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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Os alquimistas estão voltando

Dois amigos, Alberto e Bruno, tomaram R$ 100 emprestados, à mesma taxa de juros (10% a.a.), mas não pelo mesmo prazo. Alberto teria dois anos para liquidar o empréstimo, sem prestações intermediárias, enquanto Bruno, mesmo sabendo que só conseguiria recursos para quitar o financiamento no final do segundo ano, teria que pagá-lo integralmente ao fim do primeiro ano.

Assim, 12 meses depois, ambos pagam R$ 10 relativos aos juros incidentes sobre o crédito. Bruno, porém, ainda sem recursos para a quitação, toma novo empréstimo em outro banco por mais um ano (à mesma taxa, para simplificar) e paga o que devia ao primeiro. Neste momento, portanto, ambos os amigos ainda devem R$ 100, tendo pago R$ 10 a título de juros. Bruno, porém, quitou a operação original com recursos de uma nova.

À parte o risco de refinanciamento (isto é, caso Bruno não achasse um banco disposto a lhe emprestar dinheiro para pagar o empréstimo inicial), os dois amigos estão na mesma situação, como concluiria qualquer um que pensasse sobre o assunto por 12,5 segundos.

Esta, porém, não parece ser a conclusão da tal Auditoria Cidadã da Dívida, que inclui a amortização da dívida em pé de igualdade com as demais despesas do governo. Caso seguíssemos sua peculiar “lógica”, Bruno, em nosso exemplo acima, teria “gasto” R$ 100 em amortização da sua dívida. E, pior, a dívida, apesar da amortização, ainda teria o mesmo tamanho... Daí para recomendar a Bruno a “auditoria da dívida” (ou seja, calote) é apenas um passo, ou até menos do que isto.

Uma coisa deve ficar clara: despesas reduzem o patrimônio; amortizações não.

Caso aumente meus gastos, ou a minha dívida cresce, ou, de forma equivalente, meus ativos (dinheiro no banco, por exemplo) se reduzem. De uma forma, ou de outra, meu patrimônio cai.

Por outro lado, se pago amortizações com meu dinheiro, dívida e ativos se reduzem no mesmo valor, de forma que meu patrimônio não se altera. Caso tome nova dívida para pagar a antiga (como Bruno), meu endividamento não se altera, mas também não meus ativos; assim, meu patrimônio permaneceria o mesmo.

Posto de outra forma, quem pensa mais que 12,5 segundos sobre este assunto não pode concluir que amortizações representam 50% do orçamento (ou sei lá que número propagandeado recentemente). A confusão é deliberada: trata-se da defesa do calote; apenas não ousa dizer seu nome.

Em artigo que ficou famoso, Carmen Reinhart, Kenneth Rogoff e Miguel Savastano, lançaram o conceito de “intolerância à dívida”, isto é, da tendência de alguns países a renegar suas dívidas, mesmo em patamares facilmente gerenciáveis por outros países. Uma das conclusões deste trabalho sugere que calotes passados influenciam consideravelmente a chance de novos calotes, fenômeno devidamente incorporado no custo de novos empréstimos ao país, com consequências negativas para investimento e, portanto, crescimento.

Mesmo sem a coragem de dizê-lo abertamente, o que vemos aqui é apenas mais um caso de intolerância à dívida. Gente que acredita numa solução fácil e errada para o problema, ao invés do caminho difícil da responsabilidade fiscal.

Foi exatamente assim que o país perdeu o pé do crescimento, mas esta é uma lição que muitos fazem questão de não aprender.

Auditando...


(Publicado 28/Set/2016)


Reações:

23 comentários:

a logica Iluminada funciona como se a divida aparece do nada de um dia para o outro no balanço..."olha, coitado do governo, forçaram ele a tomar mais um emprestimo"

Há um comentarista de esquerda do Jornal da Cultura que toda segunda -feira olha indignado para as câmeras e repete.E os milhões que esse governo paga de juros para os bancos?Creio que os telespectadores "percebem" em menos de 12,5 seg. a falácia desse pensamento e que por trás disso está a palavra calote.

Bom dia!Vejo muitos ataques à divida e à auditoria cidadã da dívida.Mas, não vejo as pessoas apontando soluções.O amigo sugere a questão fiscal.Tudo bem, seria daqui para frente.Mas, e o que passou?Salvo não me engano a própria constituição sugere auditoria ou revisão da mesma.O que poderíamos fazer para darmos uma resposta a sociedade?

