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terça-feira, 23 de julho de 2013

Entre a irrelevância e o equívoco

“É incorreto afirmar que a Terra não gira em torno do Sol. Há dados concretos que desmentem as análises mais pessimistas. A informação parcial confunde a opinião pública e visa criar um ambiente de pessimismo que não interessa a nenhum de nós”. Admito que o exemplo soe um tanto extremo, mas, se ouvisse algo assim, minha reação, um tanto perplexa, seria “Ok, concordo, mas por que mesmo você está me dizendo isto”?

Foi assim que me senti quando a presidente, em discurso ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o popular “Conselhão”, um dos grandes monumentos nacionais ao desperdício de tempo e dinheiro, afirmou que a inflação estava controlada porque desaceleraria na segunda metade de 2013. Apenas se esqueceu de mencionar que não há quem tenha afirmado o contrário (basta checar o que vem dizendo a pesquisa Focus), assim como ninguém acredita que a Terra não gire ao redor do Sol. Neste aspecto, a declaração presidencial é de uma irrelevância atroz.

Por outro lado, reflete um equívoco persistente (e talvez intencional), associando o cumprimento da meta ao registro da inflação abaixo de 6,5% em dezembro de um ano qualquer. A meta, é sempre bom lembrar, ainda mais à luz de declarações como essa, é 4,5%, não 6,5%.

Ocorre que a inflação é uma variável não apenas caprichosa, mas que também reage de forma defasada às decisões de política. Alterações em taxas de juros tipicamente afetam a inflação cerca de seis trimestres à frente. Assim, ainda que o BC soubesse com precisão qual taxa de juros seria consistente com a meta e tomasse as medidas corretas para controlar a inflação, há todo tipo de eventos neste período (safras agrícolas melhores ou piores, flutuação de preços de petróleo, etc.) que poderiam afastar a inflação da meta.

Esta é a razão de ser do intervalo: acomodar eventuais desvios resultantes de eventos imprevisíveis; certamente não como justificativa para permitir que a inflação fique persistentemente próxima ao teto.

Na verdade, se levarmos em consideração tanto a questão das defasagens como a dificuldade de prever certos choques, mesmo no caso de um BC 100% comprometido com sua tarefa institucional, controlar a inflação não significa mantê-la o tempo inteiro no valor exato da meta, mas sim flutuando ao redor desta, de modo que, ao longo de vários anos, a inflação ficasse, em média, na meta.

Sob tais circunstâncias, não é necessária muita reflexão para concluir que a melhor aposta acerca da inflação futura passaria a ser a própria meta. O corolário de inflação controlada, portanto, são expectativas iguais à meta, refletindo a crença que eventuais desvios serão prontamente corrigidos.

De volta ao discurso presidencial, é claro que o exposto acima não descreve de forma alguma o que vem ocorrendo no país. Desde 2010 a inflação é (bastante) superior à meta (o desvio médio por ano foi de 1,6%), e, pior, espera-se que continue acima dela nos próximos anos: a inflação esperada entre 2014 e 2017 é, em média, 5,5% ao ano.

À luz destes desenvolvimentos, o que se espera da responsável pela política econômica não é a reafirmação do que já sabemos, mas sim o que será feito para trazer a inflação para o valor prometido à nação pelo próprio governo.

Neste aspecto a fala se encaixou bem no perfil do “Conselhão”: entre generalidades e a negação da realidade (o gasto federal, supostamente controlado, está no nível mais alto da história) nada foi dito que sinalizasse uma estratégia consistente para lidar com a inflação alta e o crescimento baixo.


Pelo contrário, incapaz de escapar das armadilhas ideológicas em que se meteu e pressionado pela queda de popularidade, a tendência é de isolamento crescente, uma espécie de “autismo econômico” em que a realidade tem que ser ignorada a todo custo. Serve para produzir discursos para o “Conselhão”; jamais para resolver um problema de verdade.



(Publicado 24/Jul/2013)

Reações:

13 comentários:

Alex,

Na atual política de hoje acredito que é puro marketing. A presidente nunca se dirigiu ao conselho, mas para aparecer na foto e na TV para os "súditos" dizendo que agora as coisas melhorar.

