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sábado, 4 de março de 2017

Crime e castigo

Andei investigando crime e policiamento. Em 1.323 episódios cobrindo 119 países descobri que não há relação alguma entre estes fenômenos. O maior caso de sucesso foi a redução do policiamento: em 62,18% dos casos o crime caiu quando isto ocorreu. Em contraste, em apenas 50,75% dos casos em que houve aumento do policiamento o crime caiu, enquanto em 53,45% dos casos em que não se mexeu no policiamento o crime caiu da mesma maneira.

Conclui-se, assim, que gastos com policiamento representam apenas uma transferência de renda para grupos privilegiados. (Segundo Daniel Cerqueira, do IPEA, gastos com segurança pública equivaliam a 5,4% do PIB em 2014, quase 11 vezes o gasto com o Bolsa-Família naquele ano).

OK, já posso parar a brincadeira, torcendo para que nenhum dos 18 leitores tenha desistido ali pelo final do primeiro parágrafo: é óbvio que policiamento tem relação estreita com criminalidade (na verdade duas, e este é o problema).

Não há dúvida que o aumento do policiamento reduz a ação criminosa. No entanto, em geral, mais policiamento não é uma decisão independente da criminalidade: o poder público reage ao aumento dos crimes botando mais polícia na rua.

O pesquisador ingênuo que observa apenas a correlação entre um fenômeno e outro não demora a notar que esta parece ser zero. Há casos em que o crime aumenta quando há mais policiais na rua (espelhando a segunda relação) e há casos em que a elevação do policiamento reduz a criminalidade (a primeira relação), o que leva ao tipo de confusão que descrevi no primeiro parágrafo.

Há momentos, porém, em que os fenômenos ocorrem (quase) como que em laboratório e são por isto chamados de “experimentos naturais”. Tome-se, por exemplo, o acontecido no Espírito Santo, quando a greve dos policiais reduziu seu efetivo nas ruas, não por uma queda de criminalidade, mas por motivo externo (ou “exógeno”). Neste caso houve um grave aumento da criminalidade em resposta à redução “exógena” do policiamento. Em outras palavras nosso “experimento natural” confirma que mais polícia na rua diminui o crime (e vice-versa).

Na verdade, se trocarmos “policiamento” por “taxa de juros” e “criminalidade” por “inflação” temos o “estudo” descrito por Clóvis Rossi em sua coluna deste último domingo. Como na minha investigação fictícia, em muitos casos a taxa de juros cai porque a inflação (esperada) também cai, como hoje no Brasil; em outros casos, a taxa de juros sobe porque a inflação esperada se eleva.

O pesquisador despreparado, que ignora que as relações de causa e efeito correm tanto da taxa de juros para a inflação como da inflação para a taxa de juros, comete o mesmo erro acima: conclui que não há relação entre estas variáveis quando na verdade elas existem.

Não há muitos “experimentos naturais” na área. Uma possível exceção foi a redução na marra da Selic entre 2011 e 2012, que levou à aceleração da inflação logo em seguida. Há também técnicas estatísticas que permitem superar o problema e elas apontam robustamente que aumento do juro reduz a inflação, o que, aliás, foi exatamente o que ocorreu no Brasil ao longo do ano passado.


O que apenas prova outra relação estatística robusta: quem menos entende de um assunto é tipicamente o mais inclinado a dar palpite.



(Publicado 22/Fev/2017)

Reações:

3 comentários:

No primeiro Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, há um capítulo sobre segurança e as descobertas são interessantes. De um modo geral, a curto prazo o policiamento funciona na redução da criminalidade. A médio prazo, a quebra no mercado das drogas é um fator importante. E a mais polêmica conclusão era de que, a longo prazo, a liberação do aborto seria o grande fator de redução, por tirar potenciais criminosos de circulação previamente.

Recessão não teve peso nisso? Pergunto porque nem todo fornecedor de bens ou serviços consegue repassar para o preço os ajustes. Muitas vezes isso fica "comendo" a faixa de lucro, até que ele quebra, ou descobre a maravilha da juro-lândia...

alex, nao responde ao Bresser, por favor, deixa que eu respondo...