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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Donald Trump e a política comercial

O cenário econômico dos próximos anos será fortemente afetado pelas iniciativas a serem tomadas pelo novo governo americano, em particular nas áreas fiscal e de comércio exterior. Já quanto à política monetária, muito embora deva permanecer relativamente insulada, já que membros do Federal Reserve possuem mandatos não coincidentes com o do presidente, é de se esperar que reaja às políticas adotadas nas demais frentes.

No lado do comércio exterior, à parte bravatas quanto à imposição de barreiras tarifárias punitivas sobre as importações chinesas e mexicanas, é sincero o desejo de atrair novamente para os EUA setores manufatureiros que se moveram nas últimas décadas para fora do país. Parece um objetivo meritório e quem segue o debate nacional a respeito já há de ter visto defesas bastante apaixonadas de medidas com o mesmo objetivo por aqui. Isto não impede a proposta de estar errada em várias dimensões.

Ainda que medidas de proteção comercial sejam tipicamente justificadas com base nos empregos que poderiam gerar, não se consideram efeitos que possam ter no funcionamento geral da economia, principalmente nas que operam próximas ao pleno-emprego, como parece ser o caso americano.

De fato, o desemprego lá se encontra ao redor de 5% da força de trabalho, cerca de metade do pico atingido após a crise financeira internacional, apenas meio ponto percentual acima do patamar que vigorava logo antes dela, e colado nas estimativas da taxa natural de desemprego (4,8%).

É verdade que parcela da queda do desemprego reflete regimes de trabalho mais precários, mas, mesmo se adotarmos uma medida de desemprego mais ampla (U6, no jargão), que contemple este problema, a conclusão pouco se altera. Em outubro a U6 registrava 9,5%, metade do anotado em seu pior momento e apenas 1,5 ponto percentual acima do observado logo antes da crise.

Por onde se olhe, a economia americana opera bastante próxima ao pleno-emprego. Isto significa que o espaço para a geração não-inflacionária de emprego é pequeno: um aumento do emprego nos setores privilegiados pela política comercial teria que ser compensado pela redução de emprego nos demais, de forma a evitar pressões sobre a inflação. Concretamente, o Fed elevaria taxas de juros em ritmo mais intenso do que era esperado há pouco para compensar desemprego sistematicamente inferior à taxa natural.

Além disso, numa economia como a americana, com baixas barreiras comerciais, a migração da produção para o exterior permite que o setor privado se especialize naquilo que faz de mais produtivo, da mesma forma que uma advogada contrata um motorista para dedicar mais tempo à sua tarefa mais produtiva, ainda que dirija melhor que seu funcionário.

A reversão deste processo reduziria a produtividade geral, assim como a demissão do motorista faria nossa advogada perder horas valiosas no trânsito. O menor crescimento da produtividade exacerbaria pressões inflacionárias e contribuiria para um aperto monetário mais intenso.


Tais raciocínios são ao menos parte da explicação para a (ainda modesta) elevação das taxas de juros nos EUA nos dias que seguiram à eleição. Na semana que vem examinaremos outros motivos, assim como sua provável repercussão sobre o Brasil.



(Publicado 16/Nov/2016)

Reações:

35 comentários:

Socorro aos estados é o enterro da PEC dos gastos ainda no ventre.

"...advogada contrata um motorista para dedicar mais tempo à sua tarefa mais produtiva, ainda que dirija melhor que seu funcionário.

... assim como a demissão do motorista faria nossa advogada perder horas valiosas no trânsito."

Não entendi. O trânsito não muda quando muda o motorista. E ela dirige melhor que o funcionário...
Faria diferença se ela usasse o metrô.

Vi uns gráficos de exportação x importação na Economist. É verdade que o déficit dos EUA com a China é enorme e cresceu muito nos últimos 20 anos.
Já o comércio com o México é praticamente equilibrado. Qualquer benefício a alguns setores com com a criação de barreiras à importação seria anulado com prejuízo a outros, pois o México certamente iria retaliar.

O senhor afirma que os setores manufatureiros migraram dos EUA nas últimas décadas.

Sendo assim, nas últimas décadas, mão de obra foi liberada para setores mais especializados e mais produtivos e, portanto, os EUA só podem ter aumentado sua produtividade nesse período.

Porém, de acordo com o FMI, nos EUA a classe média caiu a níveis de três décadas atrás e a pobreza aumentou (El Pais, 13/07/2016).

Mas, de acordo com a sua teoria, não deveria ter ocorrido exatamente o contrário com o aumento de produtividade?

