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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Anatomia de um choque


Não é segredo que o Banco Central trata o recente aumento do preço internacional de commodities agrícolas como um “choque de oferta”, com implicações fortes para a política monetária. Pressupõe-se que seja um fenômeno semelhante à elevação das tarifas de serviços públicos, ou dos preços de petróleo, que tendem a elevar a inflação e reduzir a renda, limitando a propagação do aumento inicial de preços.

Em tais casos o BC combate os chamados “efeitos secundários”, por exemplo, tentativas de repasse dos preços mais altos, mas acomoda o impacto do choque no intervalo ao redor da meta. Diga-se, aliás, tal intervalo existe apenas para tal fim, certamente não para que o BC mire a priori na parcela entre a meta e o limite superior do intervalo.

Diga-se também que, pela mesma lógica, no caso de um choque de oferta positivo, por exemplo, uma redução de tributos sobre um insumo relevante (energia?), o BC igualmente não deveria reagir ao efeito primário; apenas às reações que pudessem levar a inflação abaixo da meta, mas estas são apenas divagações de um obsessivo, não o ponto central do artigo.

A questão é saber se podemos caracterizar a seca nos EUA, que contraiu a produção agrícola naquele país, como um choque de oferta do ponto de vista do Brasil? Tenho dito que não. Os preços se elevaram, mas, como o Brasil é exportador líquido destas commodities, o efeito sobre a renda nacional é positivo: não há plantador nacional de soja chorando pela quebra da safra americana. Na perspectiva deste fazendeiro o que houve foi um aumento na demanda por seu produto, levando a preços internacionais mais elevados.

Na verdade, na visão do fazendeiro brasileiro o motivo para alegria é ainda maior. Não houve apenas aumento dos preços em dólar, mas também um aumento dos preços medidos em reais, elevando adicionalmente sua renda às expensas dos consumidores nacionais, em particular a fração mais pobre da população, cujo gasto com alimentos compromete parcela maior do seu orçamento (argumento algo demagógico, sim, mas não menos verdadeiro).

Alguém poderia imaginar que isto é inevitável: se os preços aumentam lá fora devem também subir por aqui e que, portanto, nada poderia ser feito, mas a evidência sugere precisamente o contrário.

Começo notando que de 2006 a 2010, a despeito de uma elevação considerável dos preços internacionais de commodities (em torno de 35%), os preços em reais subiram consideravelmente menos (9%). O motivo é claro: a elevação dos preços das commodities corresponde a um aumento dos preços das exportações brasileiras relativamente às importações. Tal melhora de termos de troca tende a fortalecer a moeda, atenuando o impacto dos preços.

Em contraste, a recente elevação de preços internacionais de commodities se traduziu integralmente sobre preços domésticos porque a taxa de câmbio, ao contrário do ocorrido anteriormente, foi mantida fixa.

Isto fica claro no contraste da experiência brasileira com a de países latino-americanos que, como o Brasil, são exportadores líquidos de commodities, mas que, ao contrário do que ocorre por aqui, mantiveram o regime monetário e cambial que vigorava até há pouco nestas plagas, a saber, metas para a inflação e câmbio flutuante.

Fonte: Autor, com dados do CRB, BCB, BCCh, BRC, e BCRP 

A comparação é reveladora: preços de commodities (índice CRB) medidos nas moedas destes países (Chile, Colômbia e Peru) têm caído desde o começo do ano, enquanto os preços em reais seguem pronunciada trajetória de elevação, mesmo antes da elevação dos preços em dólar, que permanecem algo abaixo de onde estavam no início de 2012. É óbvio que o desempenho distinto se deve ao comportamento díspar das moedas: enquanto o dólar encareceu 10% no Brasil, se tornou mais barato (de 3% a 8%) nas demais economias.

É interessante notar que, até 2010, estas moedas eram fortemente correlacionadas. Foi, portanto, a política brasileira de manipulação do câmbio que implicou a elevação dos preços domésticos de commodities. Caso a moeda flutuasse de verdade, o real provavelmente teria de apreciado em linha com as demais e estaria hoje entre R$ 1,70-1,80/US$. Neste caso os preços domésticos de commodities seriam em torno de 15% mais baratos e a inflação consideravelmente mais baixa.

Este resultado traz duas conclusões relevantes. Em primeiro lugar que, conforme argumentado, a elevação de preços domésticos de commodities nada tem de choque de oferta. Revela, além disso, os limites muito claros da possibilidade de manter a inflação na meta quando o BC tem como um de seus objetivos principais fixar a taxa de câmbio. Nada que não soubéssemos; apenas o que nossas autoridades resolveram ignorar.

Quem vai juntar os pedaços?


(Publicado 1/Nov/2012)

Reações:

64 comentários:

Parabéns pelo sóbrio artigo, sem "papas na língua". Porém, faço a ressalva que nem só de inflação baixa dependemos todos nós. Por mais conceitualmente nojenta que seja a intromissão no funcionamento do mercado cambial, essa intromissão é que permite a indústria brasileira ganhar um pouco mais de sobrevida. O ideal, com certeza seria a desoneração tributária , trabalhista e de infraestrutura. Mas mexer no câmbio não é o correto, mas é o menos complexo. Quer coisa mais brasileira que optar pelo remendo simples do que pelo árduo e politicamente difícil acerto perene? A teoria lulista dos "puxadinhos" se mostra presente aqui também.

