teste

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Vivendo em negação

Se houvesse um campeonato mundial de negação da realidade, não tenho dúvidas que algumas autoridades nacionais seriam fortes candidatas ao título. À luz da aceleração recente da inflação, mesmo em face de sinais inequívocos de sobreaquecimento da economia, ainda há quem busque em fatores externos a explicação para o forte desvio da inflação relativamente à meta, que, a valerem as expectativas, deverá se repetir em grande estilo também em 2011.

A última novidade no quesito “não é minha culpa” atribui ao aumento do preço internacional de commodities a aceleração inflacionária. À primeira vista a lógica do argumento parece impecável. Preços de commodities (medidos pelo CRB) não apenas se encontram 40% acima de sua média de 2006 para cá, mas também o grosso deste aumento se concentrou nos últimos seis meses, quando preços subiram pouco mais de 25%.

Fonte: Bloomberg (média móvel 21 dias)
No entanto, o que interessa para a inflação local não são os preços de commodities em dólares, mas sim seus preços em reais. Estes aumentaram quase 20% no mesmo período, o que mostraria inequivocamente o papel do choque externo nos preços domésticos, levando à conclusão inevitável que, contra este pano de fundo, pouco (ou nada) caberia ao Banco Central fazer.

Entretanto, quem examinar o período anterior aos últimos seis meses notará que o comportamento recente dos preços de commodities em reais parece anômalo. Com efeito, entre o começo de 2006 e o terceiro trimestre de 2010 os preços locais de commodities apresentaram um desempenho bastante distinto dos preços internacionais.

Enquanto estes últimos subiram de maneira quase ininterrupta de 2006 até a eclosão da crise internacional, os preços em reais permaneceram dentro de um intervalo relativamente estreito (em torno da média do período acrescida de uma margem de variação de 10%). Da mesma forma, quando a crise levou ao colapso dos preços internacionais de commodities e a recuperação mundial subseqüente os fez retomar a trajetória ascendente, os preços em reais continuaram teimosamente dentro do mesmo intervalo (com uma pequena e breve exceção), até escapar de forma marcante a partir do último trimestre de 2010.

Em outras palavras, até muito recentemente não só a volatilidade local era muito menor que a internacional, mas mesmo a tendência internacional de alta não parecia se materializar domesticamente (preços locais passaram quase 5 anos “andando de lado”). O que explicaria este padrão?

A resposta, é claro, reside na conhecida relação entre a taxa de câmbio e preços de commodities. Como já tive oportunidade de explorar em mais de uma ocasião, o real tende a se fortalecer quando preços de commodities se elevam. Este comportamento reflete, por sua vez, a relação entre esses preços e os termos de troca brasileiros (a razão entre os preços das coisas que exportamos e as que importamos), que, devido ao peso de commodities na pauta exportadora, tendem a melhorar quando os preços de commodities aumentam.

Estimações que fiz com Tatiana Pinheiro sugerem que um aumento de 10% nos preços de commodities tende a apreciar o real em torno de 6%, fenômeno que dissiparia grande parte do aumento internacional quando expresso em moeda local (neste caso, por exemplo, preços locais aumentariam pouco menos de 3,5%). Não por acaso, portanto, a volatilidade dos preços locais é cerca de 40% da volatilidade externa.

A partir do último trimestre de 2010, porém, esta regularidade parece ter se rompido, como expresso pela “fuga” dos preços locais do intervalo em que estiveram confinados por quase 5 anos. Não deve escapar aos observadores mais atentos que este comportamento se materializou justamente no período em que o governo – sob o pretexto de combater a “guerra cambial” – intensificou suas intervenções (incluindo as administrativas) sobre a taxa de câmbio.

Embora a intervenção em si pareça inócua em períodos mais longos (como sugerido pelo meu trabalho com Tatiana Pinheiro), a sequência de medidas e o receio do mercado quanto à possibilidade de novas interferências têm, aparentemente, evitado no curto prazo uma apreciação mais vigorosa do real, a despeito do aumento dos preços de commodities.

