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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Donald Trump e a política fiscal

Semana passada analisamos os efeitos da política comercial de Donald Trump, cujo objetivo declarado é repatriar a produção de manufaturas transferida para o exterior. Se levada adiante, teria consequências negativas para a economia americana.

Como o país se encontra próximo ao pleno-emprego, o espaço para a expansão não inflacionária é reduzido. O aumento de postos de trabalho resultante da maior produção local teria que ser compensado por redução em outros setores, através da elevação da taxa de juros. Adicionalmente, a realocação de mão-de-obra contrária às forças de mercado levaria à redução da produtividade geral, agravando a questão inflacionária.

Estes efeitos, contudo, são modestos face aos provenientes da proposta de política fiscal. Em grandes linhas, esta consiste de uma drástica simplificação de impostos para indivíduos e empresas, reduzindo incentivos fiscais, assim como um corte expressivo das alíquotas. Há também a possibilidade de um aumento de gastos com infraestrutura na casa de US$ 500 bilhões distribuídos ao longo de quatro anos.

De acordo com análise do Tax Policy Center, as medidas tributárias teriam efeitos positivos em termos de “incentivos para trabalhar, poupar e investir, bem como potencial para simplificar o código tributário”. Seus impactos sobre a distribuição de renda, porém, seriam pesadamente regressivos.

Ainda que a redução de impostos beneficiasse todos os segmentos de renda (média de US$ 5.100, ou 7% da renda líquida), os maiores ganhos se materializariam nas faixas de renda mais elevada. Assim, o corte de impostos para famílias de renda média (os 20% abaixo dos 40% mais ricos e acima dos 40% mais pobres) elevaria seus rendimentos após impostos em quase 5%; já para os 20% mais ricos o ganho seria da ordem de 10%, enquanto para aqueles no topo da pirâmide (1% mais ricos), o impacto seria equivalente a 18% da renda líquida.

Por outro lado estima-se que tais cortes produziriam um déficit adicional da ordem de US$ 11,2 trilhões nas contas públicas nos 10 anos posteriores à sua adoção, o que, mesmo sem elevação das taxas de juros, aumentaria a dívida pública em quase 80% do PIB até 2036, praticamente o dobro das projeções mais recentes do Congressional Budget Office.

Haveria, portanto, um estímulo de demanda da ordem de 5-6% do PIB, que poderia ser ainda maior caso os investimentos em infraestrutura se tornem realidade. Todavia, conforme notado no início desta coluna, há fortes razões para crer que a economia americana opera hoje próxima a seu potencial. Sob estas circunstâncias, como pudemos aprender com a experiência brasileira recente, o estímulo fiscal se traduz, em larga medida, em novas tensões inflacionárias, assim como maior demanda por importados, mesmo sob mais proteção.

Neste contexto não chega a ser surpreendente o comportamento do mercado de juros, que passou a indicar aumento mais agressivo das taxas após a eleição, processo que pode se agravar caso a proposta seja de fato adotada. Assim, o fortalecimento do dólar, pelo menos no curto prazo, também não é surpresa.


Já do nosso ponto de vista estes desenvolvimentos sugerem que a janela para o Brasil se ajustar está se fechando. Sem uma ação decidida agora, teremos problemas mais à frente.



(Publicado 23/Nov/2016)

Reações:

15 comentários:

Se realmente os juros subirem por um longo tempo, um grupo prejudicado serão aqueles idosos que colocaram a poupança da vida em títulos públicos de longo prazo (20 anos ou mais) para ajudar na aposentadoria, vendendo um pouco por ano para deixar um resíduo (se sobrar) para os herdeiros.
Como seus títulos cairão de preço com o aumento dos juros, isso equivalerá a uma taxação disfarçada sobre sua renda e/ou sobre a herança.
Se além disso a inflação aumentar perderão duplamente.

Alexandre, não sei se você está familiarizado com o livro "O Universo Neoliberal em Desencanto" do José Carlos de Assis e Francisco Antonio Doria. O título sugere que se trata de algo bastante medíocre e sem rigor científico mas aparentemente eles tentaram MATEMATICAMENTE desconstruir a ideia ortodoxa de equilíbrio.

