teste

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Doença holandesa x evidência holandesa

A persistência dos nossos keynesianos de quermesse em tentar demonstrar a inexorável destruição da indústria brasileira merece um estudo sociológico. Eu, mero economista, não consigo entender como ainda exista quem defenda tenazmente uma tese que os dados insistem em refutar, mas talvez algum colega da área de humanas (um psicólogo, quem sabe?) obtenha êxito onde os treinados sob o pressuposto da racionalidade enfrentam dificuldades.

Não se trata apenas de notar, por exemplo, que nos últimos 15 anos a participação da indústria de transformação no valor adicionado tem se mantido ao redor de 16,5% , mesmo porque, em prazos mais longos, seria de se esperar que tal participação caísse, refletindo o fenômeno universal do aumento da demanda por serviços quando a renda per capita se eleva. Apontar que a indústria perdeu participação no PIB ao longo de 40 anos como prova de “desindustrialização” implicaria concluir que potências industriais como a Alemanha também teriam se “des industrializado”.

Uma outra forma de abordar o problema pode lançar, contudo, nova luz sobre o assunto. Haveria evidência mostrando que a fração brasileira na produção industrial global tem caído de forma sistemática? A resposta, adianto, é negativa.

De fato, o Netherlands Bureau for Economic Policy Analysis (CBP ) divulga mensalmente séries da produção industrial global baseadas numa amostra de países desenvolvidos e emergentes que representam cerca de 97% do comércio internacional. Com base nestes números é possível conferir se o país tem mesmo ficado para trás na corrida industrial.

Antes, porém, há uma questão técnica. Para se chegar a um índice de produção global, é necessário ponderar os índices de cada país da amostra e, para tanto, o CBP utiliza dois conjuntos de pesos: um fundamentado na participação de cada país na produção industrial mundial e outro que se baseia na participação sobre as importações globais. O primeiro é teoricamente melhor, mas mais sujeito a erros de estimação, enquanto o segundo, embora não exatamente correto, produz estimativas menos ambíguas. Como ambos apresentam vantagens e problemas, os cálculos foram feitos com as duas medidas, mas as histórias que ambas contam são semelhantes.


Caso o Brasil estivesse perdendo participação na indústria global, a relação entre a produção brasileira e a mundial deveria estar se reduzindo ao longo do tempo, mas não é isto que observamos. Pelo contrário, a razão construída a partir da estimativa baseada nas importações sugere um ganho modesto, isto é, a indústria local teria crescido mais do que o resto do mundo. Já se utilizarmos a medida baseada nos pesos da produção de cada país, a relação Brasil-Mundo mostra estabilidade, ou seja, a produção local teria crescido em linha com a global. Como os 17 leitores já devem ter concluído, é muito difícil reconciliar esta evidência com a noção de decadência industrial.

Indo mais fundo descobrimos também que o Brasil tem uma atuação muito superior ao dos países desenvolvidos, mas que fica atrás dos chamados emergentes. No entanto, dentro deste grupo, o país só perde mesmo para os asiáticos, tendo crescido mais rápido que latino-americanos e países do Oriente Médio e África, suplantando também, nos últimos anos, o desempenho do Leste Europeu.

Na pior das hipóteses, portanto, o Brasil tem mantido seu peso na produção global e, exceção feita à Ásia, apresentado um crescimento mais forte que o de diferentes grupos de países, a despeito de flutuações de curto prazo, evidência que se soma ao conjunto de dados negando a “desindustrialização”. Caso dados holandeses fossem páreo para as demais substâncias liberadas naquele país, seria o fim da polêmica; infelizmente, porém, não parece ser o caso. Há um psicanalista na plateia?


(Publicado 29/Mai/2010)

Reações:

33 comentários:

A questão que me interessa é mais qualitativa do que quantitativa. A indústria da construção naval dá o exemplo didático do fracasso do modelo de substituição de importação. Inauguraram em Recife, com dinheiro do fundo da marinha mercante, um estaleiro que está no topo da tecnologia moderna. Claro, tudo importado. A produção, naturalmente destinada à Petrobras (devem ter conseguido o contrato antes de terem o estaleiro). Daqui a dez anos, quanto o estaleiro estiver sucateado, voltam de novo a repetir o mesmo esquema. Naturalmente, este é o retrato do modelo de substituição de importação, inventado por Celso Furtado e adornado pelos políticos criados na ditadura militar.A conclusão é de que, se o mesmo se aplica para as demais industrias, não substituímos nada. Mercado neles!!!!!!!