Trata-se, contudo, de uma vitória de Pirro, pois impede que o mecanismo de dissipação do choque externo funcione, permitindo a transmissão integral da elevação de preços em dólares. Posto de outra forma, não é o aumento dos preços internacionais que tem acelerado a inflação, mas sim a inconsistência das políticas monetária e cambial, que buscam objetivos conflitantes (câmbio estável e inflação sob controle) sob as condições atuais, fato que deixa claro a responsabilidade das autoridades locais na aceleração da inflação.

Caso estas continuem a negar este fenômeno, o resultado será apenas o acirramento das pressões inflacionárias, e o risco real de perder a meta de inflação em 2011 [e 2012 também - cf. sugestão do Marcelo].

You wish!
(Publicado 3/Fev/2011)

Reações:

45 comentários:

"...o resultado será apenas o acirramento das pressões inflacionárias, e o risco real de perder a meta de inflação em 2011".

2011? Esse humilde frequentador do seu Blog, acredita que ficaria melhor na frase, 2012!

E eu humildemente concordo (vou adicionar!)

Abs

o bcb mira 4,5% e a fazenda mira os 6,5%

trabalho com um cenario de 5,5% enquanto o pessoal que toca a política fiscal no brazil continuar por ai..

Alex,

repetindo seu exercício de 2 meses atrás, será que o comportamento do câmbio já demonstra o efeito do IOF e as outras ameaças? em qts %?


Doutrinador

Mais um excelente artigo Alex!

Em relação ao parágrafo abaixo, imagino q as medidas do Bacen no sentido de "impedir" e/ou "frear" a arbitragem regulatória tb tenham tido algum impacto sobre o cambio no curto prazo... o q vcs acham?

Abçs
DMC

"Embora a intervenção em si pareça inócua em períodos mais longos (como sugerido pelo meu trabalho com Tatiana Pinheiro), a sequência de medidas e o receio do mercado quanto à possibilidade de novas interferências têm, aparentemente, evitado no curto prazo uma apreciação mais vigorosa do real, a despeito do aumento dos preços de commodities."

Alex, oq vc acha desse manifesto?

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17354

me preocupa os nomes das pessoas q assinaram...

Entre os de primeiro time, só os suspeitos de sempre... (Bom, tem o Bardham também)

Alex,

Excelente post!

Taxa de cambio real nao eh variavel de politica economica. Dada a politica fiscal expansionista, o cambio real vai apreciar. Seja pelo cambio nominal ou pela inflacao... Mas o pessoal nao entende.

Ciro Obama Gomes

Ciro Obama Gomes,
Desculpe a ignorância, mas, no meu entendimento, a política fiscal expansionista (mantido tudo mais constante) provocaria depreciação cambial, não?!

Ciro Obama, voce poderia me ajudar a entender seu argumento?

Eu penso o seguinte: mantido tudo o mais constante, uma politica fiscal expansionista deprecia o cambio nominal. Ao elevar a absorçao domestica, se elevam as importaçoes. Como para importar é preciso demandar dolar, o preço do dolar se elva, isto é, o cambio nominal se deprecia. Ou nao????

BR

BR:

Não.

Para ver isso, imagine (sem perda de generalidade) uma economia na qual a demanda doméstica seja igual ao PIB (exportação líquida zero) e operando no potencial.

Agora o governo eleva seus gastos, puxando a demanda acima do PIB, o que deve elevar as importações (líquidas). Para que isso ocorra, o câmbio deve se apreciar.

A mesma história de ponto de vista monetário: o aumento de gasto tende a elevar a taxa de juros, o que traz capital e aprecia o câmbio, elevando as importações.

OK?

Abs

É, um aumento do gasto público, o qual normalmente está direccionado à adquisição de bens não transacionáveis, provoca um excesso de demanda neste setor. A oferta destes bens está fixa no curto prazo e, portanto, os preços aumentarão. O preço relativo dos bens transacionáveis em relação aos bens não transacionáveis (Pt/Pn)- primo muito próximo da taxa de cambio real - disminuirá, o que significa uma apreciação real. O que a economia está fazendo é reasignando recursos do setor de bens transacionáveis ao de bens não transacionáveis e pra isso, a taxa de cambio real tem que se valorizar.

A

Alex,

Creio que eu esteja com meus conceitos bastante equivocados.

