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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Muro das lamentações

2017 deverá ser um ano melhor do que 2016, principalmente porque, se não fosse o caso, o melhor seria mudar de país. Com queda estimada do PIB ao redor de 3,5% (sobre redução de 3,8% em 2015), inflação pouco inferior a 6,5%, desemprego batendo em 12% e um sentimento de desesperança que parece ter contaminado a todos, o ano que se encerrou foi dos piores da nossa história. Neste sentido, é difícil que 2017 consiga ser ainda pior.

A melhor notícia que temos é o comportamento recente da inflação. Há cerca de um ano prevalecia entre analistas o temor que houvéssemos atingido uma situação de dominância fiscal, isto é, uma deterioração tão significativa das contas públicas que o Banco Central perderia a capacidade de controlar a inflação, pois qualquer elevação da taxa de juros só aumentaria a percepção de descontrole da dívida pública, levando à fuga de capitais e inflação ainda mais alta.

Em retrospecto, não chegamos a tanto (uma das poucas previsões que acertei), talvez porque as medidas de ajuste fiscal, ainda que graduais e com efeito demorado, tenham sido, por ora ao menos, suficientes para convencer o público que a trajetória de endividamento do país não será explosiva.

De qualquer forma, porém, a verdade é que não só a inflação observada começou a cair em resposta à fraqueza da economia (ao contrário do que afirmavam os keynesianos de quermesse), mas também as expectativas de inflação cederam fortemente. A inflação esperada para 2017, que chegou a atingir 6% no começo de 2016, recuou para 4,8%, enquanto a expectativa para 2018 veio de 5,5% para 4,5%.

Com as expectativas de inflação novamente ancoradas, o BC pode agora reduzir as taxas de juros, estimulando a atividade sem ameaçar o cumprimento da meta. O consenso capturado pela pesquisa Focus ainda sugere a Selic ao redor de 10% no final de 2017, mas já há quem aponte um processo mais longo (não necessariamente mais rápido) de redução da taxa básica de juros que poderia nos levar a valores de um dígito ao final do afrouxamento monetário, em particular se for aprovada a reforma da Previdência.

Historicamente reduções da taxa real de juros costumam afetar a demanda interna, especialmente o consumo, com defasagem ao redor de dois trimestres, indicando um efeito mais visível sobre a atividade a partir de meados deste ano.

Ainda assim, o crescimento em 2017 deverá ser baixo, em parte pelo efeito estatístico negativo de 2016. Conforme discutido em coluna recente, caso o PIB do quarto trimestre do ano passado (a ser conhecido no início de março) caia em torno de 0,5%, o carregamento estatístico deverá ser negativo e relativamente elevado (-0,9%).

Isto significa que, para manter o PIB de 2017 igual ao de 2016, seria necessária uma taxa média de expansão trimestral na casa de 1,5% ao ano, enquanto um aumento do PIB da ordem de 0,5% em 2017 precisaria de um ritmo trimestral de crescimento pouco inferior a 2,5% ao ano.

Neste sentido, à parte revisões dos dados passados (ressalva que sempre precisa ser feita), dificilmente observaremos aumento superior a 0,5% este ano.


Posto de outra forma, podemos esperar recuperação lenta da economia, mais vigorosa apenas na segunda metade do ano. Em outras circunstâncias, lamentaríamos; nas atuais, também.

Feels like talking to a wall


(Publicado 4/Jan/2017)

Reações:

26 comentários:

Aqui nesse blog muitos economistas são criticados, um deles é o Oreiro. No entanto acho que vale a pena citar quando algo positivo acontece. O Oreiro atingiu publicação de 100 artigos, 11 livros, 33 capítulos de livros e 118 textos em jornais e revistas. Esteve em 25 bancas de mestrado e 14 de doutorado. Em números, certamente um dos melhores do Brasil. Talvez o melhor heterodoxo do país.

"O Oreiro atingiu publicação de 100 artigos", e quantas foram em revistas com fator de impacto >= 1.0 ??

Alex,

O Nelson Barbosa não seria um heterodoxo menos pior, nao?

Abs

Sr Alex S. Acertou no centro da meta, com seu post. O desânimo é assustador! Gosto do seu otimismo, acalenta, mas política econômica,usando como única ferramenta, queda de juros, parece estoria de conto infantil, para pegarmos no sono...Acho que não tem jeito, a bomba está armada e vai estourar. Vou procurar uma trincheira e torcer para ser um "traque", mínimo .
Devemos tentar sair deste marasmo de angústia dantesca. E se conseguirmos ; educar todo este povo , pra não elegermos novamente, vagabundos ,criminosas e demônios , que nos conduziram, mansamente para este abismo.
Realmente , hoje, somente vejo a minha frente o " muro das lamentações"...

"100 x 0 = 0"

Ou seria melhor dizer 100 x (-1) = -100?

Oi Alex parabéns pelo seu artigo. Na sua opinião o fator Trump tem influencia significativa nessa retomada ou nossos problemas internos ainda são tão desafiadores a ponto de não valer a pena olharmos tão preocupados para o cenário externo?

