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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O Leopardo no Brasil


O país se encontra em momento singular. Pesquisa recente do Datafolha sugere otimismo com o futuro da economia, comum antes da posse presidencial, mas que parece mais profundo no caso atual, e também surpreendente à luz das divisões hoje existentes na sociedade. Faz sentido?

Quem me acompanha deve, há muito, ter notado meu ceticismo. Embora um novo governo possa, de fato, trazer a mudança de vários aspectos do país, creio que há obstáculos consideráveis no caminho, que dificultariam o processo mesmo no caso de uma administração comprometida com a reforma radical do país, o que, desconfio, não se trata do caso no momento.

O governo gasta muito e entrega muito pouco. De acordo com dados do Tesouro Nacional, os três níveis de governo no país gastaram R$ 3,1 trilhões (sem contar os juros) nos 12 meses terminados em junho, pouco menos do que 40% do PIB; no final de 2016 eram R$ 2,9 trilhões, ou 39% do PIB.

Apesar das promessas de uns e choradeira de outros, é claro que o governo não se emendou. Além disto, ocorrências recentes, como a “flexibilização” da Lei de Responsabilidade Fiscal, o aumento para os ministros do STF, bem como a decisão monocrática do ministro Lewandowski permitindo o aumento do funcionalismo, sugerem que os grupos mais próximos ao poder continuam enxergando o Estado como mecanismo para canalizar para si rendas do restante da sociedade.

O Atlas do Estado Brasileiro, publicado pelo Ipea, revela que o número de funcionários públicos no país cresceu de 6,3 milhões para 11,5 milhões entre 1995 e 2016, aumento de 83% face a crescimento populacional de 30%. Seu custo atinge hoje pouco mais de R$ 900 bilhões nos 12 meses até junho, contra R$ 870 bilhões em 2014, ano em que entramos em recessão. Deve ficar muito claro que este grupo não foi apenas isolado da crise, mas que prosperou no período, recebendo hoje o equivalente a 13,4% do PIB, contra 12,3% do PIB em 2014.

À parte os gastos públicos, diferentes formas de patronagem persistem e prosperam no Brasil, da proteção a certos segmentos a privilégios setoriais, dos quais a nefasta tabela de frete é apenas um exemplo recente.

Não chegamos onde estamos por acaso. A captura do estado brasileiro por grupos de interesse não aconteceu nos últimos anos; pelo contrário, é fenômeno antigo, a ponto de ter sido objeto de Raymundo Faoro há 60 anos em seu “Os donos do poder”. Sua extensão, contudo, se ampliou, refletindo uma sociedade que se acostumou a viver dos favores públicos e a lutar, de forma cada vez mais encarniçada, por eles.

Vivemos o “capitalismo de compadres”, expressão de instituições econômicas e políticas extrativistas, para utilizarmos as categorias de Acemoglu e Robinson em “Por que as nações fracassam?”, cujo efeito sobre crescimento econômico é destrutivo. Não crescemos pouco por azar, mas porque, de uma forma ou de outra, privilegiamos a caça à renda sobre a geração da renda.

Caso a nova administração tivesse sido eleita com o propósito de atacar este estado de coisas, estaria mais otimista. Não se trata, porém, do caso.

Em que pese a indicação de uma equipe econômica cuja visão parece ecoar um diagnóstico semelhante ao acima exposto, as forças políticas que prevalecem no país representam o atraso. Por conta disto sigo cético quanto à possibilidade de reformas profundas no país e, portanto, quanto ao retorno do crescimento sustentado.

Feliz 2019...




(Publicado 2/Jan/2019)

Reações:

11 comentários:

Ótima análise, Alex (se me permite a intimidade forçada de tratá-lo assim). De fato, as reformas esbarram na nossa classe política extrativista - no sentido que Acemoglu e Robinson dão ao termo - e, acrescento eu, nas hesitações do presidente Bolsonaro, um "liberal" tardio e ainda orientado parcialmente, ao que parece, pelo velho ideário nacional-desenvolvimentista. Resta torcer para que o bom Paulo Guedes e equipe façam, ainda que parcialmente, as reformas necessárias.

Vai ter regime de capitalização.

"Vai ter regime de capitalização."

Vai?

"os três níveis de governo no país gastaram R$ 3,1 trilhões (sem contar os juros) nos 12 meses terminados em junho, pouco menos do que 40% do PIB; no final de 2016 eram R$ 2,9 trilhões, ou 39% do PIB."se 3,1T é 40% do pib, o pib daria 7,75. Nao ta errado esse dado?ainda, 40% nao é considerando junto o juro?
André

Paulo Galalau falou que Alemanha vai entrar em recessão. Vai?

Inveja de quem não passou em concurso público.

"Inveja de quem não passou em concurso público."

Realmente, tudo o que queria na vida era um emprego medíocre, que me pagasse menos do que ganhei (e ganho) e me obrigasse a puxar o saco de gente ainda mais medíocre...

Existem muitos funcionários públicos que são leitores do seu blog.Alem disso nos temos aposentadoria integral garantida por lei.

"Existem muitos funcionários públicos que são leitores do seu blog"

Caguei...

"Alem disso nos temos aposentadoria integral garantida por lei."

Caguei^2

Vale lembrar que existem colegas que trabalhão no IPEA e prestam um grande serviço ao pais.Não é justo criticar o funcionalismo publico,sem uma fundamentação sólida.

"Não é justo criticar o funcionalismo publico,sem uma fundamentação sólida."

Também não é justo colocar esta vírgula...

"Vale lembrar que existem colegas que trabalhão no IPEA"

Eles trabalhão?