Excelente texto, ontem li no estadão uma matéria sobre a Texto do Nakano sobre a doença Holandesa que vc já tinha comentado no Blog.

Imagino que esse texto deve ser alguma resposta a matérias.

Alexandre, algum palpite de pq a diferença entre as curvas esteja aumentando?
Abraços
Daniel

"algum palpite de pq a diferença entre as curvas esteja aumentando?"

Não, mas é uma boa pergunta. Uma possível resposta é que o Brasil tem tido um desempenho muito melhor que as economias desenvolvidas, que tendem a ser muito abertas (EUA à parte), cujo peso na importação aomda é alto, mas na produção propriamente dita é menor.

Faz sentido?

Abs

Alex

Alex, hoje saiu um estudo do IPEA dizendo que, em 2009, a taxa de investimento do setor público passou de 4%. Parece alto. Será que está correto?

Veja o link: http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/05/26/investimento-publico-brasileiro-bateu-recorde-em-2009-916693939.asp

Alex,

gostei do texto, muito. Mas tenho uma pergunta que, acho, é anterior à análise que você fez: o próprio argumento que a indústria é "melhor" para a economia, tem sustentação? A defesa da industrialização parte do pressuposto de que a indústria cria mais valor agregado e concede mais "dinamismo" à economia de um país. Isso se sustenta?

Acho que estes caras pegaram a doença holandesa no distrito da luz vermelha, só pode ser!

Prezados senhores,
Sou psicanalista com formação freudiana. Tal não me afasta da admiração pela obra de Lacan. Isso pouco importa para o comentário que, com a modéstia e sinceridade pertinentes, trago à consideração de V.Sas: Há um fenômeno humano, demasiadamente humano, que se chama “racionalização”, e que, dizem, Freud e Lacan nunca se sentiram à vontade diante dele. Estudaram-no dedicada e profundamente, mas nunca tiveram coragem de olhar a fera nos olhos. Todos somos falíveis , mas muitos necessitam esquecer disso para continuar vivos! Com apreço, Roberto W. Hilbert

Alex,

Vc sabe como se comportaram essas duas séries nos anos 1980 e 1990?

Argumenta-se que a indústria brasileira reduziu seu peso relativo com a abertura comercial. O que faz algum sentido, dado a ineficiência dos setores protegidos da concorrência externa.

Abs,

Lucas

"Alex, hoje saiu um estudo do IPEA dizendo que, em 2009, a taxa de investimento do setor público passou de 4%. Parece alto. Será que está correto?"

Provavelmente nao--veio do IPEA do Poquemon. Depois eu leio e comento.

Off Topic:

Interessante. Leiam!

http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/5/26/a-cigarra-e-a-formiga

Se estiver grosseiramente errado, como soa, seria ótimo se fosse exposto.

O IPEA pode ser usado em um ano de eleição para inflar os números favoráveis ao governo.

"Alex, hoje saiu um estudo do IPEA dizendo que, em 2009, a taxa de investimento do setor público passou de 4%. Parece alto. Será que está correto?"

Provavelmente nao--veio do IPEA do Poquemon. Depois eu leio e comento.

AE, ALEX!

Matou a pau. A "Doenca Holandesa" no Brasil ta' numas de viuva Porcina!

Um abraco de quebrar costela

Kleber S.

Alex,

pode nao mostrar doenca holandesa, mas tal grafico nao apresenta relacao cambio-industria? E com sinal negativo entre ambos?

"mas tal grafico nao apresenta relacao cambio-industria? E com sinal negativo entre ambos?"

Não. POr exemplo, a indústria local cresce mais rápido que a global entre 2006 e 2008, quando, segundo os doentes holandeses, deveríamos estar em plena decadência industrial.

NAO PERCAM NESTE FIM DE SEMANA!

