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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Desviei, mas não fui eu...

Que a “contabilidade criativa” é a principal contribuição da atual equipe econômica para o progresso do país não resta a menor dúvida, mas seria injusto desconsiderar demais exemplos de criatividade no setor, em particular o esforço hercúleo do Banco Central em explicar porque – a despeito de todas suas promessas – não conseguiu entregar a inflação na meta nos últimos 4 anos; e não deverá fazê-lo nem este ano, nem em 2015.

Tempos atrás, o problema viria dos preços dos alimentos (era o “feijãozinho”, depois substituído pelo tomate). Confrontada, porém, com medidas de inflação que mostravam aceleração mesmo desconsiderando preços de alimentos, assim como aumento persistente dos preços dos serviços, a desculpa mudou. O problema passou a ser a “resistência da inflação” resultante de “mecanismos regulares e quase automáticos de reajuste (...) que contribuem para prolongar (...) pressões inflacionárias”.

Na última ata do Copom, porém, a criatividade do BC atingiu novos patamares. Segundo o documento há “dois importantes processos de ajustes de preços relativos ora em curso na economia – realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e realinhamento dos preços administrados em relação aos livres”.

Trocando em miúdos, trata-se do impacto da desvalorização do real (durante bom tempo, diga-se, perseguida com afinco pelo próprio BC) por um lado e, por outro, a necessidade de corrigir preços que ficaram defasados por conta das medidas recentes de controles, notadamente (mas não apenas) energia e combustíveis.

De fato, em entrevista a um órgão oficial de imprensa, uma “fonte (também) oficial” (cuja linguagem próxima da ata não deixava dúvida quanto a ser um diretor do BC) afirmou candidamente que “as projeções para 2015 estão bastante sensibilizadas pela questão dos preços administrados” e que “se a inflação de preços administrados neste ano fosse de 1,5%, perto do ano passado, em vez dos 5% esperados, a inflação ficaria 1 ponto percentual menor”.

A declaração é merecedora do Prêmio Nobel da Obviedade, mas, além disto, reflete a nova desculpa: a inflação não cai por conta dos preços administrados, os mesmos que – sujeitos ao controle governamental – têm sido a principal estratégia (equivocada, claro) de combate à alta do índice de preços.

É curioso, mas a “fonte oficial” não parece ter percebido que seu mesmo argumento poderia ter sido exposto como “se a inflação de preços administrados tivesse sido de 5% em 2013 (para evitar as distorções causadas pelo controle destas tarifas), a inflação do ano passado teria sido 1 ponto percentual maior (isto é, 6,94%) e perderíamos inclusive o teto da meta”.

Na prática a afirmação equivale a reconhecer que a política monetária tem sido inadequada para conter as pressões inflacionárias disseminadas observadas ao menos desde 2012, dependendo de “puxadinhos” como controle de preços. Significa também que o BC, supostamente o responsável pela estabilidade do poder de compra da moeda, abandonou esta função há tempos.

Francamente não saberia dizer se tal postura reflete convicções da diretoria do BC, ou apenas subserviência ao governo de plantão (ou ainda uma mistura das duas), mas a esta altura do campeonato a distinção é acadêmica. O (triste) fato é que não há ninguém cuidando da inflação, que cresce, saudável e indômita, como há tempos não se via. E, diga-se também, esta postura frouxa não impediu o crescimento anêmico, que não deverá chegar à média de 2% ao ano neste governo.


Em tal contexto é difícil evitar pensar que, caso o BC tivesse dedicado à questão uma fração da criatividade empregada na criação de desculpas, nosso desempenho poderia ter sido bem melhor do que a lastimável atuação dos últimos anos. Por outro lado, como ávido leitor de ficção e fantasia, anseio pela nova geração de desculpas a serem apresentadas mais à frente.

Desviei, mas não fui eu...

(Publicado 18/Jun/2014)

Reações:

8 comentários:

Alex caso a oposição ganhe,na sua opinião a situação para equipe economia é melhor que a que você pegou em 2003?

Excelente, tanto pelas explicações do economista quanto pelo humor que transparece no texto.
Tomei a liberdade de reproduzir no www.prosaepolitica.wordpress.com, edição de próxima sexta-feira.

Se eu violar alguma regra, avise e perdoe. Avisando, retiro.
(Anhangüera)

Alexandre,

Com todo respeito, a populacao discorda (com razao) de suas criticas.

O pais esta com pleno emprego e vai renovar os votos na atual equipe economica.

Voce afirma ha algum tempo que o desemprego vai aumentar e nao aumenta, so diminui.

A populacao se preocupa com emprego e salario real, que eh crescente.

Obvio que crescimento importa, mas sao fontes secundarias de felicidade (tal como mostram as pesquisas nessa area).

O pais, repito, esta em pleno emprego, com salarios reais crescentes e distribuicao de renda melhorando.

Acho legar ler suas criticas, mas voce nao passa de uma leitura legal. Nao convence ninguem.

Abraco

Marcos

Então não se preocupe...

Sempre tem um otario que e o ultimo a seber e se acha portador da voz do povo.....marquinhos abre o olho....alias nao lhe dei procuração para falar em meu nome capisce

Marcos: Espera chegar novembro.. tictac.

Marcos, não se esqueça de gritar ao fim do seu texto: BRAZIL CAMPEÃO, PEÃO, PEÃO...KKKK
Quem faz barulho, seus problemas espanta, kkkk
Quanto a taça da copa, não esguele muito. Já está comprada, kkk

Grande Marcos,

Infelizmente você deixa transparecer o desconhecimento do tema. Caso existissem blogs nos idos de 1969/70 imagino que você também analisaria com bons olhos a excelente política do Delfim (afinal, foi "o" milagre, não é?). Não adianta discutir, o tempo bate na cabeça de pessoas como você. Esse tipo de política consegue se manter por tempos curtos e, ainda pior, devasta a possibilidade de prosperidade dos anos que se seguem. Infelizmente pessoas como você não possuem memória (ou ao menos conhecimento para ler o que se passou) e continuam a estragar esse país tão maltratado.