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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Dentro da caixa

Tempos atrás levantei a hipótese que a equipe responsável pela (agora órfã) Nova Matriz Econômica fora vacinada contra a realidade. Neste fim de semana, ao ler a coluna de Clóvis Rossi,  me convenci que a vacina existe e está sendo aplicada em larga escala.

Rossi está maravilhado com as iniciativas de Donald Trump no campo econômico, em particular as de caráter protecionista, já que estas poderiam se traduzir em aumento de emprego. Em que pese um “mea culpa” meio fajuto (“confesso que já fui favorável a este tipo de medida”), no final da coluna Rossi deixa claro que acredita nesta solução e exorta um político (ou mesmo um “outsider”) a “fugir da corrente majoritária”, já que “o tamanho da crise brasileira pede ousadia e pensar fora da caixa” (anglicismos à parte).

Talvez seja o efeito da vacina, mas esta foi exatamente a política seguida durante o governo Dilma (e parte do governo Lula). Não faltaram iniciativas protecionistas, como, por exemplo, requisitos de conteúdo nacional nas compras da Petrobras, ou imposição de tarifas sobre automóveis importados, ou ainda a nova tentativa (a terceira) de relançar no país a indústria naval. Segundo relatório da OMC, publicado ao final de 2015, o Brasil havia adotado uma medida protecionista a cada 17 dias em média desde a eclosão da crise financeira de 2008.

Não foi, obviamente, apenas esta faceta da política econômica que nos lançou na atual crise (o descontrole fiscal, também cria da Nova Matriz, fez este serviço com muita eficiência), mas não restam dúvidas que: (a) o protecionismo foi testado (e não pela primeira vez, diga-se de passagem); e (b) falhou miseravelmente, como pungentemente iluminado pelos casos da Sete Brasil e da própria Petrobras.

Isto não deveria ser uma surpresa. Ainda que proteção possa aumentar (ou preservar) o emprego em uma dada atividade, há efeitos secundários que tipicamente reduzem o bem-estar para a economia como um todo, seja através de custos mais altos, seja porque recursos fiscais (que poderiam ser mais bem utilizados para outros fins) acabam sendo direcionados para setores pouco eficientes. Não bastasse isto, a repugnância nacional à avaliação de políticas públicas acaba por colaborar com a manutenção de programas que deveriam ter sido eliminados décadas atrás (alguém já ouviu falar da Zona Franca de Manaus, ou a vacina anti-realidade atingiu a perfeição?)

Não se trata, como Rossi escreveu, dos riscos (sic) de “cair numa Venezuela”, mas da certeza que vem do conhecimento da história econômica recente (e não tão recente) do Brasil. Em que pesem tentativas de abrir a economia à competição externa, é fato que permanecemos como um dos países mais fechados ao comércio internacional do mundo, mesmo levando em conta nossa dimensão continental. Já vimos o filme, a reprise, a refilmagem e a série de TV: em todas elas morremos no final.

Não faltou quem pensasse “fora da caixa”. A minúscula inserção do país no fluxo de comércio internacional não aconteceu por azar. Também não foi por acaso que a participação do governo na economia brasileira foge de todos os parâmetros e nos força agora a medidas desesperadas para conter o gasto público.


Um dia irão descobrir que ser ousado no Brasil é pensar “dentro da caixa”.



(Publicado 11/Jan/2017)

Reações:

36 comentários:

"Um dia irão descobrir que ser ousado no Brasil é pensar “dentro da caixa”."

Perfeito. E não só no Brasil.

Cortar juros em 0,75 p.p. com inflação de serviços aumentando de um mês para outro se inclui nisso?

"Cortar juros em 0,75 p.p. com inflação de serviços aumentando de um mês para outro se inclui nisso?"

