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domingo, 31 de janeiro de 2010

A estratégia da boçalidade, via Professor Oreiro

Aparentemente, eu não considerei a hipótese que a defesa do Professor Oreiro seria fingir-se de boçal. Vejamos alguns trechos:

“Eu não imaginava que existem autores ortodoxos (um auto-intitulado “tio O”) que acreditam que para desvalorizar a taxa de câmbio deve-se fazer justamente o contrário do que é defendido por Fragelli e Cavalcanti, ou seja, deve-se reduzir (isso mesmo reduzir !!!) a taxa de poupança.”

Errado, fessô. Aumentar a taxa de poupança sem ambiguidade alguma deprecia o câmbio real em impacto e diga-se de passagem, meu post deixa bem claro que é isso que eu acredito que acontece. Digo mais, eu concordo 100% com os professores da EPGE que políticas que aumentam a poupança doméstica depreciam o câmbio real e deveriam ser adotadas no Brasil hoje.

Mas o Professor Oreiro não se satisfaz tentando rebater meu comentário representando minhas ideias erradamente, ele parece sentir uma necessidade desesperada de se humilhar publicamente mostrando sua falta de conhecimento de economia internacional.

Vejamos:

“Como corolário direto dessa argumentação segue-se que, no longo-prazo, os países que pouparem mais (como a China) terão uma taxa de câmbio mais apreciada e, portanto, serão menos competitivos no cenário internacional !!!!! “


Siiiiim, dotô!!! Se você passasse menos tempo [censurado] e mais tempo estudando, saberia que existe uma longa literatura mostrando a existência de uma correlação positiva entre a posição de ativos líquidos e a taxa real de câmbio (exemplo: Philip R. Lane & Gian Maria Milesi-Ferretti, 2004. "The Transfer Problem Revisited: Net Foreign Assets and Real Exchange Rates," The Review of Economics and Statistics, MIT Press, vol. 86(4), pages 841-857, 02. LINK ).

Ou então conheceria vários artigos estimando a taxa real de câmbio de equilíbrio que usam a posição externa líquida como um dos regressores e mostram que países que acumulam ativos externos líquidos de fato têm uma apreciação da taxa de câmbio no longo prazo.

Mas o mico do professor Oreiro é mais cabeludo ainda... Como membro da Associação Keynesiana Brasileira, seria esperado que ele conhecesse Keynes pelo menos! Aparentemente o bom professor também desconhece o problema da transferência em Keynes, que afinal, tem a mesma intuição econômica que a relação entre posição externa líquida e taxas de câmbio de equilíbrio.

“Creio que é auto-evidente para o leitor que o raciocínio acima envolve um claro reductio ad absurdum, pois nesse caso os países asiáticos, que possuem elevadissimas taxas de poupança doméstica, deveriam apresentar um câmbio apreciado e reduzidos superávits comerciais”

Aqui, o Professor Oreiro se finge de boçal. A redução dos superávits comerciais aconteceria na medida que a conta de renda desses países gerem elevados superávits. Ou o professor tem alguma dúvida que a taxa de câmbio de equilíbrio da China se apreciou nos últimos 5 anos?

“(aliás sugiro que o “Tio O” apresente alguma evidência empírica de que elevadas taxas de poupança doméstica estão correlacionadas, no longo-prazo, com taxas reais de câmbio apreciadas).”

Existe evidência – e qualquer economista com treinamento básico em economia internacional sabe disso! – que existe correlação no longo prazo entre posição de ativos externos líquidos e taxas reais de câmbio.

Então professor, a pergunta continua: está fingindo que não sabe a literatura ou vai admitir que você é café-com-leite?

“Esqueçam essa baboseira de relação positiva entre câmbio real e poupança, pois é auto-evidente (com base nos modelos inter-temporais) que a relação é negativa, ou seja, para se obter um câmbio depreciado deve-se reduzir a taxa de poupança.”

No longo prazo, sim.

Reduzindo-se ao absurdo, um país que não poupe nada, vai perder seu estoque de capital, ser mais pobre no futuro, ter menor demanda por seus bens comercializáveis, e ser infinitamente mais competitivo porque seus trabalhadores aceitarão trabalhar por salários ínfimos.

Por outro lado, um país que poupe muito, ao ponto de gerar grandes superávits comerciais, vai se tornar mais rico, vai ter uma posição externa líquida mais positiva e se tornar menos competitivo no comércio de bens.

Acho que é meio óbvio qual país nós deveríamos querer deixar para nossos filhos.

Reações:

14 comentários:

"O",

Sei que estou metendo o bedelho em coisa alheia, mas aí vai meu pitaco nesta discussão:
http://escolhaseconsequencias.blogspot.com/2010/01/taxa-de-cambio-real-poupanca-domestica.html

Abraço,

Ronald Hillbrecht

“Creio que é auto-evidente para o leitor que o raciocínio acima envolve um claro reductio ad absurdum, pois nesse caso os países asiáticos, que possuem elevadissimas taxas de poupança doméstica, deveriam apresentar um câmbio apreciado e reduzidos superávits comerciais”.

Aqui a confusão entre fluxo (poupança) e estoques (ativos internacionais líquidos) deveria ser óbvia, mas, parafraseando Nelson Rodrigues, os boçais não conseguem ver o óbvio.