Nessas eleicoes o senhor prestigiou seu amigo Haddad?

O que está por trás desse tipo de pensamento mágico não é só o esquerdismo bocó, mas o nacionalismo rastaquera da gentalha que a esse respeito não pensa senão por lugares-comuns, como o de que não pode o Brasil, um país tão rico, ser tão pobre, senão por ser espoliado pelos interesses dos financistas norte-americanos mancomunados com os seus congêneres brasileiros. Não lhes passa pela cabeça que o Brasil seja pobre porque é pouco produtivo, porque tem um sistema tributário incompreensível, ou melhor, não tem sistema algum, porque tem regras trabalhistas e previdenciárias que não se atualizaram nos últimos 70 anos etc. etc. etc.

"Nessas eleicoes o senhor prestigiou seu amigo Haddad?"

Sempre o prestigio; apenas não voto nele

Haddad fez uma excelente administração em SP.

O PT sempre prestigiou o senhor lhe convidando para ser diretor do BC,entretanto o senhor nunca prestigiou o PT votando no partido,defendendo o partido contra as arbitrariedades da Lava Jato,etc.

"O PT sempre prestigiou o senhor lhe convidando para ser diretor do BC,entretanto o senhor nunca prestigiou o PT votando no partido,defendendo o partido contra as arbitrariedades da Lava Jato,etc."

Eu sou ingrato...

Há partidos que defendem como solução para a crise a auditoria da dívida pública e a execução da dívida ativa. O problema é que não falam o que farão depois da tal auditoria nem mesmo se mostram como elevados auditores, tampouco compreendem os impasses e empecilhos de uma execução fiscal. É a gritaria da minoria barulhenta.

Difícil entender como alguns não conseguem distinguir cargos comissionados ocupados com o fim político e os ocupados com o fim tecnocrático.

"O PT sempre prestigiou o senhor lhe convidando para ser diretor do BC,entretanto o senhor nunca prestigiou o PT votando no partido,defendendo o partido contra as arbitrariedades da Lava Jato,etc."

Não confunda gratidão com pistoleirismo. Vide Nassif.

Belluzo,Bresser,Delfim nunca receberam nem dinheiro,nunca ocuparam nenhum cargo oficial durante os 13 anos de governo do PT e defendem o PT de graça.

Esse ano não terá o tradicional bolão do nobel?

"Sempre o prestigio; apenas não voto nele"
Finalmente me convenci de sua sabedoria.

http://www.valor.com.br/empresas/4738195/associacao-de-engenheiros-da-petrobras-pede-ao-mpf-saida-de-parente

"Belluzo,Bresser,Delfim nunca receberam nem dinheiro,nunca ocuparam nenhum cargo oficial durante os 13 anos de governo do PT e defendem o PT de graça."

Tolinho...

Alexandre,

Dois argumentos:

- O argumento da elevação do juros por parte do FED.
- Os juros futuros já caíram bem.

A discussão sobre a redução da selic perde força com esses argumentos?

Laura.

Nobel desse ano vai pro Paul Romer, mesmo alguns ja achando que ele ja é Nobel.

Oi tolinho! Existe uma literatura sobre ¨Ideas and Growth¨ onde você vai aprender que as ideias desses três picaretas é uma das causas do nosso espetacular ¨Growth¨.

As bobagens que Romer vem escrevendo deve ter enterrado o nobel dele,ou adiado. Usar Smolin como referência e a física é um surto de arrogância.

"Nobel desse ano vai pro Paul Romer, mesmo alguns ja achando que ele ja é Nobel."

Acho difícil New Growth Theory (versão 1980s-90s) ganhar Nobel. Acemoglu é capaz de ganhar antes do Paul Romer. Deu pano para muito paper, mas empiricamente deixou a desejar. E digo isto com tristeza, porque acho os modelos do caramba.

Os argumentos:

i) elevaçao de juros por parte do FED; e
ii) queda das taxas de juros futuras

em hipótese alguma enfraquecem a queda da Selic.

A alta de juros do FED é a mais debatida da história! Alguma volatilidade vai gerar sim, mas mudar substancialmente o ambiente de liquidez global, acho que não.

Os juros futuros terem caído, ao contrário, apenas reforçam a queda.

abs,
Mandela