Como o senhor explica essa diferença entre sua teoria e a realidade dos EUA que ajudou a eleger o Trump?

Alexandre, não vai falar nada sobre o plano da turminha heterodoxa, liderada pelo Nelson Marconi, divulgado essa semana?

Até o Felipe Salto que é seu amigo curtiu.

A FIESP toda curtiu

heheh

Schwartsman porque existiria uma relação entre emprego/desemprego e inflação? A inflação não é um fenômeno essencialmente monetário?

Muito particular o caso do motorista. Muito mais real e' o caso dos garcons, garconetes, bartenders, burger-flippers, etc, que consistiram na parcela de crescimento mais significativa do emprego neste pais. De longe a maior. Esses seriam sim atraidos por empregos melhor remunerados, sairiam das minhas costas - cujo imposto paga pelos beneficios sociais que os macdonalds da vida deveriam estar pagando - e trariam sim um grande beneficio 'a nacao que nao precisa realmente desses profissionais.

Não estou entendendo esse estresse todo com relação à Donald Trump.

Até onde sei, a governança nos Estados Unidos é muito diferente da brasileira. Aqui o presidente é quase imperial, tem a iniciativa de leis em qualquer assunto e comanda todas as políticas econômicas, com exceção das políticas monetária e cambial (no governo Dilma, fazia isto também). O Congresso, na maioria das vezes, apenas referenda as medidas tomadas pelo executivo.

Nos Estados Unidos o presidente só tem a iniciativa de leis no que se refere à segurança interna e nas relações exteriores. (coordena pessoalmente a secretaria (ministério de relações exteriores) de Estado, a secretaria de Defesa, o Pentágono, o Comando do Estado Maior das Forças Armadas, a CIA..). Nestas duas áreas ele é o ban ban ban. Em ambos os casos, o Congresso geralmente aprova as leis e medidas enviadas pelo executivo.

Na esfera econômica, excetuando-se a política monetária (e por extensão a cambial) executada pelo FED, é o Congresso quem tem a iniciativa de leis e quem dá as cartas nas políticas comercial e fiscal. O Congresso além de decidir sem limites sobre o orçamento e a política comercial, conta com uma comissão mista que empenha as despesas, restando ao executivo o papel de mero executor. Há muitos lobbies oficiais que atuam no Congresso. Nestas duas áreas o poder presidencial é quase nulo. A última palavra é e sempre será do Congresso. Mesmo que Trump queira, por exemplo, sair do NAFTA, o Congresso não vai aceitar passivamente, mesmo tendo maioria dos conservadores.

Esses 4 bilhões que a União pretende dar aos Estados (para eles entregarem a funcionários públicos) não poderia virar uma cesta natalina para os 14 milhões de desempregados?

A analogia da Advogada considera que ela estuda o trabalho dela enquanto está no carro. Entendi desta forma. O ganho de produtividade seria em ela não ter que se preocupar com o trânsito enquanto está no trabalho... Realmente o exemplo não foi o melhor eu acho. Talvez um motorista de ônibus que não tem que se preocupar em fazer troco porque todos os passageiros embarcam usando cartão.

Alexandre, a logica deste post foi muito ruim.

O discurso dele foi apenas eleitoreiro,passado as eleições ele vai se alinhar ideologicamente ao pensamento do partido republicano.

O senhor contrata imigrantes ilegais ai nos EUA para trabalharem para o senhor? É por isso que o senhor condena Donald Trump?

Alexandre,

Pq no Plano Real a ancora foi o câmbio e não a taxa de juros?

No plano real foi o juro, obvio. O cambio ajudava, claro, mas por tras de tudo era o juro estratosferico que mantinha a inflacao sob controle.

"No plano real foi o juro, óbvio"

Então tinha que ter desvalorizado logo, evitando a perda de tantas reservas. Só que aí a inflação corria o risco de voltar forte. É fácil falar agora, mas o pessoal da época já estava escolado de tantos planos fracassados, apesar de juros altos, e não queria correr nenhum risco.

Não conhecia o artigo Oreiro e Feijó (2010). Te citou duas vezes.

