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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Lição de casa

São comuns avaliações que atribuem a fatores externos as flutuações da inflação. Na verdade, boa parte do debate acerca da aceleração inflacionária acabou centrada sobre esta questão e mesmo hoje o ambiente internacional é frequentemente citado como uma força que pode ajudar no controle dos preços domésticos, por conta do excesso mundial de oferta. Da forma como entendo o problema, contudo, me parece que estamos pedindo da economia global mais do que ela pode nos dar.

De fato, analisando a evolução inflacionária nos países latino-americanos que adotam do regime de metas para a inflação (Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru), observamos alguns fatos interessantes. Para começo de conversa, a despeito do péssimo histórico regional no que se refere à estabilidade de preços, estes países têm mostrado um bom desempenho (muito melhor, diga-se, do que o observado no caso de outras economias latino-americanas que não seguem o regime de metas), expresso em taxas de inflação bem-comportadas.

O bom comportamento, no caso, pode ser definido não só pela inflação historicamente baixa, nas também porque, de maneira geral, esses países têm conseguido manter os desvios da inflação com relação à meta dentro de intervalos modestos. E, de forma talvez ainda mais importante, a maioria deles registra desvios tanto para cima da meta, como para baixo, precisamente da forma como se espera que o regime opere.

Isto dito, o desempenho no que tange a este quesito não é uniforme dentro do grupo. Há países em que a inflação passa quase tanto tempo acima da meta como abaixo, como o Chile, onde, entre janeiro de 2004 e agosto de 2010, a inflação acumulada em 12 meses superou a meta 46% do tempo (49% se usarmos uma medida do núcleo de inflação que tipicamente retira do índice os efeitos de preços de alimentos e serviços regulados pelo governo). Peru e Colômbia mostram comportamento parecido (no caso colombiano quando usamos o núcleo de inflação).

Já Brasil e México (em particular este último) apresentam uma atuação bem pior: durante o período em questão a inflação superou a meta 65% do tempo no Brasil (73% no caso do núcleo), enquanto no México a inflação ficou nada menos do que 98% do tempo acima da meta (o núcleo 100%). Vale dizer, a noção que o BC brasileiro seria excessivamente conservador não encontra respaldo no seu próprio desempenho; no máximo, na comparação nada lisonjeira com o México.

Apenas este elemento já sugeriria haver mais disparidade dentro do grupo do que seria consistente com a ideia de forças globais determinando a evolução da inflação em cada país, mas há outros motivos para ceticismo.

É possível, por exemplo, calcular para cada um dos países no nosso grupo quão relacionado está o seu desvio da inflação vis-à-vis à meta com o desvio observado nos demais. Concretamente, podemos estimar se os desvios com relação à meta de inflação no Brasil se comportam de forma similar aos desvios com relação à meta para os outras economias da região que seguem um regime monetário e cambial como o nosso. E podemos, também, estender o exame para cada um desses países. Os resultados estão resumidos no gráfico.


Fonte: Autor (a partir de dados dos bancos centrais destes países)

Observamos então um fenômeno interessante: para todos os países, à exceção do Brasil, o desvio da inflação (cheia ou núcleo) com relação à meta é fortemente correlacionado ao desvio dos demais membros do grupo, mostrando que nesses casos parece mesmo haver algum fator comum, presumivelmente internacional, que leva a um desvio simultâneo relativamente à meta.


No caso brasileiro, porém, este efeito está ausente: a correlação entre o desvio da inflação cheia no Brasil e o resto do grupo é significativamente menor que a estimada para os demais; já quando usamos o núcleo de inflação a correlação se torna (levemente) negativa. Em outras palavras, no Brasil os desvios da inflação relativamente à meta não parecem seguir o mesmo padrão dos demais países da região, sugerindo que, ao contrário do caso anterior, a dinâmica de inflação nestas plagas parece resultar de forças domésticas, e não de choques internacionais.

Parte da explicação para este comportamento discrepante deve estar ligada à baixa exposição nacional ao comércio. Entre 2003 e 2009 a abertura do país ao comércio internacional (a soma de exportações e importações relativamente ao PIB) atingiu, em média, 26% (máximo de 29% em 2004; mínimo de 23% em 2009). Este número compara-se a 80% do PIB no caso chileno, 59% do PIB para o México, e 39% do PIB na Colômbia e no Peru.

Independente da explicação, contudo, este fenômeno sugere que não se deve dar ênfase excessiva à eventual ajuda que o ambiente externo possa oferecer no que se refere à inflação. Esta é uma lição que deve ser feita em casa mesmo.

