teste

terça-feira, 3 de maio de 2016

De fato e ficção

Mais do que uma guerra de slogans há em curso um conflito de “narrativas”, para usar o termo da moda. A mais comum é o conto do “golpe”, que, como notado, entre outros, por Demétrio Magnoli, não é uma tentativa de convencer a opinião pública, mas, na verdade, uma forma de manter a militância aguerrida para as eleições presidenciais de 2018.

Dentre as demais, me chamou a atenção a mais recente justificativa para o fracasso estrondoso do governo Dilma: seria resultado da “agenda do caos” promovida pela oposição, que teria recusado as propostas de reforma econômica, preferindo apostar no “quanto pior, melhor”. Em que pese a atuação abaixo da crítica do PSDB no que tange à eliminação do fator previdenciário, trata-se de mais uma história que não para em pé.

A começar porque as raízes do fracasso vêm de muito antes e têm pouco a ver com a atuação do Congresso.  A recessão propriamente dita, é bom lembrar, começou ainda em meados de 2014, seguindo-se a um período de crescimento muito abaixo do observado em anos anteriores.

Há, entre economistas que mantêm o saudável hábito de não se esquecer de olhar os dados, um virtual consenso acerca das causas desta forte desaceleração que culminou na atual crise: por um lado uma expansão fiscal sem precedentes, da qual fez parte um aumento extraordinário do crédito por meio de bancos oficiais; por outro, um grau de intervenção na economia que só tem paralelo ao registrado durante os governos militares nos anos 70.

A primeira nos levou a um processo de aumento acelerado da dívida pública, solapando a confiança quanto à sua sustentabilidade. Não por acaso, o risco-país saltou de 1% a.a. para quase 5% a.a., antes da perspectiva de mudança de governo levar a um recuo para 3,5% a.a.

Já a intervenção excessiva provocou forte queda do ritmo de expansão da produtividade, de 1,6% a.a. para -0,5% a.a., segundo estimativas de Samuel Pessoa.

Ambas resultaram de ações do Executivo, sob comando de Guido Mantega, mas, na prática, como se sabe, da própria presidente. Não se ouviu falar do Congresso; ainda menos das oposições.

Mais revelador ainda, não se pode deixar de lado o comportamento do PT, que, chamado a apoiar o programa de reformas elaborado pelo então Ministro da Fazenda Joaquim Levy, fugiu da responsabilidade de forma acintosa. Pesquisa de 0,45 segundo no Google mostra a reação contrária do PT à proposta de reforma da Previdência, por exemplo, e exercícios similares revelam a mesma resposta no que diz respeito a temas como mudanças na política de salário mínimo, ou vinculações orçamentárias.

De forma simples: quem se opôs às reformas foi principalmente o PT e seus líderes, que, a propósito, derrubaram Levy.

Não é por outro motivo que o mercado “comemora” (de maneira otimista demais, mas fica para outro dia) cada passo mais próximo do impedimento da presidente como um passo a mais no sentido de adotar as medidas que permitam ao país recuperar sua saúde financeira e restaurar o crescimento da produtividade.


Neil Gaiman escreveu memoravelmente que uma história não precisa ter acontecido para ser verdadeira. O que vale, porém, no reino da ficção, lá deve permanecer; no mundo real esta ficção nada mais é do que outra mentira, a coroar as várias sob as quais vivemos nos últimos anos.



(Publicado 27/Abr/2016)

Reações:

24 comentários:


Eu assisti a entrevista do Armínio Fraga no Roda Viva e ele não me pareceu muito animado, o Mansueto Almeida no Globo News Painel foi feliz em falar que não existe garantia em que o novo governo venha a fazer as coisas certas. O Eduardo Gianetti no mesmo programa falou o que o Marcos Lisboa já havia dito, seria preciso legitimar um novo governo pelo voto.
Qual a sua posição? Você se sentiria confortável em fazer parte de um governo com Romero Jucá, Moreira Franco e Geddel Vieira?
Podemos ter esperança em um ministério com o Kassab?
Isso em nada alivia a responsabilidade do atual governo, mas deixa uma desesperança enorme.

A sua análise não considera a influência de certos fatores na economia: Copa do Mundo/2014, Eleições/2014, manifestação 03/2015, Petrolão e crise política que culminou no impedimento.

Olhando para trás, o senhor vê as “raízes do fracasso” lá em 2014, quando Mantega era ministro e não se ouvia falar no Congresso.

Se as “raízes do fracasso” já estavam presentes em 2014, por que, em Jan/2015, ao olhar para frente, o senhor errou tão feio na previsão do crescimento do PIB para 2015?

InfoMoney, 14/01/2015: “na casa de 0.0% a -0.5% (supondo que não haja alteração na série histórica)”.

Bolsonaro presidente 2018,é quem vai tirar o Brasil desse atraso economico por meio de reformas liberais.

"A sua análise não considera a influência de certos fatores na economia: Copa do Mundo/2014, Eleições/2014, manifestação 03/2015, Petrolão e crise política que culminou no impedimento."