Esse trabalho tem algum valor ou esta mais para aquele tipo de crítica que desconhece o seu objeto de estudo como o Lisboa colocou na Miséria da Crítica Heterodoxa?

Estou vendo pela manchete da Folha hoje que a fábula que vc contou aqui sobre as três cartas vai se tornando realidade.

"Esse trabalho tem algum valor ou esta mais para aquele tipo de crítica que desconhece o seu objeto de estudo como o Lisboa colocou na Miséria da Crítica Heterodoxa?"

Consegue ser ainda pior do que as coisas que o Marcos criticou...

Miséria da crítica heterodoxa tem 64 páginas bem escritas pelo Lisboa.

A única "crítica" é feita pelo Cardin, que tenta responder sobre a premissa de suavização de séries temporais e claramente mostra falta de domínio sobre o assunto. O resto é dizer que o texto do Lisboa é longo. E ele tenta fazer tal "exercício" em apenas 6 páginas.

Quanto ao
O Universo Neoliberal em Desencanto" do José Carlos de Assis.

Esse aí é do fan Club Marx e tão quermesseiro quanto qualquer um dos economistas do corecon Rj.

Caro Alexandre,

Eu sei que esse não é um tira-dúvidas para ignorantes como eu, mas é que li algo que intuo ser uma idiotice sem tamanho, mas não tenho conhecimento para elaborar, racionalmente, as razões por que se trata de uma idiotice sem tamanho. Leia:

"Existem vários estudos de economistas demonstrando que o Proer, nos anos 1990, provocou a concentração do sistema bancário privado, reduziu a concorrência entre as instituições financeiras e enfraqueceu os bancos públicos.

Na década seguinte, o fortalecimento do Banco do Brasil e da Caixa permitiu estimular o empreendedorismo, alavancou as safras agrícolas e ajudou a criar campeões de exportação.

Agora se trilha o caminho para trás, a passo acelerado."

Lembro-me de ter lido que o Proer salvou o sistema financeiro nacional (vêm-me à memória, no entanto, as críticas ao perigo moral dos salvamentos estatais às empresas privadas) e sei que o Banco do Brasil e a Caixa foram usados pelo governo para encobrir as pedaladas fiscais, mas sei também que houve recordes nas safras agrícolas nos últimos anos, que são financiadas, em parte com o dinheiro do Banco do Brasil.

Eu sei que o panaca que escreveu o trecho citado no site "Brasileiros" (quase qualquer coisa lá é escrita por panacas) deve ter misturado alhos com bugalhos, mas você poderia, nas linhas que puder escrever, no tempo que tiver disponível, fazer-me entender melhor onde estão as falácias desse "argumento"?

Obrigado pelo comentário Julio Cezar Russo.

Perguntei para saber se o trabalho do Carlos de Assis era digno de leitura. A heterodoxia brasileira costuma ter distância da matemática então pensei que seria curioso ver o que eles andaram aprontando.

O trabalho do Lisboa é excelente e se a heterodoxia brasileira tivesse humildade olharia com cuidado para tudo o que foi colocado ali. Se deu a impressão que critiquei o trabalho do Lisboa então me expressei de forma errada. Na verdade queria perguntar se o trabalho do Carlos de Assis possui erros parecidos com os erros da heterodoxia que o Lisboa já criticou anteriormente mas pelo que você e Alexandre estão dizendo o nível do trabalho do José Carlos de Assis é muito mais medíocre do que imaginei.

"Existem vários estudos de economistas demonstrando que o Proer, nos anos 1990, provocou a concentração do sistema bancário privado, reduziu a concorrência entre as instituições financeiras e enfraqueceu os bancos públicos"

Sério? Quais?

"Na década seguinte, o fortalecimento do Banco do Brasil e da Caixa permitiu estimular o empreendedorismo, alavancou as safras agrícolas e ajudou a criar campeões de exportação"

Onde estão os dados? Como se define empreendedorismo (às vezes se confunde com conta-própria) e como o BB e CEF auxiliaram? Que campeões de exportação? (Dado que este mesmo pessoal reclama da primarização da pauta)

Sobre as safras, qual a relação de causa e efeito? Seria talvez possível imaginar que o brutal aumento do preço das commodities tenha algum efeito sobre isto?