Não fica bonito a presidente em uma reunião com os empresários brasileiros?

Os membros do Conselho poderiam cobrar um cachê por aparecer de graça na propaganda do governo.

Edu,

Digo mais: A atual política de hoje acredito que é puro marketing.

Alex

Sobre a razão dos intervalos, nunca li ou ouvi no jornalismo econômico algo escrito com tanta concisão e clareza.

Vou imprimir um monte. Calculo que numa folha A4 em consigo reproduzir a passagem abaixo em até 4 vezes em TNR, corpo 12, espaço simples entre linhas. Portanto, 400/100p.

Assim, sempre que ouvir coisas estranhas sobre inflação, sacarei do bolso esses impressos e os distribuirei.

"Ocorre que a inflação é uma variável não apenas caprichosa, mas que também reage de forma defasada às decisões de política. Alterações em taxas de juros tipicamente afetam a inflação cerca de seis trimestres à frente. Assim, ainda que o BC soubesse com precisão qual taxa de juros seria consistente com a meta e tomasse as medidas corretas para controlar a inflação, há todo tipo de eventos neste período (safras agrícolas melhores ou piores, flutuação de preços de petróleo, etc.) que poderiam afastar a inflação da meta.

Esta é a razão de ser do intervalo: acomodar eventuais desvios resultantes de eventos imprevisíveis; certamente não como justificativa para permitir que a inflação fique persistentemente próxima ao teto." (Alexandre Schwartsman, 27/07/2013)

Abs.

O modelo brasileiro é a Argentina dos Pinguins K.
A única alternativa de isso não ocorrer, de virarmos uma Argentina amanhã, é apear o PT et caterva do poder.

Décio

O Oreiro agora assina artigo corporativista (Valor Econômico de hoje) de baixíssimo nível técnico, sem pé nem cabeça. O cara é muito fraco. Mas o pessoal publica...

Um horror mesmo esse artigo do Oreiro. É com um cara da Fiesp e, logicamente, a receita dos dois para desenvolver a indústria é ... fechar mais o mercado doméstico!

Isso sem contar que uma das barbaridades é que a desindustrialização (cadê?) começou em meados dos anos 70 (como??? E o 2º PND??) e é causada pela apreciação cambial que se iniciou em ... 1994!!! A desindustrialização começou 20 anos antes da apreciação cambial!!!

Haja paciência.

Esse artigo: http://www.ie.ufrj.br/oldroot/moeda/pdfs/Repasse_20_07_10.pdf faz uso do IPCA, 1999:01-2010:03.

Estou começando a trabalhar com a série do IPCA. Me ajudem:

1. É usual transformar em ln valores em percentual?

2. O IPCA entre 1999:01-2010:03 tem valores negativos?

"1. É usual transformar em ln valores em percentual?

Sim, a diferença de ln é uma aproximação à variação percentual;

"2. O IPCA entre 1999:01-2010:03 tem valores negativos?

A variação do IPCA, na frequência mensal, tem 3 registros negativos neste período (jun-03; jun-05 e jun-06 - dá para ver a sazonalidade?)

Obrigado pelo retorno, mas acho que não fiz a pergunta correta ou não entendi a resposta. Seguinte: IPCA é em %. É usual, como pré tratamento, passar um LN no IPCA? Acho que não é correto.

O artigo em questão passa LN no IPCA, mesmo esse apresentando valores negativos nas datas que você citou. Achei isso bizarro!

Eu nao li o artigo, então nao sei bem o que fizeram. Tinha entendido que usaram o delta ln.

Mas é possível usar o ln de 1+inflação: é uma aproximação da inflação.

Eu dei uma olhada rápida (no iPhone)... O que o Modenesi e a Eliana fizeram é kosher - trabalharam com o log do índice IPCA.

Alex,

O estado do Maranhão acaba de emitir títulos lastreados pelo governo federal e em concorrência a eles.

Vc poderia manifestar sua opinião a respeito de mais esse furo na política econômica e fiscal

pode isso Alex?
e a credibilidade do governo?

É sempre bom lembrar que o centro da meta de 4,5% já é algo bem cabuloso.