Ótimo!

Li esses dias que já tem gente no Chile reclamando da moeda forte por lá.
Será que vão abrasileirar também?

O controle do câmbio, portanto, tem se mostrado eficaz no Brasil?

"O controle do câmbio, portanto, tem se mostrado eficaz no Brasil?"

Para acelerar a inflação? Não há dúvida...

Lamentável que a população brasileira pague pra sustentar a ineficiência de algumas indústrias e lobistas.

Essa é a pior equipe econômico que o Brasil tem desde o plano real. Infelizmente pra nós e pra nossa qualidade de vida.

Por que as pessoas insistem em enxergar o controle do câmbio como pressão de determinados grupos?

Alexandre, me tira uma dúvida?

Em que patamar se situa a NAIRU no caso da economia espanhola?

Att,
PO

Alex,
O fato do cambio flutuante absorver choques de preços de commodities não significa que o choque seja de demanda, mas sim que houve um choque de oferta que seria absorvido em um regime de cambio flutuante mas que nao foi pelo fato do regime ser de cambio administrado.

Gostaria de saber a sua definição de choque de demanda, se possível, por favor.

Abs

" O fato do cambio flutuante absorver choques de preços de commodities não significa que o choque seja de demanda, mas sim que houve um choque de oferta que seria absorvido em um regime de cambio flutuante"

No caso de um choque de oferta o câmbio teria se desvalorizado, não valorizado. Quanto à definição, está no texto.

"Por que as pessoas insistem em enxergar o controle do câmbio como pressão de determinados grupos?"

Porque é verdade?

"Em que patamar se situa a NAIRU no caso da economia espanhola?"

Sei lá: provavelmente muito abaixo de onde está o desemprego observado hoje.

Alguém sabe de uma estimativa recente?

Eu sempre quis uma palavra que o definisse. Você a deu: obsessivo. Eu mesmo tenho intolerância para cara-de-pau e charlatanismo, mas a forma como você reage à quermesse é mesmo a de um obsessivo. No mais os argumentos do texto têm a lógica cristalina e a franqueza de um... obsessivo.

No ciclo de alta das commodities a preocupaçao era se teriamos uma Dutch desease. Acabamos tendo uma Mantega desease.

"Sei lá: provavelmente muito abaixo de onde está o desemprego observado hoje."

Não seria o caso então de estar havendo uma mega desinflação (ou até mesmo deflação)?

"Porque é verdade?"

E o fato de haver relação positiva entre câmbio real e evolução do produto deve ser ignorado?


"Anônimo says:
1 de novembro de 2012 11:53 Reply

Por que as pessoas insistem em enxergar o controle do câmbio como pressão de determinados grupos?"

Bem, será que é porque a pressão é real?

Qual outra motivação você elegeria? Ideologia, por exemplo, ou apenas implicância?

"Não seria o caso então de estar havendo uma mega desinflação (ou até mesmo deflação)?"

Desinflação sim; já deflação é limitada por rigidez de preços.

"E o fato de haver relação positiva entre câmbio real e evolução do produto deve ser ignorado?"

Fato? Você deve estar confundindo os termos: fato é realidade; o que você imagina ser verdade chama-se conjectura (estou bonzinho hoje: deve ser a véspera do feriado).

Isto sem entrar na diferença entre câmbio real e câmbio nominal...

"No caso de um choque de oferta o câmbio teria se desvalorizado, não valorizado. Quanto à definição, está no texto."

Alex, por que que você se nega a assumir que commodities são insumos de diversos processos produtivos? Um aumento de preços de commodities eleva as exportações brasileiras, mas também aumenta os custos. Isso é um fato, não tem como negar.

O cambio fixo ou flexível será determinante para a absorção dos choques, tanto de demanda quanto de oferta, que será via preços, no caso de cambio fixo, ou quantidades, caso o cambio seja flutuante.

Além disso, no caso de aumento dos preços de commodities, o cambio flutuante não vai conseguir absorver todo o choque, de forma que uma parcela será repassado para os preços, dependendo da elasticidade preço da demanda internacional desses bens.

Abs

"Alex, por que que você se nega a assumir que commodities são insumos de diversos processos produtivos? Um aumento de preços de commodities eleva as exportações brasileiras, mas também aumenta os custos. Isso é um fato, não tem como nega"

De novo: fato não é o que você imagina, mas o que ocorre.

Sob câmbio flexível um aumento do preço das commodities teria levado à apreciação do câmbio e os preços domésticos de commodities não teriam subido (ou teriam subido muito menos) e, da mesma forma, o custos dos insumo.

É irrelevante que elas sejam consumidas, usadas no processo produtivo, ou para limpar a bunda.

O que interessa é que o Brasil é exportador líquido desta joça e, por conta disso tem a relação inversa entre preços de commodities e taxa de câmbio sob regime flexível.

Se você não consegue entender isso está discutindo muito além da sua capacidade...

