teste

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Operação Chacrinha


É chato, eu sei, e já me desculpo aos 18 leitores por voltar ao tema, mas, como o governo insiste em repetir os mesmos erros, tenho que comentá-los. Em nome dos 18 aproveito para deixar meu apelo por erros novos, por favor.

Feito o pedido, ao trabalho. Soubemos na semana passada, mesmo antes da divulgação oficial dos números de dezembro, que naquele mês o governo lançou mão, não de uma, mas de várias manobras contábeis para garantir, formalmente, o cumprimento da meta fiscal, cerca de R$ 140 bilhões (3,1% do PIB), definida pelo próprio Executivo.

Pelo que foi noticiado, a Caixa Econômica Federal e o BNDES anteciparam dividendos para o Tesouro, num valor próximo de R$ 7 bilhões (devidamente financiados... pelo Tesouro!). Além disto, o governo teria sacado também cerca de R$ 12 bilhões do Fundo Soberano (parte em ações da Petrobrás, vendidas... ao BNDES!). Caso o raro leitor tenha ficado confuso, não se apoquente: isto foi feito para confundir (não para explicar) e, no final das contas, não faz a menor diferença, pois são todas transações entre os diversos bolsos de um mesmo governo, com o intuito de obscurecer o óbvio, a saber, que, apesar das promessas, o governo ficou muito longe da meta.

Há duas ordens de consequências. A mais óbvia é que, apesar da Operação Chacrinha, não há como fugir do fato que a política fiscal foi bem mais expansionista do que normalmente presumido, em particular pelo Banco Central, que, ainda em dezembro, baseava suas projeções na suposição que o superávit primário atingiria “em torno de 3,1% do PIB”.

Talvez ainda haja alguém no governo que vá defender esta postura como uma estratégia anticíclica, isto é, uma política mais expansiva em anos de baixo crescimento, a ser compensada por uma política mais restritiva em anos de crescimento mais forte. Exceto, é claro, que tal compensação nunca ocorre, senão como explicar o crescimento persistente das despesas federais, de 14% do PIB em 1997 para mais de 18% do PIB ano passado?

No curto prazo isto significa inflação mais alta, ainda mais dado o descaso do BC. Não é por acidente, portanto, que a inflação permaneça teimosamente há 3 anos acima da meta e deva continuar assim até onde a vista alcança.

A médio e longo prazo, porém, além da questão inflacionária, também o crescimento é afetado. O gasto adicional não foi direcionado ao investimento, que continua insuficiente, mas à despesa corrente. Além de tal gasto tipicamente não se traduzir em elevação do potencial de crescimento do país, ele sofre o inconveniente de ser praticamente impossível de ser reduzido, sugerindo que, para fazer espaço no orçamento dos próximos anos, o investimento federal se tornará ainda mais escasso.

Por fim, a contrapartida do gasto mais alto são tributos mais pesados, cujo impacto sobre o crescimento não é apenas óbvio, mas principalmente negativo.

Já a segunda ordem de consequências é mais sutil, embora não menos importante. Ao longo dos últimos anos o governo tem abusado de manobras contábeis como as empregadas no final do ano passado, de dividendos extraordinários de empresas estatais à aquisição das reservas de petróleo pela Petrobrás (em troca de ações, não de dinheiro), passando pelas operações com o BNDES e outras feitiçarias.

Não sei, sinceramente, a quem o governo quer enganar. Talvez a si próprio, pois qualquer analista com um tanto de experiência consegue identificar a macumba fiscal, ainda que alguns, talvez por dever de ofício, se omitam valentemente da tarefa de denunciá-la.

De qualquer forma, isto só serve para acrescer à perda de credibilidade das instituições. Não bastasse o BC fazer letra morta do regime de metas para a inflação, temos agora o Tesouro cuidadosamente rasgando a Lei de Responsabilidade Fiscal. Estamos, é verdade, ainda longe do ponto em que isto se tornará um problema patológico, mas já na estrada que leva para lá.

Õ Teresinha!


(Publicado 9/Jan/2013)

Reações:

32 comentários:

Só lembrando, o PT votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, portanto, não surpreende a deterioração fiscal observada em 2012 e que veio para ficar.

Um jumento "vestido" de cavalo, chamado de cavalo, ainda continua a ser um jumento.

Faísca

By the way, são 17 leitores. Trate de me reincluir pra chegar aos 18: darwin.dib@cmcapitalmarkets.com.br
Abraço,
(sic)

Isso lembra a mágica fiscal que o Paul Krugman está propondo caso o congresso americano seja turrão demais: lançar uma moeda de platina de 1 trilhão. A diferença, que o colunista do NYTimes explica, é que nos EUA há falta de demanda, o problema é puramente político, o artifício pode ser necessário e não terá maiores consequências econômicas.

No Brasil a economia está aquecida mesmo com pouco crescimento, e as mágicas dão no que você explica. Ou seja: nosso governo está inventando a tragédia e a farsa simultâneas, uma repetição da história em tempo real.

