teste

terça-feira, 12 de abril de 2016

O exorcista (#sqn!)

Na semana passada comentei o plano perpetrado pelo Ministro da Fazenda, nelson barbosa, transformando a meta de superávit primário de R$ 24 bilhões em déficit de quase R$ 100 bilhões. A peraltice fiscal, contudo, não acaba aí: há pelo menos dois motivos adicionais para ficarmos ainda mais preocupados com a evolução das contas públicas no país.

Um é o “Plano de Auxílio aos Estados e Distrito Federal”, que, contrário ao espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal, permite nova rodada de refinanciamento da dívida estadual, abrindo espaço para déficits adicionais da ordem de R$ 10 bilhões em 2016, R$ 19 bilhões em 2017 e outros R$ 17 bilhões em 2018.

O problema não vem de hoje. Nos últimos anos a Fazenda, com a anuência de barbosa, consentiu que estados se endividassem além da conta, embora o acordo firmado nos anos 90 dotasse o governo federal de mecanismos para evitar justamente a repetição deste fenômeno. Agora, ao invés de punir tal comportamento, o ministério premia a irresponsabilidade fiscal, reforçando a mensagem “gastem agora e não se preocupem com o futuro”.

Já o outro projeto aumenta o grau de rigidez orçamentária no país por meio da criação do Regime Especial de Contingenciamento, que limita cortes de gastos em situações de baixo crescimento. barbosa choraminga sobre a impossibilidade de alterar mais de 90% do dispêndio federal, mas propõe elevar ainda mais a proporção das despesas não contingenciáveis no orçamento.

A verdade é que barbosa não consegue escapar da sua natureza. As medidas que anunciou no campo fiscal traem sua visão acerca da crise: como bom keynesiano de quermesse ele acredita que o problema da economia brasileira se origina da falta de gasto; daí os incentivos para o aumento da despesa pública.

Trata-se de visão míope. Não há dúvida que a demanda interna despencou: o investimento cai desde meados de 2013, acumulando queda de quase 25% até o final de 2015, enquanto o consumo caiu nada menos do que 8% nos últimos 7 trimestres. As propostas ignoram, porém, as causas deste desempenho lamentável.

Por mais que se insista em jogar a culpa na suposta política de austeridade, a verdade é que: (a) a demanda vem caindo muito antes do anúncio de qualquer medida de redução de gastos; e (b) como bem lembrado pelo meu amigo Samuel Pessoa, a real queda do dispêndio público em 2015 é pequena demais para explicar a contração gigantesca da atividade, dado que nenhum keynesiano de quermesse teve coragem de encarar.

A real razão do colapso do investimento é a percepção de insustentabilidade da dívida pública no Brasil a menos que sejam aprovadas reformas que mudem radicalmente o regime fiscal no país, aumentando (jamais reduzindo) a flexibilidade do orçamento e permitindo a geração de superávits primários capazes de estabilizar a dívida e, à frente, reduzi-la como proporção do PIB.

Tornou-se óbvio que barbosa e o governo não apenas não têm condições de levar a cabo as reformas necessárias para isto, como agem exatamente no sentido oposto.
  

Não é por outro motivo que o fantasma do calote pela aceleração inflacionária, que se imaginava exorcizado, segue assombrando o setor privado. O exorcista às avessas invoca o demônio e segue sem entender porque o país passa pela pior recessão de sua história.




(Publicado 6/Abr/2016)

Reações:

29 comentários:

Alex, quem tu acha que deveria assumir o Ministerio da Fazenda na gestão Temer?

As imagens que você escolhe sempre fecham o texto com chave de ouro.

Ale, me diz uma coisa, você já escreveu sobre paraísos fiscais no seu blog?
Dei uma procurada e não achei nada a respeito.

Abraços

Alex,

Entao voce esta dizendo que a razao para nao investir é a divida crescente? Em que mundo voce vive?

Empresario nao investe porque esta com capacidade ociosa, ou, em outras palavras, porque nao esta produzindo de acordo com o tamanho de sua capacidade. Basicamente porque nao há demanda existente. No curto prazo é isso.

Ok, a economia brasileira pode ter iniciado sua desaceleracao por questoes de oferta, mas este nao é mais o caso hoje, onde a capacidade ociosa (nuci e desenprego) é o retrato do país.