P.S. "dependendo da elasticidade preço da demanda internacional desses bens."

Hã?

O Alex hoje realmente está com paciência!

Aproveitem!

"Fato? Você deve estar confundindo os termos: fato é realidade; o que você imagina ser verdade chama-se conjectura (estou bonzinho hoje: deve ser a véspera do feriado)."

Não é um fato que uma desvalorização do câmbio real leva uma elevação das exportações líquidas e, consequentemente, do produto?

Alex,

Cuidado com as commodities com que você limpa a sua bunda...

Câmbio flutuante tira poder de burocratas e passa para o mercado. Câmbio administrado dá poder discricionário a burocratas que nunca exportaram ou importaram. O poder discricionário dá dinheiro para uma minoria e retira de uma maioria (até dos trabalhadores que seriam eleitores do PT). É o tal de ter algo valioso em suas mãos para beneficiar alguém (é isto mesmo que alguns pensam).
Defendem as mineradoras, as montadoras, por ái. Retiram poder de compra de todos.

"É irrelevante que elas sejam consumidas, usadas no processo produtivo, ou para limpar a bunda."


"Se você não consegue entender isso está discutindo muito além da sua capacidade..."

Realmente... está com uma paciência.... hauhaeuhaeuh. Imagina se não estivesse...

Vamos por partes, respondendo a todos os (fracos) economistas deste blog:

1- "O controle do câmbio, portanto, tem se mostrado eficaz no Brasil?".

1' Sim, tem se mostrado eficaz. A eficácia mede a relação entre os resultados obtidos e os objetivos pretendidos (definição). O governo queria mamnter o cãmbio em patamar mais competitivo para as exportações. Conseguiu! Podem criticar os efeitos colaterais, como a elevação da inflação, mas o governo conseguiu o que queria. Foi eficaz! Ponto!

PS: a elevação recente da inflação (pequena, diga-se de passagem) não impediu que a desvalorização cambial se transformasse tambem em desvalorização real.

2- "Por que as pessoas insistem em enxergar o controle do câmbio como pressão de determinados grupos?"

2'- Sim estas pressões existem, mas o mundo não é assim tão dominado por interesses quanto afirmam por aí. Trata-se da mesma babaquice dos que afirmam que o BCB é dominado pelo mercado financeiro. Interesses existem, mas não são eles que balizam grande parte das políticas públicas.

3- "Em que patamar se situa a NAIRU no caso da economia espanhola? Sei lá: provavelmente muito abaixo de onde está o desemprego observado hoje."

3'- Não vou responder à pergunta, mas sim ao conceito que ela engloba. Que tal pensar mais simples? Por exemplo, a economia brasileira estava crescendo a 7,5% com inflação na casa de 5%. Agora cresce 2% com inflação em 5,5%. Não seria esta uma evidência clara, escancarada, de que estamos diante de um choque de oferta negativo? Economistas neoclássicos afirmam que a relação nao é entre taxa de crescimento e inflação, mas sim entre hiato do produto e inflação. Logo, pode-se variar muito a taxa de crescimento, mas se a economia permanecer com taxa de desemprego acima da nairu, a inflação contiuará se acelerando. Vocês acreditam mesmo nisso? Voce desmistifica um argumento que aparenta fazer sentido, que é muito mais intuitivo (não que isso seja paramentro científico), por outro que apela (isso mesmo, apela) para conceitos invisiveis, com variaveis latentes (nao-observaveis)? A inflação na Espanha se acelerando desde junho de 2012, com taxa de desemprego em 25% e tem gente acreditando em história pra boi dormir de NAIRU?

4- "E o fato de haver relação positiva entre câmbio real e evolução do produto deve ser ignorado?"

4'- Não deve ser ignorado, pois não constitui um fato. Trata-se de algo um tanto polêmico ainda na literatura especializada. Existem autores que trazem evidências favoráveis e outros que não. No curto prazo há evidências favoráveis de que uma depreciação do cambio REAL eleva o produto. Segundo, Taylor (1995; p.17) “[…] the inverse relationship between the exchange rate and net exports is one of the more robust in empirical economics”. No longo prazo, o
vínculo entre crescimento e desvalorização cambial – está longe de constituir uma
verdade empírica. Ao contrário, na extensa literatura recente do campo de crescimento,
evidências nesta direção são exceções e não se sustentam ante os mais básicos testes de
robustez. Isto é, tendo sido obtida via growth regressions clássicas de forma reduzida,
sofrem dos problemas usuais deste tipo de metodologia e, via de regra, perdem
significância ante perturbações mais sofisticadas nos modelos utilizados.

Enfim, cansei de escrever.

Economista Y

Alexandre,

Para avaliar se a elevação de commodities constitui um choque de demanda ou oferta no caso do Brasil, há que se considerar mais variáveis do que sua exposição considera (isto é, apenas que somos exportadores líquidos de commodities).

Para caracterizar um choque de demanda positivo, é preciso que a demanda se expanda diante de tal elevação de preços. Certamente os fazendeiros tornam-se mais ricos e gastam mais diante de tal movimento. Todavia, as commodities tornam-se mais caras para infinitos consumidores e empresas que utilizam tais produtos em seus processos produtivos. Qual o efeito líquido disto tudo?