Dentro do seu exemplo (elevação dos gastos quando tudo mais está em equilíbrio), se o BC não responder, o câmbio não ficaria inalterado em um primeiro momento? Assim, as importações se elevariam devido ao aumento de demanda, causando um déficit comercial que exigiria uma depreciação cambial para restabelecimento do equilíbrio.

No meu humilde e provavelmente equivocado entendimento, na falta de resposta do BC, essa economia sofreria ainda algum aumento da inflação, que intensificaria o movimento do câmbio nominal, depreciando ainda mais o câmbio real.

Onde estou errado?!

Abs
AM

"Dentro do seu exemplo (elevação dos gastos quando tudo mais está em equilíbrio), se o BC não responder, o câmbio não ficaria inalterado em um primeiro momento?"

Não. Mesmo se o BC não reagir, a taxa nominal de juros tende a subir (não precisa ser a taxa Selic, pode ser a de 6 ou 12 meses) refletindo expectativas mais altas de inflação.

Em última análise o câmbio real tem que apreciar para gerar a estrutura de preços consistente com demanda doméstica e importação maiores. Isto ocorre via: (a) a apreciação do câmbio nominal; ou (b) aceleração da inflação, para uma dada taxa nominal de câmbio; ou (c) uma combinação linear de (a) e (b).

Abs

A

Embora se depois da explicação muito didática do Alex ñ ficou claro, acredito que os modelos IS-LM e Mundell-Fleming poderão ajudar...

Alexandre, tenho pesquisado sobre o tema. Em termos teóricos, a hipótese básica é que o consumo do governo é proporcionalmente mais concentrado em bens non-tradables do que o consumo privado – a referência clássica é Froot & Rogoff (1991). Dessa forma, um aumento nos gastos do governo criaria um excesso de demanda por esses bens, que, por definição, não podem ser importados. O equilíbrio esse mercado se dará via aumento nos preços de non-tradables, logo, aumento no preço relativo, provocando apreciação da taxa real de câmbio. Esse é um canal direto. Existe um canal indireto via juros, como o senhor falou.

A conclusão de que aumento nos gastos do governo provoca queda no
consumo privado e apreciação cambial é na verdade um benchmark na literatura de macroeconomia aberta.

No entanto, do ponto de vista empírico, a literatura é ambígua. Em conformidade com a teoria, temos (passo a referência completa para quem quiser): Gagnon (1996),Chinn
(1997), Ricci, Milesi-Ferretti & Lee (2008), Galstyan & Lane (2009) e Caputo & Fuentes (2010).
Por outro lado, existem estudos que encontram exatamente o contrário: Monacelli & Perotti (2006 e 2010), Kollmann (2010) e Ravn, Schimitti-Grohé & Uribe (2007).

Segundo Monacelli & Perotti (2006 e 2010) existem 3 puzzles nessa literatura:

1-A teoria aponta na direção da apreciação cambial como resposta a choques no consumo do governo. Os dados mostram uma depreciação.

2-A teoria aponta respostas para a TCR e o consumo privado em direções
opostas. A evidência empírica mostra que uma depreciação cambial é acompanhada por aumento do consumo privado.

3-Os modelos assinalam que uma resposta negativa no saldo da balança de bens e serviços está associada a valorização cambial. Nos dados o que vemos é uma deterioração na balança de bens e serviços concomitante a um câmbio depreciado.

Vale notar que a literatura teórica e empírica utiliza gastos de consumo do governo como variável fiscal. No entanto, no Brasil a conta que mais cresceu (70%) foi a de transferências. Alguém arrisca um chute de qual o efeito das transferências sobre o câmbio? Se as transferências são concentradas nos setores mais pobres e esses consumirem mais alimentos, vestuário, móveis, etc. (tradables) a teoria diria que o efeito é de depreciação!

Idéias?

Abraços,
Daniel

“Onde estou errado?”

Você está errado no curto e médio prazo, certo no longo prazo.

O aumento nos gastos do governo aumenta a demanda por bens e serviços não-transacionáveis (exemplo: serviços de educação e saúde). Para que a oferta destes bens responda a maior demanda, é necessário um deslocamento de fatores do setor de bens transacionáveis (exemplo: manufatura e agricultura) e uma apreciação real.

