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segunda-feira, 15 de julho de 2013

O fracasso órfão

“Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu”. Enorme (astronômica mesmo) é a distância que vai de Guido Mantega a Albert Einstein, mas não pude deixar de me lembrar desta frase ao ler a tentativa patética de ilustres representantes do “keynesianismo de quermesse” de renegar modelo econômico adotado recentemente no país, buscando também se distanciar do falante ministro da Fazenda.

Durante os anos que o país adotou o chamado “tripé macroeconômico”, caracterizado pelo câmbio flutuante, o compromisso com as metas de inflação e o cumprimento das metas do superávit primário, autodenominados “desenvolvimentistas” não se vexaram de prometer um desempenho melhor caso sua estratégia fosse adotada. Segundo este pessoal, seria possível crescer muito mais caso a taxa de câmbio fosse administrada, a taxa de juros reduzida, o grau de intervenção do governo na economia aumentasse (via políticas setoriais) e a política fiscal fosse relaxada.

Não é necessário nenhum grande salto de imaginação para notar que estas têm sido as vigas mestras do que se convencionou chamar de “nova matriz econômica”, que entrou paulatinamente em vigor nos anos finais do governo Lula, ganhando força considerável nestes dois anos e meio da administração Dilma. Diga-se, aliás, que a transição foi aplaudida entusiasticamente por todos os que defendiam esta alternativa ao “tripé”.

Os resultados desta política estão nas manchetes de todos os jornais: crescimento pífio, inflação acima do topo da meta, déficits externos crescentes e desarticulação do investimento. Por qualquer ângulo que se olhe, a “nova matriz econômica” tem sido um fiasco retumbante.

Sob condições ideais, nem tudo estaria perdido. Conhecidas as conseqüências da experimentação “desenvolvimentista”, pesquisadores sérios tentariam entender o que estava errado em sua formulação original e, no processo, ganhariam algum conhecimento. Nada que economistas melhor treinados não soubessem, posso assegurar, mas certamente novidades para os que não tiveram este privilégio.

No entanto, como diria um amigo, de onde menos se espera é que não vem nada mesmo. Ao invés de reconhecer os erros e buscar entendê-los, testemunhamos a abjuração deslavada, como se a política governamental fosse mesmo distinta daquela preconizada por este grupo.

O problema do governo, afirmam, foi não ter percebido que a desaceleração corrente seria distinta da observada na crise de 2008/09. O argumento, porém, pena com sua suposta justificativa para a diferente natureza da fraqueza atual, já que – por formação ou ignorância mesmo – deixam de lado o fato mais óbvio: a economia operando próxima ao pleno emprego, em contraste com o período da crise, e insistem na tese do anêmico desempenho nacional resultar do baixo crescimento mundial.

É duro de engolir. À parte a desaceleração global ser uma pálida sombra do enfarte econômico de 2008/09, não se pode ignorar o desempenho dos demais países emergentes, em  particular os latino-americanos, cujo crescimento tem sido bem mais vigoroso que o brasileiro e sem os nossos desequilíbrios, como mostra a inflação muito mais baixa nestes países.

Partindo de um diagnóstico equivocado, tentam se diferenciar das políticas adotadas como se estas tivessem atuado na direção correta, apenas em intensidade insuficiente. Em outras palavras, defendem gastos ainda maiores, sem aparentemente levar em conta que o dispêndio federal está no nível mais alto da história, muito menos perceber as conseqüências deste tipo de política sobre a inflação e as contas externas.


Nada esqueceram e nada aprenderam; exceto talvez que a derrota é uma órfã que precisa ser abandonada no primeiro artigo que se tenha chance.



(Publicado 17/Jul/2013)

Reações:

43 comentários:

"de onde menos se espera é que não vem nada mesmo"
Apparício Torelli, Máximas e Mínimas do Barão de Itararé

Cara esses heterodoxos são irritantes pra cacete! Lá nos EUA os idiotas da New School são vistos como antropológos, e só tem relevância na blogosfera bizarroide

Eu pergunto, COMO CAZZO esses imbecis da New School, UFRJ, Unicamp conseguem influenciar a política economica por tanto tempo!

Eu só peço 10 anos, DEZ ANOS de capitalismo sério no Brasil

E o Belluzzo,um dos pais desse desse desastre? Vai partir para uma masturbação hegeliana sobre o capitalismo?