(Publicado 7/Out/2010)

Reações:

10 comentários:

Alex

Gostei muito do artigo. Não sendo a matéria de muitos, não raro o debate entre economistas aprece como coisa obscura e cifrado em linguagem que não se domina. No entanto, artigos como este são verdadeiras iluminações para quem, por ignorância das relações econômicas e dos conceitos, muitas vezes experimenta a desagradável sensação de estar perdido em meio ao que aparece somente como a pior das trevas.

Meu comentário está focado na apresentação da principal assertiva. Você a enunciou de modo meio capenga e injusto com o artigo:

“Em outras palavras, no Brasil os desvios da inflação relativamente à meta não PARECEM seguir o mesmo padrão dos demais países da região, sugerindo que, ao contrário do caso anterior, a dinâmica de inflação nestas plagas PARECE resultar de forças domésticas, e não de choques internacionais.”

Por que não ser afirmativo ao enunciar a assertiva? Por que usar o maldito “parece”? Lembro que em lógica o termo “assertiva” tem o significado de proposição afirmativa ou negativa. Desculpe a pentelhação, mas ela procede de leitura que fiz do artigo. Por que não escrever de modo claro e afirmativo? O verbo parecer carrega um forte sentido de indeterminação e o seu emprego no texto é contraditório com a força afirmativa dos elementos empíricos e lógicos que você apresenta. Então, por que não escrever afirmativamente? Por exemplo:

“Em outras palavras, os elementos [os objetos] apresentados mostram/revelam [mostrar/revelar não é o mesmo que provar. Mas não é o caso de entrar agora nessa discussão] que no Brasil os desvios da inflação relativamente à meta não seguem o mesmo padrão dos demais países da região, indicando que, ao contrário do caso anterior, a dinâmica de inflação nestas plagas resulta de forças domésticas, e não de choques internacionais”.

Pelo o que eu entendi a partir da leitura, o seu objetivo é iluminar um certo comportamento relativo à inflação brasileira. Sobretudo, mostrar que no Brasil há desvio em relação a um parâmetro de aferição, isto é, o desvio aparece quando outras atuações econômicas, que seguem o mesmo modelo de metas de inflação, são iluminadas ao mesmo tempo pela análise. Então, os elementos empíricos e lógicos que você apresenta são, a meu ver, suficientes para sustentar a assertiva de que no caso brasileiro o desvio está em relação com “as forças domésticas”.

Na parte final do artigo você corretamente deixa aos leitores uma hipótese para a discrepância e apresenta alguns indícios que mostram que a hipótese não foi retirada de um chapéu mágico. O passo seguinte, se fosse o caso, seria submeter a hipótese a um exame mais rigoroso.

Por último, o mais importante. Quem não concordar com a assertiva enunciada no artigo estaria, portanto, obrigado a refutar a sua análise trazendo ao debate novos elementos lógicos e empíricos com força suficiente para falsear a sua assertiva.

Eu gostaria de comentar (perguntar) sobre alguns pontos, mas antes vou meter o bedelho no comentário do anônimo da 11:43.
Poderíamos nos estender bastante sobre o tema, mas, basicamente, o Alexandre faz o que todo economista deveria fazer. Jamais um economista pode dizer que provou algo. Nós podemos no máximo falsificar alguma tese, mas nunca prová-la. Talvez em experimentos (raros) controlados, possamos chegar bem perto de provar algo, mas assim mesmo, se formos rigorosos, não estaremos realmente provando algo. Leia Popper.
Não bastasse isso, a análise que o Alexandre faz é bem superficial (isso não é demérito...ninguém espera um grande estudo num artigo de poucas laudas), usando correlações, o que está bastante longe de provar algo, ainda que em alguns casos possa falsificar uma tese.
Mas acredito que no caso em questão, ele ofereceu algumas evidências contra a tese de que o ambiente internacional influenciaria bastante o comportamento da inflação interna, que na minha opnião não são muito fortes. Vamos aos comentários.
Alexandre, meu primeiro ponto é: essa seria a melhor maneira de responder à pergunta proposta? Não seria o caso de se medir o pass through da inflação internacional? Isso não captaria melhor do que escolher uma pequena amostra de países e medir correlações entre desvios da meta?
Eu acredito que a medida usada está bastante contaminada a ponto de elucidar pouco a questão.
Qual a razão (além do sistema de metas e cambio flutuante) para escolher essa amostra de países? Qual a representatividade dela em termos de comercio exterior com o Brasil, e mais, entre eles próprios?
Poderia, por gentileza, comentar Alexandre?
Desde já, adianto que acredito que a dinâmica interna seja mais determinante para a inflação doméstica, apenas discordo do método usado.
Abraços
Daniel

"Não seria o caso de se medir o pass through da inflação internacional?"

