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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Leviatã

As despesas primárias do governo federal em 2015 totalizaram R$ 1,2 trilhão (19,5% do PIB; eram 14% do PIB em 1997), número que não inclui os gastos de 27 estados e cerca de 5.500 municípios espalhados pelo país.

Graças, porém, a trabalho recente da Secretaria do Tesouro Nacional, ficamos sabendo que em 2014 os três níveis de governo no Brasil gastaram R$ 2,1 trilhões, o equivalente a 36,5% do PIB, aumento de quase R$ 400 bilhões na comparação com 2010, quando o dispêndio atingiu R$ 1,7 trilhão (a preços de 2014), ou 33,8% do PIB.

Não há dados oficiais comparáveis para períodos mais longos, mas, em relatório para clientes, estimamos que entre 1997 e 2015 as despesas primárias consolidadas tenham aumentado em pouco mais de R$ 1 trilhão; R$ 808 bilhões por conta e obra do governo federal e o restante, R$ 220 bilhões, vindo de estados e municípios.

Dos R$ 2,1 trilhões gastos em 2014 o funcionalismo consumiu quase 1/3 do total (12,5% do PIB), distribuídos de forma razoavelmente equilibrada entre os três níveis de governo e foi, de longe, a maior despesa, superando a Previdência (8% do PIB), gastos sociais (7% do PIB), aquisições de bens e serviços (5,5% do PIB), assim como os demais dispêndios. O leitor não deve ter maiores dificuldades para inferir quais são as prioridades do gasto público.

Como notei em colunas anteriores a proposta de teto constitucional para a despesa pública afeta apenas o governo federal, que hoje responde por pouco mais que a metade do total. É verdade que limita a parcela que tem crescido de maneira mais vigorosa nos últimos 18 anos, mas não tem qualquer efeito sobre governos locais.

Isto dito, o comportamento relativamente mais contido destes no período resultou em larga medida do acordo de reestruturação das dívidas firmado ao fim nos anos 90, que na prática forçou os estados a se comprometerem com o pagamento de seus débitos junto à União e, portanto, a segurarem seus gastos. No entanto, isto deixou de ser verdade nos últimos anos. Não é por outro motivo que muitos se encontram em estado calamitoso, chegando a consumir 75% de suas receitas com pessoal.

Mais importante, a recente rodada de renegociação destas dívidas abriu várias frentes que permitirão expansão do gasto estadual e municipal. Prestações bastante reduzidas e a postergação dos primeiros pagamentos abrem a possibilidade concreta de aumento das despesas no futuro imediato.

Contra este pano de fundo é de se estranhar a resistência a uma proposta de ajuste extraordinariamente gradual da despesa, que, se aprovada hoje, precisará de pelo menos 3 anos para trazer o gasto federal para níveis observados em 2014, sem qualquer controle, repito, sobre governos locais.

Não falta quem acredite em soluções fáceis para este dilema. Não há, como também não há como fazer o problema ir embora fingindo que ele não existe. Ou bem entendemos a esfinge, ou ela há de nos devorar.

* * *

Vladimir Safatle ficou tão ofendidinho por eu ter apontado seus erros que parece ter problemas com interpretação do texto. Jamais disse que apenas economistas sabem fazer conta; apenas que ele não sabe. Tanto é que, ao invés de responder minhas objeções, usa o velho truque de tentar desqualificar o autor do argumento. Triste, mas nada surpreendente...



(Publicado 26/Out/2016)

Reações:

31 comentários:

Qual seria a melhor proposta a antiga da época do Palocci de diminuir as despesas correntes aos poucos ou atual do teto?

Sem mexer nas aposentadorias de regime próprio é possível arrumar o nó das despesas?

Como hoje é finados vamos lá...A ala de mortos-vivos do Valor/Pravda está animada: Belluzzo e Luciano Coutinho tentam renascer das cinzas disfarçados de Super Heróis da Indústria 4.0 ; Delfim renasce como sempre puxando o saco do governo de plantão; Nakano sumiu...será que entendeu o que é regime de metas...


No seu artigo na Folha, a primeira objeção ao aumento do gasto publico para recuperar a economia é seu efeito na inflação. Especificamente em relação a este item não seria qualquer aumento de gasto, publico ou privado? Ou seja neste momento não podemos voltar a crescer, além de certo limite, que seria muito baixo.
Ou o gasto público teria um efeito inflacionário inerente, superior ao gasto privado. Quando eu falo gasto, o mesmo raciocínio valeria para o investimento publico ou privado.


Alguem na gringolandia descobriu que politica fiscal expansionista, oras bolas, eh expansionista!

http://voxeu.org/article/new-view-fiscal-policy-and-its-application



Parece-me que o importante quanto à política fiscal atual é cortar gastos. O dilema entre cortar despesas aos poucos ou de uma única vez me faz lembrar do famoso dilema: o que é melhor, cortar o rabo do cão de estimação de uma vez só ou ir cortando aos poucos em várias vezes......

Alex, adorei a bicuda dada no traseiro do filósofo Safatle.