"Do outro lado, temos os assim chamados "economistas ortodoxos" que afirmam que as transformações pelas quais a economia brasileira passou nas últimas décadas não tiveram um efeito negativo sobre a indústria e que a apreciação do câmbio real resultante dessas reformas favoreceu a indústria ao permitir a importação de máquinas e equipamentos tecnologicamente mais avançados, o que permitiu a modernização do parque industrial brasileiro e, consequentemente, a expansão da própria produção industrial (Schwartsman, 2009)"

"Nas palavras de Schwartsman (2009): "Não é a primeira vez que ouvimos esta conversinha [...] O curioso é ouvi-la de novo, logo após a previsão ter se mostrado completamente errada pelo desenvolvimento do país nos últimos anos até a eclosão da crise (grifo nosso). De fato, o crescimento, não só da produção industrial, mas do PIB, acelerou-se consideravelmente até setembro de 2008. No que se refere à primeira, a taxa média de expansão em quatro anos atingiu algo como 4,5% ao ano (grifo nosso), quase três vezes superior à registrada em períodos anteriores. Além disto, como já destacado aqui, o crescimento foi liderado pelos setores de maior intensidade exportadora, fenômeno difícil de conciliar com a afirmação acerca da influência negativa do câmbio sobre a atividade industrial"

Alexandre,

Temos pontos interessante acima sobre o Plano Real.

Poderia dar a sua opinião?

Laura

Poderia disponibilizar links com pdf para os seguintes artigos?

Aceleração inflacionária, instabilidade financeira e endividamento interno e externo - Alexandre Schwartsman

A crise cambial e o ajuste fiscal - Alexandre Schwartsman

Uma crítica a refutação lógica da macroecônomia neoclássica - Alexandre Schwartsman, Luiz Fernando E. Lopes e Samuel de A. Pessôa

Todos na Revista de Economia Política.



"Então tinha que ter desvalorizado logo, evitando a perda de tantas reservas. Só que aí a inflação corria o risco de voltar forte. É fácil falar agora, mas o pessoal da época já estava escolado de tantos planos fracassados, apesar de juros altos, e não queria correr nenhum risco."

Havia sim o medo de flutuar a moeda, mas isso nao tira do juro seu papel principal.

Alex, é verdade que o Bresser te deu carta para o Doutorado?

Alex,

quando queremos analisamos a taxa target média no período, faz mais sentido falarmos da média simples da target no período ou considerarmos a média geométrica?

O PIB do 3 trimestre foi catastrófico, sinal de que, ao contrário do que se pensava, ainda não chegamos realmente ao fundo do poço. Nesse cenário, o empresariado não consegue investir, seja porque as expectativas não se revigoram, ou porque os juros são altíssimos, ou porque está simplesmente todo mundo quebrando e acabou o dinheiro. É necessário, penso eu, que faça o seguinte exercício hipotético: e se, por conta das condições reais da economia, apenas a recuperação da credibilidade e das expectativas (se houver) não for suficiente para recolocar a economia em crescimento? Assumindo isso como verdade para exercício hipotético, quais seriam as alternativas nesse cenário?

"Muito particular o caso do motorista."

Francamente...

"Não entendi. O trânsito não muda quando muda o motorista. E ela dirige melhor que o funcionário...
Faria diferença se ela usasse o metrô."

Putz, alguém abriu a porta do zoológico?

"O senhor contrata imigrantes ilegais ai nos EUA para trabalharem para o senhor? É por isso que o senhor condena Donald Trump?"

Claro! (Sim, certamente alguém abriu as jaulas)

"Alexandre, não vai falar nada sobre o plano da turminha heterodoxa, liderada pelo Nelson Marconi, divulgado essa semana?"

Leia a Folha de hoje

"Poderia disponibilizar links com pdf para os seguintes artigos?"

Não tem na própria REP?

"Alex, é verdade que o Bresser te deu carta para o Doutorado?"

Sim

"No plano real foi o juro, obvio. O cambio ajudava, claro, mas por tras de tudo era o juro estratosferico que mantinha a inflacao sob controle."

O juro resultava em boa parte do câmbio

"quando queremos analisamos a taxa target média no período, faz mais sentido falarmos da média simples da target no período ou considerarmos a média geométrica?"

Meta para a Selic?

O correto é média geométrica, mas nem sempre faz muita diferença.

"Schwartsman porque existiria uma relação entre emprego/desemprego e inflação? A inflação não é um fenômeno essencialmente monetário?"

Curva de Phillips com expectativas

"Como o senhor explica essa diferença entre sua teoria e a realidade dos EUA que ajudou a eleger o Trump?"

Duas palavras: Stolper-Samuelson

"Duas palavras: Stolper-Samuelson"

Voce acha que globalizacao acha desta forma seu limite?

"Duas palavras: Stolper-Samuelson"

Obrigado pela resposta à minha colocação, vou estudar sobre o tema.
Observo que é um outro comentarista que está questionando sua resposta.