Mas uma apreciação real (transitória) que causa um déficit em conta corrente implica uma depreciação real no longo prazo, porque a decumulação de ativos (ou endividamento) gerados pelo déficit em conta corrente vão requerer superávits comerciais futuros para servir a dívida.

Em resumo: um aumento transitório (porque insustentável) dos gastos de governo hoje causa um boom de demanda, apreciação cambial real e déficit em conta corrente hoje e amanhã, mas uma futura reversão da balança comercial para servir a dívida, portanto uma taxa de câmbio mais depreciada no futuro.

Blog bom eh isso ai! O pessoal mata a questao rapidamente. Passei a noite bebendo e estou um pouco tonto mas o ponto eh procurar literatura sobre equilíbrio interno e externo. Os leitores vão extender o Brasil de hoje de trás para frente. A unica esperança da inflação não disparar eh a valorização do cambio nominal. Isso eh certo como a lei da gravidade.
Ciro Obama Gomes

Acho que, com os comentários do Daniel e do "O", a discussão ficou muito rica.

Daniel, valeu pelas referencias e resumo. Alguns pontos:

1. Se o Mantega anunciasse de repente que a meta do resultado fiscal primário no Brasil seria de -5% do PIB, não há duvida que o anuncio de maior gasto publico levaria a uma desvalorização do cambio nominal imediatamente pela saída de capitais estrangeiros. O argumento sobre a necessidade de um cambio real mais valorizado eh um argumento de equilíbrio (produto perto do potencial, baixa pressão inflacionaria e balanço de pagamentos sustentável - essa ultima não eh tão obvia de definir).

2. Inicialmente, a demanda gerada pelo gasto governo pode ir para tradables, mas depois de compradas as quinquilharias o dinheiro vai para outras coisas. Faca um grafico do preço de cinema em Sao Paulo nos últimos 5 anos e compare com preços de NY.

Para o " O" sobre o ponto de desvalorização real no longo prazo para servir a divida:

Concordo que este seja o provável destino do Brasil, mas não precisava ser assim. Se medidas estruturais para garantir o crescimento de longo prazo estivessem sendo tomadas (educação, reforma tributaria, trabalhista, ...), o produto potencial cresceria mais rapidamente e o pais não ficaria estrangulado para garantir o equilibro externo. Mas vai dizer pro Mantega que não se trata somente de cambio e juros.

Ciro Obama Gomes
Ciro Obama Gomes

Ciro Obama Gomes

Muito bom o comentário do Daniel.

No curto prazo, temos que olhar para dois fatores:
- o que a política monetária vai fazer, no caso do Brasil hoje este talvez seja o fator dominante dado o diferencial de juros
- quanto de folga existe na economia (se o desemprego for alto, as compras do governo podem se expandir sem necessitar grande transferência intersetorial de fatores).

No longo prazo, entretanto, existe outro efeito que eu acredito seja importante no Brasil: pela oferta de fatores. Porque o Brasil paga tao bem para auditores fiscais e juristas, formamos menos engenheiros e portanto privilegiamos a produção de nao-transacionáveis. Isto tem o efeito de depreciar nosso cambio real no longo prazo (pelo efeito Balassa Samuelson).

Este comentário foi removido pelo autor.

Eu sou pinto novo no assunto, mas tudo me faz acreditar que nem o diferencial de juros é relevante para explicar a apreciação da taxa de câmbio no Brasil recentemente.
Cito o próprio Alexandre ("Slip Slidin' Away), em que um aumento no diferencial de juros de 10% para 11% a.a. implicaria numa apreciação de apenas 0,8% no câmbio. "Thus, if local interest rates could be magically driven all the way down to zero, the impact on the currency would be a depreciation of little more than 8%."

Alguma nova estimativa Alexandre, "O"?

Abraços
Daniel

Caro Daniel, dos artigos que você citou, o Kollmann (2010) é teórico.