Não considera também que o gramado estava pesado...

"Se as “raízes do fracasso” já estavam presentes em 2014, por que, em Jan/2015, ao olhar para frente, o senhor errou tão feio na previsão do crescimento do PIB para 2015?"

Você acha contração do PIB de 0% a 0,5% um sinal de sucesso?

A propósito, à época o consenso de mercado era +0.4%.

"Você se sentiria confortável em fazer parte de um governo com Romero Jucá, Moreira Franco e Geddel Vieira?"

Considerando que fiz parte e um governo com J. Dirceu, Dilma e Lula, meus parâmetros de qualidade não são particularmente elevados.

Mas, não. Nem deste próximo, nem de qualquer outro. E não só porque a tarefa é difícil (este seria motivo para entrar, na verdade), mas porque já tive minha experiência, foi ótima e não quero mais.

E de Bolsonaro (como conselheiro)?

Alex, o que acha da meta de inflacao no Brasil em 4,5%? Como fazer para caminharmos para uma inflacao mais normal?

eu acho que o sr está sendo muito rigoroso com o governo de Dilma, talvez até por consequência dos erros cometidos pelo pt e pela própria presidente na condução de certas medidas, ou talvez no intervencionismo voluntarista infundado que caracterizou algumas práticas de dilma. Mas nada disso é justificativa para violar o voto do cidadão. E certamente não para entregar aos políticos que articulam para viabilizar a troca do poder, vulgo golpe.

De fato, incompetência não justifica impedimento; o que justifica impedimento é a fraude fiscal comprovada, inclusive pelo Banco Central.

E quanto a "violar o voto", imbecil, você já viu impedimento de alguém, que não tenha sido eleito?

Alex, o que acha da meta de inflacao no Brasil em 4,5%? Como fazer para caminharmos para uma inflacao mais normal?

Não existe nenhum processo contra Tombini que prove que houve omissão do BC,ele tem reputação ilibada .Ja Gustavo Franco e cia tiveram seus processos reabertos pelo STF por improbidade.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1754414-stf-desarquiva-acoes-contra-ministros-de-fhc-por-improbidade.shtml

"Não existe nenhum processo contra Tombini que prove que houve omissão do BC,ele tem reputação ilibada ."

Processo não prova nada; condenação sim. Pergunte ao Zé Dirceu, por exemplo.

Incompetência ainda não é motivo de condenação criminal; se fosse, o Pombini estaria frito. O que não nos impede, claro, de apontar sua incapacidade de manter a inflação na meta, nem rir dos que o apóiam.

Ele tem uma vida honrada no setor público e isso incomoda muitas pessoas.Ele não trabalhou para Daniel Dantas,nem Andre esteves,não tirou dinheiro do pobre por meio do PROER e não assessorou politicos envolvidos em escandalos de corrupção.

Alex,

Vcs dividiram o Copom por um tempo. Tinha uma boa relação com o Tombini na época?

"Ele tem uma vida honrada no setor público e isso incomoda muitas pessoas.Ele não trabalhou para Daniel Dantas,nem Andre esteves,não tirou dinheiro do pobre por meio do PROER e não assessorou politicos envolvidos em escandalos de corrupção."

E nunca entregou a inflação na meta e deu um prejuízo de R$ 96 bilhões no ano passado, que se somam aos R$ 19 bilhões de 2014.

R$ 115 bilhões em dois anos...

Não existe provas que a ação foi dele,o BC é comandado por um colegiado de diretores.Na gestão dele a inflação foi mais baixa que na gestão do Arminio Fraga.

Não há dúvida que Dilma tem que tirar o time de campo. O juiz à expulsou e depois foi pego aceitando propina. A CBF escalou outro time, mas parece que este time não aprendeu as lições. Ao invés de trazer talento e jovens que tem fome de gol, está trazendo jogadores com contratos antigos...

O problema do Brasil não é só econômico, mas também é moral. Temer parece querer atacar o primeiro mas não o segundo. Acho que ano que vem a Câmara elege um novo Presidente da República. Aguentem firmes pois tem muita lavagem à ser feita.

"Não existe provas que a ação foi dele,"

Não, imagine, é só o principal dirigente do banco. Como é que ele iria saber?

Não foi uma decisão monocrática dele,foi da diretoria.Não existe nenhum processo responsabilizando ele e a diretoria por esses prejuizos,mas o senhor como cidadão pode exigir do BC explicações.

"Não foi uma decisão monocrática dele,foi da diretoria."

Ah, ele não faz parte da diretoria?

Ao todo são 9 diretores!!

Alex, viu a entrevista do Armínio Fraga no Roda Viva? Achei fraquíssimo. Se dependesse dele não fariamos nenhuma reforma profunda nesse país.

"Ao todo são 9 diretores!!"

Putz, nem contar sabe...

"Alex, viu a entrevista do Armínio Fraga no Roda Viva?"

Não vi, não posso comentar a entrevista, mas tenho certeza que seria um excelente ministro.