"O Nelson Barbosa não seria um heterodoxo menos pior, nao?"

Infinitamente pior. O Oreiro (ainda bem) não foi jamais colocado em qualquer posição em que pudesse fazer um dano real em grandes proporções. O Nersão conseguiu...

Alex, sou teu fã. Mesmo ja tendo sido expulso do Valor Economico, agora deu uma porrada linda no Clovis, do conselho editorial da Folha. Manda bem demais, cara.

Teria algum comentário sobre o artigo do Lara no Valor?
Abs

Alex,

Você acha que Temer minou percepção do mercado de autonomia do BC com seu pronunciamento?

Movimento da treasury neste ano pode influenciar BC local até que ponto?

BCE vai agir como com aumento da treasury?

Sds,

Alex eu fui ler o texto do Cochrane que o Lara Resende cita. Não sei se é uma simplificação intencional, mas no que ele chama de instabilidade no modelo Novo Keynesiano com expectativas racionais é na verdade um saddle-path (se conectarmos o resto das equações no modelo). Todo modelo com expectativa racional é assim, aliás nos primórdios o que se argumentava é que se não fosse um saddle-path a solução era sobredeterminada.

Além disso, no caso em que ele afirma haver indeterminação no modelo novo keynesiano, a expectativa funciona como uma variável jump (ou seja o próprio preço, como num modelo continuo mais old-fahsion).

Fora isso, a parte fiscal parece interessante no texto.

Alex, quando o produto potencial aumenta, a taxa neutra de juros cai ou aumenta?

Abs, Julio

Alexandre,

O Estados Unidos aumentou a sua base monetaria enormemente pós crise. Por que por lá a inflação não veio?

Laura

Alex,
Texto do André a parte, o que achou do paper do Cochrane?
obg, abs.

Do meu caderno de anotações de um ex-professor mestre pela FGV- Rio (década de 60):
FUNDAMENTOS ECONÔMICOS (Teorias Econômicas) -
Devem ser estudados sob as óticas:
a) De países desenvolvidos (exportadores de capitais);
b) De países em desenvolvimento (importadores de capitais);
c ) De país emissor de moeda conversível (USA, etc.);
d) De país não emissor de moeda conversível;
e) De todos os agentes econômicos.


A taxa básica zero dos EUA provocaram bolhas? Bolsa?

As bolhas das commodities tiveram origem na taxa básica zero? Furou com básica zero?

A verdade é que intencionalmente ou não já está fazendo um mal danado. Os leigopatas estão todos animados.

"O Estados Unidos aumentou a sua base monetaria enormemente pós crise. Por que por lá a inflação não veio?"

unemployment rate + household debt é um bom começo!

Tqm supoe economia em pleno emprego. A rigor, a analise do ALR despreza esse ponto...

Alexandre Schwartsman, tudo certo? Por acaso, conhece o Nilson Teixeira? Gostou da coluna dele hoje no Valor?

Abs
Carla Padovano

Juros em queda com inflação em 6,3 e expectativas em 4,8 são um sinal de que a recessão está longe do fim ou se agravando?

"O Estados Unidos aumentou a sua base monetaria enormemente pós crise. Por que por lá a inflação não veio?"

O dinheiro ficou nos bancos, que depositaram a grana no fed para ganhar 0,5% ao ano ao invés de emprestar para novos empreendedores. O dinheiro não entrou na economia, e portanto não pressionou a inflação. Adicionalmente, o mercado interbancário americano morreu por causa disso, hoje apenas pequenos bancos recorrem a ele.

Laura disse: "EUA aumentaram base monetaria e não tiveram inflaçao, porque?"
R: Porque o governo deles não gasta enlouquecidamente como se não houvesse amanhã, e eles tem uma economia altamente PRODUTIVA. Eles tem inflação controlada faz muito tempo.
O dia que o Brasil se financiar a juros reais baixos e ao mesmo tempo tiver inflação controlada, daí sim a PEC dos gastos não faz sentido, e, daí sim a Laura pode vir fazer esse comentário ironico achando que ta falando algo interessante.
Enquanto isso não ocorre, volte aos livros Magda, digo, Laura.

Um Abraço
Caco Antibis

O regime de metas de inflação surgiu para ancorar as expectativas - indeterminadas no modelo neokeynesiano - mas isso não é dito no artigo do André; claro que um regime decente exige uma política fiscal que não atrapalhe (tipo Dilma). No caso EUA não houve deflação porque continuaram ancoradas nos 2% do FED, mesmo com a base explodindo.

Alexandre,

Parece que o Lara Resende não leu Woodford: Interest and PRices

Não?

Alexandre,

Para um aluno da graduação é muito dificil (ou eu sou burro) enxergar o canal entre expectativas implicando em inflação. Nós temos apenas uma correlação forte. Ok. Mas correlação não implica em causalidade.

Pode me ajudar a entendder como se constroi esse canal de causalidade?? Texto/livro/biblia...qlqer coisa eu leio. rsrs

Você é uma referência para mim, por isso a pergunta.

Diogo.