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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A autonomia do BC e o homem do saco

Mesmo com muita gente boa já escrevendo sobre a autonomia do BC, não posso ficar sem me manifestar. Principalmente porque, mesmo para os padrões nada elevados como os que caracterizam as campanhas eleitorais em geral, a postura da propaganda situacionista tem sido de uma infantilidade atroz. Só falta afirmar que a autonomia implicará a legalização do “homem do saco”: o BC mesmo cuidaria de raptar as crianças para servi-las a banqueiros em banquetes macabros.

A presidente participa ativamente da criancice ao afirmar que “o BC não é o Quarto Poder”, reiterando que tal medida tiraria comida do prato dos brasileiros (e possivelmente traria também o bicho-papão) apenas quatro anos após ter criticado seu então oponente por afirmação semelhante, mas até aí eu jamais a acusei de coerência.

Cabe, em primeiro lugar, eliminar fontes comuns de mal-entendidos, que só servem a quem teme um debate adulto sobre o tema. Autonomia do BC não implica que este se converta num Quarto Poder, ou mesmo na Santa Sé.

A começar porque todas as propostas colocadas em discussão definem, a zero de jogo, que o objetivo do BC, por exemplo, a meta para a inflação, continuaria a ser prerrogativa do Executivo, como hoje o é, através do Conselho Monetário Nacional, cujos membros são todos escolhidos pelo presidente da República, justamente aquele que não se elege sem o apoio da maioria absoluta dos votantes.

Obviamente a presidente pode determinar ao BC que busque uma meta mais elevada de inflação, mas terá também que explicar à população o motivo pelo qual fez esta escolha. Aliás, deveria ter a coragem de explicar hoje sua opção por permitir que o BC persiga – como se depreende de suas próprias afirmações – uma meta de 6,5%, mas me desvio...

É também bom deixar claro que não seriam os banqueiros, os maçons, ou os illuminati os responsáveis pela indicação dos dirigentes do BC, mas sim o presidente, passando, aliás, pelo crivo do Senado Federal, como ocorre hoje em dia.

Por fim, isto também não significa falta de transparência ou responsabilidade, pois, da mesma forma que acontece atualmente, o BC teria que prestar contas periódicas (por exemplo, duas vezes por ano) ao Congresso Nacional, seja ao Senado, seja à Câmara.

A diferença no caso seria que, ao contrário da situação atual, o indicado ao BC teria um mandato fixo, não coincidente com o do presidente. Ao longo deste mandato o dirigente só poderia ser demitido em situações previstas em lei e não pela simples vontade do governante de plantão.

Este arranjo básico, com algumas variantes, é o que vigora em países de escassa tradição democrática, como os EUA, o Reino Unido (enquanto ainda é Unido), Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão e outros tantos pobres e instáveis. Já bancos centrais subordinados ao Executivo são privilégio de países do naipe da Rússia, China, Argentina, Venezuela, Zimbabwe e outros titãs da democracia mundial.

Isto não ocorreu por acaso, mas sim porque naqueles países se percebeu que um BC livre das pressões políticas de curto prazo costuma obter resultados melhores em termos de inflação mais baixa, sem prejudicar em prazo mais longo o ritmo de crescimento ou a taxa de desemprego.

Já BCs subordinados aos objetivos políticos do governo tipicamente geram inflação mais elevada que, por vezes, podem inclusive reduzir a taxa de crescimento, normalmente devido às distorções geradas por formas desastradas de tentar evitar a manifestação do fenômeno inflacionário, como controles de preços. Há aqui um paralelo evidente ou seria apenas minha paranoia fora de controle?


De qualquer forma, o tema merece um debate informado e adulto, longe de estereótipos e slogans, praticamente o oposto do que se observa na campanha, em particular no que se refere ao campo situacionista. Se não melhorarem seu comportamento serei obrigado a chamar o homem do saco...

Banqueiro central independente pego em flagrante


(Publicado 17/Set/2014)

Reações:

14 comentários:

Sr Alexandre Scheinkeman
O sr é maçom, iluminati ou os dois?
Acho "exótico" a sua mania de passar óleo mineral na careca antes de ser entrevistado.

Iluminatum, claro, com um careca brilhante como esta, como ser outra coisa?

Bom dia Alexandre!
Nos 8 anos de governo FHC e nos 4 primeiros do Lulla, o BC nao tinha esta autonomia que estao pedindo. Como se comportou neste periodo.

Segue outro texto de discussão de outra linha de pensamento para manifestações http://brasildebate.com.br/banco-central-independente-ou-autonomo/

Um outro argumento a favor é que bancos centrais independentes perseguem suas metas com custo menor, já que as expectativas do mercado desempenham função importante no desempenho da economia.

Por favor, acrescente aí: são 18 + 1 leigo interessado. Estes textos são absolutamente ótimos.

Alex, reparou que o Delfim parou de escrever sobre economia?

Ele está fugindo do que ele mesmo armou.

Alex, conheci seu blog há pouco tempo, infelizmente. Você é comédia demais, gostaria de ter conhecido bem antes.

Seus artigos são ótimos. Continue com o ótimo trabalho!

Excelente texto.
Só pode ser mau-caratismo dilmista alarmar para a população brasileira que um BC autônomo vai tirar comida do povo, terrorismo eleitoral.

"Iluminatum"!
Ah, muleke, ainda entende de latim. :-)

Na verdade o Brasil precisa ajustar a meta de inflacao para um patamar de 20 %,pois a meta atual nao e capaz de acomodar choques e gerar crescimento.

Sem dúvida que essa direção do Bacen foi muito menos independente do que as dos outros dois governos (Lula e FHC).
O Alex pega direto nos pontos principais. Quando não há argumento técnico, usa-se chavões para levar a discussão para o "povão". Cada vez mais, este governo está mais parecido com os nossos Hermanos do sul.

Aposto que este deficit vai dar o que falar na coluna de amanha...

:)