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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mais importante artigo keynesiano desde o IS-LM de Hicks

Qualquer economista ‘keynesiano” que não conhece este artigo de cima para baixo só conhece o keynesianismo de curso de graduação.

Aggregate Demand Management in Search Equilibrium

http://www.jstor.org/pss/1837124

Abstract
Equilibrium is analyzed for a simple barter model with identical risk-neutral agents where trade is coordinated by a stochastic matching process. It is shown that there are multiple steady-state rational expectations equilibria, with all non-corner solution equilibria inefficient. This implies that an economy with this type of trade friction does not have a unique natural rate of unemployment.

Nobel 2010

The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2010 was awarded jointly to Peter A. Diamond, Dale T. Mortensen and Christopher A. Pissarides "for their analysis of markets with search frictions".

Nas minhas notas, o único que acertou foi o "O" (também tinha apostado no Douglas Diamond), porque "desemprego é um dos temas em voga hoje em dia.".

sábado, 9 de outubro de 2010

Unicórnios

Depois de lidar com uma alma penada que acha hipocrisia que um jornal seja a favor da liberdade de expressão e demita jornalistas que discordam de sua linha editorial, tenho que trazer esta pergunta à comunidade:

Existe algum intelectual na área de ciências sociais, com capacidade de publicar e merecer respeito de seus pares, que (1) é abertamente petista hoje em dia e, (2) não depende de seu petismo para poder ou dinheiro?

Tenho certeza que deve ainda existir alguém que se encaixa nestas duas categorias.

Só gostaria de saber quem.

Eles existem!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Lição de casa

São comuns avaliações que atribuem a fatores externos as flutuações da inflação. Na verdade, boa parte do debate acerca da aceleração inflacionária acabou centrada sobre esta questão e mesmo hoje o ambiente internacional é frequentemente citado como uma força que pode ajudar no controle dos preços domésticos, por conta do excesso mundial de oferta. Da forma como entendo o problema, contudo, me parece que estamos pedindo da economia global mais do que ela pode nos dar.

De fato, analisando a evolução inflacionária nos países latino-americanos que adotam do regime de metas para a inflação (Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru), observamos alguns fatos interessantes. Para começo de conversa, a despeito do péssimo histórico regional no que se refere à estabilidade de preços, estes países têm mostrado um bom desempenho (muito melhor, diga-se, do que o observado no caso de outras economias latino-americanas que não seguem o regime de metas), expresso em taxas de inflação bem-comportadas.

O bom comportamento, no caso, pode ser definido não só pela inflação historicamente baixa, nas também porque, de maneira geral, esses países têm conseguido manter os desvios da inflação com relação à meta dentro de intervalos modestos. E, de forma talvez ainda mais importante, a maioria deles registra desvios tanto para cima da meta, como para baixo, precisamente da forma como se espera que o regime opere.

Isto dito, o desempenho no que tange a este quesito não é uniforme dentro do grupo. Há países em que a inflação passa quase tanto tempo acima da meta como abaixo, como o Chile, onde, entre janeiro de 2004 e agosto de 2010, a inflação acumulada em 12 meses superou a meta 46% do tempo (49% se usarmos uma medida do núcleo de inflação que tipicamente retira do índice os efeitos de preços de alimentos e serviços regulados pelo governo). Peru e Colômbia mostram comportamento parecido (no caso colombiano quando usamos o núcleo de inflação).

Já Brasil e México (em particular este último) apresentam uma atuação bem pior: durante o período em questão a inflação superou a meta 65% do tempo no Brasil (73% no caso do núcleo), enquanto no México a inflação ficou nada menos do que 98% do tempo acima da meta (o núcleo 100%). Vale dizer, a noção que o BC brasileiro seria excessivamente conservador não encontra respaldo no seu próprio desempenho; no máximo, na comparação nada lisonjeira com o México.

Apenas este elemento já sugeriria haver mais disparidade dentro do grupo do que seria consistente com a ideia de forças globais determinando a evolução da inflação em cada país, mas há outros motivos para ceticismo.