A mini-serie "O MILAGRE DA MISTIFICACAO", onde trataremos do sistema bancario e o que vem por ai'.


Um abraco de quebrar costela


Kleber S.

Lendo sobre o estudo do BID que mostra que a produtividade tupiniquim cai ladeira abaixo desde 1960, fico pensando na vaca holandesa. Nâo seria um boi voador?

Alex,

Pareceu-me que o recente estudo elaborado pelo BID e apresentado hoje contraria, em partes, este post. Ou estou errado?

"Produtividade segura crescimento de países da América Latina, diz BID."

"O Brasil foi o terceiro país com melhor desempenho em produtividade na América Latina, embora sua produtividade tenha DIMINUIDO quando comparada à dos Estados Unidos, desde 1960."

Boa coluna. Vejo que, na nova linha editorial da folha, vc terá mais liberdade para escrever seus comentários usando sua acidez tradicional.

Essa versão é igual à impressa? Se for, vejo que também mudou de revisor, pois alguns erros gramaticais antes raros estão presentes agora. Dê um puxão de orelha no pessoal.

Abraço do Pai Alex.

"Essa versão é igual à impressa? Se for, vejo que também mudou de revisor, pois alguns erros gramaticais antes raros estão presentes agora. Dê um puxão de orelha no pessoal."

Desta vez não, porque no blog eu deixei o gráfico, que não está na versão impressa.

Também aumentaram o tamanho do artigo, o que me pegou de surpresa (uma surpresa agradável, porque 3500 era muito apertado mesmo, mas uma surpresa, já que soube na segunda a noite com o artigo já praticamente finalizado).

Aí eu tive que fazer as modificações (tirar o gráfico e estender o artigo) meio às pressas. Os erros estão na versão impressa ou no blog?

Abs

Alex

"o recente estudo elaborado pelo BID e apresentado hoje contraria, em partes, este post."

Não necessariamente. O argumento é que a produção industrial brasileira cresceu, grosso modo, em linha com a produção global. Isto não requer que a produtividade cresça em linha com a dos EUA. visto que:

1) "Produtividade" no caso se refere à economia como um todo, não apenas ao setor industrial;

2) Os preços podem se ajustar ao diferencial de produtividade, em particular os salários teriam crescido mais nos EUA que no Brasil (esta é mais complicada para testar, porque teríamos que controlar por setores);

De qualquer forma, produtividade (imagino que se refira à PTF) é um fenômeno que depende de: (a) tecnologia (o deslocamento da fronteira das possibilidades de produção); (b) eficiência (distância com relação à fronteira); (c) instituições ("rule of law", direitos de propriedade bem definidos; incentivos à inovação, etc). Não há indicações que dependa da taxa de câmbio. Pelo contrário, por Balassa-Samuelson, a taxa de câmbio aprecia em resposta à melhora de produtividade.

Faço uma citaçao de Lipsey, Bekar e Carlay (time, technology and Markets:Explorations in economic growth and restruturing)
"The standard neo-classical ..shows input passing through a macro-production function to produce the nation's output.. Institutions, and all other structural components, are hidden in the black box of the aggregate production function.. Techinological change is only observable ..by its effects on productivity as measuered by ...TFP or Y/L. So there is no way in which changes in technology and in productivity can be independently observed.For example, the model does not allow us to observe the coexistence of rapid tecnological change and slow productivity change."

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO

1- HISTORICO

Um belo dia Mansur, comerciante no Oriente Medio, ficou de saco cheio com o perigo de andar pelai com a bolsa cheia de ouro para o seu comercio itinerante de caravanas. Como tinha uma cidade no meio do caminho onde ele parava sempre, Mansur teve uma ideia. Ir ao ourives da cidade e propor o seguinte negocio: o ourives guardadria o ouro de Mansur em seu cofre, daria a este um recibo pelo material, o qual pagaria ao ourives uma taxa de aluguel do tal cofre.

No dia seguinte de manha bem cedo, Mansur foi ter com o ourives, que so' pra contrariar a tigrada, nao era judeu porra nenhuma: era turco. Erdogan era seu nome. O ourives topou a parada, e assim fizeram o negocio.

