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terça-feira, 3 de junho de 2014

Pibículo

Ouvi (na verdade li) esta expressão de uma amiga e na hora me encantei. Não usamos tanto esta forma de diminutivo (preferimos o “inho”, para diversão dos vizinhos latino-americanos; às vezes o “ito”, ou ainda o “ico”), mas, assim como “corpúsculo”, “pedúnculo” e “homúnculo”, “pibículo” captura perfeitamente a dimensão diminuta, não só do ocorrido no primeiro trimestre, mas principalmente do que nos espera à frente.

De fato, a expansão de apenas 0,2% na comparação com o final de 2013 (já corrigida a sazonalidade) é reveladora da nossa fraqueza. Mesmo com a revisão para cima do aumento do PIB no ano passado (de 2,3% para 2,5%), pela incorporação de medidas mais atualizadas da produção industrial, o que se observa é a virtual estagnação do país nos últimos 9 meses, quando o crescimento médio ficou em 0,1% ao trimestre.

Em que pese a perda de fôlego do consumo das famílias no começo deste ano, o “pibículo” no período mais recente não pode ser atribuído apenas a este fenômeno, mas, principalmente, ao desempenho lastimável do investimento. Segundo os dados agora revisados, registramos a terceira queda consecutiva da formação de capital, que acumula redução de mais de 5% desde o segundo trimestre de 2013.

Trata-se de um problema crucial. Em parte porque, no curto prazo, o investimento é um dos elementos cruciais para a determinação do ritmo de expansão da demanda interna; as consequências mais sérias, porém, dizem respeito à nossa capacidade de crescimento de longo prazo.

Medido como proporção do PIB, o investimento, que já não era particularmente brilhante, vem caindo de forma consistente: havia atingido o pico de 19,5% do PIB ao final de 2010 e agora marca 18,1% do PIB nos últimos 4 trimestres. Esta redução implica menor capacidade de crescimento à frente, um impacto negativo da ordem de 0,5% ao ano.

Em contraste, o consumo do governo ultrapassou 22% do PIB no período, o nível mais elevado da série histórica iniciada em 1995, consolidando o Brasil como um dos poucos países em que esta grandeza supera o próprio investimento. Não por acaso, a poupança doméstica atingiu novos recordes de queda, levando a um novo milagre às avessas: apesar do baixo investimento, o déficit externo aumentou, alcançando seu maior valor desde 2001.

Por outro lado, a divulgação do PIB permite novas estimativas da expansão da produtividade do trabalho. Ignorando as flutuações cíclicas desta medida, chegamos a um número inferior a 1% ao ano (0,8% aa, caso queiram saber), também o mais baixo dos últimos 11 anos.

Isto dito, se o passado não nos traz motivo de orgulho, tampouco o faz o futuro imediato. À luz do resultado do primeiro trimestre, assim como indicações de fraqueza nos dados já disponíveis para o segundo trimestre, fica claro que mesmo uma expansão do PIB na casa de 1,5% para este ano, como, por exemplo, sugerido pela pesquisa Focus do BC, parece improvável, pois requereria uma aceleração notável na segunda metade do ano.

Tudo indica que nos encaminhamos para um número mais perto de 1% do que 1,5% em 2014. Se confirmado, o crescimento médio do PIB no governo Dilma ficaria em 1,8% ao ano, o pior desempenho desde a estabilização da economia.

Eis o resultado da “nova matriz econômica”, anunciada com fanfarra há alguns anos, e hoje pouco defendida, seja pelo governo, seja pelos nossos “keynesianos de quermesse”: crescimento medíocre, inflação em alta, desequilíbrio externo, queda do investimento e desarrumação geral da economia.


Pensando bem, meu encantamento pelo “pibículo” vai além do diminutivo pouco usual, ainda que preciso; rima com “ridículo”, esta sim uma expressão que define bem o desempenho do país nos últimos anos, assim como o modelo de política econômica adotada no período, além, é claro, de descrever exatamente o que penso dos formuladores e defensores desta política.

Viva a nova matriz macroeconômica

(Publicado 4/Jun/2014)

Reações:

11 comentários:

Alex, o trade off do consumo corrente do governo de 22% do PIB contra 18,1% do investimento no setor privado pode ser a causa da menor capacidade do crescimento do Brasil, além da expectativa do PIB de 1,8% neste ano.

Mestre Alex, o sabedor de tudo,

O que você esperaria como resultado do último trimestre e dos próximos, dado que a política monetária vem apertando há algum tempo?

Pelo que você prega, o BCB deveria aumentar ainda mais o juro para trazer a inflação para meta, o que derrubaria ainda mais o resultado do PIB. Não seja contraditório.

Além disso, o que você sugere? Retorno ao tripé? Pode nos explicar, então, quais são os mecanismos causais que levam a adoção do tripé strictu senso ao melhor desempenho generalizado da economia (inflação, PIB, unha encravada etc)? Desconfio que você foi beliscado pela confidence ferry...

