulir com os “pode ser” e “parece”? Se a marcha da desindustrialização é crescente desde 1947, conforme os autores afirmam a partir de gráficos e tabelas, por que não ser conclusivo e afirmar mais uma vez e categoricamente a necessidade insuperável dos conhecidos e decorrentes corolários do “protecionismo econômico”, da “taxa de câmbio equilibrada pela mão do Estado” e da “planificação estatal da economia”?

Supondo que a desindustrialização seja um fato e não uma evidência, será que os R$ 241 bilhões que o Tesouro enfiou no BNDES não são suficientes para, no mínimo, interferir nessa marcha? Ainda é preciso mais?

Na mesma reportagem do jornal Valor que noticiou o artigo em questão, Mendonça de Barros diz uma verdade que para mim é bem concreta, pois eu vivo aqui: “O Brasil está perdendo espaço porque é ineficiente”. E é ineficiente no quê? Mais uma vez, na educação e na pesquisa de C&T, nas infraestruturas de transporte e de energia, na distribuição e na gestão das cargas tributárias, no saneamento básico, saúde etc. Mas, convenhamos, é bem mais fácil e, claro, lucrativo edificar cidades de sonhos...

“Vivemos em uma terra onde, mais do que em outro qualquer logar, impera a illusão graphica: escrevemos relatórios, alinhamos algarismos, tiramos conseqüências; deduzimos, e sobre fragillima base de nossos processos mentaes edificamos cidades de sonhos. Após tão grande prova de energia vamos descansar, convencidos de que nossas palavras valeram actos, até que nos venham despertar de tão estranho torpor as reclamações das victimas de nossas crises de actividade escripta”. (João Pandiá Calógeras, 1905)

Eu tenho uma tese diferente:

Esta ocorrendo a DESagriculturarizacao do Brasil!!!!

Em 1900 a agricultura brasileira representava muito mais do PIB do que representa hoje!!!! Ou seja, estamos perdendo nossas lavouras.

Esse negocio de comparar a participacao da industria no PIB e dai inferir que a industria piorou faz tanto sentido quanto comparar a participacao na agricultura no PIB para dizer que a agricultura brasileira piorou.

Adolfo

Esse é um Maconi da FGV, não o Martone da FEA-USP, que eu chutaria ser em que você está pensando.

Concordo com o Jayme. Críticas são sempre válidas mas acho que o Sr. "o" deveria ler o artigo deles e não o que um repórter que não sabe nem escrever o nome do cara disse.

Abs

Apresento-lhes a fina arte de Nelson Barbosa e seus amigos (amigos que fizeram aquele "estudo" bizarro em que a Selic se equaliza com a TJLP em 2018 e em que os repasses ao BNDES só trariam benefícios).

Ele ainda trata o câmbio real como uma variável exógena, embora tudo fique meio obscuro. A análise empírica também é imperdível.

Mas a melhor parte é a sobre política fiscal e câmbio:

"Do outro lado, segundo o governo federal, a política fiscal não tem pressionado excessivamente o nível de atividade econômica e, portanto, ela não pode ser responsabilizada pela elevada taxa de juro doméstica e pela eventual apreciação cambial dela decorrente. Mais importante, a política fiscal dos últimos anos foi um dos principais instrumentos de estímulo ao crescimento e desenvolvimento econômico e social do Brasil. Houve medidas de combate à pobreza e redução na desigualdade na distribuição de renda, que iniciaram a expansão do mercado interno de consumo de massa. Houve também medidas de estímulo financeiro e tributário ao investimento privado, sobretudo em infra-estrutura e habitação, que por sua vez resultaram no aumento na taxa de investimento.
(...)
Uma análise da evolução da economia é altamente favorável à interpretação do governo federal, uma vez que as medidas de estímulo fiscal foram acompanhadas pela aceleração do crescimento econômico, com aumento na taxa de crescimento do produto potencial, elevação na taxa de investimento, redução na taxa de real de juro e manutenção da inflação dentro do intervalo pré-estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional."

Gostaria de encontrar esse aumento todo na taxa de investimento nos dados... O aumento nos gastos no governo foi realmente excessivo, e o próprio ministro da Fazenda reclama frequentemente do câmbio apreciado. Além do mais, quem tem controlado a inflação tem sido o Banco Central, com uma taxa de juros que acabou de subir 200 bps (e deve subir mais no ano que vem), o que aprecia o câmbio. Onde vivem nossos quermesseiros oficiais?