Meses depois quando o comerciante voltou, Erdogan honrou o recibo e devolveu o ouro de Mansur. A estoria se espalhou rapidamente e em breve se tornou pratica consagrada em toda a regiao. Mas eis que um belo dia Erdogan notou que a confianca no negocio estava tao grande que quase ninguem vinha mais retirar seu ouro fisicamente, pois estavam todos a transacionar somente com os recibos! Nesse dia Erdogan teve uma ideia do baralho: "Vou emprestar parte desse ouro ae e ganhar juros desse emprestimo!" E assim o fez. Neste dia ele tinha acabado de inventar o sistema bancario de reserva fracionada.

Ele sabia que nao podia emprestar tudo, porque se nao pudesse honrar uma demanda sequer estaria liquidado. Mas a tentacao de ganhar dinheiro a partir de porra nenhuma era mirabolantemente tentadora. So' o que ele teria de fazer era administrar a reserva.

Erdogan ficou miliardario. E ae comecou a dar em cima de Sara, sua secretaria.

Sara, que era casada, um dia cansada do assedio, chegou em casa e desabafou:

"Jaco' ter que fazer alguma coisa, que Sara num guentar mais esse assedio sexual."

"Sara, issoaqui num e' oz Estadozunidos. Nao existir essa figura juridica. Mas Isaac e Ehud devem favor pra Jaco' e eu ter uma ideia."

Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO

1- HISTORICO cont.

No dia seguinte Jaco', Isaac e Ehud foram 'a loja de fantasias e alugaram costumes de comerciante arabe e seus guarda-costas. Alugaram meia duzia de camelos e iniciaram um pequeno tumulto na praca do Bazaar.

"Ai, ai, o que queu vai fazer da minha vida! Erdogan num honrou a minha cautela!"

"E' sim, e' sim", acompanhavam os outros dois. O boato se espalhou mais rapidamente do que fogo no morro acima. Em meia hora ja' havia uma fila quilometrica pra retirar grana do cofre de Erdogan. Como em toda fila que nao anda, aquela tambem degenerou em tumulto. Neguinho com o cerebro cozinhado pelo sol do deserto comecou a trocar sopapos e pescocoes.

Erdogan vendo que a situacao nao tinha solucao, tratou de encher seus bolsos com o que podia e fugiu pela porta dos fundos, que dava para um beco-com-saida, que desembocava numa abertura estreita no lado oposto da praca do Bazaar. Niquico turcao pintou no pedaco em desabalada carreira, Jacozinho, estrategicamente postado, deu uma rasteira no turco, que ao se esborrachar no chao, fez voar moeda de ouro pratudo quanto era lado!

"Pega ladrao", gritou Jacozinho. A policia reagiu imediatamente e botou Erdogan em cana. Decapitado ao por do sol, a galera foi embora pra casa mais ou menos satisfeita. Tambem naquele dia estava inventada a corrida ao banco.

Com esse episodio teve inicio a regulacao bancaria. Os outros ourives aprenderam rapidinho que

"Onde ganhas o pao nao comeras a carne".

Reparem os amigos que Erdogan nao tinha autorizacao escrita de nenhum depositante autorizando o reemprestimo de seu ouro pra ninguem. Sua decisao foi portanto um ato fraudulento.

Ainda nos diz a historia que por ocasiao das Cruzadas, os Templarios montaram uma rede de entrepostos, cujo recibo era honrado em localidades diferentes, criando desta forma a primeira rede bancaria.

Um dia no reinado de Felipe 4 na Franca sujou pra eles, e dizem as mas linguas que eles viraram macons. Os macons posteriormente fundaram os USA...


Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO


2- O BUSINESS MODEL

Vejam os amigos uma empresa como a CSN, por exemplo. Ele e' parte de uma industria que se chama "madura", o sea, cujos produtos nao sao passiveis nem submetidos a inovacoes constantes e radicais. O aco como ele e' hoje satisfaz plenamente o que seus clientes principais desejam do produto. Embora melhorias perfunctorias sejam possiveis aqui e ali, that's it. E ninguem vai inventar um alto-forno horizontal. Esta empresa tem fornecedores, que suprem sua materia-prima, como o minerio de ferro, por exemplo. Tem clientes, que sao as companhias que compram seus produtos, como as automobilisticas, por exemplo. Por que estou recitando o obvio? Calma que a gente chega la'.
Numa aparente digressao, imagine o cumpadre que alguem despeja um caminhao de minerio de ferro no seu quintal. Ce iria ficar uma onca, certo? Se souber quem o fez vai processar o camarada, num e' mesmo, cumpadre? E se despejarem um caminhao cheio de chapa de aco? Bom, se voce conhecer algum distribuidor, voce vai vender pra ele com um certo desconto, mas num vai processar ninguem nao, certo? O sucateiro pagaria menos, mas ainda assim voce teria ganho algum. Como entao a CSN ganha dinheiro? Simples: ela adiciona qualidade 'a materia prima. Erradamente confunde-se conceitos e diz-se que a "empresa adicona valor". Num adiciona nao, viu cumpadres, ela adiciona qualidade. Quem adiciona valor e' o consumidor. Seu business model portanto e' fundamentado em eficiencia de transformacao.

Vejamos outra empresa, como a Apple, por exemplo. E' um produto novo atras do outro. Imaginem os cumpadres se ela dependesse da venda de sua criacao original, ainda que aperfeicoada em seu processo de producao que custasse uma pequena fracao do preco inicial. Tava falida, certo? Ela tem fornecedores de material e servicos de montagem e tem clientes, hoje em dia avidos pelo Ipad. Ela adiciona qualidade a vidro, plasticos e metais e seu business model depende essencialmente de inovacao.

Analisemos agora um restaurante. Ele adiciona qualidade a comida in natura. Pode ganhar dinheiro tanto com o model de eficiencia de transformacao - fast food chains - como em inovacao - restaurantes de alta classe.

E tem restaurante que fecha. Embora ele adicione qualidade ao arroz in natura - um arroz mal-feito e' sempre melhor que arroz cru - seus clientes nao deram valor ao seu produto, e por isso ele fechou.

Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO


2- THE BUSINES MODEL cont.

Analisemos agora a situacao da empresa bancaria. Ela ja' comeca tudo errado, confundindo as coisas. Eu tenho conta no Chase, por exemplo. Seria eu um cliente do Chase? NAO. Eu sou fornecedor. Fornecedor de que? De materia prima. A materia prima de um banco e' cash, mocada. E' a coisa de maior valor em qualquer sistema economico estavel. Nao e' ouro, nao sao acoes, nao sao imoveis. Eles podem ter - e efetivamente tem - seus valores grandemente alterados atraves do tempo. Cash nao. Nao existe portanto ativo de maior valor do que esse. Quem duvida, va' ao Bradesco tentar depositar ouro, ou acoes, ou um saco de uma commodity qualquer. Num da' nem pra imaginar, certo, galera?

Mas voce nao investe num produto bancario, Kleber S.? Nao. Eu pactuo com o banco "condicoes de fornecimento", onde eu aceito uma baixa remuneracao em meus depositos a vista, e cobro mais por meus depositos de longo-prazo. "Produto" e' alguma coisa que a empresa fornece cuja venda produz a receita com a qual ela sobrevive. O produto de um banco portanto e' sua carteira de emprestimos, e seu real cliente e' quem toma esse dinheiro emprestado.

Agora ATENCAO, ATENCAO, vejam so' que engracado: as empresas "normais" citadas anteriormente ganham dinheiro adicionando QUALIDADE 'a sua materia prima, criando desta forma seu produto, certo? O BANCO NAO! O banco ganha dinheiro atraves da diluicao controlada da qualidade de sua materia prima, o dinheiro vivo! Num banco os seus ativos sao essencialmente de qualidade inferior ao seu passivo!!!!! Pois ninguem tem certeza se a grana do emprestimo vai efetivamente retornar!!!

Dizem que o McDonalds recicla josta. Os bancos sao piores: eles criam josta!!! A partir da coisa mais preciosa ja' criada pela humanidade, que e' o cash!!!

Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO


3- AS ESTRELAS DO ESPETACULO

Quem sao as estrelas de uma empresa como a CSN, cuja sobrevivencia depende da eficiencia da manufatura de um produto maduro? Facil: seus gerentes de producao e engenheiros de processo.

E no caso da Apple? Seus engenheiros de desenvolvimento de produto. Se forem realmente espertos eles nao se envolvem em manufatura. Seria muita mudanca seguida na linha de montagem com tamanha alteracao no tempo de sua linha de produtos.

No restaurante a estrela e' o chef. Ele tanto desenvolve o produto como controla o processo de producao. Imaginemos a consequencia do que aconteceria num restaurante que desse o comando das operacoes ao chefe dos garcons. Ele iria botar pressao na cozinha pra tudo sair a toque de caixa, certo? Quanto maior a rotatividade de clientes nas mesas, maior o ganho dos seus rapazes. Como quem tem pressa come cru e quente, esse restaurante nao iria durar muito. E se o seu Manuel resolver entao botar seu contador in charge? Com seu mind set em reducao de custos, o contador certamente iria achar um fornecedor de materia prima "quase" tao boa mas muito mais barata, cortaria o staff de garcons em 50% - "eles so' tem que andar um pouquinho mais rapido" - e certamente contrataria um novo chef por metade do salario do anterior. Esse ae vai ter sorte se nao terminar em quebra-quebra.

E na empresa bancaria, quem e' o responsavel por sua sobrevivencia? Ja' vimos no capitulo anterior que eles vivem da tranformacao de materia prima da melhor qualidade possivel em uma quantidade controlada de josta. Tudo gira em torno da inequacao:

Ganhos de spread - custo > perdas com josta

Os ganhos potencias e os custos sao facilmente calculaveis. As perdas com josta nao. As estrelas desse espetaculo NECESSARIAMENTE deveriam ser as pessoas do 'RISK MANAGEMENT'. Mas como o vimos recentemente, desgracadamente nao o sao.

Cumpadres, quem ja' criou uma empresa nova ou um business novo dentro de uma empresa existente, sabe a dureza que e' construir um customer base. Os bancos nao precisam disso. Se o Bradesco botar neguinho com megafone na praca da Se' fazendo emprestimo ao consumidor a 2% ao ano, o tumulto vai ser tamanho que cai o governo! Arrumar fornecedor tambem nao e' dificil, e' somente uma questao de geografia e propaganda. O dificil e' arrumar cliente que devolve o emprestimo na data marcada. Vai dai' que qualquer imbecil consegue expandir o balance sheet de um banco: basta jogar o risk management no lixo.

Mas e ae, sera' que esse banco vai quebrar? Certamente VAI!

Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO - OU O "SISTEMA" BANCARIO


4- A CORRUPCAO DO SISTEMA


Vimos nos capitulos anteriores que os bancos vivem da piora controlada da qualidade de sua materia prima, o cash. Vimos tambem que qualquer imbecil consegue expandir o balance sheet de uma empresa bancaria. E que a alma do negocio e' gerenciamento de risco.

Como e' entao que iniciaram a implosao do sistema? Primeiramente criaram as "conduit companies", "off-balance sheet". Por que empresas separadas do balanco do banco? Ora pra nao ter problemas com a regulacao de reserva minima de capital. Alem disso, quando esses bandidos criavam seus malditos CDOs, ele subcontratavam os servicos de 'agencias de risco' - Moody's, S&P, Fitch - que faziam o rating desses produtos. Na verdade o que esses autenticos "fabricantes de anjos" faziam era transformar josta em produto de alta qualidade, dando AAA rating pra todo tipo de bagulho de clentes chamados sub-prime, que na verdade e' um eufemismo para algo entre "ex-delinquente" e "delinquentinho".

O que a humanidade esta' descobrindo agora e' que tranformar alguma coisa em josta e' facil. Transformar josta em alguma outra coisa other than josta, e' impossivel. Mas nao e' uma licaozinha obvia essa, hein galera? Sera' que e' preciso ir pra Harvard trabalhar com modelitos pra aprender essa obviedade colossal?

A epitome dessa corrupcao sistemica veio com a Goldman Sachs. Analisemos mais uma vez o caso dos CDOs-feitos-sob-medida-para-morrer.

