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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Dr. Bellezza e as razões humanitárias

Dr. Bellezza é imune à razão. É a única conclusão que posso tirar de sua tentativa de seguir alegando que são os juros nominais (que incluem a inflação), e não os juros reais (que a excluem), os responsáveis pela elevação da relação dívida-PIB.

Ele afirma: “a dívida bruta equivalente a 57% do PIB em setembro de 2014, somada ao déficit nominal de 9% do PIB no período de 12 meses, respondem pelos 66% do PIB de dívida bruta de setembro de 2015”. Só que não...

Embora neste período em particular a variação da dívida seja quase igual ao resultado nominal (para variar os números estão errados: a variação da dívida foi 8,4% do PIB e o déficit nominal 9,3% do PIB), em praticamente todos os demais estes números não coincidem. Em 2013, por exemplo, a dívida bruta caiu 1,5% do PIB e o déficit nominal foi 3,1% do PIB.

Isto deveria ser óbvio: o setor público no Brasil jamais registrou um superávit nominal; no entanto, de 2009 a 2013 a dívida bruta caiu, o que já deveria acender uma luz da alerta para quem afirma que a variação da dívida-PIB equivale ao déficit nominal.

E o motivo é matemático, caso os 18 leitores me permitam um pouquinho de álgebra.

Vamos chamar a dívida hoje de Dt e a dívida ontem de Dt-1. De forma simplificada, a dívida hoje nada mais é do que a dívida ontem, capitalizada pela taxa nominal de juros (i) e deduzido o superávit primário, H:

Dt = (1+i)Dt-1 - Ht

Como estamos interessados na relação entre a dívida e o PIB temos que dividir os dois lados da equação pelo PIB nominal de hoje, resultado da multiplicação entre preços, Pt, e PIB real, Yt.

Dt/PtYt= (1+i)Dt-1/PtYt - Ht/PtYt

O termo acima à esquerda é a relação dívida PIB hoje (dt=Dt/PtYt), mas o primeiro termo do lado direito não é a relação dívida-PIB de ontem (dt-1=Dt-1/Pt-1Yt-1), pois compara a dívida ontem com o PIB hoje.

Isto pode, contudo, ser resolvido: preços de hoje são os de ontem acrescidos da taxa de inflação (p), enquanto o PIB real de hoje é o de ontem capitalizado pelo crescimento real (g), isto é, Pt=(1+p)Pt-1 e Yt=(1+g)Yt-1.

Usando estas definições, PtYt= Pt-1Yt-1(1+p)(1+g), e podemos exprimir a relação dívida-PIB hoje como:

dt = dt-1[(1+i)/(1+p)(1+g)] - ht

Deixando de lado por um segundo o superávit primário (h) e o crescimento real do produto (g), é fácil ver que a variável relevante para a elevação da dívida-PIB é a diferença entre a taxa nominal de juros (i) e a inflação (p), ou seja, a taxa real de juros.


Não é uma conclusão inusitada, mas requer um raciocínio analítico, passível de ser expresso de forma matemática, que simplesmente não faz parte das escolas adeptas do pensamento mágico. Em Hogwarts, “razões humanitárias” justificam qualquer coisa; já no mundo real valem a lógica e os dados.

“A informação de que ambos têm seus valores expressos em preços correntes significa que se encontram na mesma data-base, ou seja, já incorporam os efeitos no período da taxa de juros no estoque da dívida, bem como da inflação no PIB, receitas e despesas do setor público”

(Publicado 05/Dez/2015)

Reações:

17 comentários:

Eu quero ter um filho com o sr.

Muito esclarecedor! Inclusive eu não entendia por que no artigo do Belluzo ele afirmava que a dívida de 66%
era a divida de 57% um ano atrás acrescido do déficit nominal de 9%. Era uma coisa sem sentido, pois
não leva em conta taxa de juros, nada. Mas você esclareceu, a premissa dele é que é assim que se calcula o a dívida.....Como disse antes, se isto for a interpretação real do Belluzo e ele for influente sobre a Dilma, realmente estamos ferrados...

Essa continha de vezes é a conta mais complexa que um economista deve fazer em sua carreira?

E NEM ISSO O CARA CONSEGUE FAZER?

Saber... Não- saber... Achar que sabe... Pobre ser humano -- ainda vai dar muito com os burros n'água.

mais um professor da Unicamp
na área econômica, essa "escola" já fez muito mal pelo Brasil
o brasileiro já não tem acesso à universidade
e, quando tem, muitas vezes encontra com o Sr Bellezza dando "aula"
complicado....

Quando vc voltar ao bc, vc me leva junto?
Bj
Lee Elle

"Quando vc voltar ao bc"

Este risco a gente não corre :-)

O senhor acabou de declarar que esteve no BC para defender os interesses do mercado financeiro!!! Ja o Tombini nunca defendeu os interesses do mercado financio,e um funcionário de carreira do BC que esta lá para defender os interesses do povo brasileiro.

"O senhor acabou de declarar que esteve no BC para defender os interesses do mercado financeiro!"

Sério? Em que língua?

"Ja o Tombini nunca defendeu os interesses do mercado financio,e um funcionário de carreira do BC que esta lá para defender os interesses do povo brasileiro."

Claro! O povo clamava por inflação de dois dígitos.

Ele teve dificuldade de atingir a meta devido a questão fiscal.

Mas a inflassaum aumenta meu salariu né

tem que voutar o gatilho salariau

"Ele teve dificuldade de atingir a meta devido a questão fiscal."

Teve dificuldade porque é um bolha incompetente que baixou a cabeça e fez o que a presidente mandou.

A verdade é que Dilma só se cerca de pessoas fracas. Essas são facilmente manipuladas e seguem ordens cegamente. Trocas honestas de ideias trazem os melhores resultados, mas isso uma comunista jamais saberia...

Fico impressionada com a falta de vergonha na cara!!!

http://mobile.valor.com.br/brasil/4355568/se-sair-com-impeachment-nao-vai-ter-sossego?utm_source=newsletter_manha&utm_medium=13122015&utm_term=se+sair+com+impeachment+nao+vai+ter+sossego&utm_campaign=informativo&key=epa&NewsNid=4353336