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terça-feira, 24 de maio de 2016

O tamanho da encrenca

As contas públicas se encontram em estado grave, fruto de anos de descaso, e a solução para o problema envolve uma equação política complicada. Não está claro que o novo governo consiga resolvê-la, embora suas chances sejam bem melhores do que as da administração anterior.

Para dar uma ideia do tamanho da encrenca, no ano passado o governo federal gastou quase R$ 1,2 trilhão (é “trilhão” mesmo), quase um quinto de tudo que foi produzido no país, o PIB, em 2015. O conjunto dos estados gastou R$ 536 bilhões, quase um décimo do PIB.

Sem contar, portanto, os mais de 5.500 municípios, a despesa não financeira do setor público “comeu” pouco menos de 30% do PIB, montante que deve se manter aproximadamente constante em 2016. Muito gasto, mas pouco investimento, que, entre estados e União, não passou de 2% do PIB, irrisório face às necessidades do país.

Não é só o tamanho do gasto que preocupa; também seu ritmo de crescimento tem superado persistentemente o do produto. Entre 2012 e 2015, descontada a inflação, os gastos federais cresceram 5% ao ano, enquanto no caso dos estados a expansão foi algo mais modesta, na casa de 2% ao ano. Já o PIB...

Esta dinâmica perversa se origina principalmente do dispêndio obrigatório do governo, que subiu 6% ao ano no caso do governo federal e 3% ao ano para o conjunto dos estados. Os motivos são vários: regras de reajustes de previdência e funcionalismo, ausência de idade mínima para aposentadoria, vinculações orçamentárias, limites mínimos para certas despesas, para mencionar apenas alguns.

Isto se traduz num orçamento público no Brasil extraordinariamente amarrado. No caso federal, de cada R$ 100 de gasto, o governo pode dispor livremente de pouco menos de R$ 10; o resto é mandatório.

Boa parte disto resulta de disposições constitucionais, algumas datando ainda de 1988, outras de períodos mais recentes. De uma forma ou outra, contudo, significam que, sem mudança de regras, as despesas seguirão crescendo em ritmo superior ao do PIB, impossibilitando na prática qualquer ajuste fiscal e, portanto, o controle do endividamento público.

A conclusão inescapável é que a principal tarefa da nova administração envolve convencer o Congresso a mudar a Constituição para adequar o ritmo de crescimento das despesas à expansão do PIB, escapando da armadilha em que fomos colocados pela política econômica anterior.

No entanto, o que parece óbvio para nós, tecnocratas, envolve custos significativos para qualquer político, que certamente terá imensas dificuldades para explicar a seu eleitor ter apoiado medidas que postergaram seu acesso à aposentadoria, ou que reduziram o montante de recursos direcionado à saúde ou à educação.

Houve, é bom que se diga, momentos em que o país conseguiu se mobilizar para levar adiante reformas significativas, esforço que se estendeu por vários mandatos, de Collor a Lula, e que foi imprudentemente negligenciado nos últimos dez anos.


Não é claro, porém, que a atual configuração das forças políticas se alinhe no sentido de avançar sobre estes temas; pelo contrário, o Brasil permanece dividido, senão hostil à mensagem reformista. Apesar de bons nomes na equipe econômica, simplesmente não consigo ficar otimista com o que nos espera.



(Publicado 18/Mai/2016)

Reações:

5 comentários:

Contas rejeitados até no futebol. Fica difícil mesmo, ein? O problema foi a falta de um Estado?

Na verdade não expandiram os gastos o suficiente, tinha que endividar mais ainda.

Teoricamente os percentuais mínimos constitucionais para saúde e educação não deveriam ser problema, porque cairiam em valor real quando caísse a arrecadação como acontece agora.
O problema é que se nos tempos de bonança isso virou mais despesa com pessoal, fica difícil já que não é possível demitir servidores e nem reduzir salários.

Revista do FMI condena as políticas neoliberais: http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2016/06/pdf/ostry.pdf

Reforma política já! Cadeia para o Ali-Lula e os 500 ladrões já! Aí poderemos começar a realizar nossos sonhos. Os sonhos de um Brasil mais justo, próspero, seguro e ético.