Se quer mesmo afirmar que a divida é a causa, explique bem aos seus leitores: a divida impacta premio, que impacta cambio, que impacta investimento. Como a decisao de investir depende tambem do preco em reais do bem de capital, o investimento emagrece.

Da forma como voce coloca, nao fica nem um pouco claro teu raciocinio.

Abs

Carlos Ramalho

Leia de novo: não é a dívida crescente; mas a percepção crescente que isto vai terminar em extraordinária desorganização econômica, como de fato vem acontecendo. A capacidade ociosa é resultado, não causa, da queda do investimento (sim, o reforça, claro, mas é parte do mecanismo de transmissão, não a causa original).

Veja bem, o investimento cai desde 2013, isto mesmo, há quase 3 anos.

Quanto ao mecanismo preciso de transmissão, há muitos, inclusive o que você descreveu (tratei disto há um tempo; está no blog), mas eu só tenho 3200 caracteres para contar a história.

Abs

"você já escreveu sobre paraísos fiscais no seu blog?"

Não. Não é um tema que conheça.

"tu acha que deveria assumir o Ministerio da Fazenda na gestão Temer?"

"Dever" no sentido normativo (quem seria melhor) ou positivo (quem seria a indicação mais provável)?

No segundo sentido, parece que seria o Serra; no primeiro sentido gostaria de ver Marcos Lisboa ou Armínio Fraga lá.

Dívida líquida do setor público (A= B+K+L) – em % do PIB (dados BC)

Dez/2006: 46,5 %
Dez/2007: 44,5 % --> Crescimento em 2007: 6,1%
Dez/2008: 37,6% --> Crescimento em 2008: 5,2%
Dez/2015: 36,2% --> Crescimento em 2015: -3,0%


Por que a “percepção de insustentabilidade da dívida pública” não nos levou a uma crise em 2007 e 2008 e só agora em 2016, quando temos uma relação Divida/PIB menor do que naqueles anos? Imagino que os investidores sabem que uma dívida de 46,5% é maior do que uma de 36,2% ...

E os já 14 meses de crise política? Não entram em sua análise da crise?

Ai, que bonitinho, ele ainda acredita em dívida líquida...

Alex,

Não é a insustentabilidade (ou percepção de insustentabilidade) que faz o investimento cair. Isso não faz sentido, com ou sem limitação de espaço, a não ser que você aponte a transmissão, que seria, como você mesmo concordou, via prêmio de risco, câmbio e preço de oferta dos bens de capital.

Sobre o que você falou: em 2012, o NUCI (média entre CNI e FGV) deu uma desacelerada e o Investimento também (em relação ao ano anterior). Em 2013, o NUCI aumentou e o Investimento também (cresceu mais de 5% em relação a 2012).Da forma como coloca, usando a série com ajuste sazonal a partir de 3º trimestre de 2013, temos a sensação de que o investimento passou a andar para trás desde então, mas a verdade é que ele ainda crescia em relação a 2013 (e crescia bem). De 2014 em diante, aí sim, o investimento começa a decrescer, mas em linha com o NUCI. Resumindo, como indica a própria lógica: é a capacidade ociosa que governa, principalmente, a decisão de investir.

Tomado seu argumento ao extremo: você deve imaginar que o investimento deva ter desabado em países que viveram fortes aumentos da relação dívida-PIB? Eu sei, a pergunta é retórica, obviamente há problema de identificação nessa relação. Ao contrário do que você sugere, a queda do investimento, ao reduzir o PIB, eleva a dívida/PIB. O (meu) bom senso (talvez mau senso para você) sugere que a causalidade deva ser contrária, mas não tenho nada muito robusto nesse sentido para apresentar.

De todo modo, o que você coloca não é verdade absoluta, como gostaria que fosse...

Forte abraço,
Carlos Ramalho

"Dívida líquida do setor público (A= B+K+L) – em % do PIB (dados BC)"

No seu caso recomenda-se:

Fábio Giambiagi de 8 em 8 horas com doses de Mansueto Almeida antes de dormir, pois o tumor ainda parece benigno.


Alexandre, e "artigo" da Laurie Carvalho?!?!?! Fantástico, não?

Alex, vc está a favor do afastamento da presidente nas condições em que se dará? A possível perda em termos de direitos constitucionais seria compensada pelos ganhos em política econômica... Pode dizer algo sobre?

Alex,

Repliquei um trabalho seu com a Tatiane Pinheiro, que faz um modelo de determinação da taxa de câmbio para o Brasil.