Já o artigo do Monacelli e Perotti define a taxa real de câmbio como “The real exchange rate is the ratio of theWorld CPI to the Home CPI”, isto é quando eles dizem que um aumento nos gastos do governo ‘depreciates the real exchange rate’, eles estão dizendo que gastos do governo APRECIAM a taxa real de câmbio definida como eu e o Alex a definem: Pdomestico/Pexterno

“Se o Mantega anunciasse de repente que a meta do resultado fiscal primário no Brasil seria de -5% do PIB, não há duvida que o anuncio de maior gasto publico levaria a uma desvalorização do cambio nominal imediatamente pela saída de capitais estrangeiros.”

Mas por que isso? Uma grande deterioração da posição fiscal sinalizaria um descolamento das expectativas de inflação e portanto uma grande queda na taxa de juros real (assumindo que o COPOM não reagisse proporcionalmente). A queda na taxa de juros real causaria o reajuste dos portfólios imediatamente pela depreciação nominal do BRL.

“Faca um grafico do preço de cinema em Sao Paulo nos últimos 5 anos e compare com preços de NY.”

Cinema? E os restaurantes?!?

“Para o " O" sobre o ponto de desvalorização real no longo prazo para servir a divida: Concordo que este seja o provável destino do Brasil, mas não precisava ser assim.”

Mas eu acho que não vai ser o caso devido ao perfil de nossas obrigações internacionais, que é fortemente viesado para investimento em bolsa. Isto estabiliza nossa posição de investimento internacional líquido com relação ao PIB.

Falando nisso, Daniel, quem gosta de "pinto novo" eh um economista gordinho de pessima reputacao.

"O", obrigado pelas observações.

Sim, Kollmann é teórico (tenta dar conta do "puzzle").

Sobre Monacelli & Perotti (2006 e 2010), sim eles definem (em log) camb. real = nominal + P* - P. Onde P* é o CPI internancional e P e o CPI doméstico. Mas é exatamente assim que se define comumente aqui, não? Um aumento desse número corresponde a uma depreciação.
A taxa NOMINAL é R$/US$. A REAL é a nominal vezes P*/P. Que é exatamente como eles fazem. Do contrário, sequer haveria o tal "puzzle".
De acordo, ou estou falando besteira?

Abraços,
Daniel

"Falando nisso, Daniel, quem gosta de "pinto novo" eh um economista gordinho de pessima reputacao."

aHUhuahuaUHahuAhuaUhA
Essa foi sensacional! Ok, mas esse pinto aqui só gosta de galinha.

Abraços
Daniel

Alex,

"Agora o governo eleva seus gastos, puxando a demanda acima do PIB, o que deve elevar as importações (líquidas). Para que isso ocorra, o câmbio deve se apreciar."

Poderia explicar esse movimento, por favor?

Alguem poderia fazer o favor de explicar o porquê de se olhar para a taxa real de cambio como razao entre tradebles e non-tradebles?

Alex?

Evite Brasília... Tem muito gavião gordinho louco atrás de pinto novo por lá.

"Alguem poderia fazer o favor de explicar o porquê de se olhar para a taxa real de cambio como razao entre tradebles e non-tradebles?"

Caso queria uma versão formailizada (mas simples) da questão veja:

http://maovisivel.blogspot.com/2008/03/um-modelo-para-discusso.html

Para uma versão rápida e rasteira, imagine uma economia com dois bens: tradable e non-tradable e parta da uma situação de preços tal que oferta seja igual à demanda em ambos os mercados (na verdade basta um; o outro sai pela Lei de Walras).

Agora eleve o preço do bem tradable relativamente ao non-tradable: a demanda pelo bem tradable deve cair e a oferta deste bem deve aumentar, gerando um excesso de oferta de tradables, também conhecido como saldo comercial. Ou seja, um aumento do preço relativo T/NT equivale a uma depreciação real da taxa de câmbio.

{Para lidar com o excesso de oferta de NT precisamos partir para equilíbrio geral, mas aí fica mais fácil, por incrível que pareça, dar uma olhadinha no modelo - não é complicado mesmo e captura alguns dos pontos discutidos aqui, inclusive a diferença entre o comportamento da taxa real de câmbio de curto e longo prazo)

"O",

Se houver um aumento nao-antecipado e permanente em G sem reacao da politica monetaria, isso gera expectativa inflacionaria e tendencia a desvalorizacao do nominal. Estamos de acordo. Por outro lado, nao eh esse o mecanismo dominante no Brasil hoje, mas o que foi ja foi discutido aqui em termos de equilibrio interno e externo e consequente apreciacao do cambio real (seja pelo nominal ou pela inflacao). Em outras palavras, a despeito da deterioracao que observamos, as expectativas inflacionarias ainda estao ancoradas no Brasil. Nao sei como a literatura controla para essas duas situacoes nos estudos empiricos. Em um modelo estrutural o efeito pode ser capturado me parece, mas tambem nao conheco os papers.