Assim como os liberais dizem a cada crise, os heterodoxos toscos dirão que faltou heterodoxia.
Como dito antes, precisamos de capitalismo já.
Maradona

Bom mesmo são os modelinhos de equilibrio geral neo clássicos.... bom mesmo é acreditar em expectativas racionais... bom mesmo é pregar a auto regulação dos mercados...

Podemos ficar tranquilos.... quando a nova crise acontecer todos esses liberais vão correndo mesmo é pedir socorro para o Estado...

Belluzzo diria que o Alexandre confundiu a aparência com a essência e que ele seria, portanto, um "idiot savant".

"Bom mesmo são os modelinhos de equilibrio geral neo clássicos"

Que nada; bom mesmo é ver dois caras da AKB que aplaudiram a "nova matriz econômica" o que puderam tentando sair de fininho agora que a vaca foi pro brejo.

Já vejo os papers: "O que a AKB realmente quis dizer", kkk

"bom mesmo é ver dois caras da AKB que aplaudiram a "nova matriz econômica" o que puderam tentando sair de fininho"

Priceless!

Não sou economista, mas gosto de economia, e leio tudo que me aparece à frente. Li um artigo de hoje do Chico Lopes no Valor Econômico (O PIB cresce 4% ao ano). Segue trecho abaixo. Existe uma controvérsia aí?
.
"Se quisermos ter uma ideia precisa do que está acontecendo com uma economia, o caminho mais seguro é trabalhar com variações em doze meses. (...) Por exemplo, a variação em doze meses do IBC-BR até maio de 2013 (portanto sobre maio de 2012) foi de 2,28%, mostrando sem dúvida uma desaceleração importante em relação à variação em doze meses de 7,3% até abril. Note-se, porém, que esse excepcional resultado de abril foi simplesmente ignorado tanto pela imprensa como pela maioria dos analistas de economia. Por outro lado, a variação em doze meses de maio significou aceleração em relação às variações de 1,16% até março e de 0,44% até fevereiro. Que direção de movimento estaria sendo sinalizada aqui?"

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/opiniao/3200636/o-pib-cresce-4-ao-ano

Alex te provocando um pouco, esse não seria um comportamento comum não só aos caras da AKB mas aos economistas em geral. Quer dizer os keynesianos nos EUA em geral adotam postura parecida não? "Olha não deu certo por uma questão de medida, vamos gastar mais ou injetar mais liquidez" . . . Não é o papo do Krugman e outros?

"Existe uma controvérsia aí?"

Controvérsia, não. Erro, sim.

Para ver isto, imagine o seguinte:

Uma economia qualquer vem crescendo a um ritmo de, digamos, 4% ao ano, de modo uniforme (0,33% ao mês).

Aí em janeiro do ano X ela para de crescer e fica assim até dezembro daquele ano.

Quem acompanha o crescimento marginal percebe imediatamente o que está ocorrendo. Já o Chico Lopes iria olhar o crescimento jan/jan e falar: "não, está crescendo 3,7% ainda". Em fevereiro ainda estaria crescendo a 3,3%, etc, etc.

Se fosse alguém que olhasse para a taxa 12 meses contra os 12 meses anteriores iria até o fim do ano jurando que a economia estaria crescendo (no caso 1,8%).

Anos atrás ouvi de um então membro da equipe econômica quando o Chico Lopes era diretor do BC que "o Chico odeia a margem"; agora entendo o porquê.

"Olha não deu certo por uma questão de medida, vamos gastar mais ou injetar mais liquidez" . . . Não é o papo do Krugman e outros? "

Lá o desemprego está alto e a inflação baixa e era crescente com a inflação derretendo quando a controvérsia rolou. Não quer necessariamente dizer que os keynesianos estivessem corretos, mas com desemprego baixo e inflação alta sugerir mais do mesmo remédio me parece bastante cretino, não?

E o Delfim,outro pai desse desastre? Esse é político: vai ressurgir das cinzas. Se Delfim for jogado pelado na Sibéria em menos de um ano estará assessorando o Putin.

Filho feio não tem pai...

SERIA BASTANTE APROPRIADO CRIAREM O JOKE, JOURNAL OF KEYNESIAN ECONOMICS...