Difícil dizer...

Ok, vamos dar pros caras a hipótese de choque de oferta. Quem foi que disse que expandir a demanda é uma política inteligente nestes casos? Neste caso só haveria elevação de preço, sem impacto positivo sobre a renda (afinal de contas o choque representa restrição ao crescimento do produto). A elevação de preços anula parte dos " ganhos " de uma taxa de câmbio artificialmente desvalorizada.

"Não é um fato que uma desvalorização do câmbio real leva uma elevação das exportações líquidas e, consequentemente, do produto?"

Este é um fato de equilíbrio parcial, não geral. Precisa ver o que ocorre com o resto da economia e isto só para falar do lado da demanda; falta também ver se a oferta se expande.

Bazinga!

"Para caracterizar um choque de demanda positivo, é preciso que a demanda se expanda diante de tal elevação de preços. Certamente os fazendeiros tornam-se mais ricos e gastam mais diante de tal movimento. Todavia, as commodities tornam-se mais caras para infinitos consumidores e empresas que utilizam tais produtos em seus processos produtivos. Qual o efeito líquido disto tudo?

Difícil dizer..."

Só é difícil para você!

Se o país é exportador líquido o ganho dos produtores é, por definição, maior que a perda dos consumidores! Conseguiu entender ou só na versão para colorir?

Alexandre Schwartsman,
Ao ver o gráfico, você me fez lembrar Antonio Delfim Netto, pelo uso sorrateiro que o grande economista faz dos fartos conhecimentos que ele tem de estatística.
Em comentário que enviei 16/10/2012às 22:18 para parabenizar elogio a Antonio Delfim Netto que "O" Anonimo fizera segunda-feira, 15/10/2012 às 12:24 em seu post "Crepúsculo de partida" (http://maovisivel.blogspot.com.br/2012/10/crepusculo-de-partida.html) de quarta-feira, 10/10/2012, eu fiz destaque de crítica sua de 10/10/2012 às 12:08a Antonio Delfim Netto no post "Ligeiramente grávido" (http://maovisivel.blogspot.com.br/2012/10/ligeiramente-gravido.html) de quinta-feira, 04/10/2012. Reproduzo o que você dissera lá de Antonio Delfim Netto diante de um repto de um comentarista que quarta-feira, 10/10/2012 às 11:38, questionara você assim:
"E mais, quem é você perto do Delfim?"
Na sua resposta ferina você diz:
"Para começar um economista que NÃO arruinou o país; NÃO assinou alegremente o AI-5; NÃO fez parte de um governo liberticida (e homicida); NÃO manipulou índices de preços".
Como leigo, eu não poderia dizer como você "um economista". E talvez por ser leigo eu não tenha tanta certeza de que Antônio Delfim Netto tenha sido um economista que arruinou o país, mas considerei boas, ainda que com ressalvas, suas críticas ao economista da ditadura militar e que ainda hoje dá os pitacos dele. Avaliei, entretanto, que você não incluíra, entre suas crítica a Antonio Delfim Netto, uma que eu com freqüência faço menção: o uso malévolo do grande conhecimento que ele tem de estatística.
Bem aqui neste post “Anatomia de um choque” de quinta-feira, 01/11/2012, eu fiquei surpreso com este gráfico que traz quatro países em nada semelhante ao Brasil, quais sejam, EUA, Colômbia, Peru e Chile. Primeiro pensei que você não percebera que Colômbia, Peru e Chile são muitos diferentes do Brasil. Depois veio-me a idéia da manipulação. Você imaginara que os outros não iriam perceber a diferença e escolhera países que bem demonstraria sua tese, no melhor estilo de Antonio Delfim Netto.
Então lembrei de frase sua que me parecera estranho e que saíra no post "Full Metal Jacket" (http://maovisivel.blogspot.com.br/2012/10/full-metal-jacket.html) de sexta-feira, 26/10/2012, em que você diz:
“Unlike some of its Latin American peers, Brazil has never managed to actually get inflation fluctuating symmetrically around the target”.
Pares do Brasil na América Latina? Nunca consegui equiparar o Brasil com outro país aqui na América Latina. Talvez só tenhamos o México para comparação e talvez em uma defasagem de 30 a 40 anos, sendo que eles, por sorte, não tiveram o Plano Cruzado e o Plano Real e, se por sorte ou por falta de sorte não saberia dizer, eles estão próximos dos Estados Unidos.
No Valor Econômico o artigo “Anatomia de um choque” trouxe o gráfico ainda me parecendo mais manipulado apresentando apenas a média para Chile, Peru e Colômbia. Voltei ao post "Full Metal Jacket" que eu havia lido de soslaio e entendi melhor o significado de seus pares. Você se referia à adoção do Regime de Metas de Inflação. Aparentemente a manipulação não é tão grande. Peru, Colômbia e Chile foram escolhidos porque adotam o Regime de Metas de Inflação.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/11/2012

"Sim, tem se mostrado eficaz. A eficácia mede a relação entre os resultados obtidos e os objetivos pretendidos (definição). O governo queria mamnter o cãmbio em patamar mais competitivo para as exportações. Conseguiu! Podem criticar os efeitos colaterais, como a elevação da inflação, mas o governo conseguiu o que queria. Foi eficaz! Ponto! "

Se o bc e uma instituição publica, regulada por lei e nela estabelece uma meta de inflação, quando este assume (arbitrariamente), outra meta e essa prejudica a meta determinada por lei, bem, não temos decisões muito eficazes. O corte analítico e anterior ao proposto.

