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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pero sin perder la ternura jamás

A decisão de política monetária foi surpreendente e justificada pelo temor da desaceleração da economia global, acerca da qual dirigentes do BC foram alertados em reunião do Banco de Compensações Internacionais (BIS), e cujo efeito mais direto, em sua opinião, seria reduzir a inflação.

Eu me refiro, claro, à reunião do Copom de agosto de 2011, quando o BC, sob a suposição de um “cenário alternativo” (segundo o qual “a deterioração do cenário internacional [causaria] um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009”), iniciou um processo de redução da taxa de juros que só cessaria em outubro de 2012, embora expectativas de inflação e as próprias projeções do BC se encontrassem acima da meta.

Não há a menor dúvida que se tratou de um movimento desastroso: a partir daí o BC perdeu de vez a batalha das expectativas, que jamais voltaram a se aproximar da meta de inflação. O tal impacto da crise internacional nunca se materializou e a inflação superou a meta em todos os anos desde então.

Sim, usei um truque retórico barato, mas a verdade é que não há como deixar de notar as semelhanças entre o que ocorreu à época e a decisão da semana passada, em particular o apelo a fenômenos internacionais para justificá-la aos olhos do público, retórica ainda mais mixuruca do que a minha.

Isto dito, além de o BC ter requentado a desculpa de 2011, a forma pela qual o processo se desenrolou foi vexaminosa. Seu presidente, no dia da reunião, ressaltou o rebaixamento das projeções do FMI para o crescimento brasileiro, aparentemente ignorando que o boletim Focus (publicado, a propósito, pelo BC) já mostrava a mesma piora das expectativas sobre o desempenho nacional.

Não bastasse isto, veio em seguida à reunião, por meio de porta-voz não oficial, com mais um pretexto por ter violado o silêncio às vésperas do encontro: seria para “assegurar que todas as opções estivessem na mesa no dia de abertura do Copom”, pois “se não tivesse feito uma sinalização prévia, a repercussão da decisão (...) teria sido ainda mais negativa”. A preocupação comovente com o mercado de renda fixa e seus pobres operadores chega a me enternecer...

Melhor seria, porém, ter se preocupado com outra reação de mercado, já devidamente documentada aqui na Folha: a elevação das expectativas de inflação que se seguiu à decisão do Copom, num eco desconfortável do erro de 2011.

Com efeito, comparando o rendimento dos títulos do Tesouro com e sem proteção contra a inflação, é possível estimar a chamada “inflação implícita”, medida imperfeita, mas rapidamente disponível, das expectativas inflacionárias, com a vantagem de representar apostas em que dinheiro está em jogo, quando preconceitos são deixados de lado frente à possibilidade de ganho e perda.

Assim, entre segunda-feira, antes da “sinalização” do BC e quinta-feira, o dia imediatamente posterior à reunião do Copom, estas medidas subiram em todos os horizontes, mas em particular para os próximos dois a três anos, revelando a piora da percepção quanto à inflação.


A inevitável conclusão é que o BC repetiu o erro de 2011; plagiar a desculpa esfarrapada de 2011 (em que só Delfim Netto acredita) é apenas reflexo da parca imaginação do BC.

Saindo da reunião do BIS

(Publicado 27/Jan/2016)

Reações:

20 comentários:

Alex, alguns economistas vem falando sobre uma volta da nova matriz. Tu concorda?

"alguns economistas vem falando sobre uma volta da nova matriz."

Só se for a volta dos que não foram.

Alex,

Só pode ser deboche.
A página brasil gov br está com mosquitos da dengue desde ontem.

Alex,

Quanto vc tem de ipca para 2016 e 2017?