Muito boa resposta "O" (sem ironia).
Mas faltou apresentar as evidências:
"Existe evidência – e qualquer economista com treinamento básico em economia internacional sabe disso! – que existe correlação no longo prazo entre posição de ativos externos líquidos e taxas reais de câmbio."

Abraços

Alex e O anônimo, boa tarde!

Realmente este é O BLOG para quem deseja TAMBÉM aprender economia e como ser irônico em responder a certas "mentiras".
Como é pura reflexão ler que a argumentação de certos comentários não sustenta-se com a verdadeira ECONOMIA.

Abraçao,
João Melo, hoje, por acaso, direto de FORTALEZA-CE, um pouco distante da floresta amazônica!

“Muito boa resposta "O" (sem ironia).
Mas faltou apresentar as evidências”

Depois eu posto para os interessados (ainda não tenho econ-lit no meu celular!).

Registro a participação do Ronald (amigo e excelente economista, além de enxadrista de respeito) no blog e recomendo a leitura do post (http://escolhaseconsequencias.blogspot.com/2010/01/taxa-de-cambio-real-poupanca-domestica.html) no "Escolhas e Consequências"

Abs

Alex

Porra Alex, o cara pode ser gente fina, mas não contribuiu com uma vírgula!

”Aqui a confusão entre fluxo (poupança) e estoques (ativos internacionais líquidos) deveria ser óbvia, mas, parafraseando Nelson Rodrigues, os boçais não conseguem ver o óbvio.”

Mas é por isso mesmo que é sempre divertido cutucar as figuras.

Se o ilustre professor tivesse um pouco mais de maturidade, ele teria escrito:

'Eu errei quando afirmei que um aumento na taxa de poupança aumenta o desalinhamento cambial de um país com câmbio mais forte que seu câmbio de equilíbrio, muito obrigado por ter me iluminado, Tio “O”. Em nome da boa cooperação entre os economistas brasileiros, quando você escrever algo errado, prometo rebater prontamente!'

"Porra Alex, o cara pode ser gente fina, mas não contribuiu com uma vírgula!"

De forma alguma: o Ronald trouxe a conclusão do Montiel e Servén que liquidaram empiricamente a tese da causalidade correr do câmbio para a poupança. Sem contar que nos lembrou exatamente quais são os parâmetros que valem na discussão.

Abs

A

Apenas para citar um exemplo de artigo documentando a relação positiva de longo-prazo entre a posição externa líquida de um país e sua taxa de câmbio de equilíbrio, veja:

External Adjustment and Equilibrium Exchange Rate in Brazil, por Claudio Paiva link: http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2006/wp06221.pdf

Cito esse artigo por usar dados do Brasil e pela variedade de citações da literatura e por ser disponível publicamente para nossos leitores – como eu – sem uma conexão via instituição acadêmica em casa. Qualquer um pode encontrar outros estudos encontrando o mesmo resultado, tanto em dados de séries de tempo (como este estudo), como em painéis de países.

"“Esqueçam essa baboseira de relação positiva entre câmbio real e poupança, pois é auto-evidente (com base nos modelos inter-temporais) que a relação é negativa, ou seja, para se obter um câmbio depreciado deve-se reduzir a taxa de poupança.”

Mais um erro primário. Se quisermos voltar ao modelo que expus aqui (http://maovisivel.blogspot.com/2008/03/um-modelo-para-discusso.html), o que vamos achar é o seguinte:

1) O país com "poupança mais elevada" (na verdade uma taxa de preferência temporal mais baixa) tem taxa e câmbio mais depreciada no primeiro período, congruente com seu superávit em conta corrente;

2) No segundo período, porém, a taxa de aprecia, refeltindo o acúmulo de ativos internacionais líquidos no primeiro período, agora utilizados para elevar o consumo acima da oferta.

Ou seja, o "O" está correto (alguém se surpreende?), assim como Ferreira e Fragelli. Poupança mais alta deprecia a taxa de câmbio de equilíbrio corrente e aprecia a taxa de câmbio de equilíbrio futuro.

E isto num modelo (simples é verdade), com todos os elementos do caso intertemporal.

Acho que o Orelho e o Gala deviam participar dos seminários "job market" da EPGE....de repente os caras deixam de contratar um formando por Princeton ou Columbia e contratam um macroeconomista mais "crítico" e que "não segue os manuais importados"...

abs

Rogério Ceni
(só para deixar claro: estou sendo irônico...)

O Paulo Gala vai merecer um post do Tio "O" em breve. Já redigi na minha cabeça, só falta passar para o computador.

"O"

E os alunos do Oreiro e desta turma de pensamento mágico (vendedores de ilusão)da UNICAMP, FGV-SP, UFRJ (e outras federais)? Coitados (têm que escrever errado para ser aprovados?)
O artigo dos professores Renato F. Cardoso e Pedro Cavalcanti Ferreira da FGV-RJ, no jornal Valor, veio esclarecer (uma luz) aos estudantes de economia e aos leitores do jornal, as incorreções escritas por articulistas anteriores. Um favor para todos os estudantes de economia do país que poderiam estar se confundindo com leituras de professores de renomadas escolas.