Quando uso a amostra de vocês e o mesmo método de estimação, tudo fica bom. Quando atualizo a amostra até hoje em dia, o sinal do diferencial de juros inverte e fica positivo. Dei uma olhada na literatura e vi que existe mesmo esse puzzle em alguns trabalhos.

Sabe dizer algo a respeito? O restante do modelo ficou ótimo!

Bjs
Gisele Brito

Dia 17 o senhor vai defender a permanencia de Dilma? So lembrando que depois a sua passagem no governo Lula,o senhor ganhou a presidencia do Santander!!

Alex,

O que vc usaria como variavel fiscal para estimar uma is em frequencia mensal? Ou um modelo VAR? Realmente nao sei o que usar nessa frequencia...

Abs

Alex,

Verdade que voce tem chances de assumir o BNDES?

Abs
Julio

"Quando uso a amostra de vocês e o mesmo método de estimação, tudo fica bom. Quando atualizo a amostra até hoje em dia, o sinal do diferencial de juros inverte e fica positivo. Dei uma olhada na literatura e vi que existe mesmo esse puzzle em alguns trabalhos.

Sabe dizer algo a respeito? O restante do modelo ficou ótimo!"

Nem me fale, Gisele. Uso sempre este exemplo com meus alunos para alertá-los dos problemas do período amostral. De fato o modelo ficou uma beleza para o período estudado, mas funcionou muito mal fora da amostra. Não voltei ao assunto (embora devesse),mas, se um dia voltar, trataria com mais cuidado a intervenção cambial. Talvez esteja aí a razão do puzzle... Caso você explore esta vertente e obtenha resultados, pf, me avise.

Abs

"Dia 17 o senhor vai defender a permanencia de Dilma? So lembrando que depois a sua passagem no governo Lula,o senhor ganhou a presidencia do Santander!!"

Para defender a futura ex-presidente quero a presidência do Itaú-Unibanco, nada menos do que isto. Ah, e da Ambev também.

"O que vc usaria como variavel fiscal para estimar uma is em frequencia mensal? Ou um modelo VAR? Realmente nao sei o que usar nessa frequencia..."

Também não sei. Sei que não usaria qualquer medida fiscal acumulada em 12 meses. Na frequência trimestral, resultado recorrente com ajuste sazonal (que fica imprestável, mas fazer o quê?)

"Verdade que voce tem chances de assumir o BNDES?"

Ih, esquece a presidência do Itaú e da Amvbev; vou para o BNDES :-)

"Alex, vc está a favor do afastamento da presidente nas condições em que se dará? A possível perda em termos de direitos constitucionais seria compensada pelos ganhos em política econômica... Pode dizer algo sobre?"

Sim, a favor, embora reconheça que há custos consideráveis em termos de estabilidade política com a virtual banalização do impedimento. Não por conta da perda de direitos constitucionais (não é muito minha praia, mas a mensagem sobre o respeito à LRF me parece positiva). Afinal de contas, com 4 presidentes eleitos desde a redemocratização, dois foram para o chuveiro mais cedo, marca nada invejável...

Alex, caso o novo governo venha com um plano sério para o corte de gastos você acha que existe espaço para redução da taxa de juros no curto prazo?

Alex,

Voce acha que o corpo funcional do BNDES é de excelencia? Ouço muitos falarem isso, mas desconheço.

Abs, Carlos

Não conheço o suficiente para ter uma opinião mais firme. Quem eu conheço, p. ex., o Fabio Giambiagi, é muito bom, e desconfio que há gente muito bem qualificada lá. Agora, não posso fazer um julgamento sobre todo corpo funcional do banco sem ter um mínimo de contato.

Abs

“Ih, esquece a presidência do Itaú e da Amvbev; vou para o BNDES :-)”

Um liberal para presidir um banco de desenvolvimento, parece estranho ... só se for para privatizá-lo!!

O senhor é a favor do BNDES? Não conheço sua opinião sobre o tema.

"O senhor é a favor do BNDES? Não conheço sua opinião sobre o tema."

Procure no blog; ele existe para isto

"Procure no blog; ele existe para isto"
Obrigado. Já achei. Não sabia que o mecanismo de busca era tão bom.

O senhor foi um quadro do PT,deveria defender o governo.Arminio Fraga e CIA defendem o PSDB.

Mas sou ingrato; fazer o quê?