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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Para tudo se acabar na quarta-feira

À folia do Carnaval se segue a Quaresma, período de penitência que se inicia hoje, na Quarta-feira de Cinzas. À folia da Nova Matriz Macroeconômica se segue o que promete ser a pior recessão brasileira desde que passamos a compilar os dados de produção nacional, há quase 70 anos.

Após queda do PIB da ordem de 3,5-4,0% no ano passado, as projeções indicam nova contração de magnitude semelhante em 2016, sem perspectivas, porém, de uma recuperação rápida como em outros episódios. A presidente pode ter a duvidosa honra de ser o primeiro dirigente do país a entregá-lo ao sucessor menor do que era quando assumiu o governo.

É tentador estender a analogia, ainda que isto requeira trazer a análise mais próximo do campo moral do que economistas normalmente se sentem confortáveis. A crise é punição pelos nossos pecados e a penitência uma condição necessária para a retomada à frente?

Muito embora não tenha grande apreço pela noção de “pecado”, é difícil escapar da conclusão óbvia: muito (não tudo) do que enfrentamos hoje é consequência direta das escolhas equivocadas da política econômica que passou a vigorar no país a partir de 2009 e, com muito mais força, desde 2011.

Pelo lado macro, o descaso com a inflação, o aumento sem precedentes do gasto e as intervenções constantes no mercado de câmbio criaram enormes desequilíbrios: inflação elevada, apesar de controles de preços (preço do dólar incluso), dívida pública crescente e um déficit superior a U$ 100 bilhões nas contas externas. Ainda que keynesianos de quermesse insistam que tal política poderia (e deveria!) ser mantida, é mais que claro que a persistência nesta rota nos levaria a uma crise ainda maior do que a que passamos hoje.

Do lado micro o desastre não foi menor. A intervenção desregrada – das medidas de fechamento do país à competição internacional até a escolha de “campeões nacionais” baseada em critérios nebulosos, para dizer o mínimo – implicou redução severa do ritmo de crescimento da produtividade, a devastação de alguns setores importantes (como o sucroalcooleiro, petróleo e energia), e criou um forte estímulo à busca de favores governamentais, fenômeno extraordinariamente batizado de “sociedade de meia-entrada”, cujos impactos sobre o crescimento são notoriamente negativos.

Neste sentido, sim, colhemos o que foi plantado com esmero pelos keynesianos de quermesse, ainda que hoje em dia estes olhem para o lado como se nada tivessem a ver com a política que tanto apoiaram, inclusive durante a eleição de 2014. Se quiserem tirar conclusões morais, sintam-se à vontade.

Isto dito, não há porque imaginar que a penitência (a recessão) haverá de promover necessariamente a redenção.

Não se trata aqui de um problema de “destruição criativa”, ou das dificuldades naturais que enfrenta uma economia em processo de adaptação às mudanças internacionais, mas sim de um país cujo futuro foi hipotecado na forma de promessas impagáveis, das regras previdenciárias aos privilégios de grupos próximos ao poder.


Sem reformas que ataquem estes problemas, a Quaresma há de se estender bem mais do que hoje se imagina. Mais que penitência, precisamos de lideranças que estejam dispostas a mudar o país, senão vai tudo se acabar na quarta-feira.



(Publicado 10/Fev/2016) 

Reações:

24 comentários:

Cada artigo melhor que o outro.
Pena que o prazer da leitura se mistura à angústia do que está sendo relatado.
Pior foi a tortura de ouvir o Bresser Pereira e o Beluga no Roda Viva na segunda-feira
Incrível a cara de pau de alegar que estamos nessa situação pois não seguimos a "cartilha" desse pessoal

Parabéns. Realmente um primor de artigo.
Compartilho da angústia de ler o artigo face às trevas e sombrios tempos que ainda iremos purgar, sem que nos sejam devolvidos, ou seja será expurgo permanente. Um expurgo fomentado, criado e posto em prátrica pela quermesse keynesiana.
Brados
Martins

De fato foi um calvário assistir o Bresser e o Beluzzo no roda vida. Este último enrola... enrola.. guerras, generais, Consenso de Washington... estacionou no passado.

Um grande economista uma vez me disse na década de 80, que o problema do Brasil não era econômico e sim MORAL. Enquanto estivermos nas mãos desses políticos imorais, ignorantes e incomPTentes (Dilma, PTzada, Renan, Cunha, Picciani etc. e tal) teremos inflação, desemprego e desesperança, que trarão um aumento da criminalidade e instabilidade social. Que Deus nos ajude a recuperar dessa ressaca.

Alex, já dá para começar a falar de moratória em alguns anos?

A SP rebaixou a dívida interna. Estava tranquilo convivendo com o calote em curso (juros reais zero indo para negativo).

Que lideranças? Hitler foi até o final. Abundam exemplos de psicopatas que não renunciam .

Caro Alex,

Enquanto não resolvermos o fiscal, não saíremos do lugar (a não ser para pior).

Com as receitas em dificuldade, só nos resta cortar gastos. O problema é que 90% do orçamento é de obrigatórias.

Agora vem a minha pergunta: como resolver o primário de curto prazo? O que seria o principal a cortar/modificar?

