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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Resposta ao Carlos

Caro "O", o senhor até agora não tocou no aspecto mais importante tratado pelo Oreiro: Crescimento causando maior taxa de poupança. Ele usa o trabalho de Modigliani como "prova" do sentido causal do crescimento para a poupança e não o contrário.

O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?

Saudações,
Carlos

Respondendo ao Carlos:

Interessante pergunta. A citação do Modigliani não configura ‘prova’, ela apenas descreve os resultados que podem ser gerados com o modelo de consumo no ciclo de vida daquele economista em sua versão mais simples e estilizada.

O modelo de ciclo de vida representou um grande avanço no entendimento de economistas sobre a determinação da poupança, mas nesta versão estilizada deixa a desejar em alguns aspectos. Por exemplo, existe evidência empírica de uma correlação positiva entre taxas de poupança e níveis de renda per capita – uma característica dos dados que não é explicada pelo modelo. Assim como existe evidência de correlação positiva entre taxas de crescimento e taxas de poupança – uma característica dos dados que pode ser racionalizada dentro do modelo de Modigliani (para a evidência empírica, veja [1]).

Quanto à questão da causalidade, tenho algumas observações:

(1) Há muito nós sabemos que existe um viés na estimação da relação entre crescimento da renda e poupança: ganhos temporários de renda (por exemplo, devido a um choque nos termos de troca) são poupados em maior medida, portanto criando a ilusão de uma conexão mais forte entre taxas de crescimento de longo prazo e taxa de poupança.

(2) Existem mecanismos que explicariam uma causalidade no outro sentido, das taxas de poupança para o crescimento. Por exemplo, em um modelo neoclássico de Solow em que o crescimento é exógeno, os níveis de renda per capita no estado estacionário são função crescente da taxa de poupança. Então economias que por algum motivo passassem a poupar permanentemente mais teriam crescimento mais rápido durante o período de transição para o estado estacionário com maior nível de renda per capita.

(3) Uma maior taxa de poupança também pode aumentar o crescimento de longo prazo via redução de vulnerabilidade a crises. Um dos resultados mais influentes da literatura recente sobre crises é um paper de Valerie Cerra e Sweta Saxena [2] que mostra que perdas de produto devido a crises financeiras são permanentes. Na medida que países com taxas de poupança mais alta são menos propensos a crises financeiras, existe uma conexão causal das taxas de poupança para o crescimento econômico.

(4) O sempre-prolífico professor Oreiro escreve “O trabalho pelo qual Franco Modigliani ganhou o Prêmio Nobel de Economia mostra que o crescimento econômico gera a sua própria poupança. Esse é um resultado eminentemente Keynesiano !!!!”. Com todo respeito, esta é uma bobagem tão grande quanto um sujeito que, após constatar que o céu é azul e o ar quente e úmido, exclama “Estamos no Rio de Janeiro!”. É perfeitamente possível que o mundo não seja keynesiano e exista uma correlação positiva entre crescimento econômico e poupança. Assim como é possível o céu azul e o ar quente e úmido em Kinshasa ou Savannah. Mas se você avistar o Pão de Açúcar, pode ter certeza que está no Rio de Janeiro... Este é um exemplo ilustrativo do problema de identificação em economia. Voltando à questão do Carlos (O senhor tem algum evidência de que a causalidade é da poupança para o crescimento?), é muito difícil identificar a direção de causalidade entre poupança e crescimento, pois diferentes teorias plausíveis sugerem uma causalidade positiva em ambas direções.

(5) Resumindo: tanto evidência empírica quanto teoria implicam que taxas de crescimento afetam positivamente as taxas de poupança e vice-versa.

(6) Nosso país tem uma taxa de poupança bem baixa, em parte porque nossa taxa de crescimento é medíocre, mas também porque nossas políticas públicas são inconsistentes com taxas de poupança mais altas. Déficits públicos reduzem a taxa de poupança nacional; aposentadorias precoces e ricas para a elite dos servidores públicos também reduzem a taxa de poupança. Não por acaso, somos um país devedor líquido do resto do mundo e sofremos com os riscos inerentes a esta condição devedora.

Referências

[1] Norman Loayza & Klaus Schmidt-Hebbel & Luis Servén, 2000. "What Drives Private Saving Across the World?," The Review of Economics and Statistics, MIT Press, vol. 82(2), pages 165-181, May.

[2] Valerie Cerra & Sweta Chaman Saxena, 2008. "Growth Dynamics: The Myth of Economic Recovery," American Economic Review, American Economic Association, vol. 98(1), pages 439-57, March

Reações:

6 comentários:

Caro "O", agradeço muito a atenção.
Sua resposta foi bastante clara e honesta.
Parece que existe um puzzle aí...eu tendo a não concordar com o Oreiro, no entanto, como não existe evidência conclusiva de causalidade num sentido, fica difícil afirmar que o raciocínio do professor esteja errado, da mesma forma que o seu.

Ou seja, ainda tenho dúvidas se no caso chinês o maior crescimento, induzido em parte pela política cambial (afinal de contas tds concordamos que o câmbio chinês está desalinhado), não é a causa das altas taxas de poupança e não o contrário (como o senhor afirma).

De todo modo, precisaríamos duma taxa de câmbio ultra desvalorizada para gerar efeitos significativos no PIB, já que as exportações representam parcela ínfima do PIB.

Abraços,

Carlos

"O", obrigado pelas referencias. Na mesma edição do Review of Economics and Statistics, tem esse artigo (http://ideas.repec.org/a/tpr/restat/v82y2000i2p212-225.html) que parece mostrar que, em muitos casos, o efeito levantando pelo prof. Oreiro é pequeno (de crescimento gerando taxas de poupança pelo modelo de ciclo de vida do Modigliani). Ainda não tive tempo de ler o artigo. Vocês conhecem ele? É bom o artigo? Me pareceu interessante de primeira vista...

Se eu me lembro corretamente, esta edição do RESTAT tem uma meia dúzia de artigos sobre poupança. Artigos do Angus Deaton sempre merecem ser lidos. Na minha opinião, o maior economista aplicado vivo. Sou fã de carteirinha.

Cara, mto bom esse post...


Falta um post sobre causalidade Investimento - Poupança.

O que causa o que?

Abs

Parabens e obrigado pela aula. Poderia comentar o escrito do Olivier Blanchard (FMI) divulgado na última sexta feira (segundo Valor, Alex Ribeiro)?
Vocês estão ensinando ao Oreiro (obrigando-o a estudar, coisa que parece que ele não fazia). Vai acabar aprendendo e mudando de lado.

"Poderia comentar o escrito do Olivier Blanchard (FMI) divulgado na última sexta feira (segundo Valor, Alex Ribeiro)? "

Tenho que ler ainda para poder comentar... Talvez no fim de semana. Vou imprimir e levar para casa.