É tão difícil assim entender que a política fiscal não terá tanta importância sobre a demanda agregada (PIB nominal) se o BC continuar perseguindo a meta de inflação? A expansão fiscal será neutralizada pela taxa maior de juros.

"Sem dúvida a taxa de câmbio real é um determinante importante do crescimento, mas ela não é o único determinante do crescimento."

Ah! A falta de dúvidas dos sábios!

links:

http://www.fazenda.gov.br/spe/publicacoes/conjuntura/bancodeslides/Nelson Barbosa - Forum FGV 2010.pdf

http://eespfgvspbr.tempsite.ws/_upload/seminario/4c0d022668198.pdf

A situação atual da FGV-SP é bastante curiosa.

Sua opção pela ECONOMIA é bastante clara. Contratou nos últimos anos alguns professores de ponta e seu programa de pós-graduação é cada vez mais bem conceituado, inclusive tendo "roubado" muitos alunos da USP nos últimos dois ou três anos.

Por outro lado, na área da PRÉ-ECONOMIA, ainda abriga Bresser-Nakano e sua quadrilha intelectual.

Alguém de lá pode nos explicar melhor essa contradição? A troco de que ainda permitem que o Bresser tenha tanto poder lá dentro?

"é possível perceber que os autores acionam o recurso das "embreagens lógicas” que permitem seguir adiante morro acima com a análise."

paulo, na dimensão Z é possível dirigir morro acima com o pé na embreagem?

"para mim não ficou claro no texto a distinção entre o que é evidência e o que é fato."

paulo, poderia discorrer mais sobre o assunto?

Pai Alex.

PS: para aqueles que, assim como eu, ficaram curiosos ao ler o texto do paulo:

João Pandiá Calógeras (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1870 — Petrópolis, 21 de abril de 1934) foi um um engenheiro, geólogo e político brasileiro. (fonte: Wikipédia).

Já ouvi a tese da "argentinização", segundo a qual a Argentina, do nada, "interrompeu seu processo de industrialização, o que condenou o país a um lento processo de decadência econômica e empobrecimento relativo."

Assim como o câmbio no Brasil resolveu, do nada, se valorizar, no mundo da quermesse as coisas simplesmente acontecem...

E a visão mercantilista é clara (exportar é bom (e só se for manufatura)):

"...a balança comercial positiva de manufaturas, ceteris paribus, contribuiria para elevar a participação do emprego na manufatura no emprego total. Porém a especialização, por parte dos países menos desenvolvidos, na produção de bens intensivos em mão-de-obra cuja vantagem comparativa é seu custo reduzido, levaria ao aumento da produtividade do trabalho no setor manufatureiro das economias mais desenvolvidas."

Outro exemplo de mercantilismo (importar é ruim):

"É possível que, ao invés de investir e elevar a produtividade, as empresas estejam optando por ocupar a capacidade ociosa e substituir insumos nacionais por importados (o que é prejudicial à indústria nacional), como uma forma de incorporar tecnologia em setores específicos."

Como seria o mundo se todos os países resolvessem apenas exportar manufatura?

E é curioso ver o Oreiro dizer que a ortodoxia admite a desindustrialização quando ela afirma que o que ocorre no Brasil é similar ao que ocorre em outros países. O que é dito é que é normal esperar redução da participação da indústria no PIB à medida que a renda se eleva.

Mas é a heterodoxia quem recuou da sua posição, pois começaram dizendo que estamos tendo desindustrialização, mas quando viram que não é inesperada a redução da participação da indústria, colocaram a discussão na questão do tempo. Agora temos que discutir se é precoce ou não.

E a quermesse piora a situação para ela toda a vez que amplia a discussão ou o conceito.

Luigi Pirandello possui uma obra chamada " Seis personagens à procura de um autor", e assim está a quermesse com "vários dados à procura de um conceito". Já disseram que desindustrialização era indicada pela participação da manufatura nas exportações, depois pela participação da indústria no pib, depois pela participação do emprego industrial no emprego total e agora dizem que o que importa é valor adicionado. Daqui a pouco vão lá e mudam o conceito de novo, pois os dados não se ajustam muito bem ao conceito ou às conclusões que eles querem sustentar.