A pergunta é boa Daniel. O problema é mais de ordem, digamos, editorial. É que eu escrevi sobre o repasse da inflação externa sobre a doméstica (http://maovisivel.blogspot.com/2008/06/inflao-contagiosa.html e também aqui http://maovisivel.blogspot.com/2008/05/charlie-dont-surf.html).

Daí minha vontade de explorar o ponto de um outro ângulo. No caso, a amostra foi escolhida por conveniência. Não porque o resultado era conveniente (eu suspeitava que algo assim apareceria, porém não sabia até fazer as estimativas), mas porque eu sigo regularmente o que está ocorrendo nos demais países da AL e, no caso, os dados dos países com regime cambial/monetário semelhantes estavam todos à mão.

Assim ao invés de repetir o argumento, usei outra abordagem que reforça a evidência anterior.

Abs

Alex

De acordo.
Obrigado mais uma vez.
Abraços
Daniel

Daniel

Não fiz crítica ao conteúdo do artigo, mas ao uso no artigo de um verbo "impressionista". Talvez seja uma idiossincrasia. Mas, para além das minhas manias, está o o artigo iluminista, que joga esclarecimento, e, assim, dissolve algumas penumbras. Então é por isso que implico com o verbo parecer porque a análise vai além da pura impressão. Ela está fundamentada empírica e logicamente. E escrever um texto assim com o limite de caracteres imposto pela coluna de jornal não é para qualquer um.

Volte lá e releia o que escrevi e você perceberá que concordamos, inclusive no tanto que é problemático provar alguma coisa em certos campos de conhecimento. Concordamos que provar não é o mesmo que revelar, e que por sua vez este último termo é coisa bem distinta do "parece que".

Os objetos apresentados no artigo são, no meu entendimento, suficientes para revelar o desvio em sua relação com "as forças domésticas". Esse é o limite do artigo. Quem quiser ir além, que procure os caminhos ou investigue mais.

E quem não concorda, que traga os seus objetos para que possamos examiná-los. Enfim, e como você escreveu, não se trata de provar, mas de falsear, que foi o que Alex fez no artigo com as assertivas que desprezam ou ignoram a relação do desvio com "as forças internas".

Paulo, primeiro desculpa pelo "anônimo".
Pelo visto discordamos radicalmente.
Apenas a evidência apresentada pelo Alexandre nesse artigo, ao meu ver, não falsifica a tese de que a inflação doméstica reflita em maior grau estímulos externos. Em conjunto com esses outros artigos, aí sim fica mais crível. O fato dos desvios da inflação com relação a meta dessa amostra que ele usou não ser correlacionado com o desvio aqui no Brasil, ao meu ver, não IMPLICA que a aceleração ou desaceleração da inflação no Brasil não tenha determinante externo.
Reforçando, o Alexandre foi correto em utilizar essas expressões. Essa evidência apenas "sugere"...Mas ele pode explicar melhor a razão pela qual usou esses termos.
ps.: não vou ficar me alongando no assunto pois tenho mil coisas para fazer...(estudante de 1o ano!).
Abraços
Daniel

Só pra não ficar no ar, aqui sim ele falsifica essa tese (sempre condicional ao período e local analisado):
http://maovisivel.blogspot.com/2008/09/ainda-o-preo-de-commodities-e-inflao.html

http://maovisivel.blogspot.com/2008/06/inflao-contagiosa.html

Abraços
Daniel

Daniel

Há diferença entre falsificar e falsear.

Eu estou me referindo aos dados que Alex apresentou em forma de gráfico e à análise desses dados. E afirmo que esses elementos, mais que sugerem, revelam uma relação. Não cabe um "parece que" ou um reles "sugerem". É bem mais que isso o que o artigo mostra. Enfim, ou a relação apontada é efetiva ou não é.

Portanto, se os dados estão corretos, o artigo falseia sim as assertivas contrárias, isto é, as que excluem ou ignoram a relação entre o desvio e as "forças internas".

No fundamental, é assim que o conhecimento das coisas avança, ao menos de acordo com Popper.

Abraços e bons estudos.

Daniel,

Desculpe a pergunta, primeiro ano de que e onde?

Abs

Leo

Misturando alhos com bugalhos podemos encontrar qualquer coisa. Comparar economias diferentes já é complicado. Na questão das metas inflacionarias deveríamos primeiro observar as características operacionais dos bancos centrais e depois as medidas de inflacao que cada país adota. No tocante ao mercado externo, este padrao de envolvimento do comercio externo - abertura do país ao comércio - pode ser pouco significativo. Deveriamos incluir tarifas efetivas também para pontuar ás restriçôes às importações.