Provavelmente, uma reforma da previdência, embora muito bem vinda, não terá impacto nos números orçamentarios de 2017 ou 2018 (estou certo?). Então o principal para o curto prazo seria modificar a correçao dos benefícios?

Obrigado e um abraço,
Pierre

Para quitar toda essa dívida, não seria mais fácil o banco central simplesmente imprimir dinheiro e entregar aos credores? Não seria muito mais fácil do que esperar milhares de superavits seguidos?

"Para quitar toda essa dívida, não seria mais fácil o banco central simplesmente imprimir dinheiro e entregar aos credores? Não seria muito mais fácil do que esperar milhares de superavits seguidos?"

Infinitamente mais fácil, claro. Só não fazem com mais frequência porque... Ah, não sei. Será que o motivo é serem vendidos aos rentistas?

Se o governo aumentasse a base monetaria para pagar a divida, isso implicaria numa queda da taxa de juros. Portanto, sua soluçao fiscal implicaria num aumento da inflaçao. Vale frisar que a inflacao nao aumenta por causa da maior base monetaria, mas sim por causa do menor juro (ou do juro abaixo de onde o BC gostaria). Certo, Alex?

Aproveitando a pergunta do colega acima. Posso dizer que o governo estaria fazendo senhoriagem? Isso acontece? Questino, pois, na graduação, aprendemos que senhoriagem leva a mais senhoriagem, e isso é péssimo. Certo ou errado, Alex?

Alexandre, o q vc achou do artigo do Carlos Vianna e do Eduardo Zilberman ontem no Valor? Abs, pedro

Alex, o tesouro mante conta no passivo do Bc, correto? Se ele usa esse recurso para pagar a divida, a base monetaria aumenta. O bc precisa enxugar essa liquidez via compromissada. A compromissada é divida tb, nao? Na pratica, vc so piora a qualidade da divida. A monetizacao so ocorreria se o BC permitisse. Imagino que a LRF impeça isso de ocorrer. O que pensa, Alex?

O senhor defende a diminuição dos gastos públicos e/ou o aumento dos juros para trazer a inflação para o centro da meta e sanar os desequilíbrios.

Dada a competitividade do Brasil no mercado externo, é mais provável que, em curto prazo, esta política aumente a recessão mais que os 4% da política atual.

Por isso a dúvida: sua a crítica ao governo é que uma recessão de 4% é pouco e deveria ser maior?

Para um leigo, fica difícil entender como se pode crescer aumentando os juros e diminuindo a demanda. Neste particular, o discurso dos keynesianos é mais fácil, o que não quer dizer que seja o melhor.

"O senhor defende a diminuição dos gastos públicos e/ou o aumento dos juros para trazer a inflação para o centro da meta e sanar os desequilíbrios."

Os juros estão nesse patamar como efeito da política fiscal desastrada (dentre outras coisas como crise de confiança etc.). Juros não são causa, não consequência.

Um governo com gastos descontrolados (e gastos ruins, de custeio, não de investimento) e com déficits primários perde a capacidade de investir. Isso sim é (uma das) causa(s). Enquanto permanecer essa política, os juros tem que continuar nesse patamar (e deveriam até ser elevados) sob pena de um descontrole inflacionário ainda maior (inflação essa que, como sabemos, atinge principalmente as camadas mais pobres da população, diminuindo poder de compra, gerando queda na economia, aumentando o desemprego, diminuindo a arrecadação... Sinceramente, ainda precisa explicar esse bê-á-bá??

Claro que o discurso dos keynesianos, dos socialistas, dos bolivarianos etc. é mais fácil de entender. Na vida, o discurso da cigarra é sempre mais gostoso de ouvir que o da formiga. Infelizmente enquanto o povo acreditar que tem almoço grátis não teremos como sair desse buraco (e dos inúmeros alçapões que temos encontrado a cada queda).

abs,
Bruno

Alex, responde vai... Ta ignorando bonito seus leitores... Vacilo

"Alexandre, o q vc achou do artigo do Carlos Vianna e do Eduardo Zilberman ontem no Valor? Abs, pedro"

Não li. Vou ler e comento.

"Para um leigo, fica difícil entender como se pode crescer aumentando os juros e diminuindo a demanda. Neste particular, o discurso dos keynesianos é mais fácil, o que não quer dizer que seja o melhor. "

Não é difícil; é impossível. Ocorre que, se não pusermos a casa em ordem do ponto de vista fiscal, não vai ter crescimento também. A escolha é entre uma recessão profunda e longa e recessão mais profunda e longa...

acho que o careca nao entendeu ou discorda do artigo dos caras...

"acho que o careca nao entendeu ou discorda do artigo dos caras..."

Eu ia comentar, mas agora desafio o autor do comentário acima a explicar o artigo e se concorda ou não com o ponto dos autores.

E aí, vai encarar ou continuar se escondendo?

Alexandre Schwartsman,boa tarde!! Não fui eu que pediu o comentário do artigo, mas confesso que fiquei curioso. Não preste atenção naquele idiota...

Economista, és um filósofo! _/\_
Parabéns pelo último dia SETE e, nossa... Que artigo! \o/
Zilhões!!!
lu.