Em 2006 o Kleber S. - que trabalhava em Nevada - viu que a coisa nao durava muito e saiu como um louco atras de algum instrumento que me permitisse fazer o shorting the moradias. Nao achei porra nenhuma. Porem um cara chamado Ze' Paulson, com acesso 'a Goldman Sachs, apos procurar o mesmo que o Kleber S. e nao achar, propos 'a GS o seguinte negocio: "Voces montem ae um CDO com a seguinte caracteristica: hipotecas de cliente subprime, das seguintes areas geograficas totalmente embolhecidas. Ae eu vou fazer o shorting dessa porra e ganhar bilhoes. E antes de comprar os titulos, voces os submetam para minha apreciacao que eu posso vetar o que eu achar que e' fria."

So' que pra alguem fazer o shorting, o banco teria que achar um otario, digo fornecedor, que comprasse a posicao long. Voces acham que alguem seria idiota o suficiente pra comprar um CDO montado nessas condicoes caso ele o soubesse? Mas nem na Nigeria...

E assim o bagulho foi feito e comercializado sem o necessario disclosure. Dizem as mas linguas que algumas dezenas desses CDOs foram criados. Por que entao o rolo so' com um? Porque as vitmas desse um viraram estatais: RBS e IKB. E' interesse politico da UK e Alemanha achar culpados externos. Isso vai dar muito pano pras mangas em cortes de justica. As outras vitimas? Em silencio tumular. No circo do mercado financeiro, todo mundo quer fazer o papel de leao. Quem faz papel de palhaco danca. Dai o silencio pernicioso...

Ve-se entao que a GS atentou contra o CERNE do sistema: ela iludiu propositalmente a analise de risco de suas co-irmas. E como ja' vimos, analise de risco consistente E' a alma do negocio.

Continua...

O MILAGRE DA MISTIFICACAO -OU O "SISTEMA" BANCARIO


5- O BAILE DA ILHA FISCAL

Mas, po, cumpadres por que entao que a tchurma foi fazer uma coisa dessas, cientes que estavam atentando contra a propria sobrevivencia do sistema?

Resposta simples e imediata: porque tinham certeza da impunidade.

Bonus ganhos por "performance" na bonanca nao sao devolvidos na tempestade.

Alem disso, tem a instituicao macabra do Federal Reserve, que nao hesita em redistribuir a renda para os "seus". Em 22 de dezembro de 1913 o Federal Reserve System foi criado. No dia 23 o capitalismo morreu.

Qual e' a "mistificacao"? E' que o sistema e' intrinsecamente bom e que e' so' dar uma burilada na regulacao pra que isso nao se repita outra vez. Qual e' o "milagre"? E' que sob barragem cerrada da midia, o povo continue acreditando.

Tigrada, qualquer um que ja' pos a bunda num assento de uma escola militar ou em um curso de estrategia empresarial SABE MUITO BEM que o general cuja estrategia for baseada nao superioridade de seus soldados vai dar com os burros nagua. A unica vez na historia que isso foi tentado foi com Leonidas em Termopilas. E deu no que deu. Ha' uma justificativa pra Leonidas, though: ele nao tinha alternativas.

Voces ja' ouviram de algum CEO de que sua estrategia e' contratar os melhores vendedores do mercado, pra cair matando na clientada? Claro que nao, ne' galera.

Entao vamos parar de acreditar em historia pra ninar bovinos...

Ah, porque "Baile na Ilha Fiscal"? Porque na tsunami que vai atingir o mercado de divida publica todos os participes desse sistema disfuncional morrerao afogados.

E um abraco de quebrar costela!!!!



PS: Na proxima semana nao percam a outra mini-serie: "NAO CHEIRA, MAS FED", OU COMO O CAPITALISMO FOI ENTERRADO

Oi Alex,

Vc e o Kleber S. poderiam escrever um livro. O que acha?

Não tem jeito, para a turma da GV-SP a desindustrialização já virou questão de fé. Para a Santa Igreja da Doença Holandesa, fundada pelo profeta Pereira, os fatos e números não querem dizer nada. Ou se acredita na doença, ou é infiel.