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quarta-feira, 22 de março de 2017

O PIB e os fatos alternativos

A queda do PIB virou motivo de debate. Há quem a atribua às políticas de austeridade, mas, como mencionei na minha última coluna, trata-se de uma falsidade. Só não sei dizer se sua origem é ignorância, desonestidade intelectual, ou a mistura tóxica de ambas.

A começar porque não houve, pelo menos até agora, nenhum sinal de austeridade fiscal. Ao contrário, os dados disponíveis revelam que os gastos públicos continuaram firmes e fortes, aliás, bem mais firmes e fortes do que a economia brasileira.

Tomemos, para começar, os gastos do governo federal que, ajustados à inflação, atingiram R$ 1,27 trilhão em 2016 contra R$ 1,26 trilhão em 2014. É verdade que parte destes gastos corresponde a transferências operadas pelo governo federal (por exemplo, R$ 518 bilhões em benefícios previdenciários), que obviamente têm impacto sobre a carga tributária e causam toda sorte de distorções, mas não necessariamente capturam o consumo do setor público.

Já o consumo da administração pública, conforme calculado nas contas nacionais, mede aquilo que o governo (federal, estadual e municipal) toma para si em termos dos recursos reais (pessoal, material, serviços, etc). Em 2014 equivalia a R$ 1,47 trilhão; em 2016, R$ 1,45 trilhão, queda inferior a 2%, em período marcado por redução do PIB superior a 7%. Posto de outra forma, o consumo público caiu pouco menos de R$ 24 bilhões; já o PIB despencou R$ 511 bilhões.

Não há como, de forma honesta ao menos, atribuir o colapso ao “desmonte do Estado”. Não se trata de opinião, mas de fatos amparados por mais de um conjunto de estatísticas. Há apenas uma promessa de ajuste, centrada essencialmente na questão previdenciária, que começou a ser debatida em meados do ano passado e pode, ou não, se tornar realidade.

Já o investimento veio em queda livre, e não apenas nos últimos dois anos, mas desde o terceiro trimestre de 2013 (em plena vigência da “Nova Matriz”), acumulando retração de R$ 306 bilhões entre 2014 e 2016 (R$ 365 bilhões na comparação com 2013), o que me parece, de longe, o fator mais importante para explicar o desempenho lamentável da economia no período.

Dentre as múltiplas variáveis que afetaram negativamente o investimento (e não foram poucas) destaco a forte elevação do risco-país, não só porque representa um aumento direto no custo de capital das empresas, mas porque também encarece o dólar (portanto o custo dos bens de capital), e pressiona a inflação e a taxa de juros, cujo impacto sobre o investimento é também negativo.

A evidência empírica sugere que estes efeitos se materializam com defasagem ao redor de 3 trimestres, ou seja, o desempenho do investimento ao final do ano passado refletia um risco-país na casa de 4,5% ao ano observado no primeiro trimestre, resultado da percepção de um governo politicamente morto.

Com a aprovação do teto de gastos e a proposta de reforma da Previdência, porém, temos hoje um risco-país na casa de 2,5%. A austeridade, ainda na fase da promessa, deve, ao contrário do que dizem, impulsionar o investimento e, com ele, o crescimento.

Mais certo do que isto apenas a crença que, quando isto acontecer, não há de faltar gente dançando na ponta de uma agulha para tentar criar fatos alternativos. Vai ser divertido.




(Publicado 15/Mar/2017)

Reações:

10 comentários:

Alex, tem uma ideia de quanto somente a retirada de incentivos do BNDES e outras palhacadas do governo podem ter impactado nos investimentos?

Há algum instituto do tipo facts check no Brasil ? . Iria contribuir muito para o debate é desestimular esse tipo de comportamento free rides na ignorância alheia.

Alex, tem gente que diz que o PSI viabilizou uma porrada de projeto merda e isso fez a produtividade desabar no Brasil. Ao mesmo tempo, tem gente que diz que o BNDES apenas substituiu fonte. Não seriam posiçoes contraditorias? Se o bndes vaibilizou maus projetos, que nao ocorreriam sem ele, entao ele nao pode ter apenas substituido fonte. Houve adicionalidade. Talvez nao como gostariamos, mas houve.

Houve "austeridade" promovido por Tombini.

Alex,

Você falou no custo financeiro como "mais uma variável"(para o investimento). Realmente, mas a mais importante delas para mim é a expectativa de demanda futura. Essa expectativa caiu muito nos últimos 3 anos. Eu acredito que principalmente devido à queda do preço das commodities (ou o fim da bolha). Interessante que Dilma, Lula e o PT se valorizaram durante o ciclo e agora voltaram à sua cotação pré bolha.

Alex,

Ja tentou modelar o premio de risco Brasil? Ja tentei de diversas formas explica-lo por variaveis fiscais, mas o resultado nunca fica bom. Ao que me parece, fatores externos explicam parte substancial do nosso premio de risco. O que voce costuma fazer?

Beijo, Maria Eduarda

" O que voce costuma fazer?"

Coloque alguma medida de "aversão a risco" (eu não gosto do termo neste contexto, mas me parece já consagrado), de preferência pouco afetado pelos desenvolvimentos locais, como o VIX, spreads de junk bonds, etc

Nao entendi alex. Poderia explicar de outra forma, por favor?

Bjo, Maria Eduarda

Imagino que faça uma regressão, com risco como variável a ser explicada e uma série de outras variáveis como determinantes.

Estou sugerindo que use também uma variável de "aversão a risco" (VIX, spread de junk bonds) entre elas, de preferência algo que não seja afetado pelo risco país, senão há problema de endogeneidade.

No caso, se uma variável afeta risco-país (digamos, taxa real de câmbio, por exemplo) e é afetada por ele, seus resultados ficam comprometidos. Se um choque qualquer elevar o risco-país e, por fatores não explicitados em sua equação, o câmbio se desvalorizar também, você terá uma série de observações de câmbio fraco e risco alto, o que causará um viés para cima no coeficiente de risco país associado à taxa de câmbio.

Ou seja, além da variável (exógena) relativa a "aversão ao risco", você terá que usar também variáveis instrumentais em MQ2E (ou GMM).

Alternativamente pode tentar um VAR ou VEC.

Entendi Alex, assim eu fiz, mas continuo sem grandes relacoes (mesmo usando instrumentos para o GMM, fracos, é verdade) entre risco pais e variaveis fiscais. Realmente, tenho dificuldade de entender seu argumento de que o ajuste fiscal podera ser expansionista pelo menos pelo canal do premio de risco. Por favor, me diz onde estou errando. Bjo