Caraca, Delfim pelado na Sibéria....tá aí uma imagem desnecessária!hahaha

Quando eu li esse artigo no Valor eu suspeitei que o Alex martelaria. Mandou bem demais hahaha

Quer dizer que é o o pensamento Keynesiano que esta em crise nos EUA ?? Quer dizer que é a turma de chicago que se provou correta ???

Viva o Ostrich Economist !!!!

Dá até vergonha alheia de ler o texto do "Consequências do Senhor Mantega", pra piorar ainda tentam fazer um comparação com o texto do keynes vs churchill.

"Quer dizer que é o o pensamento Keynesiano que esta em crise nos EUA ?? Quer dizer que é a turma de chicago que se provou correta ???"

Quer dizer que o pessoal da AKB é aclamado nos EUA?

Ostrich Economist deve ser sua assinatura...

Alexandre, e a comparação de um dos links entre a economia brasileira com a mexicana (ao invés da chilena, por exemplo). É válida? Abraço.

Putin e nossa semi-búlgara tem muito em comum: ambos se dizem ex-comunistas,adoram um capitalismo de estadão,usam uma democracia..... para se eleger, as economias estão com números macro parecidos (ex balanço de pagamentos) e vão deixar uma herança maldita.

Idiotas Austríacos

A macro de hoje em dia não é "CHICAGO VS KEYNESIANOS (que segundo eles vai de Stalin até Mankiw)"

Tente ler um manual decente de economia ao invés de blogs austríacos panfletários

Existe algum austriano que não seja oligofrênico? Até agora não encontrei.

Quando o navio afunda os ratos fogem.

Na boa, macro como um todo é ridicula (claro que não tanto quanto AKB que na verdade é antropologia)

Eu li um QJE outro dia.. assumption assumption assumption.. ai vai um pouquinho de matemática..olha só agora eu calibro..pum!

Alexandre Schwartsman,
Quando comecei a ler seu artigo, lembrei-me da canção de Belchior "Não cante vitória muito cedo, não. Nem leve flores para a cova do inimigo". No entanto, ando meio ressabiado aqui no blog. Primeiro foi ao perceber que às vezes o "O" Anômimo assemelhasse um tanto a um infiltrado, afinal sentado a sua direita muitas vezes eu sinto as opiniões dele mais próximas da minha. E segundo ao ver você ultimamente começando a acertar os passos com o Banco Central.
Então prestei mais atenção na frase de Albert Einstein e apesar da sua ressalva da distância que poderia bem ser relativizada para o tempo ou para o campo da ciência de estudo e fiquei a imaginar se não havia no proêmio uma referência ao prêmio a que Albert Einstein fizera jus.
Será que com sua capacidade premonitória, posta a prova na sua previsão sobre até onde o juro ia cair, até onde o dólar ia subir e os efeitos nos preços no Brasil da seca no oeste americano, você começa a ver indícios de recuperação da economia que vão levar o liguriano ao pedestal?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/7/2013

Alex

vejo cada vez mais distante a possibilidade de um soft landing

Aqui e ali pipocam fofocas sobre bradesco, itaú, a bolha, o papa, a copa.

Qual o seu prognóstico?
Mais do mesmo?

Alex,

Esta rolando fofoca de que estão preparando um golpe branco na economia.

Vc acredita neste tipo de coisa, depois do Collor?

Clever,

Obrigado por escrever um comentário com menos de 80 linhas. Pela primeira vez tive paciência de parar para lê-lo e agora me sinto menos culpado, não perdi nada deixando de ler os anteriores.

Atenciosamente,

eu

Concordo plenamente com o "eu". Ou seria "comigo"?

Alex (ou qualquer outro que queira responder), eu tenho uma perguntinha, não muito relacionado com o post.

Se a economia americana acelerar o crescimento, carrega em parte a nossa, por conta do aumento da demanda americana por bens brasileiros, certo? No entanto, se a aceleração do crescimento por lá se der devido a um aumento de produtividade, por exemplo, não é possível que haja uma transferência de capital do Brasil para os EUA (busca por maiores retornos), e que isso no fim termine por reduzir o crescimento brasileiro (na medida em que reduz o estoque de capital por aqui)?

