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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

“Pessidilma”

Por que não conseguimos trazer a inflação de volta à meta? Simplesmente porque o governo federal não quer, fato aparente em suas repetidas mostras de satisfação com uma taxa que não ultrapasse o limite superior permitido, 6,5%.

Há pouco, por exemplo, a presidente afirmou que “a inflação tenderá para o centro da meta a partir de novembro ou dezembro”, mesmo reconhecendo que fechará o ano apenas pouco abaixo do nível crítico. Esta fala isoladamente não significa muito, mas afirmações como esta abundam, não apenas no discurso presidencial, mas também no que se refere a praticamente todas as autoridades econômicas. O próprio BC, supostamente o responsável pela manutenção da inflação próxima à meta, comemorou acintosamente até quando a inflação ficou exatamente em 6,5% (em 2011).

Como de hábito, a culpa é sempre dos outros: a seca, a chuva, a safra, os EUA, a China, o câmbio ou o “Pessimildo”; jamais resultado do manejo inadequado de política econômica, manifesto na visível piora das contas públicas, assim como de uma política monetária temerária, que reduziu a taxa de juros mesmo em face de inflação alta e crescente.

E, como sempre, a promessa é de queda da inflação no ano que vem, ou no próximo. A convergência lenta, às vezes “não-linear”, e nunca verdadeira, é geralmente justificada como uma tentativa de preservar o nível de atividade. Na prática, porém, independentemente de termos registrado inflação média superior a 6% ao ano nos últimos quatro anos, o país chega ao fim deste período com crescimento medíocre, inferior a 2% ao ano e muito próximo de zero em 2014.

E nem adianta argumentar que as coisas teriam sido ainda piores caso houvesse um esforço para conter a inflação. Como se sabe, a relação negativa entre crescimento e inflação só existe em prazos curtos; ao longo de quatro anos teria sido possível trazer a inflação de volta à meta a tempo de retomar o crescimento e compensar qualquer perda de produto, ainda mais porque, até 2011, o BC ainda dispunha da credibilidade herdada de gestões anteriores.

A verdade é que o descaso com o problema tem agravado a questão do crescimento. Nem tanto porque uma taxa de inflação na casa de 6% produza, por si só, um estrago muito maior do que uma taxa de 4,5%, mas sim por conta das tentativas desastradas de lidar com a alta de preços por meio de intervenções diretas na economia.

O congelamento do preço da gasolina, por exemplo, teve forte impacto negativo na capacidade de investimento da Petrobras. Adicionalmente, “amassou” o setor de açúcar e álcool, dando uma lição inesquecível àqueles que acreditaram nas palavras do governo acerca do futuro de biocombustíveis. Já a intervenção no setor elétrico deve ter liquidado qualquer fiapo de confiança acerca do respeito às regras do jogo.

Não é por outro motivo que o investimento, como já destacado neste espaço, apresenta quatro trimestres consecutivos de queda, recuando a níveis observados pela última vez em 2007.
Da mesma forma, para evitar que a inflação se cristalize acima do limite permitido, o BC tem feito pesadas intervenções no mercado de câmbio, afetando negativamente nossas exportações.

Em outras palavras, a falta de disposição para combater a inflação e a aceitação tácita que bastaria mantê-la levemente abaixo do limite superior para poder decretar vitória nos colocaram numa situação delicada. Para evitar chegar a patamares superiores ao permitido no fim deste ano, o governo recorreu a controles de preços e câmbio, com consequências adversas para nosso crescimento.

A culpa, portanto, não é do “Pessimildo”, mas da “Pessidilma”, a gestora iluminada que, por sua conta e risco, abandonou o bem-sucedido regime macroeconômico que nos assegurava a estabilidade, obtendo em troca inflação alta e crescimento risível, uma combinação verdadeiramente inigualável. Vai para o trono ou não vai?



(Publicado 24/Set/2014)

Reações:

20 comentários:

Alex, existem estimativas de quanto as pedaladas, antecipação de lucros da petrobras e todos os tipos de contabilidade criativa do governo estão melhorando as contas públicas no curto prazo ? Digo em 2012, 2013.

Sr. Schwartsman, o que acha desse artigo?

http://www.jstor.org/stable/2553047?seq=1

Fiquei interessadíssimo. Que introdução sensacional...

Talvez seria melhor na época que a turma do FMI a cada três meses vinha a Brasília e determinava o rumo a ser tomado....

"Talvez seria melhor na época que a turma do FMI a cada três meses vinha a Brasília e determinava o rumo a ser tomado...."

O povo unido
Jamais será vencido!

Fora daqui FMI!

O petróleo é nosso!

Privatização não!

Tá bom de clichê ou precisa um pouco mais?

Vou ser muito sincero. A-d-o-r-o inflação!! Nos 2-3% a.m. é o ideal!! Aplica-se o dinheiro, e retira-se o rendimento para despesas de custeio diversas, deixando o saldo restante para render em regime de juros compostos; Inflação baixa, essa sim, pune o poupador.

A merd@ é ver que todos os candidatos querem as pessoas escravas ao Estado. Só tem socialista candidato. Socialismo é roubo, mesmo estando na constituição (de 88, a versão aperfeiçoada de Getulio Vargas).

E, mandem avisar lá aos 'experts' da equipe do PSDB. Precisam entender que o ílicito legalizado é ilícito do mesmo jeito.

Acho que por contrato vc não pode comentar, fica pra próxima semana, mas...irmão perverso do Luca Pacioli foi uma de suas maiores tiradas desde que te acompanho!

saudades do FMI

liberdade pra fazer besteira não é liberdade.

Alex de maneira "irônica " faltou a Dilma citar você por ter colocado o juro na casa estratosferica lá em 2005.

Muito boa a entrevista do Otaviano Canuto no Globo de hoje.

O Sr estaria cotado para ser presidente do BC em um eventual governo de Aecio Neves ?

"O Sr estaria cotado para ser presidente do BC em um eventual governo de Aecio Neves ?"

Não!

"Não!"

Mas se chamar com carinho vai correndo, né parceiro?

Texto lúcido e didático! Não teria como concordar mais.

"Mas se chamar com carinho vai correndo, né parceiro?"

Só se for com muuuito carinho...

Mercadante foi escalado para bater de frente com o Arminio Fraga...pqp!!! É covardia.

Mercadante com Armínioo Fraga é como colocar hj o Maguila contra o Cigano no UFC... Ultrapassado, sem preparo, com recursos de dar dó...

Legal mesmo será hoje na Globonews o embate entre Armínio Fraga e Guido Mantega, vulgo, coelho da Mônica. A Mônica vocês deduzam quem possa ser...

O Arminio foi muito sossegado contra o Mantega. Esperava mais porrada. Mas a diferença de postura dos dois era gritante... O Mantega repetindo a cantilena do Pt e o Armínio sossegado, sem nada a explicar...