O engraçado é ler as entrevistas. Ver figuras do MF fazendo o papel de "adevogado" do Diabo. Ainda ontem, um imbecil pediu pra olhar a curva de juros. Bom, a ETTJ mostra inflação implícita de + de 7%!!! Ouch!

E tudo isso é chamado de "excelência em gestão", que seria uma das virtudes da chefe do Executivo.
Dá para imaginar o que poderia ocorrer caso não o fosse.
Oras, em realidade, não há gestão alguma e muito menos excelência.
O que há é muita ideologia e voluntarismo num momento difícil da economia nacional e internacional.
E pior, há o comprometimento de ações futuras. Em algum momento, tudo o que está sendo feito agora, por não dar certo, terá de ser alterado, ou "corrigido".

"Bom, a ETTJ mostra inflação implícita de + de 7%!!! Ouch!"

Queria que reaparecesse por aqui o rapaz que vendia inflação implícita ali em meados do ano passado... Deve ter ganho muuuuiittoo dinheiro

"Queria que reaparecesse por aqui o rapaz que vendia inflação implícita ali em meados do ano passado..."

Vamos fazer a campanha - VOLTA ELFO VIDENTE MARGARINA!

CADÊ TU?

Alex, creio que há um equívoco, ou excesso de otimismo em sua afirmação "(...)Soubemos na semana passada, mesmo antes da divulgação oficial dos números de dezembro, que naquele mês o governo lançou mão, não de uma, mas de várias manobras contábeis para garantir, formalmente, o cumprimento da meta fiscal, cerca de R$ 140 bilhões (3,1% do PIB), definida pelo próprio Executivo.(...)" As manobras contábeis não foram feitas para cumprir a meta de R$ 140 bi (3,1% do PIB) mas para tentar cumprir a meta já descontada de R$ 114,2 bi (2,53% do PIB). De acordo com a 5ª avaliação bimestral de receitas e despesas, para tentar fechar as contas, o ministério do planejamento considerou um abatimento de R$ 25,6 bi em gastos do PAC. Agora vamos lá: até novembro o superávit primário do setor público foi de R$ 82,7 bi. Isso somado às manobras contábeis que pelos meus cálculos somam R$ 15,75 bi (R$ 8,84 bi que o BNDES pagou pelas ações da PETR que estavam no fundo soberano, R$ 2,31 bi que o BNDES pagou em dividendos e R$ 4,6 bi de dividendos antecipados da Caixa). Ou seja, para cumprir a meta "já abatida" de R$ 114,2 bi (2,53% do PIB) o governo ainda terá que fazer um primário de R$ 15,75 bi em dezembro (R$ 114,2 bi menos os R$ 82,7 bi até novembro, menos os R$ 15,75 bi das manobras), que considero ainda MUITO otimista ou terá que abater ainda mais gastos do PAC.

Abs,
Rafael Bistafa

Rafael:

O abatimento, originalmente R$ 25,6 bi, já foi elevado para R$ 38 (ou 39, não me lembro) bi...

Superavit primário é receita - despesas não financeiras !!

QQ equação diferente desta, obrigatoriamente tem que ter outro nome.

não é permitido qq um ficar inventando a receita do Big Mac

"Queria que reaparecesse por aqui o rapaz que vendia inflação implícita ali em meados do ano passado... Deve ter ganho muuuuiittoo dinheiro"

E eu adoraria ser a contraparte rsrsrs!

09/01/2013 - 14h59
Títulos de inflação com prazo mais longo foram os mais rentáveis em 2012


COMENTE
SÃO PAULO – Os títulos públicos e privados atrelados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) foram destaque de rentabilidade no ano de 2012. De acordo com dados da Anbima (Associação das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), o IMA-B 5+ (índice que mede o retorno das NTN-Bs com prazo acima de 5 anos) registrou retorno de 34,21%, enquanto o IDA-IPCA (índice que reflete o comportamento da carteira debêntures indexadas ao IPCA precificadas pela Anbima) mostrou valorização de 20,95%.

Já o IMA-B, índice que mede a rentabilidade de todos os títulos públicos atrelados ao IPCA (independentemente do prazo) registrou elevação de 26,68% no ano, segundo a entidade. O IMA-Geral, que engloba a rentabilidade de todos os índices calculados pela associação, por sua vez, apresentou retorno de 17,73%.

Dezembro
No mês de dezembro, o IMA-B 5+ registrou retorno de 2,29%, enquanto o IDA-IPCA ficou com 1,25%. Já o IMA-B e o IMA-B 5 valorizaram 1,92% e 1,39%, respectivamente.

E por último, o IMA-Geral registrou retorno de 1,25% no último mês do ano.

Quem comprou inflação não se deu mal...

No Brasil o sr acerta todas!! Quando o assunto é os EUA ,o sr peca com a defesa de suas teses "neo Keynesianas".

