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quarta-feira, 15 de março de 2017

Sete anos em três

Vivemos a mais longa recessão da história recente do país: onze trimestres, dos quais o PIB registrou queda em nove (e estagnação nos demais). No primeiro trimestre de 2014 o produto atingiu R$ 1,783 trilhão; no último trimestre do ano passado R$ 1,622 trilhão (-9%), praticamente o mesmo nível observado no terceiro trimestre de 2010. Regredimos, portanto, sete anos em três.

Há quem atribua tal desempenho à austeridade fiscal, principalmente por parte do governo federal. Isso é falso: como divulgado ontem, o consumo do setor público se manteve virtualmente inalterado (R$ 361 bilhões agora contra R$ 365 bilhões no início de 2014). Outras medidas de gastos, no caso do governo federal, incluindo despesas como pagamentos de aposentadorias e pensões, mostram aumento do dispêndio, jamais queda.

Só mesmo apreciável contorcionismo mental poderia atribuir ao ajuste fiscal, sequer iniciado, a queda vertiginosa da atividade econômica, iniciada ainda em 2014.

Por outro lado, o investimento não apenas caiu muito mais do que o consumo público (R$ 97 bilhões no mesmo período), como, na verdade, começou seu colapso já em 2013, não por acaso também o ano em que se iniciou a piora da percepção de risco soberano. O prêmio de risco cobrado do país praticamente dobrou naquele ano, saindo de 1% para 2% ao ano (em dólar), escalada que continuou à medida que a administração Dilma se mostrou incapaz de endereçar o problema do gasto público crescente.

Assim, em janeiro do ano passado empresas que precisassem acessar o mercado internacional de capitais encaravam um prêmio de risco de quase 5% ao ano, o que não apenas encarecia a captação de dívidas novas, mas também deprimia o preço de suas ações, encarecendo também a opção de obter recursos por meio de emissão de novo capital.

Neste contexto a queda de quase 30% do investimento entre seu pico no terceiro trimestre de 2013 (R$ 357 bilhões, já corrigidos pela inflação) e o último trimestre de 2016 (R$ 255 bilhões) não chega a ser uma anormalidade, mas a reação natural de empresas em face de um aumento considerável do custo do seu capital.

Para não deixar dúvidas, a recessão histórica é resultado direto das políticas desastradas adotadas pela administração anterior, em particular no plano fiscal, mas muito agravada pelo intervencionismo excessivo em diversas frentes.

O estrago foi imenso e segue afetando a atividade por meio de suas consequências, como no caso do emprego (com reflexos sobre o consumo), bem como o investimento, por conta da enorme capacidade ociosa criada de 2014 para cá.

Contra este pano de fundo é que espero uma modesta recuperação, expressa em crescimento ao redor de 0,5% para 2017. Como expliquei recentemente este número não é tão ruim como parece, pois equivale a expansão trimestral do produto ao ritmo de 2,5% ao ano, impulsionada pela queda da taxa de juros e redução do risco país.

Não há dúvida que esses desenvolvimentos se amparam principalmente na aprovação do teto para o gasto público e a proposta de reforma previdenciária.


Podemos sair da recessão em 2017, mas apenas se seguirmos no caminho do ajuste fiscal, ainda que lento. Se desviarmos dele, como defendido pelos suspeitos de sempre, corremos o risco de perder outros sete anos.



(Publicado 8/Mar/2017)

Reações:

21 comentários:

Dilma, em palestras na Suíça, já explicou a razão dos problemas:
""O Brasil tem hoje uma crise fiscal. Mas só isso. Não tem problema de pagamentos de dividas externas, tem US$ 380 bilhões de reservas. Não temos problemas com bancos. Não temos créditos podres. Essa crise forte levou à queda de arrecadação", disse.

A presidente cassada acredita que não conseguiu aumentar a arrecadação por conta da recusa do Congresso em aprovar leis que impunham impostos sobre ganho de capital e transações financeiras. "Eu não tinha capacidade parlamentar de governar. O Congresso não aprovava nada."

Prendam os suspeitos de sempre

"O Brasil tem hoje uma crise fiscal. Mas só isso"

Ah, que bom... Ufa, achei que era um problema sério.

Alexandre,

Quais países saíram até hoje de recessão com base em políticas de austeridade. Cita pelo menos três. É difícil imaginar que austeridade impulsiona retomada.

Bjos, Patrícia

Alex,
Confesso que o Tony Volpon não estava na minha lista de autores de artigos inlegíveis. Ao contrario, ocasionalmente escrevia artigos razoáveis em sua época pré Bc. Após sua saída desconfio seriamente que tenha tomado alguma droga alucinogênea ou tenha sido picado pela mosca dos "gatilhos obscuros" da politica brasileira. Hoje o artigo dele para o Broadcast foi realmente um dos mais bizarros e grotesco que li nos últimos tempos. Fica registrado obviamente que não leio nem os títulos dos autores "perfil Laura Carvalho". Voltando ao texto do Volpon de hoje ("NOSSA AINDA INEXPLICÁVEL GRANDE RECESSÃO"), ele realmente consegue escrever despautérios do inicio ao fim. Se faz mais que necessária uma resposta de um artigo seu para tanta bizarrice.

Agradeço a compreensão da necessidade de avacalhar e ridicularizar por completo um artigo tão ruim como este do Volpon.