MF

Um dos comentarios bobocas mais comuns de se ouvir da boca de brasileiros eh que o Brasil nao tem pares na America Latina. Geralmente esse comentario eh usado para justificar alguma desvantagem brasileira, por exemplo, o Chile tem renda per capita mais alta, um povo mais educado e criminalidade baixissima... mas nao devemos comparar com o Brasil porque temos 200 milhoes de habitantes!

Sim, Chile, Peru e Colombia sao nossos pares... E o fato que eles crescem mais rapido que a economia brasileira nao eh porque eles sao pequenos, andinos ou possuem terreno em altas altitudes, mas - entre outros motivos - porque eles escolheram se integrar a economia globalizada enquanto nos escolhemos nos integrar a Venezuela e a Argentina.

Do mesmo modo, enquanto Chile, Colombia e Peru crescem mais rapido que o Brasil, tambem tem inflacao mais baixa. Novamente nao eh porque sao pequenos, andinos e com terreno na altitude, mas sim porque escolheram deixar o cambio apreciar mais do que nos.

"Não é um fato que uma desvalorização do câmbio real leva uma elevação das exportações líquidas e, consequentemente, do produto?"

Nao. Isto eh verdade apenas quando a economia tem folga. Uma hipotetica desvalorizacao do cambio real na Espanha de hoje levaria a um aumento do produto. A mesma desvalorizacao do cambio real deve ter efeito negligivel ou nulo no Brasil de hoje com baixo desemprego.

"Não vou responder à pergunta, mas sim ao conceito que ela engloba. Que tal pensar mais simples? Por exemplo, a economia brasileira estava crescendo a 7,5% com inflação na casa de 5%. Agora cresce 2% com inflação em 5,5%."


Errado. A ultima vez que o Brasil cresceu a 7.5% foi no comeco dos anos 70. 2010 foi apenas a retomada depois da contracao de 2009. Se qualquer economista achou em 2010 que 7% ou 5% poderia ser a velocidade de cruzeiro da economia brasileira, esse sujeito realmente nao sabia o que estava falando.

" Não seria esta uma evidência clara, escancarada, de que estamos diante de um choque de oferta negativo?"

Nao, pelo motivo que expus acima e aquilo que o Alex ja escreveu.

Para aprovar uma verba pequena no congresso nacional a dificuldade é imensa.
Com o câmbio administrado dois ou três burocratas desconhecidos e com competência contestada por muitos, passam a ter poder (superior ao do congresso nacional) de retirar de muitos para dar a poucos. Seria até aceitável se fosse aprovado pelo congresso uma verba para estas doações e tributação escondida. O pior de tudo é que a maioria que defende o câmbio administrado não sabe disto.
COMENTÁRIOS QUE RECEBI DE UM EXCELENTE JORNALISTA DE ECONOMIA E FINANÇAS:
"O câmbio alto e o juro baixo são uma política de Estado agora!
O governo vai defender isso de todas as formas, não importando as distorções que venha causar.
Acho ruim, pois o governo faz uma tremenda transferência de renda da população para o setor industrial, que nem sempre responde de forma “justa” a essas benesses do governo."
SE EXISTE AUDITORIA DISTO? NÃO SEI (acho que não deve ter.). Pessoalmente não confiaria tal poder a burocratas (o pior de tudo é que quase ninguém sabe disto.).

Alex,

Por que eh um imperativo pensar em equilibrio geral?