Enfim, se alguém fizesse estas afirmações para mim, eu o trucidaria nesta linha...

Ah, sim, depois que o Lula elogiou o Proer, acho que esta questão está pacificada...

E hoje saiu mais um resultado muito desanimador.

A produção industrial caiu -7,3% na comparação out17/out16. Antes estava -4,7% na comparação set17/set16.

Note-se que esse é o pior resultado na comparação em relação ao mesmo mês do ano anterior desde Março.

Ou seja, absolutamente nenhuma recuperação, nem mesmo estabilização, e nem mesmo redução na velocidade da queda da produção industrial. Ao contrário, estamos caindo ainda mais rápido do que nos meses anteriores, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Estou cada vez mais pessimista. Por enquanto, como disse o Governador de São Paulo, o governo Temer é só promessa, pois não apenas não aprovou qualquer coisa, como no começo de seu mandato concedeu diversos aumentos de gastos que somam dezenas de bilhões. É muito possível que, se Dilma estivesse no poder, a situação fiscal estaria muito parecida. A única coisa que melhorou, um pouco, foi a credibilidade.

Além disso, todo mundo sabe que a PEC 241, se for aprovada sem a reforma da previdência, não se sustentará, e além disso o Governo terá que cortar justamente no investimento para tentar fazer cumpri-la no próximo ano.

Por enquanto não há um único indicador que tenha claramente assumido trajetória de melhora. O desemprego continua a piorar. O PIB idem. A produção industrial, os serviços, o comércio, as reformas... Nada parece indicar um caminho sustentado de recuperação. Como se não bastasse, parece que muitos daqueles em torno de Michel Temer estão de alguma forma relacionados na Lava Jato de maneira séria.

Se assim permanecer, o Temer será um fracasso retumbante, e não duvidemos que os quermesseiros possam voltar ao poder. Não me surpreenderei se Ciro Gomes for eleito.

Para piorar, parece que a única coisa que o Governo tem a dizer é: "Senta e reza, pois é só esperar". Como se tudo fosse resolvido com a aprovação da PEC 241. É preciso ser muito ingênuo para acreditar nisso vendo o comportamento dos indicadores. A PEC 241, sozinha, parece não ser suficiente.

O único alento - para não dizer que está tudo igual - é a inflação, que realmente está retrocedendo. Mas é só, embora não seja pouco.

O que será de nós?

Aproveitem para criticar os heterodoxos enquanto podem. Com este desempenho da economia, logo vocês estarão virando janela.


Não sei se é para rir ou para chorar vendo um empresário na TV defendendo a utilização das reservas para "Dar um ânimo na economia"
Ele sugeriu criar um New Deal brasileiro. Não vou apostar com o Alexandre porque ele é um mau perdedor. Mas até janeiro as vozes pedindo a volta da heterodoxia quemersiana serão maioria.

"Na década seguinte, o fortalecimento do Banco do Brasil e da Caixa permitiu estimular o empreendedorismo, alavancou as safras agrícolas e ajudou a criar campeões de exportação"

Sem querer voltar ao assunto....rs

Quem escreveu isso?? José Carlos de Assis?

Caro amigo
Entendi que vc não estava criticando o artigo do Lisboa.

Miséria heterodoxa é tão bom que até hoje não apareceu nenhum déspota da corrente "desenvolvimentista(?).....
...para críticar o artigo dele de forma decente.

Confundem a crítica à teoria como sendo uma crítica pessoal. Por isso, o debate fica baixo.

Mas é fácil entender. Tem um que colocou reta ascendente quando a covariância era 0 e ainda sim o paper é aceito pra publicação, após o Double Blind review ( ah tá sei).

Logo....
Perde -se a paciência, pois é difícil discutir quando não se sabe regra básicas de medidas de dispersão.

Li por aí na blogosfera:


"Desindustrialização. Nossa indústria que chegou a ter mais de 25% do PIB e 17% do emprego (1985), hoje representa 9% do PIB e menos do que isto do emprego."

O fim do Brasil se aproxima.