Abs

Sr. Carequinha,
Eu reconheço que nos últimos anos você vem de maneira árdua (e repetida) alertando sobre os possíveis desdobramentos da dinâmica inflacionária brasileira. Logo, eu imagino que dado o momento atual desta, você sinta grande vontade de mostrar o seu “acerto”. Apesar de lembrar muitas vezes o famoso músico de uma nota só, já que não posso esquecer, que em pleno colapso de 2008, você também pedia desesperadamente por aumento de juros. Eu lembro bem que você argumentava que o cenário da crise mundial seria altamente inflacionário pelo viés cambial (e o cenário se mostrou completamente diferente).
Entretanto, apesar desse seu razoável deslize, não posso deixar de te elogiar quanto aos bons textos e bons argumentos. Uma pena que apenas militem nesta área específica. A cada 10 textos seus, 11 abordam a mesma temática (fiscal e/ou inflacionaria) já abordada no dia anterior (ou na maioria das vezes no mesmo dia) por todos os economistas medianos atuantes. Portanto, segue aqui um conselho de um simples leitor, siga exemplo da De Bolle e do Gustavo Franco. Aborde debates novos, como por exemplo, o debate sobre as compromissadas do BC, tema que o Franco vem tratando em seus últimos artigos. E mesmo que em muitas vezes eles tenham argumentos e ideias fracas (como a proposta recente da De Bolle para uma banda cambial) são bem mais válidos do que repetição da mesma nota. Não deixe a raiva (dos governos sapo barbudo/presidAnta) levar você a se tornar um músico mediano. Realmente pelos anos que te acompanho sei que poderia tocar outras notas bem mais interessantes de serem ouvidas.
Mesmo não esperando de você nenhuma nona sinfonia de Beethoven, aguardo.

Boa Sorte.

Att.

"Eu lembro bem que você argumentava que o cenário da crise mundial seria altamente inflacionário pelo viés cambial (e o cenário se mostrou completamente diferente)."

Errei em 2008 e acertei em 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 (e, esperem, 2016 também). 5 x 1 está bom, ou quer mais?

"Realmente pelos anos que te acompanho sei que poderia tocar outras notas bem mais interessantes de serem ouvidas."

Estão aí, mas precisa ter ouvido musical (precisar amar para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas).

Se tiver coragem de sair do anonimato (coisa que duvido e faço pouco) posso até pensar numa resposta mais elaborada, mas comentarista anônimo não merece mais que uma bofetada com pouco caso...

Prof. Alexandre.

Se a inflação não desacelera (o núcleo da inflação está entre 8 e 9% faz anos, como o senhor bem sabe) posso dizer que não há um choque negativo de demanda?

Então, toda essa crise é contabilizada pelo lado da oferta? Um crescimento moderado em 2013 de 2%, seguidos de crescimento nulo em 2014, queda de 4% em 2016 e queda de 3% em 2017. Isso dá (aprox) 14% de desvio de trajetória do PIB. Isso significaria 10% de queda na produtividade do trabalho? Falando claro com as devidas aproximações e tudo mais.

Tudo bem que existe uma redução na confiança, uma queda da taxa de acumulação de capital privado e capital público, mas isso é grande o suficiente para explicar uma queda gigantesca na produtividade do trabalho?

Assinado: Zé Ninguém

Pô, chutaram sua canela! Eu defendo o blogueiro Alex! A situação dele é a mesma de um analista econômico na Venezuela: ficar repetindo "eu te disse" e abordando por anos os mesmo temas.
Mas a escorregada de 2008 deixa um pouco a impressão que a sua opinião é que sempre estaremos com juros mais baixos que o necessário. Funcionou com o PT no poder, sem dúvida, desde 2012.


O placar esta 1X1. Seus acertos entre 2011 e 2015, 2016 acertará também, representam o mesmo acerto.
A pergunta do Sr. Zé Ninguém é muito boa. Tudo que você vem apontando justifica uma queda tão brusca assim do PIB. Já vi uma entrevista sua em que você fala que até mesmo você se surpreendeu.
Com relação ao seu desrespeito aos anônimos. Ontem eu fui comprar seu livro. Eu não precisei dar meu nome para compra-lo. Isto me desqualifica como seu leitor.


Mais um comentário como anônimo.
Não aborde novos temas enquanto estivermos sofrendo os mesmos problemas causados pelos mesmos erros.
Até hoje na Alemanha se trata da hiperinflação.

hahahhahahah, gostei desse Beethoven !!!
Também não estava aguentando mais esse samba de uma nota só do palhaço carequinha .....
Ainda que vc faça um placar germânico, vai continuar chato pra c ........ hahahha
Estamos todos curiosos pela sua resposta "mais elaborada" , ainda que sou obrigado a concordar com o amigo canino aí de cima, estará anos luz de uma nona .....
"Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só...."