É possível, por exemplo, calcular para cada um dos países no nosso grupo quão relacionado está o seu desvio da inflação vis-à-vis à meta com o desvio observado nos demais. Concretamente, podemos estimar se os desvios com relação à meta de inflação no Brasil se comportam de forma similar aos desvios com relação à meta para os outras economias da região que seguem um regime monetário e cambial como o nosso. E podemos, também, estender o exame para cada um desses países. Os resultados estão resumidos no gráfico.


Fonte: Autor (a partir de dados dos bancos centrais destes países)

Observamos então um fenômeno interessante: para todos os países, à exceção do Brasil, o desvio da inflação (cheia ou núcleo) com relação à meta é fortemente correlacionado ao desvio dos demais membros do grupo, mostrando que nesses casos parece mesmo haver algum fator comum, presumivelmente internacional, que leva a um desvio simultâneo relativamente à meta.


No caso brasileiro, porém, este efeito está ausente: a correlação entre o desvio da inflação cheia no Brasil e o resto do grupo é significativamente menor que a estimada para os demais; já quando usamos o núcleo de inflação a correlação se torna (levemente) negativa. Em outras palavras, no Brasil os desvios da inflação relativamente à meta não parecem seguir o mesmo padrão dos demais países da região, sugerindo que, ao contrário do caso anterior, a dinâmica de inflação nestas plagas parece resultar de forças domésticas, e não de choques internacionais.

Parte da explicação para este comportamento discrepante deve estar ligada à baixa exposição nacional ao comércio. Entre 2003 e 2009 a abertura do país ao comércio internacional (a soma de exportações e importações relativamente ao PIB) atingiu, em média, 26% (máximo de 29% em 2004; mínimo de 23% em 2009). Este número compara-se a 80% do PIB no caso chileno, 59% do PIB para o México, e 39% do PIB na Colômbia e no Peru.

Independente da explicação, contudo, este fenômeno sugere que não se deve dar ênfase excessiva à eventual ajuda que o ambiente externo possa oferecer no que se refere à inflação. Esta é uma lição que deve ser feita em casa mesmo.

(Publicado 7/Out/2010)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dinheiro vivo

Olha isso.

A firma Dinheiro Vivo, do patriota Luis Nassif, é dispensada de licitação e vende seus serviços à Petrobrás de julho de 2010 até fevereiro de 2011 por módicos... 880 mil reais! (contrato # 4600312034)

Homens dessa grandeza definem o nosso Brasil.

Não é de encher o coração de sentimento nacionalista?


Hat tip para o Gravata e o Leo, dois craques.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quem ganha o Nobel de Economia este ano?

Respostas na caixa de comentários (quem quiser justificar é bem-vindo). Depois compilo os números. (Sem sacanagem de votar mais de uma vez; é para ser divertido)


P.S. Copiado do blog do Mankiw.


IOF de 4%

Eu juro que eu gostaria de ser a mosca na parede da sala assistindo ao nosso ministro estrategizando contra o muro de dinheiro invadindo nossas praias.

Veja o placar da última batalha no UOL.

Quem sabe algum dia alguém filma este épico... Nosso ministro seria bem representado pelo Wagner Moura.


- É guerra, porra! Guerra cambial!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mais ovos mexidos

Quando respondi à pergunta do Bruno sobre as diferenças entre a inflação implícita (a diferença entre taxas pré e pós-fixadas) e a expectativa Focus, mencionei que havia motivos teóricos para isto e que postaria a respeito.


A abordagem vem do CAPM de consumo, exposto, por exemplo, no capítulo 10 do Lectures on Macroeconomics, de Blanchard e Fischer. Divirtam-se.

* * *

Considere um agente que vive dois períodos (isto é facilmente generalizável para “n” ou infinitos períodos), maximizando o valor presente esperado da utilidade nos dois períodos:

                 [1]

Onde  é positivo, mas menor que 1.

