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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O ministro nervosinho

Muito embora o ministro da Fazenda tenha afirmado que sua decisão de antecipar o anúncio do resultado fiscal do ano passado (presumindo que não esteja errado, como esteve em outubro) fosse destinada a “acalmar os nervosinhos”, não é preciso muito esforço para perceber que são seus próprios nervos que se encontram à flor da pele.

Caso não estivessem, talvez lhe fosse possível perceber a futilidade da sua iniciativa. A começar porque só alguém muito divorciado da realidade poderia acreditar que a divulgação de um número tão conspurcado quanto o dado oficial do superávit primário poderia moderar os receios do mercado.

Ainda que, segundo o ministro, este tenha atingido um valor em torno de R$ 75 bilhões, sabe-se que apenas em novembro o montante de receitas não recorrentes atingiu nada menos do que R$ 35 bilhões, quase metade do saldo do ano. Na verdade, até novembro do ano passado, as receitas de concessões, dividendos e o Refis (o refinanciamento de dívidas tributárias em condições favoráveis) chegaram a R$ 59 bilhões. Assim, enquanto o número oficial do governo registra um superávit federal equivalente a 1,9% do PIB nos 12 meses terminados em novembro, o número corrigido – reflexo mais fiel do esforço fiscal – mal alcança 0,3% do PIB.

Neste sentido, como todos os analistas sérios são capazes de corrigir tais dados (com pequenas diferenças de abordagem), ninguém deve ter ficado particularmente impressionado com o anúncio autolaudatório. Se o ministro esperava fanfarras em resposta à sua entrevista, deve ter ficado muito decepcionado.

Mais decepcionado, porém, ficou o mercado. Ao antecipar um resultado que nada vale e se esquivar de qualquer comprometimento mais firme acerca do desempenho fiscal futuro, a mensagem passada ao setor privado não poderia ser mais clara: não há qualquer plano que contemple a possibilidade de um ajuste fiscal neste ano que se inicia, nem talvez sequer nos próximos, dadas as convicções do governo sobre o tema.

A reação negativa, expressa na desvalorização da moeda e elevação das taxas de juros, não ocorreu, assim, nem por acaso, nem por força de fatores internacionais, mas sim por conta da percepção cada vez mais disseminada de piora dos fundamentos do país. Mais um tiro, enfim, que saiu pela culatra, marca registrada hoje em dia da gestão de política econômica no país.

Isto dito, o nervosismo do ministro também se escancara em sua relação com o mercado. Ao contrário de seus antecessores imediatos, que reagiam de forma serena mesmo quando divergiam da análise do setor privado, o ministro quase sempre busca o enfrentamento, apenas para mais tarde reconhecer – forçado pelas circunstâncias – seus equívocos crescentes, como, mais recentemente, no que se refere às mudanças de regras para as concessões de infraestrutura.

É natural, em face do desempenho medíocre da economia, que o ministro da Fazenda esteja sujeito a toda sorte de pressões, inclusive do próprio governo, cujos objetivos políticos dependem, em certa medida, de crescimento mais vigoroso do que o ostentado pelo Brasil nos últimos anos.

O que se espera, contudo, é que o titular do cargo tenha as condições de suportar estas tensões, e que seja capaz de formular respostas efetivas aos problemas enfrentados no front econômico. Em particular, que suas falas não contribuam para o aprofundamento da crise de confiança que hoje assola o país.

Neste último aspecto, a falta de compostura do ministro da Fazenda, mesmo depois que quase 8 anos no cargo, revela sua inabilidade para trabalhar sob pressão e compromete ainda mais sua já escassa capacidade de formulação de política.

Num mundo caracterizado por preços elevados de commodities e liquidez mundial abundante é mais fácil controlar os nervos; quando estas condições, porém, se alteram para pior, quem não tem preparo fica mesmo “nervosinho”.

- Eu não tô nervoso, p...!
- Só fico p... de ter que acalmar o mercado
- Fica calmo mercado, c...!

(Publicado 8/Jan/2014)

Reações:

4 comentários:

Prezado Xuártisman,

Em 2014, teremos a repetição de toda esta bullshit de discurso que o governo vomita e, ao final dele, comemore se tivermos 0,1% do PIB como superávit.

Eu to achando é que teremos déficit.

Alex, acho que o mercado, empresários, etc., já embutiu em suas expectativas o "momento do ajuste" (ex.: 2015). Este ajuste traria retração econômica e aumento do desemprego. Se a hipótese é razoável, esta expectativa já estaria contaminando as decisões de investimento no presente, com reflexos negativos sobre o crescimento econômico. Vc acha razoável este raciocínio?

Abs.
M.

Show de ontem na Bloomberg:

-- link p/ o óbvio (aos 1:40 min): http://www.bloomberg.com/video/faber-fed-policy-has-led-to-global-problems-2NFb2G8kS9GS0Lbv0bzqIw.html

-- http://www.bloomberg.com/video/faber-sees-gigantic-asset-bubble-slowing-growth-O4LPyOs9SGmVjZXlNc442Q.html

Ao falar isso e não ser repreendido, ou mesmo demitido, já dá o tom de como é a visão do governo em relação aos agentes privados, em especial o mercado financeiro.
Dantas