Abracao,
Marcos

Alexandre Schwartsman,
Tratar Brasil, Colâmbia, Peru e Chie como pares porque estes países adotam o regime de metas de inflação faz sentido, mas não justifica a presença dos Estados Unidos. E ademais, para aceitar esta semelhança expressa neste post “Anatomia de um choque” é preciso negar validade a post anterior seu, “Tem, mas acabou”, de quarta-feira, 19/09/2012, onde você diz:
“. . . pois me parece claro que, se restava ainda dúvida acerca da sobrevivência do regime de metas no Brasil, a ata foi a metafórica pá de cal. Em particular o parágrafo 19 é o epitáfio do regime . . . ”
Nem tudo, entretanto, está perdido. Se o gráfico não configura o uso sutil dos conhecimentos estatísticos com a intenção subliminar de escamotear diferenças à maneira sorrateira de Antonio Delfim Netto, diferenças que seriam visível no perfil exportador dos países do gráfico ou na participação das exportações no PIB de cada país, nem se presta a recomendar comportamento cambial semelhante do Brasil por efetivamente não se ter mais aqui um par dos países que adotam regime de meta de inflação na América Latina, ele parece trazer uma demonstração às escâncaras de que o regime de metas de inflação não se constitui em um modelo adequado para o Brasil. É claro que se a economia brasileira não se deslanchar, eu vou reler muitos dos seus ensinamentos, mas não me parece que seja este o futuro mais imediato que nos apresenta.
Além disso, eu pergunto o que acontecerá quando a economia americana estiver crescendo a taxas mais elevadas e o FED precisar enxugar toda a liquidez que ele jogou no mercado? A última experiência com a elevação dos juros básicos americanos nos meados da década de 90 foi a desarrumação de todos os países que usufruíam da febre das commodities (Se bem que aquela época o que era mais febril era a sobra de dinheiro). Naquela época o preço das commodities não caiu tanto, apenas houve redução do fluxo de dólar para as economias de periferia. A queda absurda dos preços das commodities se verificou no início da década de 80 na esteira da elevação de juros pelo FED, sendo que em relação ao petróleo, houve que se esperar pelo fim da guerra Irã-Iraque.
Será que em um futuro mais longínquo a política cambial brasileira atual não se mostrará mais adequada? Pelas diferenças que eu vejo entre o Brasil e países como Peru, Chile e Colômbia, eu não considero recomendável que se adotem aqui políticas econômicas monetárias e cambiais semelhantes às adotadas nesses três países. É opinião de leigo, é claro, mas que só os fatos poderão desmentir.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/11/2012

"Se o país é exportador líquido o ganho dos produtores é, por definição, maior que a perda dos consumidores! Conseguiu entender ou só na versão para colorir?"

Ops, acho que nao Alexandre. Nao eh porque exportamos mais do que importamos que o ganho dos produtores supera a perda dos demais agentes. Nunca vi burrice maior...

Faca o favor de se corrigir senao voce vai passar vergonha aqui...

Pense no que vc falou...

"Não é segredo que o Banco Central trata o recente aumento do preço internacional de commodities agrícolas como um “choque de oferta”, com implicações fortes para a política monetária. Pressupõe-se que seja um fenômeno semelhante à elevação das tarifas de serviços públicos, ou dos preços de petróleo, que tendem a elevar a inflação e reduzir a renda, limitando a propagação do aumento inicial de preços."

Não seria aumento do preço internacional de commodities agrícolas .... tendem a elevar o nível geral de preços? ou seria uma discussão superada?

"Tratar Brasil, Colâmbia, Peru e Chie como pares porque estes países adotam o regime de metas de inflação faz sentido, mas não justifica a presença dos Estados Unidos. "

Não estou tratando dos EUA no gráfico, oh infeliz, mas do CRB expresso em dólares, moeda de um país com este nome...

Pô meu, tem gente aí que não sabe que exportação líquida é X-I e ainda o chamou de burro. Você não vai responder o gênio?

"Nao eh porque exportamos mais do que importamos que o ganho dos produtores supera a perda dos demais agentes. Nunca vi burrice maior..."

Parem as máquinas! Temos o Jumento de Ouro TM incontestado de 2012 e o ano ainda nem acabou (nem os jumentos),.

Versão para colorir:

Produzimos 100, consumimos: 20; exportamos 80 (seria desnecessário explicitar as exportações, mas, com um Jumento de Ouro TM nunca se sabe. O preço é $ 1

O preço vai a $ 2: o produtor ganha $ 100 adicionais, mas o consumidor agora paga $ 20 a mais. Será que o ganho do produtor supera a perda do consumidor? Não sei, não sei, quanta incerteza, oh, quanta incerteza...

A propósito: se forem dois bens, com aumento do preço do bem do qual se é exportador líquido vale o incerto resultado acima, como qualquer um dos meus alunos pode demonstrar...

"Não seria aumento do preço internacional de commodities agrícolas .... tendem a elevar o nível geral de preços? "

Sim, só que tinha "preço" demais no parágrafo.

Alexandre Schwartsman (02/11/2012 às 18:41),
Se você tivesse feito um esforço um pouco maior e escolhido a libra para acompanhar os preços das commodities, consolidaria um gráfico mais consistente e não haveria motivo para eu questionar sua argumentação como fiz na frase que transcrevo a seguir:
"Tratar Brasil, Colômbia, Peru e Chile como pares porque estes países adotam o regime de metas de inflação faz sentido, mas não justifica a presença dos Estados Unidos."
Se o quinto preço estivesse em libra então a sua comparação seria sobre a variação dos preços das commodities em cinco países com o Regime de Metas de Inflação, supondo teria sido só retórica o seu post “Tem, mas acabou”.
Além disso, você utilizaria o único país com PIB parecido com o Brasil que usa o Regime de Metas de Inflação. É claro, que ainda assim soaria estranho considerar o Reino Unido como par do Brasil.
Aliás, um pouco desta idéia de semelhança deve-se fundar na visão são paulina ou corintiana da realidade brasileira. Com uma população de 41 milhões de habitantes, São Paulo parece com a Colômbia que tem uma população de 44 milhões, embora o PIB de São Paulo seja o dobro do da Colômbia. E a área de 244.820 Km2 do Reino Unido faz um são paulino ou corintiano de coração encher-se de brios e dizer nós somos maiores do que eles.
Imaginar que a Inglaterra, uma ilha a poucos metros dos melhores e maiores estoques reguladores do mundo, possa ser comparada com o Brasil é idéia destrambelhada e talvez por isso você tenha preferido utilizar o dólar. Agora da próxima vez, em lugar de chamar o dólar de EUA, você o poderia chamar de Equador. Não tem Regime de Metas, seu PIB deve ser 3% do brasileiro, mas faz bem o perfil de país exportador de commodities. E parece que para muita gente ilustrada é só isso que conta.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/11/2012