Agora, se a desindustrialização começa nos anos 70, o que isto quer dizer? Não tem nada ver com as recentes medidas liberalizantes da economia. Pelo contrário, o período de maior queda coincide com a época de fechamento da economia.

Se compararmos com medidas de bem estar da população, que estão melhores hoje, podemos concluir que desindustrialização melhora o bem estar da população? E se for verdade, a saída é piorar o bem estar?

A melhora dos indicadores sociais coincide com o período de queda da participação do valor agregado.

Ou seja, concordando com os dados, temos uma trajetória de 40 anos de queda sistemática. Então por que se preocupar apenas com o câmbio e os anos recentes da queda?

Agora, considerando as definições que a heterodoxia utiliza para definir desindustrialização e o nível de renda per capita que ela utiliza para definir quando é precoce ou não, ela poderia testar e nos dizer se, por exemplo, a expansão dos gastos públicos não teria o efeito de deslocar demanda para o setor de serviços e anteciparia a desindustrialização da economia.

Pai Alex

Na parte da tarde estarei mais livre. Volto depois.

"Alguém de lá pode nos explicar melhor essa contradição? A troco de que ainda permitem que o Bresser tenha tanto poder lá dentro?"

Quem manda lá é o Bresser. Ou quem ele deixa mandar.

ADENDO (09/29/2010)

Perdi uma hora de minha vida lendo finalmente o texto do Marconi & Barbi, só para descobrir hoje que o Rogerio Ferreira já apontou boa parte das besteiras cozinhadas naquele artigo.

Focando nos aspectos principais (e aceitando os dados construídos pelos autores como verdade), é chocante que os autores não tenham notado que a trajetória da participação da indústria de transformação tem tido uma tendência declinante desde meados dos anos 70 pelo menos. Se vamos acreditar nos dados apresentados no Gráfico 1 de Marconi & Barbi, fica muito difícil concluir que fatores como liberalização financeira ou comercial tenham tido um papel crucial em um suposto processo de desindustrialização brasileiro. Os autores são cegos a esta evidência.

Também é curioso que os autores olimpicamente ignoram que em tempos recentes (1995-2007), o setor de manufaturados de média-alta e alta tecnologia tem (a) mantido sua partipação no valor adicionado agregado (Gráfico 2); (b) aumentado sua participação na ocupação (Gráfico 4); e (c) reduzido sua participação no investimento da indústria (Gráfico 5). Pontos (a)-(b) são inconsistentes com a ladainha histérica de certos autores sobre ‘primarização’ da economia brasileira, enquanto ponto (c) é consistente com o efeito da apreciação cambial barateando o preço relativo do investimento em equipamentos mais avançados tecnologicamente.

Outra grande sandice, entretanto, é a visão dos autores sobre a expansão da compra de insumos intermediários no exterior. É fantástico para nossa indústria que ela possa reduzir seus custos adquirindo insumos no exterior. Mais que isso, é necessário que ela faça isso se quisermos ter uma indústria competitiva. Eu não consigo deixar de me surpreender que ainda existam economistas brasileiros que até agora não entenderam que a economia brasileira entrou em uma crise que durou quase duas décadas exatamente porque nossos planejadores nos anos setenta resolveram endividar o país para “adensar a cadeia produtiva” (ou seja lá qual for o eufemismo para “forçar nossos produtores a pagarem mais caro por seus insumos intermediários”).

Mas o mais engraçado disso tudo é que os próprios resultados econométricos dos autores desmentem algumas das teses que eles defendem. Por exemplo, os autores não conseguem achar qualquer efeito significativo da taxa real de câmbio (não que alguém precise de econometria para saber isso, basta ver o Gráfico 1) e conhecer a trajetória da taxa real de câmbio.

Este comentário foi removido pelo autor.

"Alguém de lá pode nos explicar melhor essa contradição? A troco de que ainda permitem que o Bresser tenha tanto poder lá dentro?"

A EAESP não é uma meritocracia.

A diferença de qualidade entre o grupo de microeconomia aplicada(André Portela, Sergio Firpo, Vladimir Ponczek entre outros) e o grupo de macroeconomia (Paulo Gala, Marcio Holland e o restante) é gritante.

O primeiro faz pesquisa séria, de qualidade e publica em vários journals internacionais. O segundo é só papagaiada, puxando o saco do Bresser/Nakano. Quando a FGV conseguir se livrar dessa gente, sem dúvidas vai ser uma das melhores instituições de pesquisa em economia no Brasil. Mas até lá...