"O placar esta 1X1. Seus acertos entre 2011 e 2015, 2016 acertará também, representam o mesmo acerto."

You wish... Meus clientes e fees como palestrante discordam...

"Ainda que vc faça um placar germânico, vai continuar chato pra c"

Interessante sua menção ao palhaço carequinha: chorou quando ele foi enterrado?

Alexandre, queria colocar alguns pontos para vc.

1. De fato, o Tombini usou o mesmo expediente de 2011 no momento atual (cenário internacional adverso) para interromper o ciclo de aperto monetário. Lembro que, naquela oportunidade, havia uma possibilidade não desprezível de um break up na Zona do Euro, especialmente por conta da Grécia. Argumentava-se, à época, que esse evento seria da mesma magnitude que a quebra do Lehman Brothers em 2008. Após críticas iniciais, depois o mercado deu o braço a torcer e passou mais ou menos 1 ano em lua de mel com Tombini, achando o cara o máximo etc.

2. Lembro tb que em 2008, alguns dias antes da queda do Lehman, quando a percepção de risco global já era enorme, que o nosso BC elevou a Selic em 75 bps, e mante ela assim até jan/2009. Isto é, enquanto os BCs ao redor do mundo afrouxavam sua política monetária, o BCB continuava em seu ciclo de aperto. Nos EUA, as taxas de juros zero adotadas a partir daquele período só foram revertidas no final de 2015. Pergunto: não foi um erro de avaliação do nosso BCB elevar os juros no momento em que o mundo já desabava?

3. Atualmente, a desaceleração chinesa (seguida de turbulência financeira) é um ponto de interrogação na dinâmica da economia global. A queda dos preços do petróleo tem gerado um impacto recessivo de curto prazo não antecipado. O Fed adiou a continuidade do processo de normalização de sua política monetária, o Banco Central Europeu sinalizou que adotará mais medidas de estímulos, e o BoJ implementou taxas de juros negativas. Será que não há nada de errado na economia global ?

4. Podemos acusar o Tombini de tudo, mas será que o cara é burro ? Obviamente ele avaliou os "danos" adicionais à sua credibilidade com essa nova mudança de rota da política monetária. E mesmos sabendo que receberia uma chuva de críticas, resolveu não continuar o ciclo de aperto.

Meu ponto é que talvez as críticas a ele sejam excessivas. Entendo que o mandato do BCB não tem sido cumprido, que as metas de inflação não tem sido entregues etc. Mas o governo resolve comprimir/descomprimir os preços administrados, e depois a culpa é do BCB? Enfim....não quero me alongar mais. Entendo as críticas ao Tombini, mas as vezes considero elas pesadas demais dada a conjuntura excepcional que vivemos de 2008 até hoje.

abs

Josimar

No início do primeiro mandato da Dona Dilma foi igualzinho...

Mas veja voce que interessante, Alex: nem mesmo o BC acredita no FUCKUS...

Alexandre, há como um país se tornar rico convivendo com um câmbio valorizado?

Laura

Eu desisti do Tombini no 1°tri de 12, achei o Cavalo de Pau uma liberalidade e não uma cagada. O Alex, acredito, desistiu dele a 1 de jogo e estava certo: o Cavalo de pau era o início da nova ordem econômica baseada em ignorância, torcida e enfiar a cara na areia quando a coisa dava errado.
Grande Kleber, bom saber q continuas na área.

"Mas veja voce que interessante, Alex: nem mesmo o BC acredita no FUCKUS..."

Ninguém deve acreditar nele, pelo menos não no sentido de ser um bom previsor da inflação (não é, mas tem sido melhor que o BC). Isto dito:

1) Modelos que incorporam a informação do Focus têm desempenho melhor do que os que não o fazem;
2) Isto sugere que a informação, ainda que ruim, parece capturar o que os responsáveis pela fixação de preços esperam

Josimar:

A conjuntura pode ser uma merda, mas que o Tombini é um b...ão, não há como negar

Abs