"Se você tivesse feito um esforço um pouco maior e escolhido a libra para acompanhar os preços das commodities, consolidaria um gráfico mais consistente e não haveria motivo para eu questionar sua argumentação "

Se eu vivesse no século XIX eu não teria um blog...

Caralho, eu racho de rir aqui!hahaha

Acho que o melhor modelo a ser aplicado aqui seria um modelo Heckscher-Olhin dinâmico.

Eh no minimo bizarro que o Sr. Mendes de Oliveira tenha como primeiro nome Clever.

Pelo menos o sujeito se identifica...

"Produzimos 100, consumimos: 20; exportamos 80 (seria desnecessário explicitar as exportações, mas, com um Jumento de Ouro TM nunca se sabe. O preço é $ 1

O preço vai a $ 2: o produtor ganha $ 100 adicionais, mas o consumidor agora paga $ 20 a mais. Será que o ganho do produtor supera a perda do consumidor? Não sei, não sei, quanta incerteza, oh, quanta incerteza..."

Alexandre, ha que se comparar o gasto dos fazendeiros vis a vis o gasto dos demais agentes, ou melhor, o quanto se eleva o gasto do primeiro diante do que se reduz o gasto do segundo.

A discussao eh em termos de gasto e nao de ganhos e perdas. Nesse caso, de fato, estaria em disputa o jumento de ouro.

Dado que a propensao a consumir dos grandes fazendeiros tende a ser inferior ao dos demais agentes, a questao torna-se mais complexa do que parece.

Soh pra esclarecer. Se nao foi isso que o cara quis dizer, elemerece mesmo o jumento de ouro...

abs

Bom livro Lectures on International Trade, do Bhagwati-Panagariya-Srinivasan.

A must-have

Tem entrevista do Tombini na Zero Hora dominical.

"Alexandre, ha que se comparar o gasto dos fazendeiros vis a vis o gasto dos demais agentes, ou melhor, o quanto se eleva o gasto do primeiro diante do que se reduz o gasto do segundo."

Esta é outra discussão; a questão era se o aumento de preços de commodities aumenta a renda do país que é exportador líquido de commodities...

isto dito, so o ganho for percebido como permanente (ou persistente) a maior parte será gasta pelo fazendeiro; senão não (sinais trocados para o consumidor). Tentar colocar o problema em torno de "propensões marginais a consumir" é ad hoc e deixa de lado toda teoria de consumo.

"isto dito, so o ganho for percebido como permanente (ou persistente) a maior parte será gasta pelo fazendeiro; senão não (sinais trocados para o consumidor). Tentar colocar o problema em torno de "propensões marginais a consumir" é ad hoc e deixa de lado toda teoria de consumo."

AHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUAHUHAUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUAHU

Alexandre,

"A questão era se o aumento de preços de commodities aumenta a renda do país que é exportador líquido de commodities..."

Perdoe-me Alexandre, mas ha que se considerar o movimento com um todo, senao, isto sim, seria ad-hoc.

E mais, aula basica de macroeconomia: o gasto determina a renda, de maneira simultanea e na mesma magnitude. Desconsiderar isto eh, alem de ad-hoc, errado! Simplesmente errado!

"E mais, aula basica de macroeconomia: o gasto determina a renda, de maneira simultanea e na mesma magnitude. "

Desculpe: já foi provado (2 de novembro de 2012 18:52) que a renda aumenta com a melhora dos termos de troca. Se quiser continuar a discussão vai ter que provar o contrário...

Desculpe, mas sua versao para colorir eh a grande prova final?

Ok, ignoremos as questoes complexas, afinal elas dao preguiiiiica ne?

A versão para colorir já prova que o aumento de preço de commodities aumenta a renda do exportador líquido. Prove que não e conversamos, ou está com preguicinha?

"De novo: fato não é o que você imagina, mas o que ocorre"
Essa é a definição do pensamento do keynesiano. Ele nao analisa os fatos, mas o que tem "lógica".