Atenciosamente,
Philippe

Meu medo é a reforma da previdência não passar, ou que seja alterada a tal ponto que não faça diferença alguma. Se isso acontecer, já era Brasil.

"Eu não tinha capacidade parlamentar de governar. O Congresso não aprovava nada."

Isso é verdade. Mas faltaram propostas realistas do ponto de vista aritmético. Poderia ter enviado ao congresso uma proposta de aumento de impostos, a ser implementado gradualmente nos próximos anos, de forma a compensar o aumento progressivo dos gastos previdenciários. Ou enviar proposta para a reforma da previdência, a que esboçou apoio.

Acho que nada disso passaria, mas pelo menos nesse caso essa palestra na Suíça teria alguma seriedade.

"Quais países saíram até hoje de recessão com base em políticas de austeridade. Cita pelo menos três. É difícil imaginar que austeridade impulsiona retomada."

Espanha, Irlanda e Lituânia. E isto porque nom cortar o juro podiam; só com base em queda de risco.

Alexandre, os keynesianos da sintese neoclassica (solow, por exemplo) eram tambem conhecidos como fiscalistas. Ou seja, viam na politica fiscal um instrumento mais poderoso que o juro do BC. Era uma visao que fazia sentido. Afinal, gastos do governo injetam renda na economia de forma direta e a politica monetaria atua por inducao (indireta, portanto). Agora, voce chega e afirma que premio de risco é algo ainda mais poderoso que gastos do governo. Pode ate ser verdade, mas vc tem que concordar que é dificil de engolir... talvez por isso muitos economistas so com graduacao têm dificuldade pra entender... há evidencias?

Esta é uma visão bem antiquada do debate...

Em condições normais, política monetária é um instrumento mais poderoso e infinitamente mais flexível de administrar a demanda interna (orçamentos são anuais e muitas despesas dentro dele são rígidas em qualquer lugar do mundo; política monetária é ajustada a cada mês e meio).

Isto no caso de economias em que prêmio de risco não é uma consideração relevante, como no caso americano, ou alemão, ou britânico. Agora pergunte para a Espanha o que ocorreu por lá em 2011...

No nosso caso, com a dívida controlada, poderíamos fazer política anticícilica; com dívida explodindo você acha mesmo que gastar mais ia tirar a gente di buraco?

Alexandre,

Vai fazer o curso de Complexidade do Paulo Gala?

A veemência de algumas defesas dos frigoríferos de pessoas que sempre atacaram a independência do BC e apoiaram a Nova Matriz Econômica te espanta, Alex?

Alex, sinceramente, eu acho que gastar mais geraria um aumento temporario de divida, nada que fosse absurdo a ponto de gerar a inflacao que tanto se comenta (pois estamos e estaremos por algum tempo abaixo do pleno emprego, alem do que os modelos nao permitem troca de governo entre algum instante t e o infinito, portanto, nao acho plausivel o argumento de que mais inflacao necessariamente vira se nada for feito agora).

"Vai fazer o curso de Complexidade do Paulo Gala?"

Só no dia em que for complexado

"A veemência de algumas defesas dos frigoríferos de pessoas que sempre atacaram a independência do BC e apoiaram a Nova Matriz Econômica te espanta, Alex?"

Muito. É quase como se recebessem grana para fazer isto...

"Alex, sinceramente, eu acho que gastar mais geraria um aumento temporario de divida, nada que fosse absurdo a ponto de gerar a inflacao que tanto se comenta (pois estamos e estaremos por algum tempo abaixo do pleno emprego, alem do que os modelos nao permitem troca de governo entre algum instante t e o infinito, portanto, nao acho plausivel o argumento de que mais inflacao necessariamente vira se nada for feito agora)."

Já eu, sinceramente, acredito que você não vive na mesma dimensão que o resto da humanidade

Alexandre, posso te dar uma sugestao, aproveitando seu brilhantismo e sua didatica?

Todo o ajuste fiscal é para controlar a relacao divida/pib, entre outras coisas. Mas por que é necessario controlar sempre essa relacao? A divida nao é interna, estipulada na moeda domestica, portanto, impossivel de dar calote? As pessoas não entendem bem isso, ainda mais quando essa é a receita de policy numa conjuntura de crise. Como seria a divida mais importante que o desemprego? Ajude-nos a entender, por favor. Abraço, CL

Alex, Espanha é caso de austeridade funcionando? Veja isso: https://mobile.nytimes.com/blogs/krugman/2015/12/20/disdain-in-spain/?referer=

“Espanha, Irlanda e Lituânia. E isto porque nom cortar o juro podiam; só com base em queda de risco.”

Em relação à Espanha, a qual das recessões o senhor se refere?

Se é a de 2008, fica difícil de acreditar que foi só a austeridade que tirou o país da recessão e não as centenas de bilhões de euros injetados pelo BC Europeu na economia.

Alex, antes vc era fã do krugman. Agora teu idolo fala que acreditar que austeridade salvou Espanha é piada. Vai falar nada, nao? Pelo visto vc nao sabe quase nada da Espanha e fica citando exemplo que nao domina. Abs, Paulo

"Alex, antes vc era fã do krugman. Agora teu idolo fala que acreditar que austeridade salvou Espanha é piada"

Ao contrário de uns e outros, minha admiração por qualquer economista não implica defender até a morte qualquer afirmação dele (ou dela), mesmo porque o Krugman errou feio sobre o Brasil, por exemplo. Eu sei pensar sozinho...