Precisamos de gente preparada e corajosa como tu para fazer o país avançar e refutar as falácias defendidas pelos adeptos do pensamento iliberal.

http://www.cartacapital.com.br/politica/a-pec-241-nao-e-para-equilibrar-as-contas-publicas

Alex,
Agora, só falta você.
Fabio Kanczuk será o novo secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. Outro dia você disse que ele não era bom, ele é excelente.
Você trabalharia no BNDES? Com a Maria Silvia (ex-Werlang)?
Mentes brilhantes devem ajudar nosso país.
Fiat Lux, meu caro.
Faltam dois steps para CAL. Cruzando os dedos.

Porque Marcos Lisboa dialoga com os economistas da ouvidos aos economistas de esquerda e o senhor não?

Por quê?

Eu poderia perguntar por que você não sabe a diferença entre "por que" e "porque", mas respondo dizendo que o Marcos tem mais paciência do que eu, que acho desperdício de tempo discutir com gente burra como você.

Talvez por isso ele respeitado pelos intelectuais de esquerda.

"Talvez por isso ele respeitado pelos intelectuais de esquerda."

Faltou um verbo aí, não?

Ah, sim, respeito...

"Esse Marcos Lisboa é um garoto semi-analfabeto que está encarregado de fazer política econômica, coisa que ele jamais fez na vida."
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u48230.shtml


"Não é a primeira vez que reclamo da qualidade do debate econômico.". Parece que a sua educação não contribui muito para o debate econômico.
Você é um caso clássico de cérebro contaminado pelo figado.

"Parece que a sua educação não contribui muito para o debate econômico."

Não é educação; é sabedoria...

Prezado Alex

Pelo tamanho do problema, você vê alguma saída para a OI além da intervenção estatal?

Esse Marcos Lisboa é um garoto semi-analfabeto que está encarregado de fazer política econômica, coisa que ele jamais fez na vida."
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u48230.shtml

Desconhecia esta entrevista. Que pérola! Se para economista já não demonstrava talento e galhardia, esta entrevista mostra que também em nada resolveria se tentasse ser uma pitonisa.

Existe a geração mais nova que e menos radical:Laura Carvalho,Leda,etc.

Acho que esse número de 36,5% do PIB tá pra lá subestimado, Alexandre.
Segundo dados do site do próprio Tesouro, o orçamento executado da União - somente os orçamentos da seguridade social e fiscal - em 2015 foi de 2,168 trilhões. Só esse tanto dá mais de 36% do PIB.
Com mais 80 bilhões do orçamento executado de investimento, dá 37,4% do PIB. Não encontrei dados dos gastos dos estados e municípios, mas pode pôr aí mais uns 5% de gasto, facilmente. Somando tudo, os gastos totais dão quase 43% do PIB.

Alex, conhece os economistas do BC?

Você respeita a Monica DeBolle?

Alexandre,

O que é pior: os economistas da Unicamp ou o Oreiro da UFRJ?

"O que é pior: os economistas da Unicamp ou o Oreiro da UFRJ?"

O que é pior: um tiro na têmpora esquerda ou na têmpora direita?

A Camara,o Senado e a Suprema Corte! Os Democratas levaram uma surra completa.

“Pelo tamanho do problema, você vê alguma saída para a OI além da intervenção estatal?”

Questão capciosa para um liberal. Fácil é defender a falência da quitanda da esquina, com base na tal de meritocracia. Já para as grandes empresas é beeem mais difícil.

Por ser do ramo de telefonia, estou curioso pela resposta do Alex. Se fosse um banco, não estaria ...

Alexandre,

Esse debate com o Pochman foi gravado? Em qual TV aconteceu?

Laura

"Pelo tamanho do problema, você vê alguma saída para a OI além da intervenção estatal?"

Deixa quebrar e vende a concessão para outra empresa... Algum problema com isto?

"Esse debate com o Pochman foi gravado? Em qual TV aconteceu?"

http://globosatplay.globo.com/globonews/v/5144366/

Trump esta recebendo o apoio de grandes economistas como Mankiw.

"Trump esta recebendo o apoio de grandes economistas como Mankiw."

Realmente...

"I did not support Mr. Trump, but now that he is our President-elect, I wish him well.

To my many friends who are now freaking out, I encourage you to take a deep breath and calm down. Our political and economic system is more robust than you sometimes give it credit for being.

Earlier this year, I wrote:

People often ask me whether it is frustrating to work in Washington, noting how hard it is to get anything done. Yes, in some ways, it is. This episode is only one example where our good policy (as my White House colleagues and I saw it) was subverted by an uncooperative legislature.

Yet, over time, I have come to appreciate that frustration for those in policy jobs is not a bug in the system but rather a feature. The founding fathers, in their great wisdom, built this tension into the system. In high school civics classes, it goes by the name “checks and balances.”

A common lament is that there is too much gridlock in Washington, and maybe there is. But imagine that your least favorite candidate wins the next presidential election. Might you be grateful when the new President and his or her CEA chair become frustrated while trying to implement their new ideas for economic policy?"

http://gregmankiw.blogspot.com.br/

http://justificando.com/2016/10/26/professora-de-economia-da-usp-explica-o-que-voce-precisa-saber-sobre-pec-241/