Meu ponto sobre o longo prazo retorna a questao do produto potencial no Brasil. Mesmo que o perfil de nossas obrigacoes externas nao seja dos piores, reformas estruturais dariam "mais folga" para a obtencao dos equilibrios interno e externo. Essa interacao entre macro management de curto-medio prazo e crescimento esta perdida.... e quando eh feita, eh mal feita pela equipe economica.

Ciro Obama Gomes

Este comentário foi removido pelo autor.

"... Em outras palavras, a despeito da deterioracao que observamos, as expectativas inflacionarias ainda estao ancoradas no Brasil. Nao sei como a literatura controla para essas duas situacoes nos estudos empiricos. Em um modelo estrutural o efeito pode ser capturado me parece, mas tambem nao conheco os papers."

A chave e' o prêmio de risco-pais. A expansão fiscal causa apreciação real no curto prazo (faz o Real ficar 'forte') porque e' um choque de demanda positivo / sinaliza a persistência dos juros altos SE o choque fiscal nao afeta os prêmios de risco-pais. 
 

"Meu ponto sobre o longo prazo retorna a questao do produto potencial no Brasil. Mesmo que o perfil de nossas obrigacoes externas nao seja dos piores, reformas estruturais dariam "mais folga" para a obtencao dos equilibrios interno e externo."

Eu discordo disso. Reformas estruturais que aumentam a taxa de crescimento do produto potencial nao necessariamente facilitam a administração macroeconômica. Existe ate um artigo que diz que reformas liberalizando as finanças aumentam o crescimento ao custo  de maior risco de crises (Ranciere e Tornell, se me lembro corretamente). Eles citam o exemplo de Tailândia (propensa a crises mas de crescimento rápido) e Índia (imune a crises mas de crescimento a passos de tartaruga). Índia e Tailândia tinham níveis de renda similares uns 50 anos atras, hoje a renda per capita da Tailândia e' bem mais que o dobro da renda per capita da Índia.

"O", eu continuo sem enteder sua interpretação. O artigo do Economic Journal de 2010 deles define a taxa real de câmbio pela equação que está entre a 3 e a 4 (eles não numeraram), na pag. 440. Olhando no WP desse artigo (http://didattica.unibocconi.it/mypage/upload/49529_20091016_063910_MP-RES-OCT-16-2009-FINAL.PDF)
existe uma parte especificando os dados na pag.10. Sobre a taxa real de câmbio dizem: "the log of the CPI-based real efective exchange rate Et (an increase is a depreciation)".

Novamente, a definição deles é aquela que falei, padrão. Mas é possível que estejamos falando de artigos diferentes.

Abraços
Daniel

Para os estudantes ainda de graduação em economia entenderem esses tópicos eu recomendaria as lectures notes do Martín Uribe e sua mulher http://www.columbia.edu/~mu2166/UIM/notes.pdf

São muito boas.

Num nível bem mais alto http://www.columbia.edu/~mu2166/GIM/lecture_notes.pdf

A

"Alex, oq vc acha desse manifesto?

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17354 "

Apesar de ter sido assinado por alguns imbecis, nao quer dizer que o manifesto seja completamente estupido.

Enquanto houver um grande diferencial em atividade econômica entre os países avançados e emergentes, e consequente diferenças brutais em política monetária, existe um caso forte para alguma forma de controle de capitais. Se capitais fossem menos moveis, tanto a política monetária americana teria mais potência (porque vazaria menos para os emergentes) como a administração macroeconômica no Brasil seria mais fácil (poderíamos apertar a política monetária sem medo de nos afogarmos em hot money).