Abraços, Zamba

belo artigo mas voce e o "O" nao podem falar nada, sao de macro, os famosos calibratards

quando a marina for eleita presidenta, ficaremos com saudades da dilma!! pqp.

olha essa bizarrice do Reinaldo Goncalves

http://www.joserobertoafonso.ecn.br/attachments/article/3378/Goncalves.pdf

os heterodoxos pulando da barca ahaha

Um texto bom sobre mais uma aberracao da politica economica. Uma radiografia das manipulacoes no ipca.

http://deseconomiabrasileira.blogspot.com.br/2013/07/metas-de-inflacao-que-metas-dilma.html

"...Eu li um QJE outro dia.. assumption assumption assumption.. ai vai um pouquinho de matemática..".
Depois vem os resultados e os testes para ver se estes são falsos ou não. De onde os caras tiraram este método? Ah, já sei, é só o método científico!!!
Cada um que aparece!
Saudações

"Depois vem os resultados e os testes para ver se estes são falsos ou não. De onde os caras tiraram este método? Ah, já sei, é só o método científico!!!"

calibration monkey detected

"calibration monkey detected"

Acho que o dilema calibration vs econometrics vai existir para sempre. Eu gosto do comentário (um tanto óbvio) do Kocherlakota sobre o tema.

"Some macroeconomists use calibration, some use econometrics, and some use both. There’s no real methodological debate left in the field on this issue.
What is true is that most people outside of macro do not like calibration. I don’t know why. I spent seven years of my life thinking about whether econometrics was better than calibration ... and pretty much decided that the answer is: “it depends”."

Quase nenhum reparo ao ditro no post. Porém, alguns comentários interessantes. De comentaristas:

- Golpe branco na economia não pode ser. Afinal na terra do politicamente correto seria "golpe não afro-descendente".

- Clever, as demais linhas estão escondidas ou vc. parou no proêmio, mesmo?

- boatos de bancos quebrando, no Brasil de hoje, só se fosse o Lehman Brothers.

- Alguém citou soft landing, porém, a dúvida, é se há algo voando.

"Se a economia americana acelerar o crescimento, carrega em parte a nossa, por conta do aumento da demanda americana por bens brasileiros, certo? No entanto, se a aceleração do crescimento por lá se der devido a um aumento de produtividade, por exemplo, não é possível que haja uma transferência de capital do Brasil para os EUA (busca por maiores retornos), e que isso no fim termine por reduzir o crescimento brasileiro (na medida em que reduz o estoque de capital por aqui)?"

Nos dois casos falamos de uma redução do déficit em conta corrente: no primeiro sob o efeito direto das exportações mais elevadas; no segundo porque uma redução no investimento estrangeiro (sob qualquer forma) é, por definição, uma redução do déficit em CC (ambos com tudo o mais constante!).

Estivesse a economia operando abaixo do pleno emprego, em ambos os casos isto equivaleria a um impulso de demanda (externa) e, portanto, expansão (de curto prazo) mais rápida.

Numa economia em pleno emprego isto requer uma mudança no perfil da demanda, i.e., alguma desvalorização da taxa real de câmbio à que ocorreria com a economia abaixo do pleno emprego. Mas não crescimento mais rápido, pois este permaneceria restrito pelo lado da oferta.

A longo prazo, em ambos os casos, há redução da poupança externa que, se não compensada pelo aumento da poupança interna, se traduz em crescimento potencial mais baixo. No primeiro caso, se houver melhora dos termos de troca, este efeito pode ser atenuado.

Faz sentido?

Abs

Esse artigo:http://www.ie.ufrj.br/oldroot/moeda/pdfs/Repasse_20_07_10.pdf faz uso do IPCA, 1999:01-2010:03.

Estou começando a trabalhar com a série do IPCA. Me ajudem:

1. É usual transformar em ln valores em percentual?

2. O IPCA entre 1999:01-2010:03 tem valores negativos?

"Faz sentido?"

Faz sim... vlw!

abs, zamba

Este post está cada vez mais atual. Analogamente, o comunismo deu errado em todos os cantos onde existiu, mas os cumunistas negam. Dizem que o verdadeiro comunismo nunca foi aplicado de verdade e que, quando o for, trará o paraíso à Terra.
De fato, é difícil admitir o fracasso!
Luis