Abraços

Jorge

"Pelo que você prega, o BCB deveria aumentar ainda mais o juro para trazer a inflação para meta, o que derrubaria ainda mais o resultado do PIB. Não seja contraditório."

Parceiro, vc é muito fraquinho. Observe (faça força) que o Alex cita a queda do investimento como um problema que impacta demanda (curto prazo) e oferta no médio e longo prazos. Ora, em ambiente de diarréia monetária (inflação elevada e expectativas idem) a decisão de efetuar investimentos é postegada, sem falar do efeito deslocamento que o gasto do governo exerce sobre o investimento privado, portanto não há qualquer inconsistência na argumentação. Além disso, vc já deveria ter percebido que aquele papo de que um pouquinho mais de inflação nos garantiria maior crescimento é uma tremenda embromação.

Estude um pouco, não vai doer, acredite.

Sds.
M.

"confidence ferry..."

Eu não sei o que uma balsa de confiança poderia fazer, mas certamente não me picou.

"O que você esperaria como resultado do último trimestre e dos próximos, dado que a política monetária vem apertando há algum tempo?"

Espero isto mesmo de um BC que tentou comprar crescimento com inflação mais alta: inflação alta e crescimento baixo. E, em breve, desemprego mais alto também...

Ou seja, poderiam ter feito que deviam fazer: controlar a inflação. Não iria melhorar muito o crescimento, mas a inflação seria menor...

Alex

Lancei na busca de imagens do google a legenda da imagem: Viva a nova matriz macroeconômica. Ambas são ótimas e me fizeram rir e lembrar das outras divertidas que "O" postava. E onde andará o bom "O"?

Incrível. A imagem surgiu de prima e ao lado de uma da Dilma com cara de amuada. :)

Como faz para encontrar essas imagens? Coleciona, é isso?

1: no mercado as pessoas estao brincando com o termo "confidence ferry" ao inves de "confidence fairy". Foi de proposito, nao um erro.

2- quando vc fala de que nao ha troca permanente entre inflacao e desemprego, acho que vc deve estar com o trabalho de friedman na cabeca.

3- Por acaso ja viu as evidencias de moeda nao ser neutra, por exemplo, do Sims. Tente nao impor neutralidade no modelo. Deixe os dados falar.

4- Vc tera uma surpresa. Isso que vc repete o tempo todo nao é uma verdade.

5- Seja sincero. A inflacao sim estaria melhor. Mas o crescimento estaria pior. Isso, pior.

Um abs. Vou pegar a balsa da confiança...

Eu deixo os dados falarEM, claro. E eles sabem que a moeda nao é neutra...no curto prazo, mas sim no longo, ie, a Curva de Phillips é vertical no longo prazo, exatamente meu ponto. Agora, se voce nao entendeu isto, melhor nem tentar brincar de economista.

Que imbecil... Saiu da academia há séculos e ainda repete "verdades" do tempo da carochinha...

A Curva de Philips não é vertical no longo prazo, a não ser que você imponha isto ao modelo... Tá difícil entender isto ou quer continuar com a cabeça do Manual que vc ensina?

"A Curva de Philips não é vertical no longo prazo, a não ser que você imponha isto ao modelo... Tá difícil entender isto ou quer continuar com a cabeça do Manual que vc ensina?"

Tem razão, tem razão: é só ver como países com inflação mais alta crescem mais. Zimbabwe é um paradigma de crescimento, assim como Argentina e Venezuela...

Anda muito frio aí na Dimensão Z (de zurro, sempre)?

Que Anônimo imbecil.

Alex você nem deveria dar atenção a um asno desses.

Abs

Alexandre, o que vem antes ? O investimento ou o consumo ? Bem...se há consumo, há disposição para investir, logo, incentivar o consumo não é propriamente uma burrice ou inutilidade. O problema, é que o governo, desde Lula, tem no máximo antecipado o consumo, e agora esgotou este "modelo". Se houvesse margem, os incentivos ao consumo ajudariam a alavancar o PIB, mas ainda assim, está longe de ser a politica adequada. Penso que o ideal, seria suportarmos a queda do consumo de veículos e eletrodomésticos, e se aplicar uma redução gradual e linear da carga tributária, bem como outras simplificações tributárias. Reduzir drasticamente o número de Ministérios e cargo de confiança e os salários dos parlamentares, é o "sonho de uma noite de verão"..como ajudaria...Aí teremos um ambiente mais propicio para o investimento. Mas, para o consumo, consumo mesmo !, melhor do que se apoiar unicamente no comércio exterior, quando os países ricos voltarem a crescer, melhor do que esperar nova rodada de farra do crédito, quando as famílias quitarem suas dívidas, apenas o AUMENTO POPULACIONAL, com aumento do CONSUMO REAL. Precisamos URGENTE, om aumento do números de filhos por casal, para uma taxa acima de 2. É uma politica econômica imbatível, com efeitos positivos em escala gigantesca. Seus obstáculos são: Lorotas ecológicas e principalmente o egoísmo.

Abraço

Eduardo
Santo André-SP