A Alemanha, com uma politica de austeridade fiscal tem um desem
prego mais baixo que os EUA.

Sendo bem didático: o governo federal com Lula gastou muito e parte da conta ainda está sendo paga pela presidente Dilma, mas com o nosso dinheiro. O dos contribuintes.

Já no governo da primeira presidente mulher no Brasil, novamente os gastos aumentaram e as receitas diminuíram relativamente com certas desonerações fiscais.

Parece que não fizeram as contas. Isto é aritmética básica. Não adianta a "maquiagem" contábil. Estes "gênios” das finanças governamentais (com suas filosofias econômicas não clássicas) contaram com receitas futuras como certas sem elas necessariamente serem. Sendo conservador em finanças, certo mesmo são as despesas.

Logo, a medida mais racional para uma melhor gestão financeira e contábil das contas públicas é diminuir ao máximo possível todas as despesas. Isto por si só aliviaria bastante a pressão fiscal visando o superávit primário e, quem sabe um dia, atingir o ápice da contabilidade pública, o superávit nominal.

Infelizmente até o princípio da escassez dos recursos foi esquecido pela presidente da república Dilma, pelo ministro da Fazenda Guido Mantega e outros mais da atual equipe econômica. Faltou competência e sobrou promessa.

IPCA de dezembro fica em 0,79% e fecha 2012 em 5,84%

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2306&id_pagina=1

http://www.valor.com.br/brasil/2964346/com-manobra-fiscal-governo-federal-evitou-descumprir-ldo


A Thinker Bell do Tombini e ao Elfo Vidente Margarina:

O IPCA acumulou alta de 5,84% em 2012. Vamos procurar estudar mais e expandir nosso conhecimento antes de discutirmos com o Careca, com o "O" ou com qualquer um do calibre desses caras!

Atenciosamente

M. Pokémon

2012: IPCA 5,84% e PIB 0,9%.
Reverencio o cara que fez a diferença em 2012: Mantega, o líder que indentificou os gargalos e atuou com firmeza. Para 2013, desejo que ele complete o serviço.
Crusoé

Pait..."No Brasil a economia está aquecida mesmo com pouco crescimento"...

Inflação elevada, PIB em queda, baixo desemprego, infraestrutura caótica, apagão de energia...não seria mais "economia instavelmente aquecida"?

A situação leva a certos "conceitos neologistas" que não querem dizer nada, por isso também não explicam absolutamente nada.

"A Alemanha, com uma politica de austeridade fiscal tem um desem
prego mais baixo que os EUA."

Ou será que ela tem uma política de austeridade PORQUE tem o desemprego mais baixo do que nos EUA?

O sub-produto da crise econômica que assola o mundo é o fracasso das políticas ditas keynesianas ( aqui entra todo mundo no saco, pós e neo) , uma vez que a gastança não está entregando a recuperação econômica.

"Ou será que ela tem uma política de austeridade PORQUE tem o desemprego mais baixo do que nos EUA?"

Elementar, meu caro Alex.

Com austeridade, menos pessoas podem viver às custas dos recursos do Estado. Assim, vão ter que trabalhar aceitando salários de acordo com sua produtividade (isto é, os salários de mercado).

"No curto prazo, a inflação mostra resistência, mas as perspectivas indicam retomada da tendência declinante ao longo de 2013"

Lol! É o curto prazo mais longo prazo da história!

"Com austeridade, menos pessoas podem viver às custas dos recursos do Estado. Assim, vão ter que trabalhar aceitando salários de acordo com sua produtividade (isto é, os salários de mercado)."

Você acha que política fiscal é exógena?

Em grandes economias, que afetam a taxa internacional de juros, as políticas são exógenas.

E cada vez mais o ganho desses papéis indexados tem sido comprometido pela inflação elevada.

E isso é ainda pior a taxas reais menores.

Pense bem: Se vc está comprado numa NTN-B de curto prazo, pra levar ao vencimento, prefere uma inflação baixa ou alta nesse período?

Abs

"Pense bem: Se vc está comprado numa NTN-B de curto prazo, pra levar ao vencimento, prefere uma inflação baixa ou alta nesse período?"
Se vc é um gestor, preferirá "hiperinflação", já se for na física...
Maradona

A maquiagem deixarah sequelas muito gdes e mais inseguros os investidores. Adicionado a isso a intervencao cresce e DESORDENADA. Eduardo Penna consultor e
mpresarial

Parabéns pelo blog. Pode festejar 19 leitores.

Gostaria de acrescentar o noticiado "restos a pagar" de R$ 250 bilhões, que supostamente deverá ser pago em 2013 e constitui o chamado orçamento paralelo. A "manobra criativa" (conhecida) de antecipação de receitas e as molecagens burocraticas, como aumento do prazo para a Petrobras registrar importações, representam tostões comparada com as despesas deferidas.