Pai Alex

Vai em partes.

Os comentários do Rogério e do “O” são infinitamente mais incisivos do que eu o meu, que procurava apenas chamar atenção para algumas contradições lógicas na narrativa construída pelos autores a respeito da desindustrialização.

Minha matéria é história, o que vale dizer que eu trabalho com relações. O que percebi no artigo foi o recurso da “técnica do holofote” em operação.

Eric Auerbach, comentando a propaganda nazista, diz que ela é uma “técnica do holofote”, que consiste em iluminar apenas uma das cenas de um complexo desenrolar de acontecimentos para convencer que o que foco ilumina é toda a realidade.

Nas palavras de Auerbach, a técnica do holofote “consiste em iluminar excessivamente uma pequena parte de um grande e complexo contexto, deixando na escuridão todo o restante que puder explicar ou ordenar aquela parte, e que talvez serviria como contrapeso daquilo que é salientado; de tal forma diz-se aparentemente a verdade, pois que o dito é indiscutível, mas tudo não deixa de ser falsificado, pois que, da verdade faz parte toda a verdade, assim como a correta ligação das suas partes.” (Mimesis)

As embreagens

A “palavra-embreagem” é um termo criado pelo linguista Emile Benveniste. Funciona nos discursos como as embreagens nos automóveis. Se o caminhão do discurso começa a ratear, a “palavra-embreagem” é acionada. Na educação a “palavra-embreagem” mais utilizada é “consciência crítica”. A formação de estudantes na escola pública deve ser medida, por exemplo, pelas habilidades adquiridas para bem escrever e fazer operações aritméticas. Então, quando um paulofreiriano se defronta com a realidade educacional que mostra uma grave disfunção no processo educativo [o baixo rendimento escolar na aquisição dessas habilidades são as evidências de problemas sérios no sistema de ensino público] ele aciona a “palavra-embreagem” “consciência crítica” para que o seu discurso sobre a educação possa continuar seguindo adiante. Em outras palavras, ele foge de enfrentar os objetos [formação deficitária em português e matemática] e segue adiante com a retórica em defesa de uma total abstração (“consciência crítica”), somente capaz de edificar uma escola de sonhos com alunos de sonhos.

No caso do artigo, chamou-me atenção a recorrência de verbos e tempos verbais [futuro do pretérito] que funcionam nessa narrativa da desindustrialização como as embreagens do Benveniste. A mais conhecida e horrível é o “parece”. Isso é o mesmo que dizer “eu acho” ou “eu tenho a impressão”. Eu estranho a presença desse impressionismo na narrativa acadêmica [mas se fosse numa mesa de bar, sem problema] a respeito do fato “desindustrialização”, bem perceptível principalmente na parte em que apresentam as referência teóricas. Isso não combina com exposição de números em gráficos e tabelas. Ora, 1+1 não parece ou poderia ser 2. A soma é 2.

Rogério pegou uma boa metáfora quando lembrou do Pirandelo e depois o “O” mostrou as inconsistências nos próprios gráficos. O que eu desconfiava ficou bem evidenciado nos comentários do Rogério e do “O”.

Fato, evidência e prova na narrativa da história

Na narrativa da história há clara distinção entre fato e evidência. Isso é bastante óbvio [bom, ao menos para alguns] quando se pesquisa os fatos do passado.

Por exemplo, eu somente posso afirmar que o fato da construção de fábricas de ferro no início do século XIX no Brasil está em relação com a cadeia de eventos (fatos relacionados com fatos) que conhecemos como “segunda revolução industrial” se a minha assertiva for corroborada pelas provas empíricas e lógicas “escavadas” nas fontes de pesquisa.

O que estranhei no artigo foi que em algumas passagens os autores claudicam [falha lógica] perante o fato da desindustrialização apesar das provas empíricas apresentadas na forma de gráficos e tabelas.

Na narrativa da história é imprescindível o trabalho de "escavação das fontes" que pode corroborar ou falsear a hipótese inicial. No trabalho que faço no atualmente eu pesquiso um objeto [as Fábricas de Ferro] e não tenho nesse momento a resposta ou a convicção de que esses objetos estão em relação com a cadeia de eventos “segunda revolução industrial”. Tenho uma hipótese baseada em uma intuição, um faro, alguns sinais, como diz o historiador Carlo Ginzburg. No início da caçada essa intuição é fundamental. Mas conforme eu avanço no trabalho de recolhimento e reconhecimento de indícios [evidências] do objeto perseguido mais eu tenho que racionalizar, exatamente como faz o caçador citado nessa passagem do meu historiador preferido:

Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis [os fatos] pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados [sinais]. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas.