Alexandre Schwartsman (03/11/2012 às 11:21),
Você tem razão em não querer usar como referência uma moeda que perdeu todo o seu poder imperial há mais de um século.
Realmente eu errei em dar importância à coincidência de Brasil e Inglaterra, que têm PIB parecidos, adotarem o regime de metas de inflação. Coincidência que, embora com uma defasagem de 7 anos, teve origem semelhante, pois o regime de metas foi implantado na Inglaterra logo depois da crise da libra de 1992 em que se teve uma desvalorização e no Brasil, em 1999, logo após a desvalorização destrambelhada do real.
O mais interessante no meu erro em indicar a libra como moeda de referência foi que ao indicar a libra em razão de a Inglaterra adotar o Regime de Metas de Inflação eu estava dando relevância a um modelo que nada indica que seja tão relevante assim. Modelo que apesar de todo o avanço teórico que ele representaria vem sendo fustigado de todos os lados. É o que se vê, por exemplo, no texto “Inflation Targeting is Dead” de 14/06/2012 e que pode ser visto no link mostrado a seguir:
http://economistsview.typepad.com/economistsview/2012/06/inflation-targeting-is-dead.html
Ou matéria na revista Businessweek que trata de declaração de Virabongsa do Banco da Thailand e que foi intitulada “Bank of Thailand’s Virabongsa Says Inflation Target Ineffective” e aparecida em 07/08/2012. O endereço da matéria é:
http://www.businessweek.com/news/2012-08-07/bank-of-thailand-s-virabongsa-says-inflation-target-ineffective
Aliás junto ao post “Tem, mas acabou”, de quarta-feira, 19/09/2012 e de sua lavra, em resposta que eu envio 20/09/2012 às 21:25 para o comentário de “O” Anônimo enviado 20/09/2012 às 19:58, eu implicitamente refiro a esta perda de prestígio da libra como uma razão para a adoção do Regime de Metas de Inflação. Lá eu disse:
“Como a Inglaterra ia partir para uma situação bastante difícil de concorrência com o dólar de um lado e o euro que ia nascer de outro e tinha vindo de uma série crise no câmbio, eu imaginei que o regime de metas fora uma forma de ela assegurar um lucro um pouco acima do que a Europa e os Estados Unidos iriam oferecer”.
Então é isso, a Inglaterra adotou o Regime de Metas de Inflação porque viu no mecanismo uma boa forma de atrair capital externo oferecendo um juro ligeiramente acima dos outros juros de mercado e porque sabia que a sua moeda já não era mais a mesma moeda que imperou no século XIX. Além disso, a Inglaterra copiando a Nova Zelândia reverenciava um filho dela. Enquanto o Brasil e os seus pares na América do Sul copiaram por saber que suas moedas nunca valeram grande coisa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/11/2012

Alexandre Schwartsman (03/11/2012 às 11:21),
Reconhecendo que a perda de prestígio da libra, que no século XIX, como você implicitamente lembrou, foi a moeda do império, retira dela qualquer relevância para a escolher como moeda de referência, vale bem utilizar a situação da Inglaterra em 1992, para avaliar a decisão do governo brasileiro de fazer uma desvalorização do real 20 anos depois. Em 2011, o real girou por volta de 1,6 e agora gira por volta de 2,05 representando uma desvalorização de cerca de 25%.
Para a comparação desses dois momentos com vinte anos de diferença, apesar das diferenças entre Brasil e Inglaterra que se revelam especialmente na diferença da renda per capita quatro vezes maior na Inglaterra, vale transcrever uma análise que Affonso Celso Pastore faz da desvalorização da libra em 1992. Diz Affonso Celso Pastore no artigo “O Brasil e a crise do Sudeste Asiático” publicado no jornal "O Estado de S. Paulo” de 25-01-98, pp. B6:
“E, é essa componente de "profecia auto-realizável" que perturba as análises sobre as perspectivas da economia brasileira. Em 1992, a Inglaterra sofreu um ataque especulativo e desvalorizou a libra. Sua decisão, longe de ser irracional, atendeu aos melhores interesses do povo inglês e ocorreu como uma profecia auto-realizada. Suas reservas estavam em equilíbrio, o mesmo acontecendo com sua taxa cambial, mas ela estava em recessão. Os especuladores sabiam que se ela fosse atacada teria que escolher entre a elevação da taxa de juros, aprofundando a recessão para defender a libra, ou a desvalorização. Dada a recessão, as conseqüências inflacionárias da desvalorização seriam muito pequenas e como a defesa da libra impunha a elevação das taxas de juros aprofundaria a recessão. Era mais racional desvalorizar do que elevar os juros, porque a desvalorização traria, em adição, alguma recuperação da atividade econômica”.
Lendo essa passagem do artigo “O Brasil e a crise do Sudeste Asiático” de Affonso Celso Pastore, fica-se com a impressão que o governo de Dilma Rousseff antecipadamente desvalorizou a moeda para evitar ataque especulativo semelhante ao sofrido pela Inglaterra em 1992, ainda que o modelo do câmbio flutuante que até recentemente existia no Brasil, não existisse quando do artigo de Afonso Celso Pastore.
De todo modo essa diferença de vinte anos é menor do que a que o Brasil necessitaria, se crescesse a um ritmo mais acentuado, para vir a ter uma renda per capita igual à inglesa. Enfim, se crescêssemos mais de quatro vezes poderíamos considerar a Inglaterra como um nosso par e ai seria mais fácil avaliar se as políticas de juros ou monetárias ou cambiais são iguais ou diferentes e se são iguais ou diferentes os efeitos dessas políticas nos dois países vistos como pares.
Assim, parece-me que você esteve realmente correto em não tomar a Inglaterra como nosso par e sim o Chile, a Colômbia e o Peru.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/11/2012