Imagine, por agora, que a única forma de carregar riqueza é através de um título de renda fixa com retorno nominal i, de tal forma que o valor presente esperado do consumo (nominal) nos dois períodos tenha que ser igual ao valor presente esperado nominal da renda nos dois períodos, isto é:

                      [2]

onde  é o nível de preços no período t. No caso, supomos que  seja conhecido, mas  não.

Resolvendo o problema de maximizar a utilidade esperada, sujeita à restrição acima achamos a seguinte equação de Euler:

                [3]

onde      é a taxa de inflação entre os períodos (1) e (2).

Suponha agora que haja um título indexado à inflação com taxa real de juros r. Não há mais incerteza acerca do nível de preços no período (t+1), nem, portanto, sobre a taxa de inflação.

Resolvendo novamente o problema de maximização achamos uma nova equação de Euler:

             [4]

Caso os dois instrumentos (o título prefixado e o indexado à inflação) estejam disponíveis, a arbitragem entre eles deve garantir que a utilidade marginal do consumo no primeiro período seja a mesma independente do instrumento escolhido para carregar a riqueza para o segundo período. Em outras palavras, as taxas “i” e “r”devem se ajustar de forma a tornar a investidora indiferente à escolha do instrumento.

Assim, usando as expressões [3] e [4] achamos:

        [5]

No entanto:

     [6]


Usando esta expressão acima em [4] e denotando a covariância entre a utilidade marginal no segundo período e o inverso da taxa de inflação por R, podemos mostrar que:

     [6a]

onde:

        [6b]

Para que a diferença entre a taxa nominal de juros, i, e a taxa real de juros, r, fosse a expectativa de inflação, isto é, para que:

 [7]

seria necessário que três condições valessem simultaneamente:

  [8]

  [9]

  [10]

A condição [8] só é válida se a utilidade for quadrática, o que implicaria utilidade marginal linear (o caso de equivalência de certeza). (Também é válida se a utilidade for linear, mas este caso é pouco interessante).

A condição [9] viola a desigualdade de Jensen. Como 1/(1+p) é uma função estritamente convexa, a desigualdade de Jensen implica que:


Já a condição [10] só valeria caso a consumidora seja neutra com relação a risco. Para ver isto suponha, por um segundo, que a consumidora seja avessa a risco (i.e., u”[C]<0). Neste caso se o inverso da inflação aumenta (isto é a inflação cai), o consumo no segundo período para quem investiu no papel prefixado aumenta. Neste caso, a utilidade marginal do consumo em (2) cai (porque u”[C]<0), ou seja, a covariância seria negativa (o aumento de 1/(1+p) implicaria queda de u’[C(t+1)].

Pelo mesmo raciocínio, caso a consumidora seja amante do risco (i.e., u”[C]>0), a covariância seria positiva. Apenas no caso de neutralidade com relação a risco (função utilidade linear) é que a covariância seria nula.

Voltando ao caso de aversão a risco (R<0), imagine, também por um segundo, que as condições [8] e [9] fossem, magicamente, válidas. A equação [6a] se tornaria:

                   [11]


Ou seja, quando a consumidora é avessa a risco, a taxa nominal tem que embutir um prêmio de risco superior à expectativa de inflação (e à taxa real de juros), para compensar a consumidora da incerteza quando ao preço (e, portanto, consumo) futuro. Mesmo se os riscos fossem igualmente divididos (digamos, 50-50) quanto ao nível de preços, uma consumidora avessa a risco acharia esta situação menos interessante do que garantir o consumo futuro com certeza aplicando num título indexado à inflação.

Este fenômeno tende a elevar a taxa nominal de juros (e, portanto, a inflação implícita) para além da “verdadeira” expectativa de inflação, E(1+p). A inflação implícita, assim, seria uma medida viesada da expectativa de inflação, a menos do caso de neutralidade com relação ao risco.