Talvez a própria ideia de narração tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas.[...] O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (senão imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série de eventos. [C. Ginzburg]

Ginzburg cunhou para os historiadores o que é conhecido por “paradigma indiciário” em um ensaio de nome “Sinais”, escrito se não me falha a memória no final dos anos 70 ou começo dos 80. O seriado House com os seus roteiros inteligentes popularizou o paradigma.

Rogério

O artigo é evidência de que os autores não conhecem o aforismo XXV do Novum Organum. Lembra?

“O”

À quermesse aplica-se bem o que já se disse a respeito dos Bourbon: "eles nada aprenderam e nada esqueceram" (Talleyrand [1754-1838]). Isto é, continuam os mesmos.

Paulo,

eu me lembro sim do aforismo, que é bem interessante, assim como outras passagens que você sempre cita.

E não se preocupe se você sabe ou não muito de economia. Quando eu cheguei aqui não sabia muito, e continuo não sabendo, mas como a quermesse sempre repete as mesmas coisas e os mesmos erros e nunca aprende com eles, fazendo o debate voltar às mesmas questões, você aprende por repetição.

Eu aprendi bastante assim, só não entendo por que não funciona com eles.

Rogério

São os dogmáticos do “desenvolvimentismo”. Quanto a argumentar com eles, aplica-se com propriedade o que escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão”. [Na tradução de Nuno Guerreiro/blog Rua da Judiaria]

Aos que são alunos, a constatação de Gilbert Chesterton: “A razão porque os fantasmas abandonaram os velhos castelos da Escócia é porque as pessoas deixaram de acreditar neles”. [www.citador.pt]

Para quem curte citações, isto é uma mina:

Dictionary of quotations from ancient and modern, English and foreign sources : including phrases, mottoes, maxims, proverbs, definitions, aphorisms, and sayings of the wise men, in their bearing on life, literature, speculation, science, art, religion, and morals, especially in the modern aspects of them, (1893)

http://www.archive.org/stream/dictionaryofquot00woodrich#page/571/mode/1up/search/reason

Abs.

"Alguém de lá pode nos explicar melhor essa contradição? A troco de que ainda permitem que o Bresser tenha tanto poder lá dentro?"

Tem professor bom no grupo de macro também. E.g. Luis Araujo, Bernardo Guimarães, Vladimir Teles...

Bernardo Guimarães? Esse cara estah vivo ainda?!? Nao foi ele que escreveu "A Escrava Isaura" e "O Seminarista"?

Exato caro homônimo. Agora mudou de ramo e tem AER forthcoming!

http://ideas.repec.org/p/cep/cepdps/dp0887.html

Em todo caso gostei de sua cultura literária (ou a do Google).

Quanto a EESP - FGV-SP.
Gostaria de esclarecer uma coisa.
O programa de economia da EESP está longe de ser o que muitas vezes é insinuado: "quermesse da nove de julho" ou "prole do bresser". Hoje, a maioria dos que entram na pós acadêmica não têm nenhum contato com o Bresser ou Nakano. E a graduação é uma das melhores e com grande ênfase em matérias quantitativas.
As melhorias no corpo docente podem ser vistas na quantidade de publicação per capita em periódicos considerados A1 e A2 pela Capes, quesito no qual a FGV-SP ficou em quarto lugar, perto da PUC-RJ e USP.
Dos últimos anos para cá o corpo docente da EESP tem melhorado muito como alguns colocaram nos comentários acima. Houve a contratação de diversos PHDs, pessoas de alta qualidade intelectual que publicam em periódicos de primeira linha.
Com certeza a distância da EESP para os centros tops em economia do Brasil tem diminuído e pelo ritmo e qualidade das últimas contratações rapidamente a escola estará entre elas.
Escrevo isso pois muitas vezes da maneira que os fatos são colocadss aqui parece que a EESP está cada vez mais distante dos centros de ponta em economia e que idéias de economistas como Bresser e Nakano ou de economistas sem nenhum rigor acadêmico predominam na instituição. Isso influencia pessoas na escolha da graduação ou da pós-graduação e dão uma visão errada sobre o que realmente acontece.
Colocar na EESP termos pejorativos como os colocados no início do comentário estão longe de representar o que realmente acontece “na quermesse da nove de julho” e pode prejudicar a escola na seleção de bons alunos.
A intenção disso não é causar polêmica mas sim dar uma outra visão sobre o que acontece na EESP.
Gostaria de ressaltar que essa é uma opinião minha com base em fatos e não uma posição oficial da escola.

