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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Ilusionismo econômico


Meio batida, mas não menos verdadeira, é a frase atribuída a Otto von Bismarck: “nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante a guerra e depois da caça”. Não poderia ser diferente no caso dos programas econômicos dos candidatos: depois que Pai Ciro prometeu trazer seu amor de volta e limpar seu nome no SPC não falta quem proponha soluções simples (e erradas) para problemas complexos.

No programa econômico de Jair Bolsonaro, incluído em seu já mitológico (opa!) Projeto Fênix, por exemplo, abundam a matemágica e fintas de dar inveja ao Ronaldinho Gaúcho, a começar pela proposta de zerar o déficit primário já no primeiro ano de governo, “partindo de um movimento de gestão pública moderna, baseado em técnicas como o ‘Orçamento Base Zero’”.

A ideia que podemos começar tudo do zero e eliminar desperdícios é tão sedutora quanto juvenil. Não tenho a menor dúvida que há muito o que cortar no gasto do governo sem que se perca a qualidade das políticas públicas (o sarrafo é baixo, admito).

O problema é que praticamente 90% do gasto público federal está predeterminado. 60% do total destina-se ao pagamento de aposentadorias e pensões (incluindo funcionários inativos e o benefício de prestação continuada); outros 10-11% referem-se aos funcionários na ativa, que tipicamente gozam de estabilidade; já as despesas obrigatórias somam outros 10%, assim como as ditas discricionárias com vinculação (o piso de gastos com educação, saúde, bem como os demais poderes).

O governo federal controla, portanto, pouco menos de 10% do que gasta. Podemos fazer “Orçamento Base Zero”, base 1, base 2, ou base “N”; nada muda, porém, esse fato elementar. Posto de outra forma, mesmo se pudéssemos reduzir o gasto discricionário (algo como 2% do PIB) à metade, e torcer para que o gasto obrigatório parasse de crescer, o déficit primário, na casa de 1,5% do PIB hoje, ainda seguiria, firme e forte, em 2019.

Em outro trecho estima-se “reduzir em 20% a dívida mobiliária, por meio de privatizações, concessões, vendas de propriedades imobiliárias da União e devolução de recursos de instituições financeiras oficiais”. Isto representa um valor na casa de R$ 1 trilhão, enquanto, segundo o Tesouro Nacional, o valor da participação do governo em todas estatais (incluindo, por exemplo, o BNDES) seria da ordem de R$ 250 bilhões, pressupondo que a Petrobras seria também privatizada.

Há, é verdade, cerca de R$ 1 trilhão em bens imóveis da União, mas estes incluem parques e reservas federais, estradas, aquartelamentos (pois é...), escolas e obras em andamento, para os quais não há comprador. Com grande dose de boa vontade talvez R$ 350 bilhões possam ser vendidos, embora o valor envolvido seja provavelmente bem menor. Na prática não se chega nem perto de R$ 1 trilhão.

Completando a mágica não poderia faltar a proposta de migração do regime previdenciário atual de repartição para capitalização. O documento candidamente reconhece que “a transição de um regime para o outro gera um problema de insuficiência de recursos”, mas promete que “será criado um fundo para reforçar o financiamento da previdência e compensar a redução de contribuições previdenciárias no sistema antigo”.

Se o leitor não entendeu de onde virá o dinheiro não se apoquente: eu também não, muito menos os autores da proposta.

Funciona bem em festa de criança, mas prestidigitação é um jeito arriscado de governar o país.

Vai ser necessário...


(Publicado 29/Ago/2018)

Reações:

6 comentários:

"será criado um fundo para reforçar o financiamento da previdência..."
Esse tipo de discurso é preocupante. Será que a mágica não consiste em fixar a taxa de juros da dívida pública num valor (baixo) que se julgue adequado ou então mudar o regime de juros compostos para juros simples, dando alguma sobra para formar o fundo? Soluções sem explicações sempre lembram o caso do ex-caçador de marajás e seu confisco...

... é que nós pensamos "dentro da caixa"; o Paulo Guedes pensa "fora... do planeta Terra"!

O senhor não vai escrever nenhuma nota de repúdio sobre o ataque sofrido por Bolsonaro? Bolsonaro sempre defendeu o estado de Israel,de maneira que um ataque a ele, e um ataque a toda comunidade judaica (pelo menos aquela defende Israel).

1. Já escrevi (no Twitter)

2. Não, não é um ataque à comunidade judaica, aliás está é uma das três maiores cretinices já escritas por comentaristas aqui, parabéns (e olhe que a concorrência é acirrada)

Impressiona como a "simplicidade" propostas para a resolução dosmproblemas do País são, assim, colocadas como favas contadas. Oras, se fosse assim, o tal de Cabral teria criado uma potência, talvez até nuclearizada...Como? Sabe-se lá. Mas, agora, as sugestões/propostas/ compromissos...crença...dos candidatos parecem um pouco com isso. Ou mais. Ou totalmente com algo aparentado.

Fica parecendo a coisa antiga do bilhete premiado da antiga loteria federal. Um vendedor de bilhetes, "despropositadamente", "distraidamente", dava uma trombada em alguém distraído na rua e a pessoa pegava o bilhete e o devolvia ao vendedor. Este agradecia a não mais poder e convencia o bom/boa pessoa que o devolvera o bilhete, por ser honesto, tinha grandes chances de ganhar o prêmio máximo daquele bilhete. Tal qual uma dádiva à honestidade, num mar de perversidades mil. Invariavelmente, convencia alguém, durante o dia inteiro, passando para a noite e na manhã do dia seguinte...Não há necessidade, por ocioso, continuar e avaliar o fim da história.

Impressiona essa associação de uma coisa com outra, no caso do referido candidato, vítima de uma violência imbecil, como todo ato de violência. Contudo, há a necessidade de colocar o seu apoio ao que quer que seja, mais nobre que seja, como se tivesse sido atingido exatamente por isso?
Tomara que tudo isso seja rapidamente elucidado prar evitar maiores ilações do que as que estão vindo à tona.
Sem desmerecer o fato que a ele atribuem, causa nobre etc. aparenta ser algo pouco crível para ser dado como resposta aoque acredidta em um caso específico e nobre, repita-se, a causa.
E o perpretador da agressão? A teria cometido "por causa de quê?"
Parece mais uma das lendas eleitorais.
Contudo, às urnas!!!