1) A pergunta não tem nada a ver com o texto;
2) Até onde sei, depois que a inflação aconteceu, não tem taxa de juros que a faça "desacontecer";
3) Acho que já disse aqui minha opinião sobre fazer política monetária com base na observação mensal de uma série não-dessazonalizada: é de uma burrice atroz (O Nakano andou cometendo este burrice, mas vejo que não está sozinho);
4) Aliás, qualquer decisão de política monetária baseada em um única observação é de uma burrice ímpar;
5) Isto dito, acho que tomaram riscos, mas não porque a inflação de serviços aumentou entre novembro e dezembro, mas porque as projeções com corte de juro a 50 bps/mês estavam justas ao redor da meta. Enfim, veremos

As vezes até penso que seria melhor a heterodoxia concluir os seus trabalhos no Brasil, assim, ao menos, não teriam mais espaço para regozijar seus pareceres. Quem sabe, nestas horas, estariam cuidando da política penitenciária.

Alexandre, também defendo um maior grau de integração comercial como estratégia de desenvolvimento, porém tenho receios quanto à livre movimentação de fluxos de capital. Autores como Blanchard, Ostry e Korinek já estão incluindo o uso de controles de capital em seus modelos. O que você pensa sobre o tema?
Abs.
Diego

Crescimento Anual Médio entre 1964-1991: 5,25%
(Ref: “A Economia Brasileira no Período Militar”, Cysne R.P.)

Crescimento Anual Médio entre 1994-2007: 3,06%
(Ref: Wikipedia)

Se o protecionismo não funciona, por que o crescimento médio no período militar foi 71,6% maior do que no “auge” do liberalismo (1994-2007)?

E não nos esqueçamos de que no período militar ainda havia outros fatores “prejudiciais” ao crescimento econômico: estatais, câmbio fixo, CLT e os “keynesianos de quermesse” no comando da economia. Mesmo assim, com tudo isso, o crescimento foi maior ...

Só citei um fator para não alongar o texto. Vamos ver até onde vai essa desculpa da sazonalidade. Você diz que uma projeção de 4,8, com um Focus historicamente otimista, estava ao redor da meta? Ok. Presidente do BC dando entrevistas, preocupando-se claramente mais com "reanimar a economia" do que controlar a inflação. Ai se fosse o Tombini. Só resta trocar farpas para defender os amiguinhos. Ai se fossem os heterodoxos... eles estão bem felizes, tá? O main stream tá feliz, o mercado e os pobres iludidos tão felizes... por enquanto.

"Só citei um fator para não alongar o texto. "

Pois é, citou um "fator" errado. Se quiser fazer um argumento contra a decisao (a qual, aliás, eu achei arriscada e escrevi isto para meus clientes) tem que usar a inteligência e conhecimento, ambos ausentes. Seu "fator" é tão cretino quanto o do Nakano, que defendia corte de juros com base na inflacao de, sei lá, agosto ou setembro de 2015.

"Se o protecionismo não funciona, por que o crescimento médio no período militar foi 71,6% maior do que no “auge” do liberalismo (1994-2007)? "

Se eu me alimento melhor hoje, por que eu cresci mais quando tinha entre 10 e 16 anos?

"Vamos ver até onde vai essa desculpa da sazonalidade."

Hãã... A inflação de serviços do IPCA15 de janeiro caiu para 0,31% (de 0,65% no IPCA fechado de dez-16 e 0,60% no IPCA15). Você agora acha que o BC fez certo ou, como eu, vai concluir que não dá para fazer política monetária baseado em uma observação de um subitem do IPCA?

Não precisa responder...

O crescimento durante o regime militar foi maior apesar de cambio fixo, estatismo, protecionismo, etc. Ou se esqueceu Bulhões e Roberto Campos entre 1964 e 1968 com as medidas estruturantes que antecederam ciclo de desenvolvimento, aliás repetida durante o ciclo FHC e Lula?

Alexandra, boa tarde.
Eu gostaria muito de ler um artigo, seu, comentando o recente artigo do Lara Rezende sobre questionamentos em relação a TQM e um suposto erro nos nossos modelos macroeconômicos. Ele inclusive menciona um novo modelo novo-keynesiano baseado na equação de Fisher sobre a determinação da taxa básica de juros.