""O", eu continuo sem enteder sua interpretação. O artigo do Economic Journal de 2010 deles define a taxa real de câmbio pela equação que está entre a 3 e a 4 (eles não numeraram), na pag. 440. Olhando no WP desse artigo (http://didattica.unibocconi.it/mypage/upload/49529_20091016_063910_MP-RES-OCT-16-2009-FINAL.PDF)
existe uma parte especificando os dados na pag.10. Sobre a taxa real de câmbio dizem: "the log of the CPI-based real efective exchange rate Et (an increase is a depreciation)"."

Então eles definem a taxa real de câmbio como a razão dos preços internacionais para os preços domésticos (página 5 no WP), e como um aumento é uma depreciação, o que eles chamam de depreciação é o aumento na razão dos preços internacionais para os preços domésticos (o mesmo que eu faria). Portanto, minha interpretação estava equivocada (obrigado por me corrigir!).

Vou colocar o artigo do Monacelli na minha lista de leitura. O resultado é um tanto surpreendente para mim, porque G é associado com apreciações em painéis de países (por exemplo, qualquer dos resultados que você mesmo citou) ou para os EUA (vide Froot-Rogoff).

Uma diferença entre Monacelli e o resto da literatura pode ser a técnica econométrica. Muitos dos artigos que estimam um efeito de G causando apreciação usam técnicas de cointegração e não discutem sequer a dinâmica de curto prazo. No artigo de Monacelli, o efeito encontrado é de curto prazo e dissipa-se no médio prazo. Seria interessante saber se este resultado é robusto a inclusão de restrições de longo prazo (cointegração).

"Ok, mas esse pinto aqui só gosta de galinha."

That is not the point! O que diz-se eh que 'pinto novo' foi atacado pelo valente. Imagina o gaviao gordo voando rasante em cima dos pobre pinto.

"O",

Obrigado pela resposta.

Bom ponto sobre o risco-pais. Permanece o desafio empririco de separar o que eh explicado pelo ambiente externo e o que vem da variacao dos fundamentos do pais. Isso nao eh um problema econometrico trivial pois queremos saber, em ultima analise, qual a pressao sobre o orcamento intertemporal do governo dadas expectativas de politica fiscal e condicoes de financiamento da divida publica. Equacoes em forma reduzida podem informar, mas tambem podem mislead. Modelos estruturais podem nao ter parametros estimados estaveis. Por isso que brincar com politica fiscal eh perigoso: vc nunca sabe quando o barco vai virar...


O Brasil, sem reformas estruturais, estara mais vulneravel a crises externas e isso complica a administracao macroeconomica. As reformas estruturais vao facilitar a realocacao de fatores internos em resposta a choques e fazer do estado brasileiro um elemento mais friendly ao crescimento (o seu ponto sobre salarios no funcionalismo eh um ponto importante).

Valeu pela exchange....

Ciro Obama Gomes

Este comentário foi removido pelo autor.

Alex, tem um typo no modelo, equação (4b) deveriar ter a taxa de câmbio.

Abs.

Leo

Opa Leo! Nada como um leitor atento :-). Vou ver se consigo corrigir (as equações são figuras), mas, se não conseguir editá-la, deixo marcado no texto.

Abs

Estou com uma dúvida com relação a esse comentario do Daniel, "Se as transferências são concentradas nos setores mais pobres e esses consumirem mais alimentos, vestuário, móveis, etc. (tradables) a teoria diria que o efeito é de depreciação!"
Pelo o que eu entendi, ele tá dizendo que o aumento das transferencias irá aumentar a demanda por tradables causando assim um aumento do seu preço (relativamente ao preço dos non-tradable) fazendo com que haja uma depreciação do câmbio real. Minha dúvida é que supondo uma economia pequena (que não afete os preços dos tradables no mercado internacional) e que os preços dos tradable seja igual a tx de câmbio nominal vezes os preços dos tradable no mercado internacional, a única forma dessa depreciação (do câmbio real)ocorrer seria via desvalorização do câmbio nominal ou queda do preço dos non-tradable, como que isso ocorreria?

Obs: câmbio real = Pt/Pnt que é igual a (E x Pt*)/Pnt

Sendo Pt=preço dos tradable, Pnt=preço dos non-tradable, Pt*=preço dos tradable no mercado internacional e E=tx de câmbio nominal.

Victor