Deixo para os leitores mais interessados os sinais dos desvios esperados da inflação implícita com respeito à expectativa de inflação que decorrem das condições [8] e [9]. (Dica: para cada condição, suponha que as demais sejam atendidas).

sábado, 2 de outubro de 2010

Stand-up economist (ou, como preparar ovos mexidos)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma política estéril

Foi anunciado na semana passada que o Fundo Soberano do Brasil (FSB) passaria a comprar dólares para evitar a valorização do real frente à moeda norte-americana. As chances de atingir seu objetivo, porém, parecem muito remotas, a começar porque o diagnóstico acerca da força recente do real que parece estar por trás desta decisão se afigura equivocado. De fato, a reação das autoridades à apreciação da moeda sugere que entendem este fenômeno como algo exclusivo do Brasil; no entanto, a mera observação do que se passa nos mercados um pouco além do umbigo local mostra que o enfraquecimento do dólar é um evento global.

A apreciação do real face ao dólar reflete, na verdade, a fraqueza deste último, resultante, em larga medida, da percepção que a economia americana passa por um momento difícil no que se refere ao crescimento. Assim, nas últimas semanas (e meses), praticamente todas as moedas relevantes ganharam terreno frente ao dólar.

O real, em particular, foi das que menos se fortaleceu, fato que transparece, por exemplo, no encarecimento local do euro (das vizinhanças de R$ 2,20/euro para R$ 2,30/euro), bem como das demais moedas dos países da OECD e vários países emergentes.Neste contexto, quem acha que o FSB pode conter a apreciação da moeda provavelmente também acredita que Noé precisava mesmo era de um guarda-chuva.

Entretanto, mais relevante do que isso é a semelhança entre a atuação do FSB e do Banco Central no mercado de câmbio, fato que sugere ceticismo adicional acerca da capacidade do FSB de impedir o declínio (local) do dólar.

O BC, quando compra dólares de um banco, faz o pagamento por meio de criação de moeda. Não se trata de imprimir novas notas e entregá-las ao banco que lhe tenha vendido a moeda estrangeira, mas sim de um depósito na conta de reservas bancárias que esta instituição tenha junto ao BC. Qualquer banco com excesso de reservas vai normalmente a mercado para repassar estes recursos para outra instituição, mas isto faria com que a taxa de juros a que os bancos trocam reservas bancárias (a afamada Selic) caísse relativamente à meta definida pelo BC na reunião do Copom.

Para evitar que isto ocorra, o BC compra de volta (“esteriliza”) o excesso de reservas, trocando-as por títulos federais, de modo a trazer a taxa Selic para sua meta. No final do processo, tudo se passa como se o BC tivesse trocado diretamente títulos por dólares, mantendo, portanto, inalterada a taxa de juros. Contudo, se a taxa de juros não se altera, a taxa de câmbio também deveria permanecer a mesma (supondo, é claro, que os demais determinantes da taxa de câmbio, como preço de commodities, ou risco-país, se mantenham constantes). Ou seja, a intervenção “esterilizada”, que não implica alteração da taxa de juros, não deve ter efeitos sobre a taxa de câmbio.

O FSB, porém, fará exatamente o mesmo que o BC, trocando títulos federais que lhe serão entregues pelo Tesouro Nacional por dólares, sem afetar a taxa de juros. Por que, então, deveria obter resultado diferente?

Afora isso, o agente responsável pelas compras do Tesouro será o próprio BC. Assim, dado o ingresso líquido de dólares, compras mais elevadas por parte do Tesouro implicam necessariamente compras menores por parte do BC, ou seja, mesmo se alguém quiser acreditar que intervenções “esterilizadas” poderiam ter algum impacto sobre o preço do dólar, faltaria ainda explicar como a mera troca do ente público que compra moeda estrangeira poderia alterar de forma persistente a trajetória do câmbio.

Ao final da história, não deixa de ser revelador que – a despeito de toda experiência acumulada desde 2004 – ainda se insista em estratégias que já se provaram ineficazes, enquanto um ajuste fiscal que permitiria reduzir a taxa de juros continua a ser ignorado. O que falta para que a lição seja aprendida?

(Publicad0 29/Set/2010)