Eu sou apenas um graduando, longe de mim questionar alguém como o Lara Rezende, mas eu tenho certeza que ele errou ao questionar a TQM falando sobre a relação entre crescimento da base monetária americana e a baixa inflação do período. Eu achei que ele praticou um espantalho, porque a teoria relaciona MV com PY e MV não é M. A teoria só considera a quantidade de moeda em circulação como fator determinante dos níveis de preços, não a base monetária em si e os bancos americanos estão operando com reservas bancárias em excesso. Se reservas gerassem inflação, não faria sentido o BC elevar as alíquotas de depósitos compulsório, também, como ferramenta para cumprir as metas de inflação. Além disso, o Lara Rezende também não levou em consideração que o dólar, sendo reserva de valor internacional, poderia significar que também houve uma espécie de "vazamento" de dólares criados pelo Quantitative Easing, para o comércio exterior. Principalmente pelo fato dos Estados Unidos importarem muito mais do que exportam.

Na verdade, a crítica do Alê ao rapaz que cometeu a gafe em comparar o crescimento médio durante o regime militar com o atual está em um princípio elementar explicado nos modelos de crescimento do Solow. Quanto maior for a necessidade de investimento em uma economia, maior será o potencial de crescimento dela, uma vez que a taxa de retorno em economias pobres é maior que a taxa de retorno em economias mais desenvolvidas. Então, comparar o Brasil atual com uma época em que a economia do país era bem menos estruturada, ainda por cima nominalmente, não faria sentido algum.

E fora que ele desconsiderou outros aspectos. O crescimento do período militar foi a custa do crescimento e do fomento das desigualdades sociais. Diferentemente do crescimento do último ciclo que ele mencionou, onde a partir de 1999, ocorreu a combinação de crescimento econômico com queda na desigualdade social. Sendo, por tanto, um crescimento menor, porém com mais qualidade.

Alex, me metendo no assunto. O argumento classico é que o Brasil passou de 1930 a 1980 pela fase facil do crescimento, quando os fatores migram de setores de baixa para setores de alta produtividade, notadamente devido a urbanizacao. Mas acha que isso faz sentido? Foram inumeras politicas que estimulavam a demanda nesse periodo desenvolvimentista e isso nao pode ser ignorado. Alem disso, o argumento das reformas do bulhoes e campos devem jogar algum papel, mas certamente reduzido. O crescimento depende de condicoes objetivas de demanda.

0.25 a mais no corte faria tanta diferença assim na expectativa da inflacao p/ colocar duvidas mesmo sabendo que estamos de fato num ciclo de queda?

"O crescimento depende de condicoes objetivas de demanda."

De forma alguma. Demanda afeta o ciclo econômico; crescimento de longo prazo é (menos) acumulação de fatores e (muito mais) PTF. Quem quer se seja que te disse que demanda afeta crescimento de longo prazo não sabe do assunto

"0.25 a mais no corte faria tanta diferença assim na expectativa da inflacao p/ colocar duvidas mesmo sabendo que estamos de fato num ciclo de queda?"

0,25? Nada, claro. A questão é o que acontece com a curva de juros depois de uma surpresa na decisão de juros

Alex, entendo seu ponto. Mas voce nao acha razoavel pensar que ciclo pode afetar tendencia. Ha toda uma literatura de path dependence sendo explorada mundo afora. Por exemplo, recessoes profundas causam fechamento de empresas e perda de capital humano (pelo esquecimento do conhecimento especifico, dado o elevado periodo de desemprego). Por que o mesmo não pideria valer para o sinal contrario (ou o que a Yelen chamou high pressure economy afetando potencial). Pode ser sim uma possibilidade e há pesquisa séria sendo conduzida no assunto.

"Pode ser sim uma possibilidade e há pesquisa séria sendo conduzida no assunto."

Segunda ordem, no máximo, e certamente muito pouco relevante para 50 anos

Alexandre, o seu último tweet – acerca da insustentabilidade do regime previdenciário tal como é atualmente – só é visível para quem segue tanto você como o João M. P. de Mello. Isso pode ser consertado se você retuitar usando um ponto antes da @, assim:
".@jmpmello explica magistralmente a questão previdenciária: só não entende quem não quer..."