Caro Anônimo das 18:45.

Você não causou polêmica, pelo contrário. A este respeito veja meu comentário a este post (http://maovisivel.blogspot.com/2010/07/mulher-barbada-e-prole-de-bresser.html) no dia 15/julho às 14:15

Abs

Alex

Alex,
Concordo com seu comentário.
A questão é que ao ficar classificando a GV como “quermesse da 9 de julho” acho que muitas vezes dá a impressão errada às pessoas principalmente para quem está fora da academia e não acompanha essa evolução.
E isso gera perguntas do tipo: “Tem alguém que se salva na EESP?” É essa a impressão que pessoas de fora da academia ou aqueles que se interessam por economia, ou seja possíveis estudantes, ficam da escola. Quando na verdade é possível listar uma grande lista de bons pesquisadores na EESP.
O que os leitores do seu blog pensam é importante em momentos como o da Anpec quando os candidatos fazem a seleção dos centros.
Na EESP pessoas como Bresser, Nakano e Gala têm cada vez menos espaço. O problema é que eles têm muita mídia e por isso acaba parecendo como uma opinião da escola. Mas hoje em dia é só isso que eles têm, tendo pouca influência sobre o ensino e sobre a pesquisa da escola.
O que acho é que ao criticar as idéias e trabalhos desse pessoal poderia não associá-los tanto à imagem EESP, como "quermesse da 9 de julho" para evitar que pessoas fiquem com a idéia que o programa e ensino de economia da escola é composto só de "picaretagem acadêmica".

Abraços.

Só para concluir meu pensamento:
Afinal o propósito do blog é questionar as idéias e trabalhos e não a qualidade da EESP como um todo.

Poxa vida, você é chato mesmo, nós já entendemos o seu ponto.

De agora em diante vou (tentar) me referir à ‘banda podre’ da EESP-FGV.

No dia que vocês se livrarem da ‘banda podre’ de fato, tenho certeza que o departamento vai parecer mais atrativo para os candidatos da ANPEC.

Enquanto isso, vocês vão ter que construir a reputação de pouco em pouco (e carregando um peso morto sobre os ombros).

Que tal listar os ex-alunos da EESP que produziram algo notável?

“O”,
Vou deixar a parte de listar os trabalhos de ex-alunos da EESP para outra hora. Sinceramente hoje não tenho nem idéia nem tempo para ficar procurando-os.
No mais só queria colocar meu ponto de vista e concordo que a EESP tem que carregar a “banda podre” nos ombros e provavelmente o terá que fazer ainda por muito tempo pela influência política dessas pessoas.
No mais não vale a pena ficar discutindo mais isso, são fatos: a contratação de novos professores qualificados e o melhoramento do curso e a existência da “banda podre”.
É melhor perdermos tempo em discutir o FSB ou como colocado por você BSF.
Abraços.

Mas pelos seus critérios, assim como não devemos falar sobre a prole de Bresser, deveríamos tambem silenciar sobre o BSF... Aniuei, periga eu escrever sobre o tio que fez A Escrava Isaura. O artigo dele com o tio CESG e' bem legal.

O,
Em nenhum momento falei que não se devia mais comentar os artigos da prole do Bresser. Afinal se eu não me interessasse pelos comentários seus e do Alex eu não acompanharia o blog. Se o artigo foi publicado ou apresentado é sim para ser comentado e criticado.
Meu único ponto foi que a maneira como é colocada as críticas a EESP fica parecendo um lugar ridículo, onde pensamentos e trabalhos como o do Bresser predominam.
Mas o blog é de vocês e vocês podem falar o que quiserem, só quis levantar algo que podia estar gerando um mal entendido entre os leitores do blog.
Críticas a trabalhos são muito bem vindas e devem sim ser feitas para que os autores e leitores aprendam.
Quanto a essa discussão acho que não levará mais a lugar algum.
Abraços.