Dessa forma, o tweet aparecerá na timeline de todos que o seguem.

O tweet a que me refiro é este: http://twitter.com/AlexSchwartsman/status/822424003637813248

Nas minhas contas, SA e olhando os núcleos, a inflação corrente está abaixo/perto da meta, então é pau na Selic mesmo. O BC pode ter tomado um puxão de orelha, o que é bem ruim, mas estamos com Selic ainda a 13%! O corte não foi agressivo.
Passou claramente o risco inflacionário, então o BC tem que olhar pra economia sim, mesmo que escondido. Se o IPCA vai ficar em 4,5% ou voltar pra 5,5% vamos ver, aí o BC poderá apertar os juros em 2018. Não pode é ficar encolhido, tem que liderar e ser firme para não ouvir sermão do mercado e dos ministros.

Alex você está sendo muito conservador hehehe o "O" certamente não cometeria esse excesso.

Temos um novo Ronald Reagan!!

Alex, de verdade nao entendo. Ao inves de se apegar ao que faz sentido, os economistas zelam por uma evidencia que mostra que a produtividade total dos fatores, uma medida da nossa ignorancia, é a grande responsavel pelo crescimento. Lembro que fazer decomposicao de crescimento nao tem nada a ver com analise causal. Pode-se fazer tambem decomposicoes de crescimento pelo lado da demanda e com resultados bem mais intuitivos. Valeu pelo dialogo respeitoso. Um abraço, Marcos

Alexandre, boa tarde. Uma vez vc afirmou que bancos captam recursos tipicamente pagando o CDI, mas essa captação não deveria ser dependente do prazo da operação que o Banco busca fazer? Como funciona isso?

Por exemplo:
99% do CDI para 6 meses
100% do CDI para 12 meses
102% do CDI para 24 meses
etc...

Alex, tao falando ai pelos jornais que o bndes teria uma nova regra pra Tjlp, que seria uma taxa longa de mercado (sei la, a taxa da ntn-b de 10 anos). Como ficariam os emprestimos do bndes quando a curva de juros, tal como hoje, ficasse com inclinacao negativa? Para emprestimos mais longos, haveria interesse em se financiar no bNDEs nessas condicoes? Bjs Marta

"Para emprestimos mais longos, haveria interesse em se financiar no bNDEs nessas condicoes?"

Supostamente a taxa longa é a acumulação de taxas curtas mais um prêmio de risco. Quem se financia à taxa longa paga o prêmio de risco, mas trava a taxa; a alternativa é correr o risco de taxa de juros (e refinanciamento).

Será que André vai responder às críticas de Samuel Pessoa e Marcos Coimbra?

"Será que André vai responder às críticas de Samuel Pessoa e Marcos Coimbra?"

Se ele descobrir quem é Marcos Coimbra, talvez...

"Quem se financia à taxa longa paga o prêmio de risco, mas trava a taxa; a alternativa é correr o risco de taxa de juros (e refinanciamento)."

Mas a NTN-b não é uma taxa variável, que vai se atualizando com a inflação? Não me parece uma taxa que fica travada, de modo que o risco de juros ainda se mantém presente, não?

Tem razão: isto vai depender do tipo de contrato que for utilizado, ma smuito provavelmente flutuará com a NTN-B (mas nada impede que se trave a taxa)

"mas nada impede que se trave a taxa"
se tiver captado em IPCA da pra fazer swap em pre se for o caso. Claro, vai pagar spread aqui tambem.

alex, num regime de metas de inflação a taxa de juros de equilíbrio é endógena, certo? Como a meta de inflação é exógena, a taxa de juros de equilíbrio para manter a inflação na meta tem que ser endógena, não?

Alex, a inclinação da estrutura a termo no Brasil não é normal (positivamente inclinada) com alguma frequência (como agora). A nova regra para a TJLP e o BNDES não seria um risco para os investimentos em infra, tão carentes no Brasil? Abs Marta